Onde já se viu sair para caminhar, logo cedo, carregando máquinas fotográficas, livro, caderno…? Quem já me viu sentado em um banco de praça, às seis e pouco da manhã, garrancheando em um caderno?
Estou na pracinha da filial (!) da Igreja de São Pedro, na Praia da Pitória, em São Pedro da Aldeia (RJ). Atrás de mim, a pequena igreja; do lado direito, uma construção de quatro andares abandonada há anos; à esquerda, um campinho de futebol de areia cercado por grades. Elas não existiam quando estive aqui da última vez.
Alguns pescadores já partiram, cães fazem sua caminhada matinal assim como alguns humanos. Estes talvez estejam buscando o “padrão carioca” de boa forma. Ficam de lá pra cá e de cá pra lá no calçadinho da Pitória. Alguns caminham pela areia “para forçar mais”. Há quem se arrisque a entra na lagoa. Deve estar um gelo! Mas está bem mais limpa. Há dois anos, lembro, o cheiro era insuportável.
São Pedro da Aldeia guarda características de vila de pescadores, mas tem também traços marcantes da proximidade com a cidade grande: sujeira, barulho, abandono… Até as pessoas já não se cumprimentam. Olhem desconfiadas quem vem na direção contrária e desviam o olhar quando se percebem flagradas. Uma ou outra ainda é educada. “Bom dia!” “Bom dia!”
Para mim, parece tão estranho quanto olhar “para o mar” e não ver o sol nascendo. Na verdade, estou olhando para a lagoa e, do ponto onde estou, o sol nasce “por detrás da cidade”. A lagoa vai se iluminando timidamente, a água vai misturando tons de azul-cinza e alaranjados. Os barcos vão ganhando cores.
Há andorinhas, gaivotas e garças. Pelo menos é o que minha ignorância diz. Os bem-te-vis eu garanto. Só ouço e são inconfundíveis.
Percebendo toda a calma ao redor, tenho vontade de nem pensar. Isso sim deve ser meditar de verdade: ausência de pensamento. Chego lá. Com minha mente perturbada – e nem é da mais, garanto! –, sinto vontade me afastar um pouco, sentar à beira de um trapiche e ler algo. E o pensamento já foge para daqui a alguns minutos quando estarei “revelando” as fotos no computador e tentando entender minha própria letra para blogar isso.
Se eu sumir por esses dias, não se preocupem. Devo ter aprendido a viver. Ao menos estarei tentando.
Uma trégua. Melhor chamar assim. Fui, me diverti, fiquei um pouco mais, me vi sem pressa para isto ou aquilo e, sobretudo, para sair correndo. Ainda há coisas que me incomodam e que só um milagre mudaria. O barulho, a sujeira, a decadência de grandes áreas, os bairros fantasmas, a pouca cordialidade… Mas algo essencial mudou para que eu pudesse ver tudo isso de outra forma: a minha tolerância.
O encontro com os amigos de infância, o reconhecimento ou a reapresentação de certos lugares, a constatação de uma ou outra coisa boa ainda está por ali, mesmo que ninguém perceba, que não dê valor a ela.
Pela primeira vez considerei tirar o Rio da última posição dentre os lugares que voltaria a morar. E não colocaria outro lá. É claro que há lugares com os quais você tem maior identificação, maior afinidade, mas se eu estiver aberto e devidamente preparado, posso melhorar qualquer um onde resolva estar.
Em vez de esperar ou cobrar mudanças, mudo eu. Bem mais rápido e com resultados fáceis de perceber.
O Rio decadente não era só o do mundo real. Existia também dentro de mim e assim eu contribuía para sua destruição. Parecia-me cada vez mais feio a cada encontro. Agora não. Agora parece mais com algo com o qual não devo me impacientar.
Começamos a nos entender. Da próxima, ainda menos pressa. Vamos nos permitir.
Cinco da manhã. O Rio dorme. Essa é uma das impressões que tenho de “minha terra”: o Rio sabe dormir, sabe relaxar. As aspas ficam por conta de eu não me sentir enraizado a lugar algum, nem mesmo a este onde nasci e cresci. Sou do mundo. Este retorno e os acontecimentos das últimas 24 horas deixaram isso bem claro, intensificando ainda mais essa sensação.
