Never say never again

Inebriado pelo sucesso fácil, arrebatado pela graça dos dois dígitos ao lado da palavra Comments, subitamente cativado pela pujança verborrágica de leitores bissextos (em ano idem), sigo o exemplo de Bond, James Bond – primeiro e único Sir Sean Connery – e volto em minha palavra de nunca mais colocar um texto como em meus primórdios de blog, quando este ainda se chamava Leseira Geral e seu único intuito era dar uma fresca ao principal locatário de minha paquidérmica caixa craniana.

Nunca diga nunca outra vez, ensinou o ainda não-Sir Connery quando, em 1983, retomou o papel que o fez famoso. Dar uns pegas numa Kim Basinger pré-balzaca é um bom motivo para quebrar qualquer promessa. Assim como James Bond só existe um, o Sean; também só existe um papa, o João Paulo; e uma Dona Benta, a Zilka Salaberry. Já Bond Girl, cada um tem a sua preferida. A minha é a Kim, a primeira que vi, quando tinha apenas onze anos. Confesso, fiquei de orelha em pé pela possibilidade de uma brasileira ser a próxima da lista, principalmente se fosse Juliana Paes ou Cleo Pires. Mas, confesso também, fiquei impressionado pela escolha da bela ucraniana Olga Kurylenko, uma magrinha de carnes em locais estratégicos. Só me preocupo com a possibilidade de haver alguma filmagem em seu país de origem. As cenas são perigosas, acidentes acontecem e vocês sabem: na Ucrânia, todo traumatismo é um traumatismo ucraniano.

Mas este post-bigbrodiano-com-mulher-em-trajes-mínimos-ou-nem-isso quer tratar de mais alguns temas da semana. Um deles é o resgate dos quadros roubados do Masp em dezembro. Assim que soube quais haviam sido, pensei: “Putz! Seqüestraram o Chico Bento!”. Pensei também: “Se Chateaubriand fosse vivo, a próxima manchete seria com os ladrões mortos!”. Onde já se viu tamanha facilidade em entrar num museu do porte do Masp?! E agora, passados menos de vinte dias, a polícia mostra mais uma vez que, quando quer, funciona. Indolência é a competência com preguiça. Seduzidos pelas câmeras internacionais, trataram de estufar peitos, levantar armas e tirar o Chico do cativeiro. Aqueles malditos quadros – que em nenhuma vez das quais estive lá me deixaram fotografar – nunca viram tantos flashes. Fotos de todos os ângulos distribuídas via rede mundial para facilitar o trabalho de cópia dos falsificadores. E no meio da confusão, vem Pedro Corrêa do Lago dizer que Debret não é Debret, é Brunia e vale muito mais. Acompanhando tudo isso, senti-me o próprio Zé Lelé. Somos mesmos uns caboclos.

Nicole Kidman está grávida e vou logo avisando: Não fui eu! Próximo ponto.

Deparo-me com a manchete: Polícia prende mulher de 68 suspeita de tráfico no Rio. Pergunto: trata-se de uma mulher nascida em 1968 ou de uma mulher “daquela época”? Teria ela acreditado que o ano de 1968 não acabou e traficava para subsidiar a luta armada? O que é isso, companheiro? Uma vovó de quase 70 dando mole pra meganha? Levanta, sacode o pó, dá a volta por cima, minha senhora. Não se fazem mais velhas sábias como antigamente. Que saudades da vovó que traficava lambretas na fronteira!

Da semana, salvou-se a maravilhosa foto (o tema é terrível, mas o trabalho de fotojornalismo foi perfeito) de Bruno Gonzales que deu a manchete pronta para qualquer jornal: Rio 60 graus. Distribuí imediatamente, na terça, entre amigos fotógrafos assim que apareceu na Internet. O Dia, edição de quarta, estampou a foto e foi em cima: Rio 60 graus: Culpa do tráfico.

Volto amanhã com a programação normal.

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5 respostas a Never say never again

  1. Taís disse:

    traumatismo ucraniano doeu. Li-te-ral-men-te!
    (Mas adorei essa: Indolência é competência com preguiça. Descobri que sou indolente!!!)
    🙂

  2. joão disse:

    Sandro.
    Muito estranho, como diria Prof. Reginaldo. Muito estranho! Muito estranho os ladrões entrarem no Masp com tanta facilidade, e a policia achar também com tamanha facilidade. Todos saíram ganhando com esta história. O Masp, que teve toda a atenção voltada pra ele, já que estava esquecido. E a policia paulista , que parece que agora está sendo reconhecida como a melhor do planeta. Muito estranho isto. No minimo muito estranho…
    ab
    joão antonio

  3. joão disse:

    Sempre algo a comentar.
    Isto é que é insolencia, sempre ter algo a comentar, como se de tudo entendesse e tudo soubesse.
    Esta série de quadros de Mauricio, pastiches dos grandes guadros das artes plásticas, que o Mauricio reuniu num livro, é muito interessante. Só num blogue mesmo pra alguém se lembrar de criticar o macunaíma brasileiro, através do Chico Bento. Qualquer jornal ou revista ilustrou com o quadro do Portinari. Você não, muito criativamente ilustrou com o pastiche do Mauricio. Se o velho Pasquim existisse hoje em dia aposto que a capa do jornal seria uma caricatura nestes termos.
    Muito bem sacada meu caro
    joao antonio

  4. wilson disse:

    SANDRO PRESS: (UPI REUTERS FRANCE_PRESS)
    Muito interessante esse seu lado Atualidades da Semana. Pelo visto, breve teremos O Que Vai Pelo Muuundo! 🙂
    Traumatismo Ucraniano nem Stálin merece… Doeu nos bagos. 🙂
    Quanto aos “arroubos” dos quadros, a polícia foi perfeita: Investigou até, uma certa bichinha que andava louca por um Picasso (e um picasso hoje em dia, tá difícil). Investigou também um “Terreiro” recém-inaugurado que necessitava urgentemente de um “caboclo” para enfeitar o seu altar…
    Pensei que a vovó tinha sido presa por SUPOSTO tráfico de drogas… 🙂 E penso que a vovó é de 68, porque ainda não conseguiu encarar um 69 numa boa. Fazer o quê…
    Quem sabe o Rio 60 graus ajude a anciã a liberar-se.
    E, eu testemunha do Rio 40 graus – incluso o filme – viví um Rio a 45 graus. “Never” 60. É muito fogo para uma “bacurinha” só!
    Parabéns, o “post” tá ótimo, divertido, non-sensitif, “Au de là du Marraquèche”! Uma viagem!
    Abração.

  5. Quer dizer que fotografar não pode. Já roubar…

    Lembro de um comentarista ter dito que o museu devia ter o mesmo cuidado com os quadros que tiveram os ladrões. Eles voltaram sem nehunm arranhão sequer.

    Deixar quadros milionários naquele estado de insegurança é o mesmo que pregar uma plaquinha de “roube-me”.

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