O velho novo, o marginal e a efemeridade das coisas

Gosto de Deus e o diabo. Estou falando do filme de Glauber. Novo, novíssimo. Em 1964. Feito com toda aquela paixão e genialidade que só aos vinte anos se acredita ter. O jovem e revolucionário (perdoando a redundância) baiano enterrava a atual forma de se fazer cinema no Brasil. Enterrava o velho Anselmo Duarte. Onde já se viu “um coroa”, entrado nos 40 anos, ter a petulância de ir a Cannes e ganhar a Palma de Ouro (1962)? Que venha o novo, rompam-se as estruturas, o stabilishment, o statu quo! Pau no Anselmo. Pau no velho. Viva o Cinema Novo.

Mas qualquer um que tenha saído da idade do “eu sei tudo” aprendeu que o novo de hoje é o velho de amanhã.

Gosto de deus e o diabo. Estou falando de Glauber Rocha e de Rogério Sganzerla. Este, o novo novo que peitou aquele, o velho novo. Passados quatro longos anos desde Deus e o diabo…, o pai deste, um velho já chegado aos trinta, estava entre Terra em transe (1967) e O Dragão da maldade… (1969) quando Sganzerla chegou com seu O Bandido da Luz Vermelha (1968). Não tem jeito: o novo sempre vem.

Tirando teóricos, estudiosos, cinéfilos (categoria na qual me incluo) e bichos-grilos, admito que, para todo o restante, deve ser bem chato assistir hoje a um filme de qualquer desses jovens geniais. Outros novos vieram e se foram. Os filmaços de hoje serão um saco amanhã. A não ser que você os dispa – e sobretudo SE dispa – dessa temporalidade obtusa.

A eterna ruptura, a incessante briga entre o velho e o novo é que, se não garante, ao menos permite a evolução. E é impossível, em qualquer área, entender o agora sem conhecer a História. A briga pública e sem meias palavras travada entre o endeusado Glauber e o demonizado Sganzerla, no final da década de 1960 e início da de 1970, é um bom exemplo de tudo isso. E também para entender que um filme não é só um filme (a regra não vale para o cinema americano onde um filme é, quase sempre, só um negócio, um filme ou uma propaganda).

Do alto de seus 21 anos, Sganzerla, querendo “sair da casa dos pais”, se revolta contra o Cinema Novo mas mostra que é cria dele. O Bandido da Luz Vermelha é o ponto de passagem entre o Cinema Novo e o “marginal cafajeste”. A câmera é a mesma de Glauber mas a estética e a ambientação são outras.

O Bandido… é recebido com reservas pelo pessoal do Cinema Novo, que se vê no lugar do pai que vê o ato de rebeldia do filho e esquece que um dia já fez o mesmo. Nele (lembrando que um filme nem sempre é só um filme, nem sempre é só uma expressão artística), Sganzerla diz, pela boca de seus personagens, o que pensa. Pergunta se o “personagem principal” é “um gênio ou uma besta”. Diz que “uma cara assim”, como ele, vindo do interior de Santa Catarina, “só podia avacalhar pra ver o que saia disso tudo”. O recado é direto: “Admito tudo, menos essa laia de parasitas intelectuais”. Já quase no final do filme, a última estocada em forma de notícia: “13 mil fuzileiros navais invadem a Bahia para defender o Brasil”. Era o jovem rebelde contra o estabelecido baiano Glauber Rocha.

No ano seguinte, 1969, Sganzerla lança A mulher de todos, estrelado por Helena Ignez, sua esposa, ex-mulher de Glauber e ex de Júlio Bressane. Helena é Ângela Carne e Osso, “a mulher dos homens boçais”. Sganzerla e Bressane publicam vários artigos e fazem declarações irônicas sobre o Cinema Novo. O ponto alto é uma entrevista de Rogério e Helena a’O Pasquim, em fevereiro de 1970. A turma d’O Pasquim tinha saído da cadeia há pouco tempo. O jornal estava em guarda. Menos crítica política, nada de palavrões, mas todos se coçando para tocar fogo no mundo. A primeira página já diz tudo: “Este número não tem chamada de capa: são os mesmos troços geniais de sempre”. A foto dos entrevistados é também, por si só, extremamente representativa do momento pelo qual passava a publicação e o cinema brasileiro. Na abertura das cinco páginas de conversa, o aviso:

A entrevista de Rogério Sganzerla e de Helena Inês marca a volta das entrevistas esculhambativas d’O Pasquim. Esculhambativas no sentido da linguagem e da esculhambação nos outros. Rogério, um dos caras mais importantes do novo cinema brasileiro, fixa sua posição diante das coisas que estão acontecendo com uma franqueza que só pode ser comparada a de Helena Inês, sua mulher.