Flashback. Há 24 horas, eu estava dentro do avião deixando Natal. Vinha adiando isso desde o final do ano passado. De repente, em 48 horas, recebo um chamado para renascer – e não estou falando da igreja – como veremos adiante. O pessoal do De Lá Pra Cá, programa da TV Brasil, me convoca para falar sobre O Amigo da Onça. Chico Caruso, Jaguar, Paulo Betti, Marco Antônio Souza (autor de Prazer e Poder do Amigo da Onça) são os outros convidados. E o que tenho a ver com isso? Estou escrevendo a biografia de Carlos Estevão, que desenhou o Amigo por mais de dez anos. Despenco-me de Natal ao Rio, deixando momentaneamente de lado e atropelando alguns planos que vinham sendo pensados e calculados há meses.
Voo tranquilo até Salvador, onde, às 7 da manhã, embarcam 46 hienas – aquele espécime que anda em bando, fede, faz barulho e ri o tempo todo. Há quem chame de “adolescente”. Adeus, descanso. Adeus, leitura. Adeus, paz. São 46 jovens, de 14 e 15 anos, de um colégio particular da capital baiana, em excursão à Argentina. Nenhum negro. O dinheiro ainda corre mais fácil entre os mais claros, mesmo na capital mais negra do país. Não creio, mas gostaria de viver o suficiente para ver um mundo mais equilibrado, mais justo, menos discriminatório.
Chego ao Rio exatamente na hora prevista: 9h10. No Galeão, alguém da produção da TV Brasil me espera com uma plaquinha: Sandro Fortunado. Nunca conheci alguém com esse nome. Nem mesmo Afortunado, que é a palavra em português, mas trocam constantemente. É isso ou Furtado. Levo na boa. Do contrário, somente eu perderia. Só não perdoo quando o erro é cometido por algum conhecido. È Fortunato, cazzo!
Sigo para a TV Brasil, que fica na Lapa. Sempre achei o caminho do Galeão para o centro algo terrível. Não é o Rio que o turista vê nas fotos. É feio, sujo, poluído em todos os sentidos. Talvez isso seja bom para chocar aquele que chega pela primeira vez. Um “bem-vindo ao mundo real”. Já na redação, me entretenho com o redivivo laptop, enquanto aguardo a hora de encontrar a equipe, que está em externa com Chico Caruso. Vou tuitando, avisando aos de Natal que fui, aos do Rio que cheguei, aos outros que um dia eu dei chegar lá.
Perto do meio-dia, tudo estranhamente acontecendo na hora (os cariocas andam britânicos!) e me deixando muito feliz por isso, sigo para a Praça Paris, uma escolha inspirada de José Araripe Jr., diretor do De Lá Pra Cá, figura muito simpática, tipo “bom carioca”, para gravarmos minha participação no programa. A Praça Paris nasceu na mesma época da revista O Cruzeiro, na segunda metade da década de 1920. A estatuária que há somente nela renderia um livro. Pelas praças vizinhas e pela Cinelândia, vamos encontrar a maior coleção estatuária a céu aberto do Rio, talvez do país. A maioria francesa. Monumentos grandiosos, busto a rodo. Conheço Sara Vinhal, responsável pela pesquisa do programa, que fez o contato inicial comigo, e Vera Barroso, ágil, prática, espirituosa e ainda mais bonita pessoalmente. A chuva parece querer atrapalhar, mas logo vai embora e gravamos de primeira. Espero que algo seja aproveitado. O programa vai ao ar na próxima segunda, dia 29, às 22h, na TV Brasil.
Em seguida, me deixam em Botafogo. Eu ainda de mala e cuia, me sentindo um retirante cibernético, cheio de quinquilharias eletrônicas na mochila e com uma bagagem de mão com roupas e livros. Fico no Edifício Argentina e me aboleto em um café para dar conta, no mundo virtual, de que a missão na Matrix está concluída. As 48 horas seguintes, em tese, seriam de férias. Ligo para André Corrêa, neto de Carlos Estevão, que mui gentilmente me instala em seu apartamento, um pouco mais adiante. Banho, roupa limpa, Internet. Mas o que quero mesmo é dormir um pouco, algo que quase não tenho feito nas últimas semanas. O cansaço, a temperatura perto de 20 graus (e caindo), a chuva e a sensação de dever cumprido acabam me derrubando. Fico sabendo da morte da pantera Farrah Fawcett, a primeira lembrança que tenho de uma loira, mas deixo para digerir mais tarde. Capoto ao lado do computador e acordo duas horas depois com a Internet fervendo e o Twitter bombando com o morreu-não-morreu do Michael Jackson. O mundo parou. Você sempre lembrará onde estava e o que estava fazendo quando Michael Jackson morreu. Eu estava no escritório do apartamento de André, em Botafogo, no Rio, acompanhando pela Internet as pessoas ao redor do mundo alucinando com a notícia.
Michael morria e eu renascia. Foram nove meses em Natal até receber o chamado para nascer outra vez no Rio. Nunca incluo a cidade em meus planos. A imensa São Paulo é minha amante mais querida e alguma pequena e pacata cidadezinha que talvez eu ainda nem conheça é a esposa amável e tranqüila com a qual sonho em passar o resto de minha vida. Mas a vida é voluntariosa, depois de mais uma gestação, quis que eu nascesse outra vez no Rio.
Seis e doze. Preguiçosamente o dia começa a nascer. Um ou outro caminhão alerta que é preciso acordar, cariocas. Está na hora daquela chuveirada matinal com água suficiente para lavar Copacabana inteira, da fúria do esfregaço, do “não tem jeito mermo, mas ainda bem que hoje é sexta”.
Agora pela manhã, vou fazer umas fotos com a ceguinha (minha pobre câmera) pelos arredores. No início da tarde, me desloco para o Grande Méier e me encontro com amigos de infância. À noite, parte da turma do ginásio se encontra.
Eu poderia tá navegano! Eu poderia tá tuitano! Eu poderia tá dormino! Mas eu estou aqui blogando e pedindo seu voto em uma das fotos acima, feitas por mim, que estão participando da Campanha África em Nós, promovida pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.
Em novembro de 2009, Mês da Consciência Negra, uma comissão liderada pelo premiado fotógrafo brasileiro Walter Firmo escolherá as 100 melhores fotos, que serão publicadas em um livro e integrarão uma exposição.
No entanto, todo visitante pode ir ao site www.africaemnos.com.br e votar em suas imagens preferidas. O processo é muito simples. Assim que entrar, você verá um baobá repleto de fotos. Passando o cursor sobre elas, você poderá ver o nome do autor de cada uma. Clique para ampliar. O restante é ainda mais fácil. Clique em votar. Uma caixinha para que você digite seu e-mail será aberta. Digite-o e clique em Enviar. Agora é só abrir a mensagem que foi enviada ao e-mail fornecido e clicar no link de confirmação do voto. É mais rápido do que os segundos que você gastou para ler este parágrafo.
E se todo mundo for legal e votar, poderemos sempre ver as três – ou pelo menos uma delas – na seção As mais votadas.
O prêmio é a participação. E eu divido, desde já, esse momento de consciência e amizade com cada um que der seu votinho. Obrigado.
Independente de sua idade, leitor, os “cemitérios clássicos” – com túmulos, lápides, etc – já não eram novidade quando você nasceu. No entanto, em termos históricos, eles são bem novos, principalmente aqui no Brasil. Eles começaram a surgir na metade do século XIX, portanto, há pouco mais de 150 anos. Na década de 1970, esse modelo começou a ser deixado de lado (estou falando sempre do Brasil). Surgiram fornos crematórios e cemitérios-parques. Portanto, os grandes “cemitérios clássicos” nasceram por volta de 1850 e se desenvolveram por aproximadamente 120 anos. Como sempre costumo lembrar, são museus a céu aberto.
Temos cemitérios mais antigos, criados no início do século XIX. São cemitérios ingleses. Por que ingleses? Por que vieram antes? Com predominância católica, antes de termos cemitérios públicos, o costume era enterrar os corpos nas igrejas – dentro ou ao redor delas. Os ingleses, anglicanos ou de outra corrente protestante, construíram seus próprios cemitérios. Na década de 1830, havia também cemitérios de escravos. Somente no início da segunda metade do século XIX começamos a ter cemitérios públicos. Em 1856, o ano da cólera, foi definitivo para a criação de vários para que o monte de cadáveres tivesse lugar de descanso. O Cemitério do Alecrim, em Natal (RN), é deste ano.
Em Acta Diurna de 17 de outubro de 1942, Câmara Cascudo fala da primeira lápide e do primeiro mármore do Cemitério do Alecrim. A respeito do último, diz o seguinte:
O mais antigo, o primeiro túmulo de mármore que se erigiu no Cemitério do Alecrim, é o terceiro, à esquerda de quem entra. Representa uma mulher grega, em atitude de meditação e de cisma, olhando uma urna, a urna bem clássica que devia conter as cinzas. É o túmulo de Manuel Gabriel de Carvalho, falecido em Natal no ano de 1872. Veio de Portugal já pronto. A construção do sepulcro foi feita pelo arquiteto Frederico Skinner (…) Seu túmulo é um dos mais bonitos pela simplicidade, nitidez e perfeição. No meio de tanta vaidade em pedra e mármore, em cimento e tijolo, ressalta a linha pura d’aquela figura grega, pensativa e concentrada. Se não estivesse pensando, desde 1872, na morte de Manuel Gabriel de Carvalho, diria eu que ela, sendo grega e sábia, lamentaria, silenciosamente, a existência de tanta inutilidade com que o orgulho dos Vivos enfeita a modéstia dos Mortos…
Sessenta e sete anos depois da crônica de Cascudo, 137 após a construção do túmulo, onde está a mulher grega? Creio que tenha sido roubada. Pela descrição de Cascudo, a figura devia ficar na parte superior da construção. Essa parte de cima, pesadíssima, foi arrancada e, até poucos dias, quando estive lá, estava no chão por detrás do túmulo. Bem no meio, percebe-se que uma parte foi quebrada. O mármore resiste ao sol, ao vento, às chuvas, mas não ao homem.
