O outro lado da velhinha

Imagens da Velha Boêmia que se nega a virar bairro-fantasma

Natal, como sempre, está na retaguarda da História. Enquanto no Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e outros estados os governos se apressam por tombar seus monumentos pelo Patrimônio Histórico, aqui se tombam, literalmente, pela força das máquinas da construção civil ou simplesmente senta-se à espera de que o tempo os faça desabar.

Em um rápido passeio pela Ribeira, o que mais se vê são prédios sem telhados, sem paredes e sem quase tudo. São cacos da História geralmente cercados por muito lixo.

O bairro já foi o centro da cidade e das atenções, cheio de vida tanto durante o dia quanto à noite. Cantado em verso e prosa pelos poetas que o freqüentavam, hoje a melhor rima para Ribeira seria lixeira. O bairro fede. As pessoas que lá trabalham nem se dão conta do mau cheiro, talvez acostumadas com o odor dos restos de peixe e da poluição do Potengi.

Moradores quase não existem. O abandono é geral. Não só do governo, mas também da sociedade. O primeiro não faz nada e o segundo consente. Há um preconceito explícito por se morar na Ribeira. Há infra-estrutura básica necessária para se viver: energia, água, esgoto. Se a Urbana passasse mais vezes seria melhor, claro. O lugar é extremamente desvalorizado e as taxas de aluguel são baixíssimas. Ainda assim, a noite da Ribeira pertence hoje aos vigilantes e aos grupos marginais, não restando espaço para a família.

Mas a Velha Boêmia se recusa a virar bairro fantasma. Apesar de toda a decadência, ela resiste até mesmo ao descaso e ao ostracismo. Com o final da tarde, o movimento dos trabalhadores da indústria pesqueira dá lugar às risadas das prostitutas. A fala alta parece querer dar vida e se fazer ouvir por todo o bairro. “Ai, vira isso pra lá senão eu quebro essa máquina”, diz uma, ciscando cozinha adentro no cabaré em que trabalha.

A essa altura, de sol quase posto, já há bêbados também ameaçadores (se é que isso é possível), desistindo da noitada. “Tira a foto pra você ver o resultado”, grunhe um, cambaleando escada abaixo no mesmo cabaré. Assim como a glória, o luxo, a riqueza e a alegria, foram-se também as boas relações entre jornalistas e tais tipos.

Até no quarto da dona da “boate”, na qual foram encontradas as duas figuras acima, se encontram sinais de decadência. Falta uma lâmpada no bocal dependurado no teto que, cego, aponta para as bonecas de Francisquinha.

Nem a imponência das centenárias palmeiras do Salesiano ou do Teatro Alberto Maranhão consegue resgatar algo de glorioso, mesmo porque não é fácil concorrer com um monte de gente se jogando dentro de ônibus barulhentos num empurra-empurra sem fim.

E é lá na antiga rodoviária que a cada instante aparece um garotinho desnutrido de 10 ou 11 anos falando com se tivesse três: “Dá um tocado pa mim” ou outro mais acostumado com a desvalorização da moeda, “dá cem”.

Revitalização é a palavra da moda e todos no bairro já ouviram falar e têm a mesma reclamação: tudo não passa de conversa jogada fora. Da prostituta ao bêbado, passando pelo menino de rua, o desabafo de um velho catador de papéis resume o pensamento das poucas almas que ainda dão vida ao bairro: “Se essas fotos que vocês tiram servisse pra alguma coisa… o pessoal só vem aqui pra fazer chapa. Olha só como isso tá”, arremata apontando com o lábio inferior para os restos mortais do prédio que já abrigou governantes do Estado. Do mesmo Estado que esqueceu a Ribeira.

Originalmente publicado na revista RN Econômico,
nº 266, de 11 de dezembro de 1993
.

* * * * *

O outro lado da velhinha – Imagens da Velha Boêmia que se nega a virar bairro-fantasma foi escrito há mais de 14 anos. À exceção da foto que o abre, registrada em 2006, as outras foram feitas originalmente para acompanhar o texto, escrito com a inocente intenção de mostrar um outro lado da Ribeira, área portuária e boêmia da cidade de Natal, quando da realização de um concurso sobre o bairro. Não estava participando. Apenas acompanhava outro artigo no qual eu descia a lenha sobre o tal concurso “que agita jornalistas e provoca enxurrada de besteiras sobre o bairro mais antigo da cidade”. Desnecessário dizer que, em meio tão corporativo quando se trata de suprimir as faltas do vizinho para que as suas não sejam apontadas, criei descontentamento e inimizades eternas. Insânias de juventude. Aos 21 anos, eu era o dono da verdade como todos nessa idade. Hoje, mais maduro, desceria o cacete com mais ardor, mas não é sobre isso que quero falar. O ponto aqui é a Ribeira.

Minha história pessoal está muito ligada ao bairro. Quando me mudei para Natal, em 1986, estudava no Salesiano e meu pai trabalhava no Moinho Natal, ambos na Ribeira. Depois, como estudante de Jornalismo, passei a freqüentar aquelas cercanias à tarde, em rodas boêmias. Em 93, tentei abrir o que seria o primeiro bar da década, o Bar Canal, que acabou não vingando. No final dos anos 90 veio a fase Blackout, o bar que era a minha segunda casa (quiçá a primeira!) e marcou época na história da Ribeira e de Natal. Em 98, fotografei a casa onde nasceu Café Filho, vice que virou presidente com a morte de Getúlio Vargas: era uma casa de tolerância das mais tolerantes que já vi.

