O galante e sanguinário João Acácio

Ferida, aquele menino de Joinvile, rejeitado por uma garota pela qual se apaixonara, resolveu namorar a morte. Esta já o rondava há tempos. Levara o pai e a mãe quando ele ainda era pequeno.

Na década de 60, já adulto, virou João ou Gaúcho. Começou a roubar, arrombando as portas das residências com um macaco de automóvel, modalidade então nova para a polícia de São Paulo (recentemente reeditada numa rápida visita noturna que fizeram ao Masp). Sem que soubessem de sua identidade, ganhou novo apelido: Homem do Macaco.

Andava com dois revólveres, “um 38, para os ricos; um 32, para a polícia”. Voltou a cortejar a morte em junho de 1967. Deu a ela quatro pessoas de presente. E quase outras sete. A essa altura, já era conhecido como o Bandido da Luz Vermelha.

Em agosto, estava preso. Agora tinha nome e sobrenome: João Acácio Pereira da Costa. Com medo de ser envenenado, só comia o alimento antes provado por alguém na sua frente. Não queria encontrar sua amada desse jeito. Confessou os assassinatos, 77 assaltos, nada negava, tudo falava. Só não queria ser espancado.

Seu desejo é morrer. Se não puder fugir, dará um jeito na vida. Não é homem para ficar preso o resto da existência, depois tem aquela doença. Segundo seu tio e pai de criação, João Pereira, os pulmões de Acácio estão minados pela tuberculose. Não poderá resistir muitos anos na prisão, nem a maus tratos físicos.
(O Cruzeiro, 26 de agosto de 1967)

As previsões falharam. Como a garotinha, a morte também enjeitou Acácio. Foi condenado a 351 anos, nove meses e três dias de prisão. Hoje, 40 anos depois, ainda não nasceu o avô de ninguém que vá conhecer o ano de 2319, quando ele deveria ser solto.

Por força de uma lei de 1985, ninguém poderia passar mais de 30 anos seguidos preso. João Acácio, o Luz Vermelha, bandido mais conhecido da década de 60, cravava mais um marco na história policial e judicial brasileira: foi o primeiro a ser beneficiado pela lei dos 30 anos. Ainda tentaram driblar a ordem, transferi-lo para um manicômio. Mas no dia 23 de agosto de 1997, Acácio estava solto e revivia seus dias de fama.

Um ano antes, dizia que “de briga não vou morrer (…) se me matarem vai ser de bala de ouro”. Continuava apaixonado pela morte. Pouco mais de quatro meses depois, finalmente a encontrou. De bala, mas de uma bem vagabunda, saída da espingarda de um pescador que o acolhera e já não agüentava Acácio assediando as mulheres da casa. Um tiro no peito levou Luz para junto de sua amada há exatos 10 anos.

No ano seguinte à sua prisão, era lançado um filme que viraria marco na história do cinema brasileiro: O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla. Mal entrado na casa dos 20 anos, o diretor, mas do que uma tentativa de se proteger, foi feliz ao avisar logo no início do filme que “qualquer semelhança com fatos reais ou irreais, pessoas vivas, mortas ou imaginárias é mera coincidência”. João Acácio foi o factóide, o símbolo de ruptura vindo do mesmo lugar de Sganzerla (Santa Catarina), que o utilizou como personagem – em boa parte do tempo nem tão principal assim – para contar seu “faroeste sobre o terceiro mundo”.

O bandido da ficção pega emprestado o nome, a estampa, os gostos e algumas vítimas. As “coincidências” param por aí. Quem nunca o viu, não o faça pensando que vai assistir à vida de João Acácio na tela. Veja pela firmeza da direção e como marco inicial de distanciamento em relação ao Cinema Novo (aliás, um papo interessante, que vale um texto e muita discussão – farei isso daqui a alguns dias). O personagem-título dá voz ao jovem cineasta: “Sozinho é ridículo, a gente não pode fazer nada. Meu negócio era o poder. Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba”; “Admito tudo, menos essa laia de parasitas intelectuais”; e por aí vai.

O Bandido da Luz Vermelha acaba de ganhar versão totalmente restaurada, em DVD com vários extras. Rogério Sganzerla pensava em filmá-lo novamente em cores. Falava-se muito sobre à época em que o verdadeiro Luz foi solto. Felizmente ou infelizmente, isso nunca foi concretizado.

Para encerrar, uma curiosidade: Sganzerla morreu há quatro anos, no dia 9 de janeiro, quase na mesma data de João Acácio.

