Os 65 anos de Janis Joplin

Antes de falar de Janis, de contar pela milésima vez sobre a caixa de CDs que comprei em 1999 e nunca abri, que sou tarado por ela, etc, devo contar uma outra história. Esta foto que abre o texto é do espetacular Elliott Landy, que também fotografou Jimi Hendrix, Jim Morrison, Bob Dylan e muitas outras lendas, inclusive durante o Festival de Woodstock. Há muitos anos – não lembro exatamente quantos, mas não menos que dez – comprei (ganhei?) um cartão postal com esta foto que mostra a primeira apresentação de Janis Joplin em Nova York com Big Brother & The Holding Company, no Anderson Theater, em 17 de fevereiro de 1968. Sempre o guardei com o maior carinho. Para mim, essa imagem representa à perfeição o que seria Janis: em transe, em movimento, com uma luz surgindo de sua voz e rasgando a escuridão. Esta semana, quase quarenta anos depois de ter sido feita, ela veio parar aqui no blog. Com a autorização de Elliott Landy. Enviei um e-mail perguntando se poderia usá-la e meia hora depois já recebia um gentil “Yes”. Na mensagem, ele dizia ainda nunca ter feito uma exposição no Brasil e que adoraria se isso acontecesse. Sr. Landy, obrigado mais uma vez e… estamos providenciando a realização desse desejo que não é só seu.

Vamos então…

Seria possível Janis, uma senhora de 65 anos? Imaginávamos Jagger, um senhor de 60 anos requebrando loucamente! E Tina Turner aos 68?! Uau! E Ike Turner morrendo de overdose aos 76?!!!

Acredito que pessoas como Janis, Hendrix, Morrison (será que ele morreu mesmo?) tornam-se lendas e morrem jovens pelo simples fato de pegarem todo seu potencial, toda a inteligência, o brilhantismo, a capacidade de uma vida inteira e utilizarem de forma ultraconcentrada em pouquíssimo tempo. Morrem de overdose de sua própria capacidade.

Janis não poderia ser uma velha. Não poderia ter chegado aos 40, nem mesmo aos 30. Hendrix também não. Marilyn, James Dean, Rimbaud, Cazuza, Renato Russo… Gente assim não envelhece. Difícil viver tão intensamente e durar muito.

 

Mas este dia é para celebrar a vida. Esta traça-fã quer fazer algumas ligações sobre a passagem de Janis pelo Brasil – em seus últimos meses de vida – e a “cobertura feita pela imprensa”.

Janis baixou no patropi no carnaval de 1970. Superstar, foi para o Copacabana Palace, onde tomou banho de piscina nua e foi expulsa. Na Avenida Atlântica da amargura, foi recolhida pelo fotógrafo Ricky Ferreira, um dos poucos tupiniquins capacitados a bater o olho e saber quem era ela. Para a deslumbrada jovem guarda, era apenas uma hippie nojenta, uma mendiga suja. Até de inferninho quiseram colocá-la para fora. Na base do “essa aqui é a Janis Joplin”, foi sendo entrevistada por um ou outro símio disfarçado de repórter. Luiz Carlos Maciel, sempre ligado, contava na edição de número 35 de O Pasquim (19 a 25 de fevereiro de 1970):

Janis Joplin está no Rio, passando as férias. Já tomou banho de mar, bateu em fotógrafos e deu uma entrevista coletiva à Imprensa, sempre acompanhada de seu amigo George, um hippie americano. Na entrevista, ela fundiu um pouco a cuca quando uma repórter de um de nossos diários perguntou a ela o que pensava “da elegância da mulher brasileira”. É impressionante como o pessoal por aí está por fora.
A notícia mais interessante fornecida por Janis é que ela pretende fazer uma apresentação pública, este domingo, na Praça General Osório, em Ipanema, inteiramente de graça.
(…)

Não rolou, claro! Repressão geral. E show de Janis era como uma boa trepada: adiou, perdeu! Em oito meses, ela já seria história.