Durante todo esse tempo, testemunhei inúmeras tentativas de fazer o bairro reviver. O Blackout e a Casa da Ribeira foram os mais bem sucedidos nisso. Mas as tentativas de “revitalização”, principalmente por parte do Poder Público, foram todas um fracasso.

Quase quinze anos depois, pouca coisa contada no texto mudou. O Arpeje, cabaré no qual fui ameaçado por putas e bêbados, não existe mais. O prédio que abrigou a primeira sede do governo estadual teve sua fachada (única parte que se manteve de pé) recuperada e por trás ganhou uma nova edificação. O local abrigava aulas de balé. A rodoviária velha e a avenida à sua frente foram reurbanizadas e são hoje “o grande outdoor na frente da favela”. Há dois anos, fiz uma rápida incursão noturna pela Ribeira. A Rua Chile e adjacências estavam praticamente como sempre as conheci. Um ou outro prédio havia sido recuperado. Para cada um destes, dez ou doze outros estavam em piores condições.

Há mais ou menos dez anos, a partir de um ensaio fotográfico na Ribeira – uma tarde de reencontro com a louca Civone –, do qual saiu uma imagem que está entre minhas preferidas dentre milhares e milhares que fiz até hoje, comecei a escrever uma série de artigos sobre o bairro com o objetivo de reuni-los em livro a ser lançado em 1999, ano em que a cidade comemorou seu quarto centenário. Abandonei a idéia, mas os textos e fotos foram devidamente guardados. Na próxima semana, vou publicar alguns aqui: o Bar das Bandeiras, o Beco da Quarentena e a Igreja do Senhor Bom Jesus das Dores. São um misto de memória e reportagem histórica. Confiram.

Esta entrada foi publicada em Do baú, Imprensa, Jornalismo, Memória. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

8 respostas a O outro lado da velhinha

  1. patricio jr disse:

    quem morou no blackou como eu e fazia do bombo’s a sala de estar da casa, sente saudades dessas tentativas de revitalização. naquele tempo, quase chegamos lá.

  2. patricio jr disse:

    blackout e bimbo’s… acho que comi umas letrinhas…

  3. Aqui em Fortaleza tem uma expressão para dizer sobre essa tal de revitalização: “É o novo…”.

    Desde muito tempo ouço falar em revitalização da ribeira. ela nunca vem…

  4. Henderson disse:

    Também fui íntimo da Ribeira. Como um bom “velho tarado”, elogio que recebi aqui do escriba do blog, tive momentos grandiosos no antigo bairro. Foi lá, já nos tempos modernos, que assisti Cássia Eller, num show memorável, namorei bastante (com minha esposa), me despedi de Ubarana…Enfim, Ribeira!

  5. Chris Angelotti disse:

    Oi “Sandroviski”!
    Sou muito fã dos seus textos, pra variar um pouco adorei!
    Olha a minha lembrança da Ribeira já é a lembrança de lixo, prostitutas, bêbados… nos anos 80, época que morei em Natal, não tinha a maturidade de olhar a história, de buscar nos escombros a história da cidade.as únicas coisas que me encantavam no Bairro eram os meninos bonitinhos do Salesiano e o Teatro Alberto Maranhão.Que pena!
    Hoje compartilho do seu olhar saudoso, aprendo com seus textos maravilhosos a descobrir uma Ribeira que eu nem conheci.
    Ah! quanto aos livros… e se vc fizesse um livro com fotos antigas, atuais, com a história do bairro, seus textos lindos, seria dez! abraços

  6. Pipi disse:

    E esse encantamento pela Ribeira continua até hoje pelas pessoas que sabem da importância dela na história da nossa cidade, e acredito que somente por essas pessoas ainda existe um pouco de vida naquele local.Aguardo ansiosa a sequência desse texto!!!Bjs

  7. lu disse:

    saudades…muitas…

  8. wilson disse:

    A crua realidade causa a perda desses lugares mágicos. E, quando acaba a magia fica o vazio. Vazio de uma Cidade que perde a sua Memória, suas Lembranças, seus personagens. Não fica o perfume, o fedor das suas ruas; não ficam os ecos das vozes antigas, dos risos, dos palavrões impregnando as paredes dos velhos casarões, casas e pardieiros.
    Lugares mágicos, santificados ou obscenos, quando desaparecem criam um hiato entre a Cidade Nova e a Velha: um deserto árido a dois passos de um rio caudaloso.
    Então o que fica? Não fica nada! Finda a magia, esvai-se a vida, vão-se os fantasmas; perde-se a memória. E um dia, muita gente irá chorar por saber que perdeu algo muito importante, mas que não lembra o que é. Não sabe que perderam um pedaço da própria vida nessas histórias que nunca mais serão contadas.

    Ai, que o meu “Eu” cronista está casmurro hoje!
    Preciso ir às putas urgentemente. Senão, acabarei nas garras d’um alienista…

    Abração!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *