E a Graúna voou…

Deve ter sido ali por março de 1988, logo após o início das aulas, que três recém ex-alunos do Salesiano São José, de Natal, e então calouros de jornalismo da UFRN, loucos para mudar o mundo como todo jovem que resolve ser jornalista, resolveram “fazer um jornalzinho”. O mais novo deles, um moleque de quinze anos que adorava dar nomes às coisas, sugeriu logo: Graúna. Seria uma homenagem a Henfil, que havia morrido no dia 4 de janeiro daquele ano.

Eu, o tal moleque, tinha Henfil como única referência de chargista e grande sacaneador do sistema. Estava longe de entender toda a complexidade das histórias da turma da caatinga, como eu, nascidos em 1972. Achava engraçado aquele personagem – a Graúna – de traços fáceis assumir tantas expressões e viver perguntando sobre tudo, na maior inocência, para fazer seus interlocutores se tocarem da realidade absurda em que viviam. Assim como um jovem e inexperiente jornalista, que acaba perguntando a coisa certa sem querer. Além disso, a Graúna (não só o pássaro, mas principalmente o personagem) era um símbolo de resistência. Até hoje é figura fácil em campanhas de esquerda, principalmente em ambiente universitário e sindical.

A nossa Graúna nasceu em maio e sobreviveu até dezembro daquele mesmo ano. Cinco toscas e heróicas edições feitas na base da composer, uma máquina de escrever eletrônica que fazia as colunas de texto do tamanho que queríamos para depois serem montadas e transformadas em páginas. Tesoura, cola, estilete, buracos para as fotos… Aquilo foi uma escola e tanto.

Outro motivo para a homenagem era o fato de Henfil ter morado em Natal. Quando ele voltou de Nova Iorque, em 1975, procurava algum lugar mais calmo e o Rio de Janeiro não era esse lugar. No ano seguinte, foi morar na capital do Rio Grande do Norte. Em uma entrevista para a revista Psicologia, em 1981, ele explicou…

Fui pro Rio e não agüentei, porque o Rio era meio caminho andado para Nova Iorque, donde eu estava fugindo. Então eu fui procurar o Nordeste, que dizem que tá atrasado, mas atrasado para se transformar em Nova Iorque. Tá, mas é mais próximo da vida humana, próximo do que deveria ser uma sociedade de homens. Apesar de toda a pobreza, ou talvez por causa dela, o Nordeste ainda é uma espécie de reserva humana. Então eu fui me recuperar lá, fazer uma espécie de humanoterapia.

Em 1991, quando Fernando Bezerra, empresário da construção civil (depois entraria na vida pública e viria a ser senador e ministro), assumiu a presidência da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande Norte – Fiern, fui entrevistá-lo em seu escritório no bairro da Ribeira. Lá, dei de cara com uma enorme foto onde ele aparecia com Henfil em alguma das belas lagoas do RN.

Foi mais ou menos naquela época que comecei a comprar livros, revistas e jornais como um alucinado. Henfil sempre teve um lugar reservado em minhas coleções. Tenho praticamente todos os seus livros (alguns em várias edições), uma coleção e meia de Fradim, tudo que publicou n’ O Pasquim e mais um punhado de recortes com entrevistas e matérias sobre ele.

Quando os ainda Fradinhos nasceram em 1964, junto com a ditadura, estávamos ganhando uma das mais ácidas críticas (política, cultural e social) de nossa história. Em entrevista à revista Veja (28 de abril de 1971), em um momento Flaubert, Henfil assumiria: “O Baixinho sou eu”.

Hoje, ele está em um pedestal merecido mas no qual talvez preferisse não estar. Vou obedecer ao cara. “Eu tenho muito medo dessa reverência toda em torno dele. (…) Tá virando o querido, o bem-amado do sistema”. Palavras dele, em 1981, referindo-se a seu conterrâneo Drummond.

A resistência na qual Henfil militava chegou ao poder. Virou o sistema. Tenho uma curiosidade insana em saber como ele faria sua crítica mordaz nos dias de hoje. Tenho certeza de que não seria um bundão como muito humorista daquela época que hoje está alegre, satisfeito, encostado, escancarando os dentes para as fotos e sem dedicar um traço ao bom combate. Fico imaginando o Baixinho diante de alguma inútil divagação ainda perguntando: “E isso vai resolver a fome do Nordeste?” ou ainda “E isso vai resolver o caos da saúde pública?”.

