O Bar das Bandeiras

“Que radiola de ficha é essa que eu nunca vi no Bar das Bandeiras?”, devem estar perguntando seus conhecedores. Não é lá. Aliás, nunca fotografei o Bar das Bandeiras. Essa radiola (prefiro vitrola) ficava no Arpeje, sobre o qual falei no texto O outro lado da velhinha. Foi a partir dessa imagem que comecei a escrever os textos sobre a Ribeira, em 1999. Nela, Civone em momento mulher da vida.

Aos amigos de Natal, peço que juntem suas lembranças nos comentários, assim como atualizações sobre os lugares e pessoas que aparecerão por aqui durante esta semana. Comecemos pelo…

BAR DAS BANDEIRAS
“O bar que trinca mas não quebra”

Há muita história e muitas coisas agradáveis a se fazer na Ribeira, mas provavelmente nada supera o prazer de sentar nos bancos altos e encostar-se ao balcão do Bar das Bandeiras, em um final de tarde, numa conversa com os amigos. Enquanto a cerveja gelada não pára de chegar, pode-se abrir o baú de lembranças da vida boêmia ou simplesmente entrar na conversa do grupo ao lado, que talvez não tenha nenhuma semelhança com o seu. As histórias se misturam e você não sai de lá sem ter aprendido algo novo.

Se você é da cidade ou se pelo menos é brasileiro, vai poder apreciar o desfile das garotas de programa. Só isso. Elas nem vão olhar para você porque estão em busca dos dólares dos estrangeiros. Elas só gostam de carne importada.

Enquanto isso, o som ligado em alguma rádio se divide. Literalmente. Uma caixa do aparelho de som fica na porta do bar, outra nos fundos, onde ficam os banheiros. Sem nenhuma identificação, geralmente o das mulheres, o primeiro, é também utilizado pelos estrangeiros que freqüentam o local. “Here? Man?”, pergunta um deles. “Não. Homem é aqui”, responde Dona Graça, dona do bar, enquanto o gringo faz algum comentário que ela não entende.

O Bar das Bandeiras é mais conhecido em todo o mundo do que qualquer beleza natural do Rio Grande do Norte. Não tem Dunas de Jenipabu, Morro do Careca ou seja lá o que for que bata sua fama. Isto por um simples motivo: o local tem como freguesia principal os “marítimos”, os homens que trabalham embarcados e viajam o mundo inteiro. Quando atracam em Natal, o Bar das Bandeiras é destino certo, seja pela comida caseira de Dona Graça ou pelas fogosas garotas que freqüentam suas mesas.

O Bar das Bandeiras tem várias peculiaridades. Inclusive a de não se chamar assim e quase ninguém conhecer seu verdadeiro nome: Bar e Restaurante Coisa Nossa. Pois é, o Bar das Bandeiras é Coisa Nossa. E desde que nasceu, no dia 3 de novembro de 1984. “Já faz quinze anos que eu estou aqui”, conta a proprietária Maria das Graças Agostinho, “aqui era um depósito de sal. Só tinha mesmo as portas de frente e as de trás. O barzinho anterior era onde hoje é o B52. Lá eu passei três anos só. Não tinha nome, não. Era só um barzinho. Quando eu vim pr’aqui, limpei, ajeitei as coisas. Aproveitei o feriado de Finados, mas o dia que abri mesmo foi no dia 3 de novembro. Tudo era paralelepípedo aqui dentro, o mesmo calçamento da rua. Aqui era um armazém de sal. Eu mesma varri, lavei. Não tinha nada, nada. Onde é o banheiro dos homens hoje, era um tanque para curtimento de couro”.

Sobre o início da história do bar e seus primeiros freqüentadores, Dona Graça esclarece: “Comecei com os marítimos, depois foram surgindo as bandeiras e os jornalistas começaram a freqüentar. As bandeiras começaram com um dinamarquês – Hugo. Ele me fez um visita depois de dez anos. Chorou quando chegou aqui. Por conta da bandeira que ele colocou começou tudo. Era uma bandeira da companhia que ele trabalhava. Isso aconteceu uns dois anos depois que eu estava aqui. Nunca chamavam pelo nome. Tinha uma placa: Bar e Restaurante Coisa Nossa, mas ninguém chamava pelo nome. Chamavam de Bar da Praticagem, até que começou a encher de bandeiras e o nome pegou”.

Além dos “marítimos”, os servidores da Receita Federal, do Banco do Brasil e da Codern foram, desde o início, clientes certos. Mas teve uma turma da qual Dona Graça sempre abre um sorriso ao falar. Na narração, uma ponta de saudosismo. O pessoal da Tribuna do Norte foi o primeiro a dar vida ao Bar das Bandeiras e em boa parte responsável pela sua fama dentro da cidade. Se não fossem os jornalistas da Tribuna, o Bar das Bandeiras só seria conhecido no resto do mundo, mas não teria aquele ar boêmio, recheado de conversas animadas, sobre política, cultura ou simplesmente sobre a vida alheia.

Ela recorda: “Aí começou a freqüentar o pessoal da Tribuna do Norte: Braga – eu adoro Braga! -, Célia, Bulhões. Chegava aqui, no sábado à tarde, esse salão era repleto de jornalistas. Um dia Braga me fez uma surpresa, fez uma matéria, trouxe televisão. Começaram a chamar de Bar das Bandeiras, Bar das Bandeiras e Bar das Bandeiras ficou até hoje”. E era bom nesse tempo? “Ave, Maria, era bom demais”, responde Dona Graça, “eles sempre vinham pro almoço. Para beber mesmo, fazer farra, era só no sábado. Era muito boa aquela época. Do pessoal da Tribuna só tenho lembrança boa”.

