O Beco da Quarentena

O Beco da Quarentena

Ninguém atravessa de uma ponta à outra

Em um final de tarde no Bar das Bandeiras surgiu uma conversa sobre o Beco da Quarentena. Há muito tempo eu não ouvia falar naquele lugar. Creio que nunca nem mesmo tivesse prestado a mínima atenção a ele, ainda que tenha passado centenas de vezes na sua frente. Naquele dia levantou-se a velha lenda: “ninguém atravessa o beco de uma ponta à outra”. Antes de procurar saber porquê, é preciso explicar que o Beco da Quarentena não é um beco. Este é mais um dos mistérios nominais da Ribeira. Na verdade, o local se chama Travessa da Quarentena e é uma ruela de passagem entre as ruas Chile e Frei Miguelinho. O povo chamou de beco e assim ficou.

Em seu livro Breviário da Cidade do Natal (depois editado como Guia da Cidade do Natal), Manoel Onofre Júnior termina o trecho intitulado A Zona da seguinte maneira:

O velho beco, com seu “claro mistério”, continua maldito. As pessoas decentes o evitam, até mesmo durante o dia, como se o vissem ainda empestado. Que peste era essa e por que não se atravessa o Beco de um lado a outro?

Conta-se que ali, a poucos metros do porto, ficavam de quarentena os marinheiros que chegavam com doenças contagiosas e as pessoas da cidade já contaminadas. Ao que parece, a referência é feita principalmente em relação a dois grandes surtos de varíola. Depois o local virou ponto de prostituição. Muita gente morreu ali e o Beco ficou como maldito.

Pois bem. Na conversa com Marcelo Andrade, fotógrafo e jornalista, foi levantado também que clarividentes viam coisas horríveis no Beco. Aquilo não me saiu mais da cabeça e, alguns dias depois, numa tarde, chamei Marcelo para atravessarmos o Beco e colocar à prova a tal lenda. Começamos pelo lado da Rua Chile. Senti um aperto no peito da hora em que pisei o Beco até algum tempo depois de sairmos dele. Marcelo ia reparando nas paredes e no calçamento antigo e eu fotografando tudo. Chegamos do outro lado, na rua Frei Miguelinho, com a sensação de que o Beco era meio estranho, mas com a certeza de que era possível atravessá-lo. Então retornamos por ele.

Mas aquilo não havia sido suficiente para mim. Não sou clarividente nem nada, aliás, para essas coisas de outros planos, sou cego e surdo como uma porta. Aquele aperto no peito eu preferi pensar que fosse algo causado pela minha imaginação. Mas o Beco seria só isso? Não. Tinha que haver mais alguma coisa.

Um ou dois dias depois, estava com Clodoaldo Damasceno – jornalista, publicitário e acima de tudo um grande farrista – no Blackout. Muitas histórias, piadas e muitas, muitas cervejas depois, lá pelas duas e meia da manhã, resolvi fazer a proposta: “E aí? Vamos atravessar o Beco da Quarentena?”. Como diz o povo, Clodoaldo “não contou conversa”, saímos do bar e nos dirigimos ao Beco. Antes pegamos mais uma garrafa de cerveja e levamos conosco, afinal o local precisava ser abençoado.

Aos gritos de “viva as almas que morreram e as putas que aqui gozaram”, atravessamos o Beco bebendo a cerveja e derramando uma parte dela nas antigas pedras do calçamento. Chegamos ao outro lado com aquela sensação de aventura cumprida, aquele sentimento que só os bêbados, boêmios e aventureiros têm ao constatar que estão vivos após terem cometido alguma tipo de loucura. Demos uma olhada na rua. Completamente vazia. Parece que os vivos assustam mais que os mortos. Então calmamente nos viramos para o Beco. Só então percebemos que a única coisa visível era a luz no outro lado, lá na rua Chile. O resto era um breu só. Qualquer pessoa poderia se esconder facilmente ali sem que ninguém percebesse. “Que loucura!”, pensamos. De repente bateu aquela sobriedade de sobrevivente e fizemos outra vez a travessia. Sentamos à beira do rio, no cais do Náutico, e ficamos curtindo aquela história. Na noite seguinte, alguém seria esfaqueado no Beco.

