Nietzsche e Will Smith

Fiz vestibular para Nostradamus e passei! Há um ano e meio, em texto para o finado Augusto, suplemento cultural do Jornal da Paraíba, intitulado Quando Nietzsche subiu aos palcos (aqui reproduzido em 19 de julho de 2006), falei sobre a transformação em peça do livro Quando Nietzsche chorou. Sobre a versão cinematográfica, profetizei:

Não se pode esperar muito, a começar pelo fato de se tratar de cinema americano, que não é famoso exatamente por produzir filmes para se pensar. Mas tenhamos esperança. Ou não, já que Nietzsche alerta que ela é “o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens”.

Suplício mesmo foi assistir ao filme. Para mim, ler um livro ou assistir a um filme é como fazer sexo: pode até não ser uma maravilha, mas já que está dentro, deixa. Começou, vá até o final. O máximo que pode acontecer é você gozar. Neste caso, gozar DO filme.

O livro, todos sabem, foi (e é) um sucesso em vários países. A peça, até onde eu saiba, infelizmente foi levada somente em São Paulo (tive o prazer de assisti-la com Wilson; depois ainda conversamos um pouco com Nelson Baskerville e Cássio Scapin). O filme foi apresentado em um festival de cinema em Israel, em julho de 2007, e depois saiu direto em DVD (também no Brasil) sem passar pelas telas dos cinemas americanos. É um filme idiota até para o público Hommer! Vou precisar de terapia por anos para superar o trauma. Nietzsche choraria.

Armand Assante, que conhecemos de filmes de ação, faz um Nietzsche frágil, demasiado frágil. Cássio “Nino” Scapin, em toda sua fragilidade física e sem o famoso bigodão do filósofo, faz um Nietzsche em toda sua vontade de poder, o próprio übermensch. O Breuer do filme é um arremedo de parlapatão e palhaço de circo pobre. As cenas que representam seus sonhos ou a sugestão/ordem de Nieztsche em ver Bertha Pappenheim como uma demente são levadas ao extremo. Entra em cena a falta de sensibilidade para assuntos delicados e a caricatura grotesca, o humor grosseiro, do qual só americanos e adolescentes conseguem rir. E Bertha… pobre Bertha. Passemos para Lou. Lou… Pobre Lou! Uma mulher tão poderosa, tão influente, tão sensual, tão inteligente, transformada em uma Barbie. Nem quero compará-la com Ana Paula Arósio, que fez Lou Salomé na peça, numa participação em vídeo. Não há como comparar a peça e o filme. A peça é infinitamente superior.

Juro por Nietzsche e por toda fé que tenho nele que procurei algo de bom no filme. Provavelmente todos os envolvidos em sua realização estiveram drogados durante todo o tempo para conseguir fazer algo tão ridículo. Se ainda assim você quiser assistir, lembre-se que Nietzsche não tem nada a ver com aquilo e mantenha à mão uma cópia de Dias de Nietzsche em Turim, de Júlio Bressane, para ver em seguida e tirar a má impressão.

Bobagem por bobagem, assista Eu sou a lenda, que está estreando nos cinemas brasileiros esta semana. Vale como entretenimento, que é o máximo que se deve esperar de um filme americano para se evitar decepções. É legalzinho. A história é bacaninha. E essas adjetivações é o que posso usar de mais pejorativo, imitando a pobre crítica que costumamos ter. Não vale pensar um filme que não faz pensar. Que mais pode ser dito? Tem o Will Smith, que é um cara legal. Tem a brasileira Alice Braga (a morena gatinha por quem Buscapé se apaixona em Cidade de Deus). Tem os (d)efeitos especiais da “zumbizada” que faz você esquecer os bons momentos do filme. E tem Sam (a pastora Abby), a melhor entre todos os atores de Eu sou a lenda e também a melhor parceira que Will Smith já teve desde MIB – Homens de Preto. Pode ir ao cinema do shopping, levar pipoca, falar ao celular e gritar. Se puder, pague meia.

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4 respostas a Nietzsche e Will Smith

  1. Renata Silveira disse:

    Há certos filmes que não merecem mais que uma cópia pirata comprada a um cigano, com pipoca de microondas, cachorro-quente caseiro, batatas chips e guaraná (que é para o programa ficar melhor).
    Zumbi por zumbi, fico com os do Peter Jackson em Braindead. Depois daquele filme, qualquer outro é treta!!

  2. O que tens contra a Argentina?

  3. wilson disse:

    Que bom que você viu o filme e comentou! Não precisarei ter o desprazer de assistí-lo! 🙂 É que eu sempre aprendo com o êrro dos outros. 🙂

    Sabe o que é bom mesmo?

    A gente ter visto em primeira-mão, na primeira fila, uma das primeiras apresentações da peça, levada à cena pela primeira vez no mundo.

    A gente ter visto “cara-acara” os cenários, vídeos e efeitos de iluminação.

    A gente ter esperado o “Nino”, para parabenizá-lo e falar sobre a peça.

    Pelo cartaz do filme, tudo em p&b. Só a bonita, tipo “estou pelada” funcionando como chamaríz, está “in collor”… Coisa de americano…

    Não vou lamentar não ter visto o filme. Só lamento, ainda, não ter visto a peça mais vezes.

    Abs.

  4. Bem: eu não gostei do livro “Quando Nietzsche chorou”. Achei chato. Por volta da página 100, desisti. E depois dessa nao vou ver o filme. Depois que completei 60 anos pago meia entrada nos cinemas; mas mesmo assim, passar duas horas sentada, entre um filme chato e os comentários babacas e em voz alta da platéia – coisa habitual nos cinemas paraibanos – bem, depois disso tudo não fico mesmo no cinema se não estiver gostando. E já parei sexo pelo meio porque não estava gostando! Quem foi que disse que tudo tem que ir até o fim? Eu, hein?

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