Retrato Censurado do Grão-Mestre Varonil

•► Leia primeiro o post anterior: Retrato do Grão-Mestre Varonil

“Não fumo, não cheiro e não bebo, mas às vezes minto um pouquinho.”

“A coisa que mais odeio é a hipocrisia. É a mentira da mentira.”
Tim Maia

Acredite: Não é Oscar Wilde. É o Tim Maia.Alto, loiro, branco, olhos azuis, porte atlético, requintado, sem vícios e com uma educação de causar inveja à realeza britânica. Assim era Sir Sebastião Rodrigues Maia, o Belo Brummel da Tijuca, esse aí da foto. Qualquer relação com aquele menino preto, gordo e pobre, preso várias vezes nos Estados Unidos e no Brasil, que bebia, fumava maconha, cheirava cocaína, arranjava confusão com meio mundo e que, adulto, atenderia pelo nome de Tim Maia é criação de alguma mente desequilibrada.

Pensamentos e atos nesse sentido, se descobertos, podem resultar em ação indenizatória ou coisa que o valha. Não que sejam proibidos. Expurgos, prisões, torturas, detenções e que tais podem ser utilizados não como castigo, mas como ação preventiva para eliminar quem possa talvez cometer tal crime futuramente. Tudo já avisado e reavisado pelo Senhor Orwell – alto, loiro, branco, etc – desde 1949 com referência a 1984 (facebook 21.01.2012 foto errata cueca degradante retifica refs impessoas apaga reescreve).

O Big Brother é real e bem diferente do que passa na sua teletela – aquilo, sim, bem degradante. O Ministério da Verdade não brinca em serviço e já mandou reescrever tudo. No caso, só apagar mesmo. Como mandaram apagar as fotos da Scarlett Johansson – loira, branca, linda, etc – e todas as cópias não autorizadas de quase tudo que já foi pensado e registrado da metade do século passado para cá. Chupa essa manga, Bial! O amor é lindo.

Sem temer a Polícia do Pensamento, levanto aqui algumas questões. Por que a foto de um artista, provocador e anárquico, vestindo apenas uma camisa rasgada e cueca é “degradante” para sua imagem e outra de uma modelo anoréxica com visíveis transtornos psiquiátricos é exemplo a ser seguido e pode valer milhares de dólares? Por que a do negro gordo de cueca parece um insulto e a do Elvis gordo não? Por que uma só foto feita por uma profissional de jornalismo, recebida por ele em seu quarto de hotel – de cueca e camisa rasgada –, é chocante e milhares de fotos da inglesa Amy – branca, ex-linda, etc – esquelética, chapada, desdentada, cheia de hematomas, perseguida onde quer que fosse e visivelmente contrariada com os registros dessa imagem não chocam? E, aproveitando essa última comparação, por que o negro gordo era picareta por não cantar ou faltar aos shows marcados, mas a branquinha magrela era atração ao fazer o mesmo e por um preço muito maior?

Por que a foto do Tim Maia de cueca é degradante para sua imagem e a do Pelé nu não é para a dele? E se em vez do corpo atlético e do dote avantajado, Pelé tivesse uma barriga enorme e um pinto pequeno? Talvez fosse meio degradante…

Por que a Carla Bruni, esquelética, pernas tortas, seios pequenos, meio flácidos e brigados (um não chega perto nem olha para o outro) é bonita e o Tim Maia é feio? Quem disse que é para ser assim? Para mim, ela é só uma branquela com talento para atrair homem rico e ele era um cara com um poder extraordinário na garganta, capaz de hipnotizar qualquer um que ouvisse sua voz. Tão poderoso que continua fazendo isso quase uma década e meia depois de morto.

Por que uma foto dele pode ser um insulto à sua memória e reeditar discos que ele se recusou a reeditar durante a vida inteira não é? Aliás, quem é que decide o que é bom ou não para a imagem de alguém que já morreu? Como perguntou um usuário do Facebook: “quem é o procurador dele? O Chico Xavier?!” É… porque tem que ser alguém que tenha bom trânsito entre os dois mundos e, até onde se sabe, Chico só era bom nisso quando estava do lado de cá.

Vamos partir para outra vertente. Por que Xuxa faz um filme comercial em que aparece na cama com um menor, depois se esforça para esconder isso, e um filme íntimo e totalmente explícito da americana Kim Kardashian com o namorado aparece e ela, em vez de esconder, diz “é meu mesmo e quem quiser ver vai ter que pagar”, negocia a exibição e distribuição por milhares de dólares? Por que a Val Hellooo Marchiori toma tanto champanhe em sua taça de ouro? É para esquecer que se chama Valdirene Aparecida e cresceu nos cafundós? Por que aqui as pessoas se esforçam tanto para esconder e até – como se fosse possível – apagar o passado? Como diria Cazuza (que era alto, loiro, atlético, hetero e sem vícios): “São caboclos querendo ser ingleses”.

Outra pergunta. Por que Nelson Motta pode escrever um calhamaço de 400 páginas e repetir inúmeras vezes que Tim Maia era gordo, preto, maconheiro, encrenqueiro, cheirava loucamente, mas o próprio Tim Maia não pode ser ele mesmo em uma foto?

Respondendo a todas as perguntas de uma vez: somos uma sociedade de hipócritas. Queremos seguir os modelos que nos fizeram acreditar que são os melhores. Queremos ter cabelo liso, pele clara, dentes brancos, alguém ao lado, um carro, dinheiro para gastar no shopping. E queremos apagar qualquer vestígio de nossos passados que não correspondam a esses padrões. Assim, aquele tido como o melhor escritor brasileiro aparece branco em uma propaganda do governo. Um grande cantor tem que estar sempre bem vestido (como se isso fizesse alguma diferença para a voz dele), “ter boa aparência”. Como podemos ter ídolos que não correspondam aos tais padrões almejados? Ídolo não sua, não tem necessidades fisiológicas, não sofre, está sempre feliz, teve uma educação maravilhosa, tem bom gosto para tudo (não importando o lixo que seja) e, acima de tudo, não tem passado. Só ser for lindo e inventado. O passado, assim como o amor, a gente inventa.

Somos selvagens querendo ser dândis.

Ídolos incontestes da música brasileira são Tom, Vinicius, Chico, Nara… Mesmo que não entendamos muito bem o que queriam dizer nas poucas vezes que ouvimos suas músicas. Mas são todos brancos, bem nascidos, educados, falam línguas civilizadas. Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia, Dona Ivone Lara são criaturas que atiçam nossa curiosidade, nos fazem sentir mais humanos, sem preconceitos. Mas quem quer ser preto, pobre e favelado? Um violãozinho no sofá do apartamento de frente para a praia cai melhor, não? Mais parecido com nossos anseios burgueses. Quem quer ser Tim? Quem quer ser Tom?

Continuo achando que Tim Maia não era um débil mental incapaz que foi pego desprevenido pela diabólica Luciana. Ele estava fazendo o que sempre fez: provocando. Sabendo bem no que ia dar. Lamento que a foto não tenha sido publicada quando ele estava vivo. E se não gostasse, que processasse. Ele sacaneava todo mundo, mas quando era ele o sacaneado, não curtia muito. Quem não lembra do processo contra o Casseta & Planeta por conta da imitação que Bussunda fazia dele? “Alguém tem uma gilete aí? (…) Alguém tem um espelho aí? Vou pegar, hein!

É grave essa atuação do Ministério da Verdade. É assim que começam a nos calar, a cercear nossa liberdade. Então, não vale tudo? Vale. Só não vale dançar homem com homem, mulher com mulher, nem Tim Maia doidão de cueca. O resto vale.

Publicado em Uncategorized | 2 comentários

Retrato do Grão-Mestre Varonil

Tá lá a foto do Tim estendida no Facebook! De cuecas e camisa rasgada, pouco se lixando para a câmera de Luciana Whitaker. Aliás, ele estava achando sua mãozinha clicadora – e provavelmente ela inteira – gostosa e fez questão de deixar isso claro. Esse era o Tim.

Luciana postou a foto em seu perfil no Facebook na sexta, 27 de janeiro, acompanhada do seguinte texto:

Editando fotos hoje, encontrei essa foto nunca publicada. Tim Maia tinha hora marcada para receber a Folha de S. paulo. Cheguei lá, no apart hotel da Barra, ele estava de camiseta rasgada e… cueca! Com o rádio muito alto, não conseguia escutar as perguntas do repórter (acho que era o Marcelo Migliaccio) e pediu para eu desligar o som. Olhou minha mão em seu aparelho de som e disse: “Hum, que mãozinha gostosa…!” Fiquei braba e acabei fazendo a foto dele de cueca mesmo.

Na noite de sábado, quase mil pessoas já haviam compartilhado a postagem, inclusive eu, pelo perfil do Memória Viva. No domingo pela manhã, encontrei comentários que achavam a imagem “degradante” e diziam que “faltou ética” ao publicá-la. Segue reprodução do meu comentário, junto à postagem, após de ter lido isso:

A leitura que se faz das coisas – de um texto, de uma foto, de um quadro, um filme, uma música… – varia imensamente de pessoa para pessoa. A cultura de cada um (aquilo que a pessoa aprendeu, juntou e reuniu como seus valores) vai fazer com que ela enxergue algo de uma forma completamente diferente de outros. Sou fascinado pela obra de Goya, mas tem quem a ache grotesca, bizarra, assustadora. E tem quem não se sinta fascinado ou incomodado. Sou jornalista e fotógrafo há mais de 20 anos, tendo trabalhado a maior parte do tempo na área cultural. Sou fã do TIM MAIA. Na minha opinião (no meu gosto pessoal), jamais houve melhor cantor na história da música brasileira. Nessa foto, só consigo ver o retrato fiel do porra-louca que ele sempre foi e do qual que se orgulhava muito de ser. Grande cantor, grande artista, grande beberrão, mulherengo e safado. Em resumo: UM SER HUMANO. Cheio de potencialidades, de boas e más qualidades, de defeitos e contradições. Assustar-se ou achar degradante essa foto é não entender que ELE ERA ASSIM. Não se importava com aparências, com o que pensavam dele, com convenções sociais. UM Tim Maia que, ao receber jornalistas, estivesse de banho tomado, perfume, roupinha passada, falasse e se comportasse como um acadêmico querendo posar de membro da elite não seria O Tim Maia. Seria uma farsa! Essa foto me fez lembrar um comentário de Marcelo Nova, último grande companheiro de palco e de farra de Raul Seixas. Quando Raul morreu e começaram a derramar um mar de elogios, Marcelo se indignou e falou que logo estariam dizendo que ele era santo. Isto seria um insulto! Olho para essa foto e vejo um Tim Maia lindo, verdadeiro, sincero e escroto do jeito que ele era. Ele, que não era nenhum incapaz ou um retardado mental que não soubesse o que estava fazendo, riria muito de vê-la estampada na Folha de S. Paulo. Mas quem teria a coragem dele para fazer isso?

Em bom e claro português: a foto é do caralho! Nem dá para imaginar o impacto que teria se estampada na Folha de S. Paulo dos anos 90 (ela não diz quando foi feita, mas creio que tenha sido naquela época). Mas o impacto veio quase década e meia depois da morte de Tim e pelo Facebook. A meu ver, um impacto positivo. É a cara do Tim, sem talquinho ou água de colônia. Mais que histórica, a foto é honesta!

Lembrei algumas situações pelas quais passei e as exponho aqui para acrescentar dados à discussão e desenvolver o tema sobre “momentos e escolhas no fotojornalismo” e não sobre “ética” porque não vejo motivo para isso.

Quando fotografo para ilustrar matérias, quase invariavelmente o faço para as minhas. Isto é, estou lá para entrevistar/apurar E TAMBÉM para fotografar. No caso, a fotografia é produzida como complemento do meu trabalho principal, que é escrever. Acontece que, sendo assim, as fotos têm pouco de jornalismo, pois serão feitas separadamente, em outro momento, e provavelmente serão posadas, dispensando muito da naturalidade que poderia ser registrada quando o entrevistado estivesse mais preocupado em falar e demonstrando suas emoções. No entanto, em mais de vinte anos, tive algumas oportunidades de estar só fotografando ou de poder dar mais atenção a isso.

Uma das vezes foi em um carnaval, no início dos anos 90, que passei na praia de Pirangi, no Rio Grande do Norte. No mesmo hotel, estavam vários conhecidos atores de televisão e um casal, da mesma idade que eu, que começava a aparecer e chamava já chamava bastante atenção: Selton Mello e Danielle Winits. Era um tempo em que fotógrafo era fotógrafo e não qualquer pessoa com uma câmera, como hoje. E eu era o único que também estava hospedado no hotel e tinha acesso direto aos convidados globais durante todo o dia, incluindo passeios turísticos e outros momentos de lazer. Selton e Danielle eram namorados. Tínhamos todos 19 ou 20 anos. Danielle, linda, era uma jovem normal. Simpática, curiosa, conversava com todo mundo. Selton era mais reservado (ou antipático, se preferir), sempre de óculos escuros, nunca olhava diretamente para as pessoas e só falava baixo e enrolado com aquela voz que todo mundo sabe imitar. Já era cheio de pose. Mas não dá para ser muito posudo quando se se é gordinho, branquelo e está só de sunga. Menos ainda se você vive da sua imagem e namora uma garota de corpo perfeito. Imagine o contraste! Pensando agora, acho que ele estava bem incomodado com minha câmera. Mas qual era meu interesse em fotografar aquele cara quando a Danielle Winits, 19 aninhos, estava de biquíni bem na minha frente? Nenhum. Se fosse hoje, sairia no Ego: Selton deixa gordurinhas à mostra durante o carnaval. Mas eu não sou tão mau assim (talvez seja) e a foto que lembro bem e gostei de ter feito foi dos dois, abraçados, no meio das dunas de Genipabu. Uma foto linda, aberta, em um cenário paradisíaco, de um jovem casal que começava a carreira na tevê. “Uma foto para Caras”, pensei na hora. Não enviei, nem jamais publiquei. Mas um detalhe, que provavelmente passaria despercebido à maioria, ficou na minha cabeça. Danielle estava de costas para mim, entregue, curtindo o namorado, como qualquer adolescente. Selton, apesar do rosto colado ao dela, olhava em minha direção. Ele sabia que eu estava fotografando e estava, por assim dizer, participando daquela encenação. Qualquer um que trabalhe com a própria imagem sabe bem o que faz quando tem um fotógrafo por perto. Não há inocentes ou malfeitores numa situação dessas. Há um acordo silencioso e óbvio. Um está ali para aparecer; outro, para fazer aparecer.

Outra situação aconteceu em 2004. Fui a Salto (SP), com um pequeno grupo, para entrevistar Anselmo Duarte em seu apartamento. Ele abriu a porta muito à vontade para receber aqueles estranhos e, quando viu a câmera, pediu para fazer a barba. Era uma barba de um ou dois dias. Nada assustador. Eu já havia feito pelo menos uma foto, mas ele demonstrou a vontade de se apresentar de outra forma e só as fotos pós-barba foram publicadas. Como eu poderia dizer não ao maior galã da história do cinema brasileiro? Como eu poderia dizer não ao único brasileiro ganhador da Palma de Ouro? Como eu poderia dizer não àquele senhor de 84 anos e ainda vaidoso? Meu instinto agiu com a velocidade de sempre e registrou o senhor que estava em sua casa, despreocupado com a estampa, roupa amassada, barba por fazer, como qualquer pessoa normal. Mas Anselmo Duarte era o bonitão, bem cuidado e cheio de expressões. Essa era a imagem que ele sempre mostrou. Existe outra, outro lado, comum (diria até desinteressante), que registrei, mas… o que ela diz? Nada de especial. “Você não vai me pedir para fazer uma foto segurando a Palma de Ouro, vai? Jornalista não tem imaginação. Já fiz dezenas de fotos iguais a essa.” Fazer, eu fiz. Até porque a Palma estava quebrada (um apresentador de tevê deu um tombo nela!) e eu nunca vi uma foto dele com o troféu naquelas condições! Depois do puxão de orelha, não publiquei a foto aparentemente tão comum e repetida, mas eu sabia que aquele detalhe fazia a diferença. O registro foi feito. Quando e como usar é uma escolha somente minha.

Reportagens feitas nas casas dos entrevistados costumam gerar momentos extremamente peculiares, como da vez em que eu aguardava uma famosa atleta sair do banho para fazer uma matéria. Ela não foi avisada da minha chegada e, de repente, aparece totalmente nua e dá de cara comigo. Ela grita e corre para o quarto. Eu, entre constrangido e agradecido aos céus, tento fingir que nada aconteceu. Não, dessa vez, não fotografei.

Imagem é algo poderoso. Duvido alguém citar algo que Itamar Franco tenha feito quando presidente, mas da foto dele, no carnaval de 1994, ao lado de Lilian Ramos sem calcinha, todo mundo lembra. Para mim, a foto de Tim Maia feita por Luciana Whitaker é daquelas icônicas, fiéis, que escancaram a personalidade e a alma da figura fotografada. Não tem nada de “assustador”, “degradante” ou “antiético” como vi em alguns comentários. Eu diria que existe, sim, hipocrisia, falta de senso crítico e de sensibilidade para entender o que ela realmente representa. Além de tudo isso, essa indignação parece algo de uma sociedade muito preocupada com a aparência e que desaprendeu a perceber a essência dos seres. Há uma identificação provocada pelo medo de se ver daquele jeito, como se a roupa fosse a pessoa ou representasse sua dignidade. “Eu não gostaria de ser mostrado assim!” Ninguém precisa ter esse medo. Ninguém é o Tim Maia, não tem seu talento, sua fama, nem sua incrível personalidade, que dispensava roupas novas e alinhadas. E Tim Maia não era um santo ou um deus para ser esculpido, idealizado e idolatrado como tal. Era humano – como tal, cheio de talentos e defeitos –, desses de dar orgulho à espécie. E sua humanidade nunca havia sido tão bem retratada.

Publicado em Fotografia, Imprensa, Jornalismo, Música, Memória | 5 comentários

O segundo nascimento

Daqui a cem dias, começa minha vida. Meu Natal e ano novo particulares. A prova – ou não – do velho ditado. Apagou-se o fogo-fátuo daquela noite de dez anos atrás. Vai longe aquele aniversário com conhecidos refugiados em seus pequenos guetos em um café-livraria. Hoje, parece um retrato dos caminhos que se ofereciam. Qual tomei? Parece que nenhum deles.

Sinto que um fogo sagrado foi aceso e vem sendo alimentado nos últimos tempos, queimando tudo que não era Sandro, que não importava. Restou amar, pensar, escrever e uns temperos para dar gosto à vida. Nasço sem avós, sem pai e com três filhos. Os cabelos, que no primeiro nascimento eram pretinhos, tornaram-se tolerantes e aceitaram alguns brancos entre eles. Não haverá quem pergunte o que o menino vai ser quando crescer. Ele já sabe. Acha até que sabia da primeira vez, mas preferiu não revelar.

Talvez esses últimos meses de gestação sejam como os da primeira. Pode ser que fique meio apertado, que eu fique mais quieto, esperando a hora de ver a luz. O parto deverá ser como na ocasião anterior: natural, tendo que lutar desde sempre para poder ter um lugar no mundo. Mas não vai ter choro. Só a mesma cara bolachuda, séria, observando tudo para tentar aprender e fazer algo útil.

Publicado em Livre pensar | 1 comentário

Os filmes que me marcaram em 2011

Primeiro, pensei em uma série de listas. Aí deu aquele bode homérico no blog, que ficou fora do ar por duas semanas, e eu broxei para a ideia. Todos começaram a fazer listas. E todos começaram a achar um saco as listas dos outros, afinal, gosto é igual a você sabe o quê. No entanto, este ano tive ótimas conversas com três ou quatro pessoas e das quais nasceram excelentes dicas e debates sobre filmes, livros, música, etc. Por que não compartilhar isso como os leitores do blog? Portanto, aqui estou, me rendendo às listas de fim de ano.

Não gosto de fazer lista de livros. Leio uns 50 por ano e acho pouco. Um livro por semana é pouco, garanto. Mas para uma lista ficaria enorme. Para mim, ler é algo sagrado e extremamente íntimo. Só indico ou dou livros a alguém se conheço muito bem a pessoa e seus interesses. Além disso, acho pedante isso de fazer lista do que leu. Geralmente, as pessoas escolhem os títulos que a farão parecer mais culta, antenada ou descolada. Ninguém lista as bobagens que leu e – garanto novamente – quem lê muito, por mais seletivo que seja, lê bobagens também, nem que seja para descansar o cérebro.

Enfim, farei apenas duas listas: os filmes que mais me marcaram em 2011 e as músicas que mais ouvi este ano. Vamos à primeira.

Os filmes que mais me marcaram em 2011

Entre longas e curtas de todos os gêneros, devo ter assistido a mais de 250 filmes este ano. Se somar os episódios da meia dúzia de séries que acompanho ou vi/revi inteiras, o número dobra facilmente. A lista não é dos “melhores filmes de 2011” e nem dos que acho que são os melhores. São dos que mais me marcaram, me impressionaram, trouxeram algo de bom para minha vida, para minha formação, me influenciando de alguma forma. Não gosto de falar sobre um filme com quem não o assistiu. Sempre digo que se deve ver um filme o mais virgem possível, sem grandes informações a seu respeito, para que você possa tirar suas próprias conclusões. Portanto, comentarei quase nada. Listei nove filmes: 4 deste ano, 2 de 2010, 2 de um diretor do qual me tornei admirador (mais dois, pois há outro entre os de 2010) e um de 2003 (que só conheci este ano).

Pelo menos três dos quatro deste ano, você encontrará em várias listas por aí. Preste atenção a isso. São produzidos milhares e milhares de filmes por ano, mas são poucos os que realmente valem a pena e não são mero entretenimento.

A Pele que Habito (La Piel que Habito, 2011), de Pedro Almodóvar

Meu primeiro Almodóvar foi Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, de 1988, visto no mesmo ano em uma “cópia não selada” na época em que e as locadoras de vídeo eram formadas quase só por elas. Vinte e três anos e doze filmes depois, todos vistos, já tive tempo e provas suficientes para dizer sem medo que ele é um dos melhores realizadores da atualidade, senão o melhor. Se vivo, Fellini daria tapinhas nas costas de Almodóvar e Woody Allen, e diria: “Continuem assim, meninos! Vocês nunca serão como eu, mas vocês são os melhores que o mundo têm hoje.A Pele que Habito, como bem observou meu amigo Buca Dantas, “é o melhor Almodóvar desde Tudo Sobre Minha Mãe (1999)”.

* * * * * * * *

Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), de Woody Allen

Descontados todos os lugares-comuns sobre Woody Allen, duas coisas têm realmente chamado minha atenção em seus trabalhos na última década: a constância na realização (desde 1977, um filme por ano, exceto em 1981, mas fez dois em 1987) e a sensibilidade que vem demonstrando com seu olhar estrangeiro (desde que cansou de seu umbiguismo nova-iorquino e passou a pensar/filmar fora dos Estados Unidos). Meia-Noite em Paris tem o insosso e sempre com a mesma cara Owen Wilson como alter-ego de Woody Allen (e me parece que ele está mesmo imitando Woody Allen nos trejeitos e na voz), mas nem isso consegue estragar o filme. E tem Marion Cotillard, que compensa a canastrice e a sem-gracisse de quantos for preciso. Fui covardemente atingido pela temática e pelo enredo. Se você assistiu, sabe o motivo. Se não, assista e descubra.

* * * * * * * *

Melancolia (Melancholia, 2011), de Lars von Trier

É um grande babaca, mas é um babaca necessário. É o gringo que usa a força do império para dizer: “Deixem de ser idiotas e previsíveis. A vida não é bonitinha assim. Parem de vender esperança.

* * * * * * * *

Um Conto Chinês (Um Cuento Chino, 2011), de Sebastián Borensztein

Não gosto das generalizações do tipo “cinema de tal país”, mas vamos combinar que se for cinema argentino já dá vontade de conferir. E se tiver Ricardo Darín no elenco, a possibilidade de o filme ser ótimo é grande.

* * * * * * * *

Abutres (Carancho, 2010), de Pablo Trapero

Argentino… Ricardo Darín… Realismo duro, sem esperança, sem perdão.

* * * * * * * *

Balada do Amor e do Ódio (Balada Triste de Trompeta, 2010), de Álex de la Iglesia

Para mim, a grande descoberta do ano. O único filme que vi este ano e me deixou sem respirar durante toda a exibição. Por onde passava (pingou em uma ou outra sala em algumas capitais), eu ia incitando os conhecidos a verem. Foram e adoraram! Não interessa seu gosto, seu gênero preferido. É cinema de verdade! História bem contada, repleta de fantasia e exageros. Corri para ver os outros trabalhos de Iglesia. Ponha 800 Balas (2002) e Crimen Ferpecto (2004) na lista dos meus preferidos vistos em 2011.

* * * * * * * *

Leve Meus Olhos (Te Doy Mis Ojos, 2003), de Icíar Bollaín

“Cinema espanhol” também é um rótulo bem confiável. Almodóvar, Álex de la Iglesia, Icíar Bollaín… Vi Te Doy Mis Ojos na tevê. Foi amor à primeira vista por Laia Marull, a atriz principal, que nos faz respirar aliviados ao mostrar que ainda existe cinema com atores de verdade e que sabem atuar. Também não gosto de pensar assim, mas tenho que admitir que filmes escritos e dirigidos por mulheres costumam ter abordagens mais sensíveis (sobretudo se tratam do universo feminino) e são capazes de fazer o espectador esquecer a razão para se entregar plenamente aos sentimentos. Homem e bruto, senti todas as dores e medos de Pilar, a personagem interpretada por Laia Marull. Fiquei encantado com sua atuação como um todo, mas, principalmente, com o momento em que a personagem se permite acreditar e desabrochar. O bicho amedrontado esconde uma mulher linda. Não é uma atriz qualquer – nem dirigida de qualquer maneira – que consegue uma transformação daquelas. E sem usar nada além do olhar, do sorriso e do corpo nu. Nos momentos em que está acuada, a caracterização ajuda, mas as expressões e o gestual é que nos mostram toda a tensão da situação que está vivendo. Ninguém tem três prêmios Goya por acaso.

Termino o ano com três pendências na lista: A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011), Cópia Fiel (Copie conforme, 2010) e O Garoto da Bicicleta (Le gamin au vélo, 2011), lamentando principalmente pelos dois últimos. Sinto que estarão em minha lista no final de 2012.

Publicado em Cinema, Retrospectiva 2011 | Deixar um comentário

Dr. Macarra, o padroeiro das redes sociais

Sebastião Morato de Alcântara era o nome do sujeito. Nasceu no dia 11 de setembro de 1921, no município pernambucano de Barreiros, a 102 quilômetros e cinco dias de distância do nascimento de Carlos Estevão.

Para as mulheres solteiras e carentes com mais de 30, ele se apresentava como Doutor Zilá Camboim, às vezes engenheiro, outras militar, sempre elegantemente trajado, muito educado e solícito. Na verdade, tinha apenas o primário, era casado (mas vivia separado da esposa) e era velho conhecido da polícia, que o chamava de Doutor Macarrão. Passou quase 20 anos ludibriando mulheres para lhes roubar dinheiro e joias. Vivia disso. Este era o seu ofício.

No papel, o Dr. Macarra não era alguém de quem se pudesse ter raiva ou querer prender. Era um pobre coitado já tão castigado pela vida que, para os leitores (ou “vedores”, como dizia Carlos Estevão), só restava rir da sua desgraça e das tentativas de se passar por um homem de respeito.

A revista com seu nome durou apenas nove edições, de abril a dezembro de 1962, mas ele só aparece na capa da primeira. Além das histórias do personagem-título, há também as Novas Aventuras de Sharleck Halmes (apresentadas por Sir Charles Stevens), além de séries e charges com os temas de costume. Tudo roteirizado, desenhado e finalizado por Estevão.

Dr. Macarra foi um herói da Força Expedicionária Brasileira, esteve em Cuba e na selva africana, foi astro do cinema, membro da Academia Brasileira de Letras, artista de múltiplos talentos, um grande político e circulou por Paris. Tudo em sua imaginação e nas histórias que contava para alguma figura feminina. A realidade, sempre mostrada no quadro seguinte, era bem diferente.

Era um personagem mais humano e muito mais rico que o Amigo da Onça. E talvez este tenha sido também o causador de sua morte precoce. Você não conhece um Dr. Macarra? Você não já deu uma de Dr. Macarra? Abra agora o Twitter ou o Facebook e veja quanta gente inteligente, bem-sucedida, rica, frequentadora das melhores festas, amigas de celebridades, que tem tudo que o dinheiro pode comprar e que viaja pelo mundo todo. Você acredita mesmo que todas as pessoas que conhece vivem do jeito que demonstram? Você pode até conhecer um ou dois amigos da onça, mas Dr. Macarra, garanto, você conhece um monte.

* Texto originalmente publicado na edição 371, de outubro de 2011, do Jornal da ABI, como box da matéria Carlos Estevão 90 anos – Ele só queria ser criança)

Publicado em Biografia, Humor, Imprensa, Jornalismo, Memória, Memória Viva, Quadrinhos | Deixar um comentário

O mundo em preto e branco

Sou viciado em informação. Admito. Desde sempre. Livros, jornais, revistas, filmes, músicas. Há uns dez anos, senti necessidade de diminuir a carga e selecionar aquilo que me parecesse agradável e relevante, mas sem correr o risco de me tornar um radical que só gostasse disso ou daquilo. A informação deveria estar sempre acessível para que eu pudesse comparar tudo e escolher o que me fosse aprazível. O noticiário policial – e do mundo cão em geral – foi abolido; rádio e televisão diminuídos radicalmente; a conversa fiada ganhou status de evento raro; comédias e filmes de ação americanos viraram último recurso para desconectar o cérebro.

Isso feito, sobrou muito mais tempo para as coisas boas, para o que realmente me interessava. Porém, enquanto me esforçava para manter distante o lixo excedente, todo ele começou a convergir para a web. Depois vieram as redes sociais e de conteúdo. No início, era possível escolher o que parecia interessante e relevante, mas, com o tempo, parece que tudo e todos se tornaram excessivos, verborrágicos, e o que era para ser algo selecionado se tornou o escoadouro do pior que as pessoas podem produzir, juntar e que, infelizmente, insistem em compartilhar.

Com esse gosto quase generalizado pelo que há de pior, como reagem as artes visuais mais comerciais, como a tevê, o cinema e a produção de vídeos de uma forma geral? Produzem o lixo que as pessoas querem consumir, claro. Mas existe também uma tendência contrária, tão cansada do excesso e disposta a eliminá-lo, que chega a parecer saudosista.

Acredito que esse movimento não seja exatamente pensado, mas, sobretudo, a expressão desse cansaço em relação ao excesso. É também uma autoanálise. Reparei que minhas fotos – minha segunda forma de expressão e tão somente isto – têm cada vez menos elementos. Os excessos ou personagens principais são jogados para a borda enquanto a maior parte do espaço é ocupada por um só elemento ou cor. Ou, se existe uma composição mais complexa, meu olhar, inconscientemente, elimina as cores (como nas fotos abaixo, que não são em preto e branco nem foram deixadas assim por manipulação digital; para vê-las em tamanho maior, clique aqui).

Durante este ano, variadas obras chamaram minha atenção para essa fuga das cores. Comecei a perceber isso em abril, quando o Foo Fighters apresentou as músicas de seu novo álbum, Wasting Light, no programa de David Letterman. Não vi a apresentação quando exibida na tevê, mas quando o grupo subiu os vídeos das músicas para seu canal no YouTube, eles estavam em preto e branco. E a apresentação foi, no mínimo, muita sóbria: todos de terno, sem pulos, descabelamentos ou pirotecnias. Só a música. E, sendo para ver, música em preto e branco.

Guardei a impressão e, de lá para cá, revendo alguns filmes, isso foi se intensificando. Há algum tempo, revi os filmes de Bob Fosse e escrevi sobre eles. Quando falei de Lenny (1974), enfatizei a coragem de Fosse (dançarino, coreógrafo e diretor de musicais) abandonar seu mundo de música, dança, movimentos, cores e tudo mais que possa distrair, para focar no essencial. Um filme em preto e branco, com muitos planos fechados e que exigia boa interpretação dos atores (Dustin Hoffman no papel-título). De forma não tão intensa, também senti o mesmo ao rever Manhattan (1979), de Woody Allen. Em As Tentações do Doutor Antônio (1962), Fellini está usando cores pela primeira vez entre duas de suas maiores obras em preto e branco: La Dolce Vita (1960) e 8 ½ (1963). Depois de dois trabalhos vencedores do Oscar de Filme Estrangeiro e um vencedor em Cannes, criticando a decadência da sociedade italiana e preocupado com o avanço da voraz cultura americana (principalmente pelo cinema), Fellini ironiza os filmes que têm grandes peitos como seu principal atrativo e, ao apresentar o personagem principal (Antonio Mazzuolo, interpretado por Peppino De Filippo), recorre a um filme em preto e branco feito por um cinegrafista amador, ironizando também a tendência de acharem que só amadores fizessem filmes sem cores.

Fazendo um contraponto, assumo quase vergonhosamente ter dormido, digo, assistido Lanterna Verde e Capitão América. Fui marvelmaníaco quando moleque, minha primeira coleção de revistas foi de quadrinhos da Marvel e, já grande, chorei vendo Homem-Aranha em uma sala de cinema em Brasília (podem jogar as pedras). Furtivamente, sozinho e trancado no quarto, me permito ver esses filmes. Respondam-me: tirando toda a barulheira e os efeitos especiais, o que sobra? Eu mesmo respondo: um roteiro para história em quadrinhos. Por isso foi feito como tal. Fica lindo bem desenhado no papel, mas quando filmado tem muito de fogos de artifício e quase nada de cinema. Até quem gosta só disso parece já estar cansando.

Daí que as coisas se invertem e os críticos americanos resolvem prestar atenção a quem neste final de ano? A The Artist, um filme em preto e branco e mudo, que tem seis indicações ao Globo de Ouro. Se Foo Fighters (na minha humilde opinião, a melhor banda do mundo em atividade e responsável pelo melhor álbum do ano) está mais focada do que nunca no essencial, o dono do melhor álbum brasileiro do ano (também na minha meu humilde julgamento) segue o mesmo caminho e, para além da ótima música que vem fazendo, acaba de lançar um clipe no mesmo estilo (Freguês da Meia-Noite, logo abaixo).

Finalizando (já há texto em excesso!), deixo quatro dicas para quem quiser experimentar um pouco desse mundo em preto e branco: o site do fotógrafo espanhol Chema Madoz (a foto que abre o texto é dele); o filme The Kiss (1929), com Greta Garbo, considerado o último filme mudo de Hollywood; o canal Santi Bailor no YouTube, somente com clássicos italianos (incluindo alguns de Fellini, tudo na íntegra e em arquivos únicos); e o canal Movies do YouTube, que tem, dentre outras preciosidades, O Gabinete do Doutor Caligari (1920), filme expressionista alemão; O Encouraçado Potemkin (1925), de Eisenstein; A General (1926) e vários outros com Buster Keaton.

Publicado em Cinema, Fotografia | 2 comentários

Cabaret

Rever os filmes dirigidos por Bob Fosse pode ser apenas a manifestação de uma mania, mas escrever a respeito deles já está me cheirando a um pedido de desculpas. É verdade: ainda não engoli Sweet Charity (1969) e a maldita destruição que provocou na história de Cabíria, a prostituta sonhadora de Fellini. Mas vamos com calma. Era a primeira vez que o ator e dançarino estava dirigindo um filme. Mais: estava transpondo algo que conhecia muito bem – o palco e a dança – para uma linguagem que, para ele, era nova – a direção de cinema. E ele se sai muito bem quando fica só na dança. Eu te perdoo, Fosse. Apesar de todo a idiotização da história, que talvez tenha sido uma grande sacanagem de Fellini, já que ele participou do roteiro. Vocês caíram. As risadas ouvidas no Cemitério de Rimini são de Fellini, que ainda hoje gargalha dessa história.

Cabaret (1972), segunda direção de Fosse, não é um filme qualquer. Devo tê-lo visto também em meados dos anos 80, naquela ansiedade juvenil de ver tudo que tivesse levado muitos Oscars. Não afirmo, mas talvez tenha sido o filme que ganhou mais Oscars sem levar o de melhor filme. E não deixou de ganhar para qualquer um. Foi para O Poderoso Chefão. Saiu vencedor em oito das dez categorias em que concorreu. Dentre elas, Melhor Atriz (Liza Minnelli), Melhor Ator Coadjuvante (Joel Grey), Melhor Direção de Arte, Melhor Música, Melhor Edição e Melhor Editor. Tudo muito merecido!

Fosse entendeu que cinema não é teatro, nem teatro filmado. Também entendeu que um musical no cinema não pode ser um filme que é interrompido para dar lugar a números musicais e depois deixa o espectador sem saber onde estava. Em Cabaret, a história é perfeitamente integrada aos momentos musicais. Verdade que o fato de boa parte dela se passar em um lugar onde aconteçam tais apresentações facilita, mas isso não funcionou no filme anterior. No palco, tudo funciona perfeitamente e – vou me permitir um justo lugar-comum – é aí que “a magia do cinema acontece”. Os números são filmados de vários ângulos, com movimentos de câmeras em praticamente todos e com uma edição de se ficar pensando se aquilo não estava sendo editado ao vivo e em uma só tomada. Era início dos anos 70. Nada de recursos digitais nem quaisquer outras muletas exaustivamente usadas pelo cinema americano nas décadas seguintes. Quem roteirizou, coreografou, dirigiu, filmou e editou aquilo, sabia muito bem o que estava fazendo. E o principal responsável por tudo isso foi Bob Fosse.

Liza Minnelli, um piteuzinho de 25 anos e pouco mais de 1,60m, deve ter pegado sua estatueta e dito: “Papai, mamãe, mundo, quem faz uma Sally Bowles assim, não precisa provar mais nada a ninguém. Dá licença que eu vou ser louca na vida.” E foi.

(clique na imagem abaixo e confira Mein Herr, segundo musical do filme
e primeiro dos quatro protagonizados por Liza;
o vídeo abrirá em outra janela, direto no YouTube)

Fico imaginando o poder da carga genética da pequena Liza, filha de Vincent Minnelli, diretor de musicais, e Judy Garland, que dispensa qualquer apresentação. E a escola que ela teve, crescendo nesse meio. Resultado: 25 anos e tome-lhe Oscar, Bafta e Golden Globe.

Mas nem só de pedido de desculpas a Bob Fosse e rasgação de seda para Liza Minnelli é este texto. Nem mera viagem no tempo a falar de um filme “antigo”. Cabaret está entre nós, brasileiros, hoje. Cláudia Raia, à beira dos 45 anos e com seu 1.80m de gostosura aviltante a qualquer fêmea humana, está cantando e dançando ao vivo no palco. E parece estar fazendo tudo muito bem. Até cantar. E cantar dançando, que é ainda mais difícil. Claro que não é uma Liza Minnelli. Mas e daí? A Liza toda não dá as coxas da Cláudia. Cada uma com seus dons divinos e Deus contra todos nós, pobres mortais babões.

(clique no vídeo abaixo e veja Cláudia Raia também apresentando Mein Herr)

Nem pretendo fazer comparações. Casaria com as duas e seria feliz para sempre (o que certamente não seria muito tempo). Também seria covardia comparar os aspectos técnicos, mas, mesmo assim, atentem para o fato de que o vídeo com Cláudia foi gravado por várias câmeras e editado ao vivo (isto é, as mudanças de câmera foram feitas durante uma única execução do número). Reveja a cena de Liza e repare os diferentes posicionamentos de câmera, seus vários movimentos e o resultado final. Agora imagine que a coreografia foi repetida várias vezes para diferentes posicionamentos de câmera e que, ao final, tudo – as tomadas, a música, os outros sons (os saltos, as cadeiras, as mãos, os estalos) – foi encaixado para dar a impressão de uma única tomada editada ao vivo. Bob Fosse era ou não O CARA para coreografar e mostrar no cinema um número musical com tanta perfeição?

Não preciso perdoá-lo por Sweet Charity, Fosse. Sou eu que peço perdão. Tem que ser muito competente para se adaptar tão bem e evoluir tanto em tão pouco tempo.

Publicado em Cinema | Deixar um comentário

Lenny

Dentre minhas manias (ou incapacidades), está a de me deixar levar sem freios pela busca de conhecimento e me aprofundar em um tema mesmo que ele não esteja ou não pareça estar entre meus principais interesses. Funciona mais ou menos como quando começamos a navegar na Internet buscando algo que queríamos e, de repente, percebemos que passamos por dezenas de páginas e nem sabemos como chegamos àquele lugar. Isso acontece comigo de uma forma mais demorada, desde sempre, com livros e filmes. Leio um livro de determinado autor, gosto, quero ler todos dele. “Azar” o meu se ele escreveu dezenas. Vejo um filme e ele me leva a outro, e outros, e à vontade de ver tudo de um diretor ou de um ator. E nada disso garante que, ao final, eu vá me tornar um admirador daquele tema, pessoa ou forma de expressão. É algo meio doentio, eu sei.

Recentemente aconteceu isso com relação a Bob Fosse. Tive que guardar minha má vontade e meu conceito prévio de que o cinema americano destrói tudo de bom de qualquer outro cinema quando resolve fazer sua versão (e é isso mesmo!) para assistir Sweet Charity (1969), baseado em As Noites de Cabíria (1957), de Fellini. Passada a náusea, civilizadamente admiti que, em se tratando de coreografar e levar musicais para o cinema, Bob Fosse era realmente muito bom. Daí bateu a vontade de rever Cabaret (1972) e All That Jazz (1979) – ambos consagrados com dezenas de prêmios, incluindo 12 Oscars – e tudo mais que ele tivesse dirigido. Descobri que foram apenas cinco filmes e que, na verdade, eu só não havia assistido Sweet Charity. Os outros dois – Lenny (1974) e Star 80 (1983) -, também havia visto nos anos 80, mas quase não guardei lembranças. De Lenny, tudo que lembrava era de que tinha sido feito por Dustin Hoffman e que eu havia assistido por isso. Revi e tive um, digamos, déjà vu às avessas.

Tenho percebido que, nos últimos anos, os brasileiros têm se encantado por grandes novidades que nada têm de novas, originais, revolucionárias ou geniais. Daí o endeusamento às “invenções” de Steve Jobs (grande aprimorador e comercializador, nunca um Thomas Edison) e o abestalhamento pelo stand up comedy. Que fique claro: não estou questionando o valor das coisas, mas nossa ignorância e disposição em comprar como novo algo que existe há décadas. Quando a onda do stand up surgiu por aqui, pensei: “Mas José Vasconcelos não fazia isso nos anos 1950?! Por que essa garotada está dando um nome em inglês e dizendo que isso é onda da matriz americana?” José Vasconcelos já fazia isso quando o “grande ídolo” Seinfeld estava nascendo. Ah! É que essa garotada cresceu vendo televisão e sendo educada por séries americanas. Aprendeu que se é bom é porque veio dos Estados Unidos. Talvez por isso, quando Zé Vasconcelos morreu, os jovens jornalistas tenham repetido tanto a bobagem de que “ele ficou famoso na Escolinha do Professor Raimundo”. Em resumo: as coisas parecem novas porque a garotada desconhece completamente a história, mesmo que recente, do próprio país onde vive, só tem memória para o que viu na tevê e só acha bonito se tiver vindo da gringa. Mais culturalmente rendidos, impossível.

Revi Lenny. Trata-se da história de Lenny Bruce, que começou carreira fazendo apresentações do tipo stand up no final dos anos 1940, quando provavelmente nem os pais dessa garotada que se acha genial, engraçada e revolucionária haviam nascido.

Se você não viu e/ou pretende assistir Lenny, saiba que vou fazer um ou outro comentário que pode revelar algo da trama (o tal do spoiler, para você, que foi criado em portuglês). É um drama, filmado em preto e branco (muito sensível e corajoso da parte de Fosse, que abandona seu mundo de música, dança, movimentos, cores e tudo mais que possa distrair, para focar no essencial), com uma narrativa intercalada em três tempos que se completam e apresentam diferentes olhares sobre a história (nem endeusando nem criticando o personagem, mas mostrando toda a sua humanidade) e com Dustin Hoffman, ainda na casa dos 30, já muito maduro e talentoso (o baixinho da propaganda do Fiat Cinquecento, crianças).

Mas é sobre o tal déjà vu ao contrário que quero falar. Judeu, com barba, fazendo stand up, acusado de ser grosseiro (e sendo mesmo!), tornando-se vítima de suas próprias grosserias… Já viram isso antes, digo, depois (recentemente e aqui perto) de Lenny Bruce?

Antes de continuar, devo dizer que achei uma bobagem enorme toda aquela discussão em torno da “piada de mau gosto” do Rafael Bastos. Mesmo porque não vi qualquer piada. Só um cara grosseiro com uma evidente necessidade de autoafirmação finalmente chegar ao ponto de estampar publicamente sua imbecilidade, limitação, falta de talento e de bom senso para muita gente que ainda não tinha percebido isso. Acho a celeuma idiota porque não sou obrigado a assistir, rir junto, concordar com o “humor” adolescente. Ninguém me tira o poder de escolha. Não gosto, não vejo, não me aborreço. Simples assim.

Mas entendo que, de alguma forma, a discussão possa gerar algo salutar. Rever Lenny agora e ver tantas semelhanças (há diferenças gigantescas também: era outra época, outra sociedade, outros motivos) me fez pensar que a discussão seja mesmo necessária. O que me deixou triste foi perceber que se ela ainda é necessária é porque somos extremamente imaturos para lidar com certos temas, certas atitudes. Discussão sobre liberdade de expressão, censura, sobre o que seja ou não politicamente correto… Se chegamos a um ponto em que agressão gratuita e qualquer bobagem vomitada possam ser confundidos com humor e liberdade de expressão, acho melhor voltarmos para as cavernas porque é lá o nosso lugar. Vamos meter a clava na cabeça dos outros e nas de todos que não rirem disso. Apareceu na tevê é “gênio”, “fantástico”, “sensacional”. Se já disseram o que temos que acreditar e achar, por que fazer o esforço de pensar?

Tenho esperança de que as semelhanças continuem a se repetir e, mesmo com um retardo de mais de meio século, em algum instante percebamos que quase ninguém mais aplaude qualquer idiotice só porque é moda. E que, assim como Lenny, em um lampejo de lucidez, o bobo da vez (qualquer um) admita: “Não sou comediante” e se retire. Mais digno para quem o fizer. Mais fácil para nós, que não teremos que fazer a triste escolha entre o que é menos pior: viver em uma sociedade hipócrita ou em uma sem valores e sem qualquer senso crítico.

A nossa sociedade – a brasileira média –, como vemos hoje, me parece mais com uma de babuínos: um chefe grita, todos os outros gritam também e se mostram prontos a estraçalhar qualquer um que não faça parte do bando. Particularmente, prefiro viver em uma em que, com todas as suas diferenças e gostos variados, as pessoas se respeitem, ajam de forma civilizada e pensem por si mesmas.

Lenny me fez pensar que aquela sociedade hipócrita e moralista dos anos 1950 nos Estados Unidos era bem mais evoluída que a nossa nos dias atuais. Se é para importar algo deles, por que em vez do lixo, não importamos o que eles aprenderam antes de nós? Aprender com a observação dos erros alheios, no mínimo, evita que venhamos a repeti-los.

Publicado em Cinema, Comportamento, Livre pensar | 1 comentário

Conversa rápida…

Estou traindo o blog com outros escritos. Pronto, confessei. Mas não estou traindo os cinco ou seis leitores que ainda vêm aqui. Ninguém está lendo o que ando escrevendo. É tudo coisa para 2012. Não sei para quando é o parto, mas a barriga está enorme e quase já sinto as contrações. Parece que serão trigêmeos. Talvez, quadrigêmeos. Enquanto isso, vamos jogar conversa fora…

Carlos Estevão no Jornal da ABI

Para diminuir o peso em minha consciência, aí está algo que andei escrevendo. São seis páginas sobre Carlos Estevão na edição de novembro do Jornal da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Considerem como um aperitivo para a biografia que, prometo (com riscos) terminar em 2012. É só clicar aqui ou na imagem acima e ter acesso às páginas.

Na Revista de História de novembro tem mais Carlos Estevão. Ainda não vi (maldita distribuição setorizada!), mas o texto está no site da revista.

* * * * * * *

 Balada Triste de Trompeta

Estou em uma fase espanhola. Não, não é bem isso que você pensou. Verdade que gosto de uns pechos tamanho G ou GG, preferencialmente naturais de fábrica, mas estou falando de cinema. Nos últimos meses, além de ver/rever oito filmes de Almodóvar; de corrigir uma gravíssima falha de dez anos, vendo Lúcia y el Sexo (2001); de ficar paralisado/apaixonado com a atuação de Laia Marull em Te doy mis ojos (2003); neste sábado foi a vez de ficar bestificado com Balada Triste de Trompeta (aqui, Balada do Amor e do Ódio, 2010).

É tão bom em tudo, que sugiro até aos que foram criados com o pensamento engessado do cinema americano. É tão bom, que eu nem vou dizer que é preciso prestar atenção na analogia com a história política da Espanha, que também serve como pano de fundo à história de amor e ódio dos palhaços Triste e Tonto. Pode ver só como entretenimento, mas lembre-se de respirar. É moderno, violento e, muitas vezes, grotesco. Ao final, dá vontade de comentar: “Viu como se faz, Tarantino?” Fiz questão de NÃO colocar um trailer aqui. Acho até que o pôster ao lado já fala muito. Não procure saber mais nada. Apenas assista. Tão virgem quanto possível.

* * * * * * *

 Sweet Charity

E por falar em palhaços, vou acabar vendo o filme do boçal do Selton Melloso. Este ano, já me rendi a Nine (após um ano e meio de relutância) e Sweet Charity (após 42 anos, portanto mais que minha vida toda, de resistência). Rápida explicação. Nine é uma (vá lá!) homenagem a Fellini. Sweet Charity é a versão americana de Noites de Cabíria. Ou a aversão, como prefiro. Daí vem um mané, que tem como maior talento imitar a si mesmo, faz um filme sobre palhaços e diz que é homenagem a quem? A quem? Ao deus Fellini. Pois é. Eu, devoto escaldado, me armo logo para uma guerra santa.

Um dia, bem zen (zen raiva, zen bile pulando boc’afora), escreverei detalhadamente minhas impressões a respeito de Nine e Sweet Charity. Deste último, digo que quase tudo que vale a pena ver é essa parte no vídeo acima. Pode ver sem medo. É só dança e não compromete em nada a história. Tem ainda uma parte com Sammy Davis Jr. e outra, quase ao final, com Shirley Maclaine que também são legais. Admito: os americanos são muito bons com musicais e são ótimos em dançar. E Bob Fosse era o cara para pegar isso e levar para o cinema. Estão vendo como, às vezes, sei ser bonzinho com a debilidade mental americana?

* * * * * * *

Séries, séries, séries…

Vou ser ainda mais bonzinho: os americanos são bons em fazer séries. Não contentes em aniquilar a cultura de metade do planeta pelo cinema, resolveram atacar dentro das casas de todo mundo, que é para não sobrar uma criatura que não repita suas gírias, suas siglas, seus gestos, suas manias. É, brother, você é americano e não sabe. Mas você acha isso awesome, né? WTF, Sandro! Relax, man. Ria um pouco. Ou muito… LOL. Ok. Hi Five. Nóis é BFF.

Tá, eu me rendo às séries. Continuo vendo Nikita (porque curto japa, principalmente se for japa gostosa… e ela nem é japa!), Supernatural (podem sacanear) e House (que começo a não botar muita fé que vá mesmo passar da atual temporada). Também estou vendo Person of Interest, apesar de não conseguir acreditar que Ben Linus possa ser um cara legal, que Jesus virou matador e que os dois estão de treta para salvar a vida de um monte de gente que eles nem conhecem. Para desligar o cérebro totalmente, tenho visto Suburgatory e 2 Broke Girls. A identificação com Tessa (Jane Levy) e Max (Kat Dennings, que acho linda) é enorme: uma total falta de comiseração com os retardamentos alheios e de fé que isso possa mudar. Minha cara, não?

Publicado em Cinema, Conversa com o leitor, Desenho, Memória, Televisão | 1 comentário

Giulietta e Federico – 68 anos de um amor de cinema

Amor perfeito é aquele que não se realiza. Um amor como o de Romeo e Giulietta, que fica no mundo das ideias, das ilusões, sem ser colocado à prova pela dura realidade, pelo tempo, pelos defeitos crescentes de um e de outro. Este é um pensamento que consola os desiludidos do amor.

Giulietta – não a Capuleto, mas a Masina – pois isso à prova. Na flor da idade, aos 22 anos, em 30 de outubro de 1943, desposou seu Romeo: o jovem Federico, de Rimini. Seria um amor para a vida toda, um amor de cinema.

O Romeo desta Giulietta engordou, dava ordens, queria ver as coisas do jeito que sonhava e era cercado por mulheres lindas, desejadas por homens do mundo todo: Sylvia, Fanny, Gradisca… Mulheres de carnes fartas, sensuais, muito diferentes da pequena Giulietta de pouco mais de metro e meio e cara de alcachofra.

Em 1950, no primeiro mezzo de Federico, ela aparecia como a preterida Melina, apaixonada por um homem que se deixava levar por mulheres e luzes. Melina tinha Amor no nome e a certeza de que ela era o porto seguro, de que ele sempre retornaria. Em 1954, Giuletta era Gelsomina, sempre encantada com qualquer possibilidade, com alguma atenção, algum carinho. A estrada era árdua, mas, àquela altura, o mundo inteiro conheceu e reconheceu que aquela parceria era de cama, mesa e tela. Se alguém ainda duvidava, três anos depois, Cabíria espantou qualquer desconfiança.

Giulietta dos espíritos trouxe cor ao mundo dos sonhos de Federico. A partir dali, ele viveria histórias extraordinárias em um mundo de sátiros. Passaria pelas tentações de Roma, cidade das mulheres, faria de tudo e lembraria cada detalhe. A vida seguiria até que Giulietta deixasse de ser apenas (!) a inspiração escondida. Ressurgiria como Amelia, dançando e sendo conduzida por Pippo-Marcello, alter ego de seu Federico-Romeo.

Em 1993, o casal começou a planejar outra viagem. Giulietta tinha dificuldade para respirar. O coração de Federico não queria mais bater. Sua mente se ausentou, mas seu corpo permaneceu aqui até o casamento completar 50 anos. No dia seguinte, Federico partiu. Giulietta ficou por mais um tempo, mas já não havia muito que fazer aqui. Em menos de cinco meses, tomaria a barca – aquela bem na entrada do Cemitério de Rimini – e se juntaria mais uma vez a seu amor. Hoje, 30 de outubro de 2011, estão completando 68 anos de casados.

Como diria Fellini (ah! era este o sobrenome de Federico): “Não há fim. Não há começo. Existe apenas a infinita paixão da vida.E la nave va…

* * * * * * *

Mais fotos de Fellini e Giulietta Masina em Mulheres de Fellini

Textos relacionados
Maratona Fellini – Anos 50
As loucas de Fellini e os outros eus

Publicado em Cinema, Memória | 2 comentários