Cem anos de Memorial de Aires

9 de janeiro

Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da Europa. O que me lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor de vassouras e espanadores: “Vai vassouras! vai espanadores!” Costumo ouvi-lo outras manhãs, mas desta vez trouxe-me à memória o dia do desembarque, quando cheguei aposentado à minha terra, ao meu Catete, à minha língua. Era o mesmo que ouvi há um ano, em 1887, e talvez fosse a mesma boca.

Durante os meus trinta e tantos anos de diplomacia algumas vezes vim ao Brasil, com licença. O mais do tempo vivi fora, em várias partes, e não foi pouco. Cuidei que não acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois acabei. Certamente ainda me lembram coisas e pessoas de longe, diversões, paisagens, costumes, mas não morro de saudades por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei.

A ação teria se passado há exatos 120 anos. É o início de Memorial de Aires, publicado há um século, último livro de Machado de Assis, que morreria no mesmo ano (1908), em setembro.

Aproveito o gancho para fazer uma breve defesa – se necessária – do velho bruxo.

Qualquer um que tenha feito o primário leu algo de Machado de Assis. Ao menos, trechos de alguns livros. Provavelmente obrigado. Daí para nunca mais querer ouvir falar nele é um passo. Não é uma leitura leve nem tampouco de vocabulário atual e fácil.

Em outras épocas, houve a feliz idéia de se quadrinizar clássicos da Literatura. Não lembro se algum livro de Machado teve esse tratamento na série Edição Maravilhosa, da Ebal, na década de 1950, mas sei que o próprio autor foi tema de outra série da mesma editora, a Grandes Figuras em Quadrinhos. Há pouco mais de dois anos, Machado e Lima Barreto tiveram alguns livros adaptados pela Coleção Literatura Brasileira em Quadrinhos, da Escala Educacional, que podiam ser comprados também em banca por um preço bem acessível. Mais recentemente, a Agir/Ediouro iniciou a coleção Grandes Clássicos em Graphic Novel com O Alienista. Considero esse um caminho excelente para a iniciação de crianças e adolescentes no mundo machadiano. Assim não ficarão com aquela falsa impressão de que “Machado de Assis é chato” e poderão, mais adiante, ter o prazer de ler a obra original.

Qualquer um que leve Literatura minimamente a sério – por trabalhar com a palavra, por prazer ou por maldição – precisa ler Machado de Assis. E não só um ou dois livros. É preciso conhecer seu mundo. E, como pouquíssimo escritores, pode-se falar que ele realmente tinha um mundo próprio. Personagens transitam entre livros (o próprio conselheiro Aires já havia aparecido em Esaú e Jacó, quatro anos antes), percebe-se a evolução do gênio (de uma história simples como Iaiá Garcia a um marco como Memórias Póstumas de Brás Cubas, logo em seguida), há toda uma ligação que é perdida quando se lê um ou outro livro isoladamente.

Ninguém é chamado, por mais de um século, de o “melhor contista“ e “o melhor romancista da História da Literatura brasileira” impunemente. Só a Dalton Trevisan (outro gênio sobre quem falarei na próxima sexta) foi dado – e mui justamente – o epíteto de “o melhor contista brasileiro vivo”.

Sinta-se convidado a fazer deste o seu próprio Ano Machado de Assis. Busque-o em suas estantes, nos sebos (a 3 ou 5 reais) ou mesmo em livro eletrônico totalmente gratuito (aqui ou aqui). Comece com os contos e fique longe das adaptações para o cinema.

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7 respostas a Cem anos de Memorial de Aires

  1. joão disse:

    Sandro.
    Pra mim é o melhor livro do Machado. É uma opinião evidentemente muito particular, até porque eu adoro ler romance que se utiliza da linguagem epistolar. Mas história história não tem nenhuma, a graça do Machadão está no jeito que escreve, com frases lapidares. Aprendi a escrever o pouquissimo que sei com o Machadão, especialmente com este romance.
    abraço
    joão

  2. wilson disse:

    Não acredito! Nem mesmo um pequeno comentário, uma breve nota… Nada!
    Tantos “comments” sobre BBB e, aqui, nada. Cem Anos da Morte de um ilustre desconhecido. Cem anos da morte de um ninguém que, parece, escreveu palavras na areia.
    Que importância tem se esse Zé Ninguém tenha um nome e, esse nome seja MACHADO DE ASSIS? Quem se importa que esse Mais um na multidão tenha sido O Maior Escritor da Língua Portuguêsa? Quem se importa?…
    Eu me importo! E agradeço pelas história, pela vida que me fizeste viver no dia-a-dia da Côrte, depois nos tempos primevos do Distrito Federal. Nos teus livros viví o Segundo Império e os dias da Primeira república nascente. E pronunciei palavras saborosas com um forte acento lusitano.
    Há cem anos que partiste, na derradeira viagem,ao encontro da tua Carolina. Que importância tem se neste mundo te tornaste um nada. Com certeza para a sua Carolina és mais que alguém. Tu és parte dela. E Ela parte tua. O que importará a ti o que pensam ou não, se está feliz nessa feliz unidade? Onde tu e Carolina estiverem, recebam o meu amor e carinho.

  3. joão disse:

    Sandro. Corrigindo o comentário anterior…
    Eu falei epistolar mas que fiz falar diário, no post anterior. Gosto muitissimo de romances narrados como se fossem diários.

  4. wilson disse:

    Nota:
    Quando comecei a escrever não havia “comments” e, quando postei, lá estava o recado do João!!!
    Que bom! Mais um que, realmente, se importa. Será que tem mais… Sei, não…

  5. joão disse:

    Wilson.
    Não é primeira vez que isto acontece. Acho que estamos competindo pra quem escreve o primeiro comentário(risos). Por muitas vezes quando comecei a escrever e inclusive apertei o botão de postar não havia comentário, e quando aparece o texto instantameante aparece o seu comentário la´. Quem for mais rápido que saque do seu comentário(risos).
    ab
    joão antonio

  6. Ei, Rubem Fonseca ainda não morreu.

  7. Anahi disse:

    O primeiro livro que li de Machado de Assis foi Aurora. Foi uma pequena decepção. Eu imaginava um livro revolucionário na minha vida, mas não foi. Aurora pertence a uma fase de amadurecimento do Autor. Li Aurora quase forçada por causa da prova. No mesmo período li Senhora, de José de Alencar, sinceramente, os livros têm semelhanças. Sim, se você é contra nosso grande romancista (do período romântico, huuum, não é redundância para os que não sabem…) vou reafirmar, eu sei que é duro ter que suportar a idéia, mas é verdade. Todas as pinceladas do período romântico estão em Aurora, exceto por umas idéias relativamente críticas que aparecem. Bem, o tempo passou e veio Memórias Póstumas, Dom Casmurro, contos maravilhosos como a Cartomante e (pra mim) o melhor dos contos: ESPELHO. Nao sei bem se o título é esse. Sei que se trata de uma metateoria da alma humana. Simplesmente fantástico. Teve que vir a Aurora em primeiro para me preparar para a revolução há tanto esperada e deixar Memórias Póstumas antecedidas por um Dom Casmurro. Memorial de Aires, assim como deve ser, foi nosso último livro juntos. Digo nosso porque um livro é um diálogo conjunto e até hoje escuto a voz maravilhosa desse homem imortal em minha mente. Pode parecer um impulso necrófilo, mas na realidade é mais um encantamento que o velho bruxo lançou.

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