Nascidos em bordéis

Estive a pensar sobre filhos de putas. Não, não se trata de um texto sobre políticos. Estou falando de crianças que têm prostitutas como mães. Fiquei imaginando sobre sua educação e o que eu acharia da convivência de meus filhos com elas. Se me tomaria de alguma moral canhestra e que me é desconhecida, se me mostraria preconceituoso.

Quando encaramos dúvidas desse tipo, as respostas – ou pelo menos os subsídios para elas – acabam aparecendo. Foi assim que chegou às minhas mãos o vencedor do Oscar de melhor Documentário de 2005, Nascidos em bordéis, de Zana Briski e Ross Kauffman.

Se você quiser parar a leitura por aqui e assisti-lo antes, prometo não ficar chateado. Não pretendo “estragar qualquer surpresa”, mas gostaria de comentar alguns pontos que me chamaram a atenção.

Tudo que sabia é que se tratava de um documentário americano, feito na Índia, com crianças nascidas em bordéis. Impressionou-me, primeiramente, a participação ativa dos documentaristas – o que não é algo incomum, muito menos em se tratando de uma produção americana. Uma participação positiva e que me cativou principalmente por dois motivos: por fazer com que as crianças descobrissem e mostrassem seu mundo através da fotografia e ainda por tentar dar a elas a chance de ter uma vida melhor.

Comecei a me apaixonar pelas crianças logo no início do filme. Algumas demonstram admirável inteligência e uma maturidade assustadora. O que pensar de uma menina, ainda muito nova, que diz “os homens que vêm aqui não são bons” ou que se preocupa com “o que eu poderia ser se fosse para outro lugar e estudasse”? Elas sabem o que as espera naquele lugar. Sabem que não há outro destino a não ser tornarem-se o mesmo que suas mães e avós: prostitutas. Espancamentos, pais viciados, rufiões e clientes agressivos são outros elementos que completam a história que sempre se repete.

É impossível assistir a Nascidos em bordéis sem se perguntar todo o tempo: “onde e como estarão essas crianças daqui a dez ou quinze anos?”. Mas a vida delas é tão cruel que dá respostas rápidas a esse tipo de pergunta. Você as terá em menos de uma hora e meia.

Mais particularmente, fiquei impressionado com as fotos feitas pelas crianças com máquinas amadoras. Quando foi que eu desaprendi – se é que um dia aprendi! – a fotografar? Eu teria vergonha de lhes mostrar minhas fotos e entenderia se elas demonstrassem algum preconceito em relação à minha pouca habilidade, falta de técnica, de dote artístico ou mesmo de sensibilidade.

Definitivamente, essas crianças poderiam ensinar muitas coisas maravilhosas às minhas crianças.

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2 respostas a Nascidos em bordéis

  1. wilson disse:

    Filhos de Puta? Oras, isso não existe!

    Se existissem este “comment” estaria sem espaço… Ah! Esta geração anticoncepcional. Vivem no mundo e fazem-de-conta que “o mundo fica tão distante daqui…”

    Quem vai entender que, mais que a dor do “cabide” para forçar o abôrto do feto, era a dor crucial da alma das putas. “Desmachava-se” por causa da hipocrizia e a moral de dois pesos e duas medidas; “desmanchava-se” para poder continuar sobrevivendo, ganhar o pão-de cada-dia.

    Quem vai hoje entender o gritante preconceito, onde até freiras “bondosas” etgmatizavam crianças naturais, como fosse leprosas?

    Quem vai entender a dor de uma prostituta ao abandonar um filho à porta de um orfanato ou colocá-los na roda dos enjeitados?

    Putas não tinham a menor condição. As cafetinas, endinheiradas, mandavam seus filhos para serem cuidados por uma família e, depois, para colégios internos, daqui ou exterior.

    Filhos de Puta? Quem os vai querer se, nem mesmo elas o querem?

    Pergunta que se torna amarga para mim. Um dia, conversando com Martha, uma amiga prostituta, aprendí a maior lição da minha vida: Ela cuidou-se sempre para “evitar” surpresas. Um dia aconteceu. E como tantas, recusou-se a “desmanchar” o feto. Tinha a convicção de que poderia ser Puta e mãe ao mesmo tempo. Foi feliz até o dia que teve um abôrto expontâneo.

    Chorava muito, depois de ter contado a sua história. Uma história que acontecera doze anos antes.

    Em muitas cidades, anônimos, filhos de putas sobrevivem de pequenos expedientes ou da contravenção. Meninas tornam-se putas, meninos gigolôs e a vida segue o seu curso.

    Será que filhos de putas não existem mesmo? Ou será por causa da auto-preservação, porque a “coisa” extrapolou?…

    Os testes de DNA têm trazidos à luz uma estatística impressionante… 😉

    Abração!

  2. bebestore disse:

    O pior que que talvez nem imaginem quem são os pais!

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