No mesmo dia em que vi isso, andei um pouco pelo cemitério e vi vários outros túmulos, mais simples, se desmanchando devido às recentes chuvas. Esse é o destino de muitos cemitérios públicos: o abandono, o desmoronamento, o roubo. Totalmente desprovidos de administração, estão fadados a desaparecer. Com túmulos perpétuos, pertencentes a famílias que os compraram há décadas, sem qualquer espaço há muitos anos, não dão qualquer lucro. Só uma administração compromissada com a História e com alguma consideração às pessoas que ali foram enterradas e a seus familiares se mexeria para fazer alguma coisa. Administrações inteligentes, em outros lugares – alguns aqui no Brasil –, já despertaram para o potencial turístico que esses centros históricos e culturais possuem.
Se isso não acontecer, o destino do Cemitério do Alecrim e de outros museus desse tipo é a pior das mortes: a da nossa própria memória.
Propaganda dos anos 1950 em O Cruzeiro
Começou o “aquecimento” para as propagandas dos anos 1950. Até o final de junho, cerca de 50 anúncios da década serão disponibilizados na seção Propaganda no site de O Cruzeiro. As atualizações serão sempre às segundas (15, 22 e 29 de junho), mas todo dia tem um anúncio no blog. E por falar em…
Memória Viva
Em julho, teremos uma nova versão do Memória Viva que poderá ser chamado de Portal com “P” maiúsculo. Como o responsável pela execução do super-ultgra-mega-power projeto de administração ainda está fazendo segredo, também não vou dizer quem é (sim, é ele!). Falando nisso…
Nosso amigo, o livro
Recomendo a leitura desse texto no Blog do Cascudo. Você gostaria de uns bons livros como passatempo? Que tal tempo para passar livros? Um texto de 1948, atualíssimo e assustador, como quando é dito que “ainda é o livro o elemento menos encontrado nas residências”. Por falar em livro…
Empalamento em livro didático infantil
No Rio, depois de três anos, uma gravura de Theodor de Bry mostrando uma cena de empalamento em uma “tribo selvagem” publicada nos livros didáticos do 4º ano fundamental é a bola da vez da imprensa caçadora de bruxas. Pergunto: Durante todo o processo, desde a pesquisa, passando pela edição, impressão, aprovação, escolha e compra do livro pelo poder público, não há uma única pessoa capaz de avaliar o que é ideal ou não para mostrar a crianças de determinada faixa etária? Falando em memória, Cascudo e morte…
O primeiro mármore
No próximo texto, aqui no Sempre Algo a Dizer, falarei sobre o primeiro túmulo de mármore do Cemitério do Alecrim (Natal – RN). Construído em 1872, foi comentado por Cascudo numa Acta Diurna em 1942. Ainda existe? Como está? Vou mostrar.
No meu tempo de universitário, participei de passeatas e manifestações. Isso foi nos anos 80, quando ainda sentíamos o cheiro da ditadura e nossos professores haviam sofrido diretamente com ela. Lutávamos pelo direto de nos expressarmos, não para nos tornarmos outra ditadura, não para que fôssemos os ditadores da vez. Mesmo que às vezes acreditássemos ser necessário gritar, buscávamos o diálogo. Éramos idealistas (ainda sou) e abestalhados (idem) como grande parte dos jovens, mas não lembro de nenhum, dentre nós, afrontando e humilhando uma autoridade ou um servidor público que estivesse cumprindo sua função. Muito menos um que tivesse uma turma grande, mais forte e armada. Isso você só faz por dois motivos: se tem total convicção do que está defendendo ou se é burro. Muitas vezes por ambos. Sou completamente contra a violência e se discordo de algo que está dentro da Lei, o que tenho a fazer é procurar mudá-la, elegendo representantes e legisladores comprometidos com minhas ideias, cobrá-los para que lutem por elas, etc. Isso demora e pode não dar certo. Caso não dê, o jeito é adequar-me à regra ou procurar um lugar que tenha regras com as quais eu concorde.