Vinte anos depois de sua morte, hemofílicos (como Henfil e seus irmãos, Betinho e Chico Mário, todos contaminados pelo HIV em transfusões de sangue em hospitais públicos) continuam enfrentando os mesmo problemas daquela época, inclusive o mais básico de todos: a falta de medicamentos.

Mudaram os governantes, a situação continua a mesma. O traço ferino de Henfil faz falta.

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7 respostas a E a Graúna voou…

  1. JAL disse:

    É isso aí Sandro!
    Nosso Henfil revolucionou nossos neurônios. Lembro que eu ainda era um officeboy de uma empresa na Casa Verde e juntavamos a grana para comprar o Pasquim. Para mim o Henfil era o mais engraçado e, pelo seu humor, comecei a saber das coisas da vida. foi um dos que me inspiraram a querer ser desenhista um dia.
    Ele está aqui vivinho dentro de mim.
    Parabéns pelo texto.

    Abs
    JAL

  2. wilson disse:

    Henfil no Pasquim, Henfil nas tiras dos Jornais, Henfil na televisão… Henfim Henfil!
    “Seu” Henrique Filho tinha muitas caras e, muitas eram zoomórficas. Henfil-graúna é a coisa mais doce e mais crítica que já vi. Ela é o Petrônio das caatingas. Um pássaro leve que, com sua falsa inocência e ingenuidade, quando pisa a consciência dos políticos, pisa como uma pisada de elefante.
    Repito pela milhonésima vez: É rindo que se castiga a moral e os costumes. O humor é o pai da Verdade.
    Existe toda uma antologia dos cartunistas do tempo dele. A diferença é que o Henfil é antológico. Henfil-muitos, Henfil-graúna, Henfil-fradin… Que posso dizer, se tudo já foi dito? Só posso dizer que gostava,gosto e, sempre, gostarei muito.
    E, “chupando a música”, Sonho, com a volta do Henfil e, claro, com tanta gente que partiu…
    Abração!

  3. Neide Pessoa disse:

    “Henriquinho
    rima rica de carinho.
    Henfil,
    rima rica de Brasil” (N.Pessoa)
    20 anos de saudades
    e lembranças…
    Tive o privilégio de ver o “nascimento” dos Fradins,inspirados nos freis dominicanos OP,
    com os quais conviviamos, também, pois frequentadora da Missa dos estudantes.
    Tenho uma preciosidade:
    a dedicatória no livro “Cartas da Mãe”
    o mais perfeito “Ubaldo,o paranóico,
    desenhado enquanto Henriquinho
    comversava e pedia notícias de amigos comuns…
    e a melhor “paranóia” do Ubaldo…
    Henfil, aqui corretamente lembrado.
    Realmente, aqui é o lugar
    para pessoas como Henfil
    Vale ver mais uma vez o curta sobre Henfil, no “Porta Curta”
    Valeu, Sandro!
    Obrigada.
    jorn. Neide Pessoa

  4. Sandro Fortunato disse:

    O curta ao qual NEIDE se refere acima pode ser visto clicando aqui.

  5. joão disse:

    Sandro.
    Vou tentar fazer uma projeção para ver como o Henfil estaria vendo o Brasil hoje. Não creio que ele estaria voltando suas baterias todas contra op PT, que ele ajudou a fundar. Claro que criticaria, mas não seria bobo, não se alistaria na mesma frente que ataca o PT. Esta imprensa que na época do FHC defendia o CPMF e o aumento do IOF. Agora que é o Lula esta mesma imprensa e oposição(PSDB), ataca a CPMF e aumento do IOF. Será que o Henfil estaria na oposição hoje? Claro que não, duvido muito.
    joão
    PS aquela biografia do Denis de Morais é muito fraca hem? O cara cozinhou coisas que todo mundo já sabia. Nâo fez uma boa pesquisa. Uma das piores biografias que já li. Posso falar isto pelo seguinte, sabia muito da vida do Henfil pois tenho quase tudo que publicou. Assim, nada ali me trouxe nada de novo. Esperava coisas novas mas não trouxe, só “novidades”que eu já conhecia. Pro leitor comum pode ter sido bom, lmas para mim não trouxe nada de novo. A parte gráfica então é chatissima.

  6. ana lucia lima disse:

    a biografia do henfil escrita pelo denis de moraes é ótima! recomendo!

  7. Eliakin disse:

    concordo com voceis,pessoal.Henfil é sem dúvida um referencial quando o asunto era a exposiçao da verdade.através de graúna entendemos que ainda existe dois “Brasis”.valeu pelo texto.Henfil é e sempre será 10!!!

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