O papo começa com uma pergunta direta de Sérgio Cabral e conta com a presença, dentre outros, de um Millôr especialmente cáustico:

Sérgio Cabral – Por que a guerra com o Cinema Novo?
Rogério Sganzerla – Eu sou contra o Cinema Novo porque eu acho que depois dele ter apresentado as melhores ambições e o que tinha de melhor, de 62 a 65, atualmente ele é um movimento de elite, um movimento paternalizador, conservador, de direita. Hoje em dia, como eu estou num processo de vanguarda, eu sou um cineasta de 23 anos, eu estou querendo me ligar às expressões mais autênticas e mais profundas de uma vanguarda e eu acho que o Cinema Novo é exatamente a anti-vanguarda. O Cinema Novo está fazendo hoje exatamente aquilo que em 62 ele negava. O Cinema Novo passou para o outro lado. Como eu estou surgindo há pouco tempo, há exatamente dois anos, eu acho que tenho que romper também com esse condicionamento e partir pra uma outra jogada sem saber exatamente o que seja esta outra jogada, mas, de qualquer maneira, fazendo o que eu acho. Então eu sou um cara em liberdade, o que é um motivo de incômodo e de espanto para a maioria dos meus colegas de cinema, mas de qualquer maneira eu sou uma das poucas pessoas que estou continuando a me manter livre, o que eu acho extremamente difícil no Brasil de hoje. (…)

Lá pelas tantas, o tempo fecha para os lados de Glauber…

Rogério – (…) se tivesse de imitar o Glauber, eu não imitaria o Glauber de hoje do Dragão da Maldade, que é um filme que vocês viram e conhecem, eu imitaria o Glauber de oito anos atrás, quando ele fez Barravento, que é o melhor filme dele. (…) o filme (O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro) é um lixo. É um filme primário, um filme ginasiano, é um filme que agride, mais pela burrice. (…) Ver um cangaceiro com um lenço rosa-shocking só porque o filme é colorido é um troço que me agride fisicamente.
Millôr – Não é proposital a agressão dele?
Rogério – Não, aquilo é cineclubismo estetizante e baiano.

(…)

Rogério – (…) Eu acho que um trabalho deste, de projeção internacional como o Glauber fez, ele lançou trinta caras e quem se projetou com isso foi ele. Eu não sei se foi intencional ou não, mas foi um cara que saiu favorecido com isso.

E por aí vai. Glauber, claro, não deixa barato…

(…) os jovens cineastas Tonacci, Sganzerla, Bressane, Neville e outros de menor talento levantaram-se contra o Cinema Novo, anunciando uma velha novidade: cinema barato, de câmara na mão e idéia na cabeça.
(Arte em Revista)

… e também nas páginas d’O Pasquim, já no final de 1970, aproveitando a realização do ainda jovem e “vanguardista” Festival de Brasília…

Pelo amor de Deus, cronistas, críticos e fofoqueiros: não usem mais o nome de Cinema Novo. Acabou mesmo. Este grilo é caretíssimo. O cinema brasileiro está virando boneca oficial do INC (Instituto Nacional do Cinema) e que ainda não fez seu filminho faça correndo porque daqui a pouco só vai dar mesmo é pra filmar em Super 8.
(O Pasquim, 76, 2 a 8 de dezembro de 1970)

O Brasília Fest foi realmente uma pobreza. Mas, evidentemente por falta de assunto, a imprensa passou semana toda falando de morte do “chamado Cinema Novo” o que me leva a pensar que este grilo é incurável. Escutaqui pessoal: este papo foi destruído em 1968. Repitam: este papo foi destruído em 1968. (…) Cinema marginal, cinema underground, cinema boca do lixo, etc… são variantes antigas da “estética da fome” (…) Seguinte: udegrude, mesmo, na América Latina é o argentino Fernando Ezequiel Solenas, autor de La Hora de los Hornos. O resto é o sanitário de Jonas Mekas e Andy Warhol.
(O Pasquim, 78, 30.12.1970-04.01.1971)

Nesse último artigo, faz ainda, dentre outras, a previsão de que o cinema brasileiro passaria a fazer “filmes industriais coloridos em cinemascope imitando roliude&oropas que vão conquistar o público e implantar definitivamente a indústria da burrice enlatada”.