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5 respostas a O galante e sanguinário João Acácio

  1. wilson disse:

    São Paulo manteve viva, até meados dos anos 60, a lenda de Meneghetti – uma mistura de bandido e herói que fascinou e aterrorizou a Cidade.
    Para mim e o resto da “molecada”, Meneghetti era uma história contada, um personagem de gibí. Não havia uma carga de realidade. Era um mito.
    Aí, do nada, aparece O Bandido da Luz Vermelha em toda a sua carga de realidade: Pânico geral, terror, Manchetes perturbadoras nos jornais. O Notícias Populares triplicou as tiragens. Os ataques do Luz eram aleatórios, não visavam uma classe específica. Invadia uma casa e, com todo o respeito, bolinava e “comia” a senhora da casa… Se verdade ou não, não posso dizer… Foi desses comentários que o Luz virou uma espécie de Robin Hood para as massas. Por pouco tempo, claro.
    Não posso afirmar se foi verdade. Não pesquisei. Parece que esteve por aqui, no bairro. Na Av. Paes de Barros.
    Lembro sim, que nessa época começou a aparecer os vigias de residências e grades e portões começaram a subir em suas alturas. Lembro que comentavam, em tom de chacota que mulheres vestiam suas melhores camisolas e “Lingeries”, para o caso do Luz aparecer. Lembro que aqui, na Mooca, quando uma mulher ficava muito nervosa ou era de “maus bofes”, as fofoqueiras de plantão diziam: “Essa daí, mi tá pricisando di umas visita du Luz Vermelha…” Lembro que às portas dos cursos noturnos e das Escolas Normais, formavam-se filas de carros de pais que iam buscar as filhas. Com o Luz, o Mito Meneghetti se foi, mas deixou o Meneghetti real. E o Luz foi virando mito, perdendo as suas características reais e virou lenda… Lenda até que uma nova realidade trazida por um novo meliante o traga de volta à realidade do seu tempo.
    Ave, Mercúrio! Deus dos comerciantes e dos ladrões…

  2. Klecius disse:

    Lobão, em O Globo de hoje (8/1), Helena Ignez anuncia a “continuação” de O Bandido da Luz Vermelha…

  3. Sandro Fortunato disse:

    Seguem os trechos sobre a continuação de O Bandido da Luz Vermelha em A atriz de todos, matéria de André Miranda, capa do Segundo Caderno do jornal O Globo, de 8 de janeiro de 2008.

    Se tudo correr bem e os patrocinadores colaborarem, 2008 será o ano em que “O Bandido da Luz Vermelha”, filme marco do cinema nacional, terá uma continuação. Mais do que isso, será o ano em que simplesmente Helena Ignez, a própria Janete Jane por quem o Bandido se apaixonou, vai produzir a continuação do filme de Rogério Sganzerla, seu companheiro durante 35 anos. (…)

    Hoje, Helena planeja dar continuidade ao maior filme de Sganzerla — e, de certa forma, dar continuidade ao seu amor pelo diretor.

    Ela está captando recursos para rodar “Luz nas trevas — A revolta de Luz Vermelha”, filme que retoma o personagem do Bandido velho e cujo roteiro foi escrito pelo próprio Sganzerla. Daniel Filho foi convidado para viver o Bandido e Selton Mello para interpretar seu filho. A expectativa é que as filmagens comecem ainda em 2008.

    — O filme vai tratar do personagem já velho, bastante carismático. Chamei o Ícaro Martins para dirigir e eu serei a co-diretora, Se tivermos 10% dos seis milhões de espectadores que “O Bandido” fez, serão 600 mil.

  4. José Luiz Pereira disse:

    fui o advogado de Acacio… responsável pela sua liberdade em 1997

    Ele foi usado como instrumento pela ditadura militar que ofereceu proteção e o inventou usa do o talento do facínora… tenho documento que comprova… é só querer… poderemos mudar o história famoso bandido… sou um arquivo dele…pelo li longo tempo de co vivência.

  5. jose luiz pereira disse:

    Convivendo o Acácio, passeia a tomar conhecimento da verdadeira história, na condição de seu advogado, poucos comentários são realmente verdadeiro, sendo público e notório, especificamente sobre o nascimento com o falecimento da genitora logo em seu parto e falecimento do paí aos 8 anos, quando aos cuidados do tio padrasto, Antônio Pereira, sofreu maus tratos quando seu irmão Joaquim Tavares, um ano mais velho, fugiu de casa, quando então Acácio, também fugiu para procura-lo, daí passou por ocasião a viver nas ruas de Joinville. Não querendo me alongar sua chegada a São Paulo foi por volta de 1965, Fugitivo da Cadeia Pública de Joinville, quando foi atingido por um tiro de fuzil. Em São Paulo, só praticava furtos sem emprego de violência, realizados nos jardins durante o fins das madrugadas agia sozinho, escolhia Mansão de Luxo, utilizava macaco retirado dos automóveis ao todo 77 furtos.
    Identificado

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