No caso da USP, não vi universitários intelectualmente privilegiados e incontestavelmente cheios de razão lutarem por seus ideais. Vi um monte de babuínos gritando e seguindo outros que gritaram antes. Como estavam em maior número, se acharam muito corajosos para mexer com uns gorilas que estavam por lá. Quando a turma dos gorilas chegou, os babuínos se transformaram em saguis saltando para todos os lados. No dia seguinte, a tropa de choque talibã entrou em ação. A minha ainda querida Caros Amigos tascou em seu site uma matéria intitulada PM transforma USP em praça de guerra. Pelo meu entendimento, para haver guerra é necessário que haja, pelo menos, dois grupos se agredindo. Se um só agride, é massacre. Acho que seria mais honesto e menos parcial dizer Estudantes e PM transformaram USP em praça de guerra. No Twitter, a garotada, defendendo “seus iguais”, não sustentava argumento em 140 caracteres. Não raro se lia algo do tipo “sem entrar no mérito de quem começou (…)”. Como assim? Só tem culpa quem bateu? O que mexeu com a onça é santo?
Parece que a garotada de hoje, extremamente alienada, não entendeu que revolução é coisa para gente grande. Se você está convicto daquilo que está defendendo, se é senhor de sua razão, se chamou alguém “para cair dentro”, vá até o final. Apanhe da polícia, sangre, se quebre, seja preso, morra, tenha seu corpo levantado pelos colegas, seja velado em praça pública. Estúpida, violenta, grosseira e até errada, a polícia está cumprindo o papel dela. E os manifestantes estão cumprindo o seu? Eu vi um monte de filhinho de papai com suas câmeras afrontando covardemente quatro pessoas e depois, também covardemente, correndo para a barra da saia da mamãe e se fiando que a imprensa – também cada vez mais alienada e parcial – fosse sair em sua defesa.
Chamou para dentro, encara. Não se começa uma guerra contando com que seu inimigo não vá lhe bater forte. Você tem que ir com a certeza de que vai morrer. Essa é a única maneira de talvez sobreviver. Se você não tem esse instinto nem consciência do perigo, procure os meios legais, civilizados, diplomáticos. Ou estão pensando que a vida é filme americano onde o mocinho enfrenta e vence um exército inteiro? Com celular e camerazinha digital não dá para encarar bomba e revólver. Resolvam: querem ser bobos ou revolucionários? Revolução de verdade tem sangue e morte. O resto é filme e clichê. Estão a fim de pagar o preço? Hasta la victoria siempre ou hasta la Victoria Secret? .
Cliche Guevara é estampa exclusiva da antiga Desacato, depois Verdurão, grife brasiliense de moda jovem.
Parece haver um roteiro prévio para certo tipo de chacina. Fazem pouco do sujeito até que um dia ele enlouquece e sai matando gente conhecida, que ele culpa pelo desprezo ou pelos insultos que recebe. O final também não varia: ele se mata ou é morto pela polícia.
Foi assim em Columbine, em 1999. Dois jovens estudantes entraram na escola que frequentavam, mataram colegas e professores, 15 ao todo, e depois se mataram. Foi assim também com Genildo Ferreira de França, em 1997, no distrito de Santo Antônio do Potengi (antes Santo Antônio dos Barreiros), em São Gonçalo do Amarante, município vizinho a Natal (RN). Em doze horas, matou 14 pessoas, aterrorizou a pequena localidade, mobilizou cerca de 120 soldados e terminou morto. Sem direito a velório, enterro normal, nem plaquinha identificando o túmulo.
Doze anos depois, a história ganha um documentário de 52 minutos. Sangue do Barro estreou terça passada em uma sala do Cinemark, em Natal. Imprensa, convidados, sessão fechada e eu sem o mínimo interesse em ir. Não pelo filme, mas pela sessão. Para mim, a estreia verdadeira aconteceria na noite de quinta, no Teatro Municipal de São Gonçalo do Amarante, sendo assistido por pessoas que vivenciaram o massacre, que perderam parentes, amigos e vizinhos, gente que nunca viu um filme em tela grande, nunca entrou em um cinema.