Eu queria mais. Alguma coisa naquele lugar estava mexendo comigo. Lembrei da história dos clarividentes “que viam coisas terríveis no Beco”. Liguei para uma amiga minha que conhecera havia pouco tempo. Astróloga e taróloga, ela tinha colocado as cartas para mim, sem grandes preparações, e havia acertado em cheio meu momento e meus planos mais imediatos. Naquela época, ela não sabia de mim mais do que meu nome. Achei que ela pudesse ser um canal. Ao telefone, perguntei a Cristina se teria algum compromisso na tarde do dia seguinte. Diante da negativa, disse que gostaria de lhe mostrar um lugar. Só. Não disse mais nada. Ela não fez qualquer objeção e disse que tudo bem, iria comigo.

No dia seguinte, ela passou pela minha casa e nos dirigimos para a Ribeira. Como eu não quisesse responder aonde iríamos, ela disparou: “Não sei que lugar é esse, só sei que morreu um monte de gente lá”. Realmente Cristina era mais sensível – ou sensitiva – do que eu poderia imaginar.

Chegamos ao Beco. Cristina é paulista, mora há pouco tempo em Natal e nem mesmo havia estado na Ribeira até então. Sem responder que lugar era aquele ou o que havia acontecido lá, iniciei a travessia junto com ela. “Apenas sinta”, eu falei, “depois você é quem vai me dizer alguma coisa”. Atravessamos. Cristina insistia que naquele lugar havia morrido muita gente. Então contei a história do Beco e ela “agradeceu” por tê-la feito atravessar o local sem contar nada antes. Perguntei se sentia mais alguma coisa. Ela respondeu que via uma linha dividindo o Beco. Uma linha?! Achei que ela fosse me falar que tinha ouvido vozes, visto fantasmas, qualquer coisa desse tipo, mas não que tinha uma linha dividindo o Beco.

De volta à minha casa, mostrei-lhe as fotos que havia feito alguns dias antes, na primeira travessia com Marcelo. Depois mostrei uma reprodução de uma foto antiga quando o Beco ainda era limpo e habitado. Cristina se aproximou do computador e disse: “olha aqui a linha que eu falei”. Lá estava, bem clara, a tal linha. A impressão que se tem ao ver a foto é que haviam dois calçamentos que dividiam a ruela bem ao meio. Hoje é impossível perceber isso.

Dias depois, Cristina me ligou e disse que talvez fosse bom colocar uma placa identificando o Beco da Quarentena e lembrando as pessoas que ali morreram, talvez isso fizesse bem às suas almas.

Eu atravessaria o Beco mais vezes depois disso. Sempre saudando aqueles que por ali passaram. Numa noite de lua cheia, que faria o Beco da Quarentena parecer um portal para outro mundo, teria como companhia o escritor cearense Ricardo Kelmer e também Clodoaldo. Desta vez fotografamos tudo para marcar a aventura e ninguém dizer que era mentira. Numa outra, eu e Clodoaldo atravessamos nus, enquanto a namorada dele segurava nossas roupas. Depois foi a vez dela fazer o mesmo. Sozinha.

Por esses dias vamos limpar o Beco e botar a tal placa sugerida por Cristina. Nela deverá constar os versos de Sanderson Negreiros em sua Canção Desesperada do Beco da Quarentena:

Aqui, arcos de sólido abandono.
Restos da hora.
Inúteis delíquios à luz dos círios de outrora.

Quem sabe assim se realizem seus proféticos versos finais:

Então, o beco não mais termina em aspereza,
Amanhece puro, como de surpresa.

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6 respostas a O Beco da Quarentena

  1. wilson disse:

    É, Sandro: “Que las hay, las hay…”
    Beco é todo o caminho mais estreito que as ruas. E há os becos sem saída.
    Na foto antiga, nota-se que a pavimentação tem uma leve inclinação dos lados para o centro, recurso usado para o escoamento das águas. A “linha” é um pequeno rego para esse escoamento.