Com o Clube do Chorinho – uma reunião de músicos promovida por Rochinha, da Esquina dos Pneus – os jornalistas começaram a se afastar. Também foi a época em que Braga, então editor da Tribuna do Norte, deixou o jornal. Então mudou muito. Quem fazia o movimento dos sábados eram os jornalistas. A chegada de uma trupe diferente foi mais um motivo para o afastamento deles. “Aí começou a vir mais o pessoal da rua mesmo. Depois começou a ter desentendimento entre eles e o Clube acabou. Passaram de cinco a seis meses. Aí acabou o movimento das tardes de sábado”, conta Dona Graça. Isso foi em 1994.

Em seguida começou a se falar em revitalização da Ribeira. A idéia era, a exemplo de outras capitais do Nordeste, dar vida ao bairro antigo da cidade, levando para ele instituições culturais e reativando a noite com novos bares e casas de shows.

A revitalização da Ribeira começou, oficialmente, no dia 22 de dezembro de 1996, com direito a presença de ministro e colocação de placa comemorativa. No Bar das Bandeiras, claro. “Aqui na Rua Chile só tinha eu mesmo”, lembra Dona Graça, “97 todinho foi todo muito bom, cada dia que passava era melhor. Era bom pelo movimento, mas mudou muito a freguesia que eu tinha. Eles não gostavam de zoada. O pessoal do Banco do Brasil chegava aqui por volta das seis, seis e meia; quando começava a tumultuar eles iam embora. Já era outra clientela”.

“O movimento de revitalização foi bom enquanto durou”, ela diz, “depois de abril de 97 começou a cair, cair. Eu morro de medo de ficar pior do que está”. A senhora pensa em sair daqui? “Eu penso”, responde ela sem titubear. Dona Graça vê o Bar como um negócio, não se dando conta da importância boêmia e histórica de sua localização.

Uma vez, comentei com Livramento, que acompanha Dona Graça há dez anos, sobre o abre e fecha de vários bares vizinhos e sobre a resistência do Bar das Bandeiras, ela disparou: “O Bar da Bandeiras é assim mesmo, trinca mas não quebra”. “É porque eu fico aqui, segurando a peteca. Agora mesmo está uma fase horrível. Eu abro porque tem que abrir”, diz Dona Graça já com certo ar de cansaço”.

E assim vai seguindo o Bar das Bandeiras com a mistura de estrangeiros, jornalistas e boêmios. Vez ou outra um político passa por lá, come algo e vai embora. Talvez assim se sinta um pouco mais humano. Lá se vão quinze anos sobrevivendo a tudo e a todos, vendo surgir novos bares ao redor, que fecham com a mesma facilidade que abriram, desprovidos do tempero boêmio do vizinho recheado de histórias e capitaneado por Dona Graça, a porta-bandeiras. Abram alas que ela quer passar.

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6 respostas a O Bar das Bandeiras

  1. wilson disse:

    Sandro:

    A tal vitrola ou radiola que você mostra é uma típica JUKE-BOX do fim dos anos 70. Foram desaparecendo desde meados dos anos 80, com a moda do KARAOQUÊ.

    Coisas do fundo do baú MESMO!
    Lembra muito o BAR BRAHMA e o extinto PARI-BAR, freqüentado por turistas, Jornalistas do ESTADÃO, políticos, empresários e “empresárias do ramo do prazer” 🙂 )

    Por aqui tivemos um ARPÈGE e um LA LICORNE, onde putas de alto luxo “se viravam”… (eita que ser pobre é uma merda!) Ia prá lá, feito criança lambendo vitrine de confeitaria, e só ficava vendo os outros comerem.

    Abração!!! 🙂

  2. Você gsanhou os livros. Mande seu endereço para thiagodegoes@bol.com.br, que eu envio pelo correio.
    Falows,
    Thiago de Góes

  3. Renata Silveira disse:

    “Ai que saudades me dá”…
    Frequentava o bar das Bandeiras no final da faculdade de Jornalismo, que coincidiu com os anos em que estive na Tribuna. O Das Bandeiras era um lugar para deixa-se estar e observar o movimento das meninas. Muitos curtiam ir para ali por “curiosidade antropológica”… De fato, o bar era um ponto de fuga nos plantões de fim de semana e noite durante a semana.
    Do Das Bandeiras recordo-me, entre tantas outras histórias bem vividas, da aventura da despedida da Civone em vésperas de partir para morar em Viena…
    Bons tempos de excesso!!
    Saudades de todos,

    Renata

  4. Marcelo Andrade disse:

    Bar das Bandeiras… um misto de abrigo para cortos malteses, hemingways, burroughs…! Nas mesas comia-se guisado, nas calçadas fumava-se aromatizados, e no andar de cima rangia-se o estrado!

  5. Pipi disse:

    Bons tempos mesmo! Eu e Marcelus Bob tomando rum com gelo e brincando de descobrir de onde eram todas as bandeiras….

  6. marcus disse:

    Tenho uma radiola de fichas em otimo estado, que pena o tempo passar e nos deixar com saudades de tantas coisas boas

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