Trinta anos depois, a revista Trip dava como inéditas as fotos do topless de Janis em Copacabana. Corrija-se: algumas fotos feitas por Rick Ferreira já haviam sido publicadas na coluna Underground, de Luiz Carlos Maciel (O Pasquim, nº 69, 14 a 20 de outubro de 1970), e pelo menos as que ela aparece de topless foram feitas numa praia na Barra da Tijuca. Ok, a Trip mostrou tudo em cores e somente uma das fotos aparecia na coluna de Maciel. Só faltou um pouco de cuidado com a informação.

 

Na mesma edição d’O Pasquim, Flávio Rangel aconselhava:

Manera, pessoal, manera. Olhaí agora foi a Janis Joplin. Como diz o filósofo Ivan Lessa: “Lembrai-vos: uma de menos nunca é de mais”.

O toque havia sido dado quando da morte de Jimi Hendrix, poucos dias antes. Duas edições depois, Ivan Lessa rápido e rasteiro:

Mais uma musa que se vai porque foi demais. Se arrancou na picada, de carona numa mula negra que levava o nome de sua ambição, de sua derrota: heroína. Penso num epitáfio adequado: “Aqui Jaz Janis Joplin que Queria Ser Negra. Quase conseguiu”.

O “quase” deve ter ficado para trás, deve ter sido atropelado. Ela estava além de qualquer rótulo, principalmente o de cor. “Vocês sabem o que fabricou o mito de que só os negros têm soul? Foi porque as pessoas brancas não se permitem sentir as coisas”, dizia Janis. E ela sentia. Sentia inclusive que não devia pisar no freio. Aceitava seu destino. “Prefiro ter dez anos de ultra-super-máximo do que viver até os setenta sentada numa cadeira de balanço, vendo televisão”. Mestre Maciel:

A de certas pessoas é nenhuma. A de Janis Joplin era todas. Ela precisava consumir-se rapidamente no fogo da mudança, como se ela soubesse que vivia uma realidade transição e fosse, ela próprio, um ser de transição, uma chama destinada a brilhar fortemente durante três ou quatro anos e extinguir-se.

Janis jamais poderia chegar aos trinta. Ou não seria mais Janis.

* * * * *

Para conhecer melhor:

Janis Joplin – Site oficial
Trip #81 – Janis no Rio

Para ter:

Janis Joplin Live At Winterland ´68
Janis Joplin – 18 essential songs
Janis Joplin’s Greatest Hits
Pearl
Pearl (Special Edition) – Importado- Duplo
Janis Joplin Anthology
Janis Joplin por Ela Mesma
Com Amor, Janis Joplin

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14 respostas a Os 65 anos de Janis Joplin

  1. Lurdinha disse:

    Maravilhosa homenagem, Sandro..
    a “eterna” Janis foi tudo isso e muito mais…
    saudades…
    Adorei o Post.
    abração.

  2. dorisesouza disse:

    Oi Sandro,
    Essa eu tbm conheço bem. A primeira vez foi logo Summertime, que estava acostumada a ouvir na melodiosa e maravilhosa voz de Ella, foi um choque. Quem era essa maluca que conseguiu fazerISSO!!!! com a minha música?!!!
    Fiquei pasma ouvindo não me lembro quantas vezes, mas certamente muitas.
    Fui correndo comprar o lp, aquele amarelo com desenhos de um cartunista, não lembro agora o nome, mas guardo o lp até hoje. Pra mim foi um marco no tempo, antes e depois de Janis, e certamente, sempre maravilhosa.
    E vc está certíssimo, ela não poderia viver muito com tal intensidade.
    bjs
    Doris

  3. Sandro Fortunato disse:

    DORIS está falando do Cheap Thrills (Emoções Baratas, que era pra se chamar Sex, Dope & Cheap Thrills/Sexo, Droga e Emoções Baratas). A capa é desenhada por Robert Crumb.
    Para quem não conhece: http://i2.photobucket.com/albums/y28/cuenka/CheapthrillsBigbrother.jpg
    Quando quiser doá-lo… 😉

  4. Lurdinha disse:

    Também estou na fila da “doação”, hehe…

  5. Ana disse:

    Sandro, o post tá uma delícia. Me fez lembrar de mim mesma, nos idos de 70, ouvindo o bolachão do Cheap Thrills, importado, que encontrei perdido na biblioteca da minha escola de inglês em Itapetininga. Acho que só eu ouvia aquele disco. Eu mal estava entrando na adolescência, tinha uns 11 ou 12 anos, e ficava enlouquecida com a voz e viajando nos desenhos do Crumb. Aliás, devo ter enlouquecido meus pais também, que achavam aquela voz no mínimo esquisita…
    PS – Também estou na fila da eventual doação do Cheap Thrills em vinil! Tenho em cd, mas não tem nada a ver olhar aqueles desenhos lindos em escala microscópica. Aliás, obrigada pelo link para a capa!