    Pelas fotos percebe-se que o lugar ainda está carregado de drama. E o abandono faz com que ele fique mais sombrio. Becos também são os ícones de nossos medos e incertezas. Daí o fato de retrocedermos em um beco, mesmo que tenha saída.

    Como todas as Cidades, Natal também tem seus mistérios e seus fantasmas. E ninguém está imune às sensações que certos lugares provocam.
    Os fantasmas se vão, mas as energias ficam. (Lembra o “pití” que eu tive numa das celas do DOPS? Pois é.)

    O “post” está de arrepiar a nuca. Você já está pronto para “caçar fantasmas”. Que tal pesquisar os mistérios e fantasmas de Natal, Campina, João Pessoa? Os de Brasília, não! Todos estão cansado de saber que eles são…;)
    Se bem que os fantasmas de Brasília são os mais anômalos. São de Brasília, mas nunca a assombram… 😛
    Aqui em S.Paulo havia o Beco, depois travessa da Esperança, local de meretrício, vício e jogo. Ficava no trecho que correspode às escadarias da Catedral e, até hoje, as pessoas que transitam pela Praça da Sé, sentem um desconforto ao passarem pelo local. Um amigo meu, sem saber da história do local, definiu essa sensação como um sentimento de desesperança… E desesperança era o que mais havia no Beco da Esperança.

    Yo? Yo no las creo, pero que las hay, las hay…

    Abs.

  2. Sandro Fortunato disse:

    Levantou a bola, WILSON. 🙂 Eu tenho colocado esses textos do jeitinho que eles foram feitos, para manter a originalidade e o pensamento da época. Pensamento do autor (eu), seus (parcos) conhecimentos de então (e sempre), etc. É verdade, “beco”, necessariamente não precisa ser fechado. Eu reparei nisso quando fui colocar o texto aqui, mas à época – e ainda hoje acho esse sentido mais forte – “beco”, para mim, era uma ruazinha sem saída.

    Em frente à vila onde morei por toda minha infância, no bairro de Todos os Santos, no Rio, havia uma travessa – bem larga, por sinal -, em “L”, que fazia a outra metade de um quadrado com a minha rua e a rua de cima. E como era popularmente chamada? Isso: o Beco.

    Cidades antigas como São Paulo, Rio de Janeiro e Natal (todas com mais de 400 anos, umas meninas na frente das cidades européias) têm centenas e centenas de histórias de lugares assim. Mas a bebezinha Brasília também tem. E sabe onde estão as principais? Nos subterrâneos dos prédios dos Ministérios. Vá saber o porquê…

  3. wilson disse:

    Para mim também, BECO era uma “rua sem saída”. E bem mais tarde me ensinaram que beco é o nome que se dá a um caminho curto e mais estreito que as ruas. E que Travessa é um caminho tão largo quanto as ruas e que têm apenas um quarteirão. Vivendo e aprendendo…
    Em Brasília, claro que tinha que ser nos subterrâneos dos Ministérios. Amanuenses, arquivistas, secretários, serventes, mudaram-se para Brasília juntamente com os Arquivos. Funcionários zelosos, mesmo depois de mortos, não deixariam essa papelada ao deus-dará.
    Ouví falar de alguns que “acompanharam” algumas peças de mobília do Catete à Alvorada. Será?… 😉

  4. Sandro Fortunato disse:

    Ah! No Senado e na Câmara também! Ouvem-se discursos quando tudo está vazio. Isso acontece muito também na Assembléia Legislativa do Rio. Já estive fotografando por lá… à noite. 😉

  5. O que eu não daria para ver essa cena: Sandro Fortunato e Clodoaldo Damasceno, nus como vieram ao mundo, atravessando o Beco da Quarentena! Conhecendo os dois como conheço, imagino, mas sei da pobreza da minha mente em construir mentalmente essa imagem avassaladora! Ah! Não ter visto esse prodígio! Eu não perdôo o Universo por isto!

  6. ianniu disse:

    a placa, está lá?
    incrível esse beco. preciso passar por lá. mas de dia, porque sou meio fruixinha. hahaha
    😉

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