As loucas de Fellini e os outros eus

Em algum final de semana de 1987, trancado em um quarto para mais uma longa sessão de filmes no aparelho de vídeo que acabara de ganhar, conheci Federico Fellini. Até então, ele estava somente nas páginas das revistas de cinema e era, para mim, um italiano cultuado e que deveria ser visto por qualquer um que se pretendesse cinéfilo.

Amarcord, eu me lembro, foi meu primeiro Fellini. Naquele tempo, eram poucas as “fitas seladas”. As cópias não eram originais e só uma ou outra locadora se dava ao capricho de escrever cinco linhas sobre a história e informar diretor e principais nomes do elenco. Mas havia os cartazes. Aquele com o desenho de um navio e vários personagens caricaturados trazendo, no alto, o nome do filme – uma palavra que me parecia sem sentido – me chamava atenção. Eu me lembro: Amarcord.

Finalmente eu entendia que era possível projetar o sonho de alguém para fora de sua mente e mostrá-lo a outras pessoas. E nestes mais de 110 anos de cinema, ninguém fez isso melhor que Federico Fellini. Nem toda a evolução dos efeitos especiais dos dias de hoje, capazes de dar vida a qualquer pensamento, conseguem o milagre do grande mentiroso. O fantástico nunca precisou de recursos adicionais em Fellini. E nem tinha nele sua mais perfeita representação. Era tão somente sua projeção através de uma película.

Desenho, música, teatro… várias artes convergindo para a sétima. Uma obra mágica. A contribuição genial e sensível de um artista completo, de um mentiroso que fazia da vida o que ele imaginava e não a rudeza limitada pelas amarras da realidade.

Logo depois, eu veria o então recente Ginger e Fred, estrelado por dois de seus grandes amores; Giulietta Masina e Marcello Mastroianni. A mulher de sua vida e o homem que várias vezes representou o próprio diretor em seus filmes.

Nos anos seguintes, aqui e ali nos encontraríamos de novo, até que em 2003, assisti o documentário Eu sou um grande mentiroso, no gigantesco Cine Brasília, junto a um público de… seis ou sete pessoas! Não é de se admirar. Em geral, os cultos aos grandes gênios do cinema são realizados no recesso dos cineclubes, das pequenas mostras e para alguns poucos bichos-grilos que se dispõem a ir a uma sala com as chamadas “sessões de arte”.

Foi quando me senti menos culpado em relação a Fellini. Até então, era mesmo difícil conseguir um filme seu aqui no Brasil. Naquele ano, dez anos após sua morte, o mundo real começou a se reaproximar do mundo de sonhos de Fellini. Na Itália, a Fundação Fellini, presidida por sua irmã, Maddalena, e pelos cineastas Ettore Scola e Woody Allen, inaugura o Museu Fellini. No Brasil, ganhamos a exposição Circo Fellini, que passou por Rio, São Paulo e Brasília.

Circo Fellini, que tive a oportunidade de vivenciar em julho de 2005, em Brasília, era composta de seis ambientes. O visitante era recebido por marionetes, que representavam personagens dos filmes, em um jogo de luz e sombra, e que levavam imediatamente ao ambiente lúdico do cineasta. Em seguida, passava-se a uma tenda com 23 cartazes de seus filmes. Na tenda seguinte, 40 desenhos feitos por Fellini acompanhados de 40 fotos de bastidores, mostrando como a idéia nascia no papel e tomava vida. Em outra área, fotos das atrizes, atores, roteiristas, diretores e outros colaboradores de Fellini. No quinto ambiente, livros, roteiros, quadrinhos e objetos pessoais. Tudo isso,embalado pelas maravilhosas e premiadas músicas que Nino Rotta compôs para os filmes de Fellini.

Tudo levava a uma sala de vídeo, na qual foram exibidos vários filmes de Fellini, alguns dos quais ainda não lançados em DVD no Brasil, além de entrevistas e documentários. Imagine visitar essa exposição, todos os dias durante duas semanas, para poder assistir As noites de Cabíria, La Dolce Vita, As tentações do Dr. Antônio, 8 ½, Julieta dos Espíritos, Toby Dammit, Satyricon, I Clowns, Roma, Amarcord, Casanova, Ensaio de orquestra, A cidade das mulheres, E la nave va, Ginger e Fred

Tive a oportunidade de corrigir terríveis falhas em minha educação, principalmente em relação a La Dolce Vita. O cartaz mais conhecido deste filme é uma dessas imagens que entraram para o inconsciente coletivo. Parece ser de um filme que todo mundo viu mesmo sem ter visto. Como alguns versos de Drummond que todos repetem sem jamais ter lido o poema inteiro. Gostaria de falar sobre a beleza de Anita Ekberg e a antológica cena na Fontana di Trevi, mas serei obrigado a falar de seu parceiro, Marcello Mastroianni, ou melhor, de seu personagem, o jornalista Marcello Rubini.

Jornalista de um periódico de escândalos, Marcello espera tornar-se, um dia, um escritor sério. Nesse meio tempo, encontra-se completamente imerso na dolce vita romana, entre uma aventura sentimental com uma aristocrata sempre em busca de novas emoções (Anouk Aimée como Maddalena), a tentativa de suicídio de uma companheira que o sufoca com seu ciúme (Yvonne Furneaux como Emma) e um flerte sem maiores conseqüências com uma célebre diva do cinema (Anita Ekberg como Sylvia). Após o contato com a família de Steiner, um refinado intelectual, Marcello acreditar ter encontrado um tipo de vida ideal.

