Prazer e angústia de ler Dalton Trevisan

Para manter uma lógica ariana, finjo acreditar que escolho os livros que vou ler. Todo mundo sabe que eles nos escolhem. Mas continuo fingindo e crio algumas regras. Uma delas é a do “Mês Fulano”. Elejo um autor e traço tudo que tenho dele. Este janeiro, dedicado a Dalton Trevisan.

Li Dalton pela primeira vez há uns 15 anos. O Vampiro de Curitiba. A primeira impressão que tive é de que ele havia esquecido um monte de palavras. Logo percebi que não. Ele usa somente as necessárias. Mal e porcamente, algo assim:

Li Dalton primeira vez aos vinte. O Vampiro. Primeira impressão, esqueceu monte de palavras. Não. Usa só as necessárias.

Sentenças rápidas. Cada pequena frase um aforismo. Amoral. Imoral. Não engorda. Limpo. Precisão cirúrgica no trato com o idioma. No meio das histórias curtas, frase por si só história inteira: “cada morto é uma flor de cheiro diferente”; “eram comuns as noites em que a terra se despovoava, ele ficava só”; “nas janelas dos edifícios apagavam e acendiam as fogueiras dos náufragos na solidão das ilhas”; “beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo”…

Quem se atreve a encarar o Código de Dalton corre o risco de ser sugado para o mundo desse vampiro. Batalha sempre perdida. E ganha. Porque seu mundo é sóbrio, preciso. Ganham todos que entram nele. E querem sempre mais. Vício.

Vício maldito. Você quer experimentar cada frase. Passar na ponta da língua. Ouvi-las em silêncio. Deixar que derretam como torrão de açúcar. Depois o doce ali. Ao mesmo tempo quer mais, outra história. Mas tão boa essa! Mais! Mais! Ai, meu Jesus Cristinho…

Agonia danada esse homem. Tudo curtinho, passando rápido, história que não acaba. Acabar pra? Aqui em casa, 14 livros. Vontade ler de uma sentada. Vontade maior ler só um conto por dia. Levar o ano inteiro. Agonia. Agonia.

Faca no coração, esse maldito. Vicia, faz amar, deixa a gente sofrendo e depois, sem explicação, ponto. Desligo. Vou pra cama com ele.

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4 respostas a Prazer e angústia de ler Dalton Trevisan

  1. wilson disse:

    Dalton é todo o conceito da Arte Fractal. Cada palavra, cada sentença pode causar um efeito positivo ou devastador em cada pessoa. Escreve como fosse uma peça de teatro. Preciso. E o leitor-diretor trabalha na “montagem” desse espetáculo usando as próprias emoções e arquétipos que cada sentença oferece.
    A partir daí, o Leitor deixa de ser meramente um cúmplice do escritor. Torna-se comparsa. Ele escreve de forma simples, clara e objetiva e, ao mesmo tempo cria um teorema a ser desvendado pelos leitores.
    E, estranho: Ao se ler Dalton, fica sempre aquela impressão ambígua. Não gostei da “peça” que ele escreveu, ou não gostei da “minha montagem”? Ou, gostei…?
    E eu gosto dele por isso. E porque, em sua obra não há aquele abismo profundo que separa o escritor do leitor. Lê-lo pela primeira vez, de alguma forma é fazermos uma releitura de nosso mundo interior.
    Nossa! – vão dizer – Ele é tão hermético, pesado, assim?
    Não! É leve, aberto,claro, preciso, etc. O efeito fractal está justamente no efeito psicolígico que causam.
    Vão lá nas livrarias e “sebos” da vida, comprem um livro dele. Depois de ler, conta o que achou. Gostou-não-gostou dele? Gostou-não-gostou de você?…
    Abração.

  2. Pena que demorei para descobrir este blog. Está cada vez melhor. Ainda não li Trevisan, mas tive a mesma impressão ao ler Rubem Fonseca.

  3. Diego disse:

    Concordo integralmente. Dalton faz chorar quem achava que sabia escrever.

  4. Sandro Fortunato disse:

    Preciso como Dalton este comentário de DIEGO. Quando quero lembrar que sou um analfabeto, também releio A hora e a vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa. Ah, se um dia eu escrever 20 páginas como aquelas…

    THIAGO, senta aí e vai lendo os outros quase 300 textos. Alguns se salvam. 😉

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