Polêmicas, desentendimentos, discursos acalorados, brasas puxadas e outras coisas à parte, tudo isso nos faz entender um pouco melhor as fases de nosso cinema. Quanto à eterna discussão sobre “algo estar ultrapassado e bom mesmo é o que está surgindo”, vale citar as palavras do já então ancião e sábio Ferreira Gullar que, perto de completar 40 anos, escrevia n’O Pasquim (três edições após a entrevista de Sganzerla) uma crítica positiva ao filme A mulher de todos e terminava explicando:

Bem, pessoal, o Sganzerla não é nenhum demônio que apareceu para destruir o cinema. É um rapaz de muito talento que dentro de dois anos, no máximo, será considerado, pela novíssima geração, conservador e quadrado. É a vida, meu caro!

É a vida. E o resto é história.

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3 respostas a O velho novo, o marginal e a efemeridade das coisas

  1. joão disse:

    Sandro.
    Você neste post está bem Belchior, talvez pra combinar com um dos reis magros. Olha, acho que o pessoal do cinema marginal não foi superado. As gerações que sucederam ao udigrudi passaram longe da audácia deles. E o nosso cinema atual também passa longe. Há resquícios apenas. E o velho e chato Ferreira Gullar, atualmente conservador, apesar de ser um grande intelectual(reconheço), errou redondamente. O Sganzerla não ficou careta e nem compactou com o sistema. Morreu marginal e se não foi mais genial que naqueles tempos pelo menos não encaretou.
    abraço
    joão

  2. wilson disse:

    Muito bom o seu “post”! 🙂
    O Cinema Brasileiro é um caso sério de muitas batalhas dentro de uma guerra que nunca será vencida. E onde os Egos não admitem uma trégua, ou Paz honrosa. Todas as gerações são donas da verdade(?). 😉
    Novas linguagens, novas abordagens, novo isso, novo aquilo… Tudo experimentação. Tudo mostrando que o Cinema Brasileiro continua “ad aeternum” em transição e ao sabor dos modismos, vistos que as “idéias” duram pouco mais de um ano.
    Diretores discutindo Cinema e dando ênfase a “Eu sou o dono da verdade”, ninguém merece!
    Quem é o melhor? É esse! É aquele!!!… Quem decide o valor da obra é o público. Críticos, intelectuais, minorias, não dão bilheterias.
    O Cinema Brasileiro, parece, que usa a Psicologia, mas não aprendeu a usar a Pedagogia: A linguagem do Cinema deve, sobretudo, ser a linguagem público. Feita essa conexão, por mais “cabeça” que seja o filme, ele será compreensível.
    Uma câmera na cabeça e uma idéia no dedão do pé, lá vai o Cinema Brasileiro – xenófobo e preconceituoso – batalhando nessa guerra do “Eu sou o dono da verdade”, sem pensar na dura realidade do Cinema:

    OS FILMES PASSAM, OS CLÁSSICOS FICAM…

    E, aí, nesse “post”, quem não conhece, poderá ter uma idéia do que foi o cinema novo e o “novíssimo” cinema da década de 60.
    Abração.

  3. Klecius disse:

    Lobão, meu caro, quem assistiu a Documentário, curta-metragem de Rogerio Sganzerla que acompanha os extras do DVD de O Bandido da Luz Vermelha, já imaginava a obra que esse artista daria ao cinema brasileiro. Documentário, de 1966, tem uma ironia fina, inteligente, de matar de inveja os cinestas da atualidade e do passado, a começar pelo título. Antes de O Bandido da Luz Vermelha, Sganzerla já avisava que estava chegando e que vinha para ficar. Glauber Rocha será sempre Glauber Rocha. O gênio de Deus e o Diabo da Terra do Sol e o eterno incompreendido de A Idade da Terra. A propósito, encontrei uma rua em Natal que se chama Rua Cineasta Glauber Rocha. Depois, te envio a foto. Parabéns pelo texto e vida longa à produção brasileira.

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