  6. Meire disse:

    Eu comeria ela.

  7. wilson disse:

    Amo-a-de-paixão!!!!
    Para muitos, a “porra loca” de uma época. Para outros, a maior DIVA de uma geração: Única, idivisível. Branca por acaso, mas de voz e alma negra como os negros que em “blues” dolorosos seguiam trabalhando nas plantações de algodão… “I cry all day long, Lord. What more can I do?…”
    Ela foi, para muita gente, um caso de amor à primeira vista. A “porra loca” do dia-a-dia, quando subia aos palcos, ou cantava para os amigos, mudava completamente. “Mediúnica”, transformava-se em DIVA. Sabia-se que sua voz estava presente. Não se sabia em que mundos ou dimensões seu corpo e alma estavam. Era um “desbunde”!
    Concordo plenamente com DORIS:
    Acostumado a ouvir O clássico lírico “PORGY AND BESS” – “libretto” de DuBose Heyward com letras de IRA GERSHWIN & DOROTY HEYWARD e música de GEORGE GERSHWIN – sempre fui apaixonado pela “área” “SUMMERTIME”. Posso dizer que eu tinha, e tenho, uma fixação por essa música. E a ouví na voz de excelentes cantoras americanas. Todas interpretações lindas, lindas. E, ma-ra-vi-lho-sa na voz de ELLA FITZGERALD!!!
    Parecia que ELLA tinha feito a gravação definitiva de “Summertime”… Parecia…
    Um dia a “maluca”, a “porra loca” da Janis Joplin (sobrenome igual ao grandioso pianista negro Scott Joplin)sobe ao palco, “recebe o Santo” e abre a voz e canta “Summertime”. Eletriza, hipnotiza; um silêncio de impacto permanece por um tempo e desfaz-se entre gritos e aplausos. Segue a música. “Your dad is rich and your mom is good lookin'”… Estava feito o “estrago”. A Negra Janis Joplin “desbancou” todo mundo. Será dela, para sempre, a melhor interpretação de “Summertime”.
    A “gata” que era uma senhora cantora, tornou-se maravilhosa. DIVA!!!
    Ela viveu sua vida. VIVEU!
    Joplin como Hendrix, ou Endrix, ou Mandrix (um sonífero que, misturado com bebidas alcoólicas, provocavam o maior “barato” foram os grandes ícones de uma época. E continuam sendo, ao menos para aqueles que têm memória.
    “Time goes by!…”
    Abração.

  8. Angela Ursa disse:

    Bela homenagem à grande Janis! E obrigada também pelos links relacionados a ela. Abraços florestais da Ursa :))

  9. Roberto disse:

    Valeu pela matéria sobre esta menina que não era deste planeta e resolveu sair mais cedo. deixou muita saudade.

  10. Odara disse:

    Lokooooooooo esse Bloggggg!!

    Amei..

  11. tereza disse:

    Maravilhosoooooooo artigo!

  12. Ana disse:

    E Lennon faria 70 anos agora, dia 9/10/2010…

  13. Ney Alves disse:

    Muito bacana teu texto, só vim descobrí-lo hoje. Também adoro Janis, um furacão, uma força rss. Abraço!

  14. Carlos Augusto disse:

    Parabenizo-o Sandro pela bela homenagem registrada aqui para Janis e para seus fas. Esta mulher me persegue ha mais de 20 anos cara! Para mim sempre sera uma grande artista, a maior voz branca do blues e a maior cantora de rock de todos os tempos,ate hoje insuperada. Janis sempre sera eterna em minha vida e em meu coracao.

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