A fila descia pela rua do teatro. Policiais com roupa de camuflagem – como a que Genildo usava durante o massacre – circulavam pelas imediações. Cada um que passava pelas portas do teatro assinava pacientemente um livro, registrando sua presença naquele momento tão importante, até que o acesso para o auditório foi liberado e alguém, ainda na rua, gritou: “Ei, por que eles já estão entrando e a gente ainda tá aqui? A gente vai ficar do lado de fora?!”. O livro foi esquecido e todo mundo correu. A porta já ia fechando quando eu e Canindé Soares conseguimos chegar a ela com nossa melhor cara de “sou jornalista e posso tudo”. Entramos. Muita gente ficou de fora, mas haveria uma segunda sessão.
O pequeno auditório com menos de 300 lugares estava lotado. Gente em pé, escorada nas paredes, sentada pelos corredores, no palco. Outro tanto lá fora aguardando a exibição seguinte. Começa o filme. O estranhamento da primeira sessão de cinema é um fenômeno que merece ser assistido. Eu não sabia se assistia ao filme ou prestava atenção ao público. Risos nervosos, “Olha Fulano! Olha Zé de Beltrana!”, os conhecidos virando estrela, aparecendo gigantescos no pano branco ao fundo. A excitação logo deu lugar ao silêncio, aqui e ali quebrado pelo choro, por soluços. Aquelas pessoas estavam experimentando o cinema em sua forma mais plena, se emocionando, vendo suas próprias vidas – algumas literalmente – na tela grande.
Genildo, o Neguinho de Zé Ferreira, decidiu dar um fim aos boatos de que era homossexual matando todos que o julgavam assim, a começar pela esposa que teria inventado a história para forçar uma separação. No filme, depoimentos de parentes, colegas de infância, conhecidos, vítimas que escaparam e gritadores de noticiosos policiais. Aliás, a meu ver, o documentário exibe demasiadamente cenas do maldito Aqui, Agora com a caçada ao atirador.
Homossexual. Traficante. Psicopata. O filme parece querer mostrar que não era nada disso e tenta explicar os motivos que levaram o rapaz de 27 anos a cometer a chacina. A construção do personagem vai sendo feita através dos relatos dos entrevistados que também vão revelando onde se encaixam na história. A história é iniciada em ritmo de série policial moderna, se acalma durante a apresentação do Genildo anterior ao dia do massacre, chega à histeria com as cenas dos telejornais e parece se perder quando tenta recolocar os pés no chão e mostrar os efeitos do ocorrido na vida dos filhos do atirador e dos parentes das vítimas. Dois ou três instantes “artísticos”, pendentes para o docudrama, parecem ter sido esquecidos ali na hora da edição. Não fariam qualquer falta. A imagem do protagonista é pouco utilizada e acaba sendo construída no imaginário do espectador.
No geral, o filme funciona bem. Não ousa. Tem início, meio e fim. Cumpre o papel de registrar. Não será exibido em Cannes, não ganhará a Palma de Ouro. Mas ganhou as palmas do público de São Gonçalo que, lembrando seu dia mais triste, viveu uma noite mágica. No lugar de qualquer um da equipe, eu teria ficado orgulhoso com isso. Cheguei como jornalista e fui me transformando em ser humano durante a exibição, contagiado por toda aquela gente de verdade que estava ali, por suas histórias, pelo sangue dado, todos os dias, na luta pela sobrevivência.
Fui ver um filme e voltei com uma lição sobre falta de respeito, intolerância e suas consequências. O povo de Santo Antônio deve ter aprendido isso há doze anos. Se não, Sangue do Barro deve ter servido para reforçar a lição.
Um anúncio para a estreia mundial da série Mental, da Fox, que acontece nesta quarta, 3 de junho, me chamou atenção. Simplesmente pelo fato de ser dublada. Na mesma hora, me deparei com o seguinte texto:
Diante do fracasso das dublagens, que em toda parte tem sido repudiada pelo público, parece que ficou definitivamente afastado este perigo que pesava sobre o cinema. É que devido ao fracasso de seus filmes, filmes destituídos de qualquer valor, como ao tempo em que estavam sozinhos no mercado, e com o término da guerra, alguns produtores americanos procuraram um meio de poder oferecer qualquer coisa diferente aos frequentadores de cinema, e, ao mesmo tempo, conseguir um meio de fazer frente à produção nacional de cada país, apresentando seus filmes como concorrentes, pelo menos na fala. Mas o público que vai ao cinema não gostou de ver e ouvir seu artista predileto falando por uma voz estranha e diferente, e, por mais que fosse perfeito o sistema, o movimento dos lábios nunca seria sincrônico.
Entretanto, a Metro-Goldwyn-Mayer, cujos filmes não são mais capazes de manter a exclusividade nos seus cinemas lançadores, obrigando-os até a procurar produtores mais pobres, para os quais o Leão olhava com desdém, resolveu apelar para um sistema que sem uso de máquinas falantes, era adotado em países atrasados como a China, onde um comentador ficava junto ao pano da tela explicando a ação do filme. Está claro que aqui não aceitaríamos mais este processo que faz lembrar os nossos filmes falados de 1905, com os artistas cantando e falando por trás da tela, mas pensam os diretores da M.G.M., mesmo porque seria mais barato e pouparia o trabalho de manter um elenco de comentadores, que os seus filmes poderiam voltar a ser mudos, sendo apenas gravada a música e a voz “nacional” de um speaker contando toda a ação.
Este novo atentado que está sendo perpetrado aqui no Rio, já teve uma apresentação nos bairros, e possivelmente os homens estão tomando fôlego para uma experiência maior em plena Cinelândia. Em que pese os elogios de interessados na gravação, não acreditamos que a coisa vá longe; primeiro, porque o público repudiará mais este logro que se procura fazer-lhe; segundo, porque os aparelhos de gravação custam dinheiro, e não acreditamos que a Metro faça qualquer despesa, se não encontrar quem lhe empreste os gravadores ou quem os troque por publicidade nos programas ou um cantinho no salão de espera…
O texto, assinado por Pedro Lima, foi publicado na seção Cinelândia da edição de 13 de setembro de 1947 da revista O Cruzeiro. A partir do pequeno exercício de futurologia do autor, poderíamos contar várias histórias, abordar vários temas e subtemas a respeito dos caminhos tomados pelo cinema, principalmente o americano, ou do avanço tecnológico que experimentamos durante as seis décadas seguintes.
Se à época o cinema já era cinquentão, vale lembrar que ele havia evoluído muito pouco em termos de tecnologia. Nesse primeiro meio século de existência, a maior mudança talvez tenha sido mesmo a captação das vozes dos atores, o que há muito não era novidade no final dos anos 40. O idioma falado era um fator extremamente importante para o sucesso de um filme. Não é à toa que vários países tinham fortes núcleos de produção. Todos tinham seu próprio público e não era diferente por aqui. Também não é de se admirar que filmes falados em espanhol ou italiano fizessem sucesso no Brasil. Era mais fácil entendê-los.
Em 1947, os brasileiros não sonhava com a televisão nem com a discussão de que ela mataria ou não o cinema. Todo mais era pura ficção: videotape, cores, dublagens, legendas, controle remoto, VHS, DVD, SAP, closed caption, TV a cabo, pay per view, TV digital, interatividade do telespectador (que fica cada vez menos tele e menos espectador) que passa a dialogar com a própria tevê de várias formas, etc.
Mas o “problema” das dublagens nunca deixou de existir. Um filme para a hoje chamada tevê aberta, em geral, é exibido em versão dublada. A tecla SAP é ainda quase inútil. Para um público mais exigente e de maior poder aquisitivo, há os canais que apresentam som original e legendas, o que cria outro desespero para quem entende os dois idiomas, pois tende a ficar “corrigindo” a tradução. Isso pode acontecer por simples (muitas vezes má) adaptação ou mesmo por ignorância do tradutor que geralmente conhece melhor o inglês (para falarmos do idioma mais utilizado) que o português, chegando a inventar palavras. E isso não é exclusividade da garotada que capta filmes, traduz e legenda para colocá-los à disposição na Internet. As traduções e legendas dos canais pagos também não são das melhores.
Voltemos às dublagens. A revolta de Pedro lá no final da década de 40 pode parecer engraçada frente a todas as mudanças que aconteceriam, mas, pelo menos nas salas de cinema, aqui prevaleceu a utilização do idioma original. Somente filmes para crianças são dublados (e o temor maior será quando não houver necessidade disso!), além de alguns arrasa-quarteirões que também ganham cópias dubladas para atingir um público maior. Mas isto é Brasil. Em outros países, há leis que fazem da dublagem algo obrigatório.
O que realmente não consigo entender é que, pelo menos nos canais pagos, não tenhamos ainda atingido um nível em que, normalmente, todas as opções estariam disponíveis: som original sem legendas, com legendas, dublado ou ainda com legendas no idioma original. Só temos isso em DVD e, mesmo assim, se a produtora for muito boa e cuidadosa. Provavelmente isso mudará com a tevê digital, mas… quando ela será uma realidade para a maioria? Tenho a impressão que, no Brasil, em se tratando de tecnologia, evoluímos aos solavancos. Quando já existe uma solução para vários problemas, uma resposta para certa demanda, temos o acesso à aparelhagem, mas ela não funciona na prática nem para a maioria. Então nos acomodamos até que damos outro pulo sem termos aproveitado verdadeiramente a vantagem oferecida por vários sistemas. Foi assim desde sempre. Desde quando a televisão chegou, mas ninguém tinha televisor para assistir o que produzia.
Interessante também é que a dublagem feita no Brasil é uma das melhores do mundo. Se hoje preferimos o som original e as legendas, ninguém com mais de 30 abriria mão das dublagens das séries exibidas até os anos 80. Até porque nem conhecemos as vozes originais! Quem não lembra e não reconhece até hoje a voz do detetive Magnum? Como imaginar Tom Selleck sem a voz de Francisco Millani? Ou Bruce Willis sem a voz de Newton da Matta? Quem não reconhece imediatamente “a voz de da Fran”, da Família Dinossauro, quando aparece Anjelica Houston ou qualquer outra atriz dublada por Maria Helena Pader? Temos aqui uma dublagem profissionalíssima, feita por excelentes atores que, não raro, dão mais peso às interpretações do que os atores originais.
A conclusão que chegamos é que, se bem feita, a dublagem não chega a ser o atentado imaginado por Pedro Lima há mais de sessenta anos. Ela pode até mesmo enriquecer e melhorar algo que originalmente não é tão bom. A arapuca se arma quando é mal feita.
Quanto a Mental, vou esperar para ver, melhor, escutar se o som será o das vozes originais ou teremos uma versão brasileira. Se o caso for este último, mesmo bem feita, a estratégia de exibir a série ao mesmo tempo em todo o mundo para evitar a cópia e distribuição via Internet não deverá ter muito êxito. O futuro dirá.
Lembra do busto de Manoel Dantas mostrado no texto Em verdade, vos digo…? Era para ser assim, como o da foto à direita. A imagem mostra o original, em bronze, feito por Hostílio Dantas, em 1930, e que se encontra na casa de D. Sílvia Ramalho Dantas, viúva de Osório Bezerra Dantas, filho mais novo do homenageado.
Sabe a velha história de escrever no mármore aquilo que se quer lembrar e na areia o que se quer esquecer? Cabe bem em se tratando de monumentos. O bronze é para sempre. O busto original completará 80 anos no próximo ano e, tendo estado a salvo do sol e da chuva, está como novo. A réplica, em gesso, colocada em uma área externa da Escola Estadual Manoel Dantas, provavelmente nos anos 1970, é o contraponto da mesma lição.
O “provavelmente” sobre a época de sua instalação deixo por conta, por enquanto, do não aprofundamento de minhas pesquisas. Nos próximos dias, devo contar com a memória da mais antiga funcionária do colégio e, em seguida, com a sorte de haver algum registro na Secretaria de Estado da Educação e da Cultura. Digo “sorte” porque nem sempre é possível encontrar documentos que comprovem datas em órgãos oficiais. Mofo, extravio, perda em mudanças, incêndios, falta de cuidado… Tudo contribui para a falta de memória.
Tivesse eu raízes em Natal, daquelas impossíveis de remover como as de Cascudo, ficaria por mais tempo e tocaria outros projetos relacionados à memória da cidade. Um deles seria sobre as antigas escolas. Pesquisa de fôlego, pois algumas merecem livros exclusivos.
Na capital potiguar, está o estabelecimento de ensino público mais antigo do país: o Atheneu Norte-Riograndense. Fundado em fevereiro de 1834 (quase quatro anos antes do afamado D. Pedro II, no Rio de Janeiro), continua em atividade. Nem sempre esteve onde está. Teve outras duas sedes antes da construção do complexo em X inaugurado em 1954.
A foto mais antiga deve ser de Jaeci Emerenciano, responsável pelo registro fotográfico de muitas décadas da História da cidade. A mais recente, feita em maio de 2005, é de Canindé Soares. Hoje a construção tem outra cor e está cercada por mais prédios.
Ainda mais importante, a meu ver, é o prédio do Grupo Escolar Augusto Severo. A instituição pode não ter tido vida longeva, mas seu prédio existe há 101 anos. A seu respeito, há um ótimo trabalho de pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo (UFRN), de autoria de Ana Zélia Maria Moreira, concluído em 2005, que merece chegar às mãos do público em geral. O exemplo deveria ser seguido em relação a outras edificações e escolas. Atualmente, o prédio centenário, pelo qual já passaram também a antiga Faculdade Direito e a Secretaria de Segurança Pública, está fechado, morto, com suas belas estátuas testemunhando o lento processo de revitalização do bairro da Ribeira e sonhando com o dia que chegará sua vez.
Quem se habilitar a manter vivas tais histórias, por favor, dê um passo a frente.