Tragédia em noite de ópera

Wagner perdeu sobre o palco e fora dele também. Nos camarotes, alguns de seus admiradores mostraram um comportamento irresponsável, para dizer o mínimo. Logo no início de A Cavalgada das Valquírias, uma bomba foi jogada por um torcedor Wagneriano na direção dos admiradores de Mozart. Depois foram mais seis. Mozartianos, apesar do domínio em palco, mandaram duas bombas na torcida rival. Nas duas torcidas, crianças, mulheres e idosos e os demais espectadores que saíram de casa para se divertir assistiam, chocados, à violência.

Das sete bombas jogadas por torcedores Wagnerianos, duas foram lançadas no intervalo entre as duas primeiras árias. A essa altura, o gás de pimenta jogado pela polícia chegava a quem nada tinha a ver com a confusão.

As duas torcidas estavam a 30 metros de distância uma da outra, protegidas por um cordão de isolamento policial. No meio delas, ainda havia uma grade. O que também impressionou foi que alguns Wagnerianos gritavam frases provocativas e de mau gosto, como “eus, eus, eus, dominamos o Amadeus” ou “ã, ã, ã, Jovem-Wagner é talibã”. Além das bombas, houve confronto entre as facções que jogavam objetos como sapatos italianos, cartolas e o que encontravam à mão.

A Polícia Militar não conseguiu impedir a entrada das pequenas bombas no teatro. Admiradores de Mozart pegaram bengalas, para usar como arma. A polícia interveio, e um de seus cachorros acabou mordendo um dos soldados. Como o teatro não estava lotado, as duas facções poderiam estar mais afastadas uma da outra do que os 30 metros determinados pela Polícia Militar.

O Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil atenderam 15 feridos durante a ópera. Dois casos foram considerados graves e encaminhados ao hospital Souza Aguiar: um torcedor apresentou queimaduras e lesão de tímpano e o outro sofreu ferimentos nos braços.

Antes do início da ópera, houve registros de tumultos envolvendo os admiradores de Wagner e Mozart na cidade. Na Avenida Brasil, sentido Centro, a polícia recebeu informações de Limusines e Mercedes depredadas, arrastão e brigas entre as facções.

Também antes da ópera, cerca de 700 admiradores de Wagner partiram da estátua de Carlos Gomes, na parte externa do Theatro Municipal, até o Cine Odeon.

Na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Evaristo da Veiga, houve princípio de confusão porque o grupo Wagneriano teria encontrado admiradores de Mozart, mas a situação foi controlada pelos policiais militares. Apesar do clima tenso antes da ópera, não houve confronto durante o percurso.

Um pouco mais distante, na saída do jogo entre Vasco e Flamengo, no Maracanã, torcedores dos times ficaram sabendo dos conflitos no Theatro Municipal. Todos os entrevistados foram unânimes em dizer que a violência nas óperas precisa acabar. “Esses selvagens deveriam ser impedidos de ir ao teatro”, disse um torcedor do Flamengo. Um amigo seu, vascaíno, completou: “Pessoas assim não deveriam viver em sociedade”.

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Texto sobre matéria de Paula Santos Dias e Pedro Motta Gueiros
no jornal O Globo de 23 de outubro de 2005.
Foto: O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel.

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