Contar mais que isso, seria estragar o filme para quem ainda não o viu.

Apesar de todas as diferenças, mantidas as dimensões de cada história, partilhei e me identifiquei profundamente com a trajetória de Marcello.

A busca da existência ideal, o encantamento com o que há de mais ilusório, o desconhecimento e a negação de sua história pregressa… eu me vi em cada momento de sua vida. E vi muitos conhecidos no mesmo caminho. Só não pretendo comungar com o final. As metáforas de Fellini podem até ser poéticas, mas com a conhecida delicatezza à italiana. Nem eu, sempre acompanhado de minha majestosa estupidez, seria capaz de deixar passar o recado de Fellini a respeito dessa doce vida.

Foi o primeiro dos filmes que assisti durante a mostra e, a partir dele, todos os dias, religiosamente, fui àquela sala me conhecer melhor. Tenho o privilégio de dizer que Fellini foi meu psicanalista. No dia seguinte, assistindo o episódio As tentações do Dr. Antonio, comecei a me perguntar sobre minhas próprias alucinações, meus parâmetros de moralidade, sobre meus desejos irrealizados e que tipo de monstros poderiam ter criado dentro de mim. E se eu já achava Anita Ekberg umas das mulheres mais lindas, sensuais e voluptuosas de toda a História do Cinema, o que dizer depois de vê-la do tamanho de um prédio? Para mim, essa imagem representa os leões não alimentados com os quais convivo. Cada vez que me dou conta de que em meu interior habita um desejo desconhecido e reprimido, lembro daqueles seios gigantes e ouço a música se repetindo e fazendo pouco de mim: Bevete più latte, il latte fa bene

Em 8 ½, minha terceira sessão consecutiva de psicanálise felliniana, já estava convencido de que nada sabia de mim mesmo e que deveria ir até o final, até ouvir A voz da Lua, para entender algo sobre mim e sobre Fellini. Com 8 ½, perdi qualquer temor que pudesse ter em relação a escrever, algo que faço profissionalmente há quase vinte anos. Eu deveria escrever e escrever e escrever com todos os medos e todas as idéias e sem saber qual seria o final ou onde aquilo poderia dar. Dei-me conta de ser uma obra incompleta, imperfeita e com necessidade de ser vivida. Início, meio e fim, um texto com sentido, boa pontuação… nada mais importava. Somente quando já não conseguia mais diferenciar se estava escrevendo sobre algo que vivi ou se estava inventando, passei a viver o momento do próprio texto, a vida que há nele, a história que surge e se modifica a cada palavra.

Foi ainda em 8 ½ e com confirmação em seu filme seguinte, Julieta dos Espíritos, que as personagens femininas começaram a chamar ainda mais a minha atenção, em especial, as vividos por Sandra Milo. A voz, o sorriso e o olhar de Sandra Milo são capazes de dispensar toda a lascívia do seu rebolado. Milo sempre entra em cena para mostrar a superioridade da mulher e sua capacidade de fazer do homem um simples joguete. Homem nenhum tem domínio de seu próprio destino diante dela. E em Julieta dos Espíritos, estrelado por Giulietta Masina, esposa de Fellini, fica patente que a vida do diretor é o cinema. Não há distinção entre realidade e ficção. Não se sabe onde acaba uma e começa outra. Fellini se auto-analisa na frente dos espectadores. Julieta é vivida por sua esposa, que tem o mesmo nome. A personagem é uma mulher que após descobrir a traição do marido passa a viver uma vida liberta dos fantasmas que a torturavam. Julieta é uma figura recatada, simples, devotada ao marido, totalmente diferente da personagem de Sandra Milo. Uma é a nora sonhada pela mãe italiana; a outra, a mulher desejada pelo homem italiano. Seria assim na vida real? Fellini, o marido, tentado pelas belas mulheres do cinema? Ou seria Fellini a própria Julieta, preso em suas convicções morais e louco para sentir-se livre? A sublimação viria pela arte?

Mas é com as loucas de Fellini que mais me identifico. Elas não são lindas e nem estão dentro dos padrões da mulher sensual. Elas vivem seus desejos sem medida, sem moral, sem qualquer limite. São vibrantes, espontâneas, instintivas, anárquicas e, por tudo isso, as mais próximas ao mundo real. São as loucas de Fellini, a ponte entre o real e o imaginário.

Em seu desconhecimento de uma moral ou vivenciando uma moral própria e única, elas não se colocam para além do Bem e do Mal. Elas estão sempre à margem e, até por isso, podem passar despercebidas pelo espectador comum. Perceba os olhares de Volpina em Amarcord e da flautista em Ensaio de Orquestra. Perceba o que dizem suas línguas quando não falam nada, mas apenas saem da boca em busca do que desejam. Perceba o que seus corpos magros dizem. Perceba do que são capazes.

As loucas de Fellini superam seu alter ego, Mastroianni. Elas sempre estão lá dizendo “eu sou assim! eu sou assim!”. Da próxima vez em que você assistir um filme do diretor italiano, preste atenção na louca que estiver nele. Talvez ela seja a chave para entender a busca de Fellini pela verdade através da mentira.

Originalmente publicado no caderno Augusto,
do
Jornal da Paraíba, em 22 de janeiro de 2006

Esta entrada foi publicada em Artigo, Cinema. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *