“Jacy” (quase quatro anos depois)

Meu presságio sobre Jacy, do Grupo Carmin, se confirmou: Terá uma longa vida em muitos palcos, ensinando que nunca se deve ter medo de lembrar. Desde que escrevi isso, em setembro de 2013, logo após sua estreia, a peça rodou por vários festivais, foi eleita pelo Estadão como um dos dez melhores espetáculos encenados em São Paulo em 2015, passou por 16 estados brasileiros no ano seguinte, voltou à sua cidade de origem para uma temporada de um mês… e não vai parar por aí.

A predição não era uma torcida por amigos. Era algo muito óbvio. Jacy é daquele tipo de trabalho sobre o qual ficamos tentados a dizer uma dessas duas coisas aos envolvidos: que bastava ter feito isso na vida ou que vai ser difícil superar.

Jacy agrada por motivos variados. Depois de assisti-la quatro vezes, deixo minhas impressões mais íntimas de lado e me arrisco a falar das possíveis identificações que um espectador qualquer poderá sentir se cair de paraquedas no teatro.

A curiosidade pela vida alheia – Apesar de o grupo ter começado a buscar e trabalhar a temática de seu segundo trabalho em 2010, a concepção do que viria a ser Jacy acontece, de verdade, a partir do momento em que a frasqueira é descoberta no lixo. Se um grupo de teatro se deu ao trabalho de montar uma peça sobre a vida de alguém desconhecido, então deve ter algo de interessante na vida dessa pessoa. Que mistérios guardam a frasqueira de Jacy? Quem é Jacy? Por que seus objetos pessoais foram jogados fora? Ela não tinha ninguém?

A proximidade entre artistas e espectadores – Logo de início, os atores retiram o véu que os separa do público. A plateia não fica no escuro, passiva, assistindo a algo que é mostrado por seres de um mundo estranho. As dificuldades de buscar uma história, de montar a peça, de encontrar seu ritmo… tudo é compartilhado. Os atores se tratam por seus nomes e vão trazendo as pessoas para a realidade de suas vidas, da construção do espetáculo, da vida da personagem que eles também não conhecem.

Os medos comuns que fingimos não existir – A solidão, a velhice, o abandono. Em uma sociedade em que ser feliz é obrigação, quem quer pensar em problemas? Menos ainda em problemas que sempre existiram e com os quais nunca soubemos lidar. As paixões e as buscas da jovem Jacy – por amor, por sustento, por ser alguém –; as frustrações da velha Jacy – as doenças, as dores, as limitações, a solidão. Quão seguro você se sente em relação ao futuro?

A vida comum e sem graça que fingimos não ser a nossa – Sua vida não é o que você mostra nas redes sociais. Em geral, aquilo é o que você gostaria que fosse, o que quer acreditar e fazer com que os outros acreditem. Mas como é mesmo a sua vida? O que ela tem de realmente especial? Você tem um bom emprego público e ganha bem. Mas tem que engolir muitos sapos para manter aquilo. Você é um profissional liberal bem sucedido. Mas descuidou dos relacionamentos e nas horas de folga está tão cansado que não aproveita nada. Em algum momento descobrimos sobre Jacy que “ela só trabalha”. E o mantra vai se modificando e ganhando outras interpretações: “Ela só trabalha… Ela só… trabalha… Ela… só trabalha… Ela… só… trabalha…” Vista por outros, nossa vida parece invejável, mas qual é a realidade? Você só trabalha? Você é só uma peça daquele trabalho e não está realmente feliz com ele? Tem alguma vida além do trabalho? Você conquistou algo que realmente importa? Você se sente só… na vida?

É melhor não pensar – O cansaço é tanto, as mazelas ao redor são tantas que é melhor não pensar. É mais cômodo acreditar que conquistamos algo que queríamos e não pensar em todo o resto. Mas de repente percebemos que somos cercados por ideias e que elas são repetidas e repetidas e repetidas… e começamos a acreditar nelas e repeti-las, repeti-las, repeti-las sem pensar, sem analisar, sem questionar. Não é uma ideia sua… se parasse um pouco para pensar, você perceberia que é um absurdo concordar com aquilo… mas você está tão cansado… é tão difícil pensar… Sim, você é só mais uma peça nesse sistema massacrante. E você não vai fazer a mínima diferença ou a mínima falta quando desaparecer. Vai ser substituído por outra peça que não pensa e que só precisa trabalhar.

O momento político – Não este em que pensamos ou acreditamos estar vivendo, mas um que começou muito antes de você vir ao mundo. São as mesmas pessoas que comandam e fazem você acreditar que tem uma vida, que é útil, que está fazendo o que é correto. São as mesmas pessoas que lucram com isso enquanto você só trabalha. Você, só, trabalha. Você, só. Você “vivendo” e morrendo só. Eles se perpetuando no poder e aproveitando a vida, o tempo livre, o dinheiro, os frutos do que você produz. A peça parece falar de um momento muito atual, mas a impressão seria a mesma se tivesse sido apresentada cinquenta anos atrás, ou vinte, ou dez, ou daqui a mais cinco anos, ou outros dez para frente. Alguns nomes mudariam. Alguns sobrenomes jamais mudam. E você sempre será a Jacy nessa história.

Depois de roubar, a atividade política mais comum é convencer a todos de que tudo está bem e vai ficar melhor. A função da arte é incomodar, denunciar que você está sendo enganado, ativar seu pensamento, provocar o questionamento. Se você viu em Jacy uma peça bonitinha, você não entendeu nada. Se você saiu dela com a certeza de que precisa melhorar a sua vida, que isso é única coisa que você pode fazer e que isso, sim, vai mudar tudo ao redor, então, talvez, você tenha começado a pensar.

Termino com outro presságio sobre Jacy. Ela só deixa de ser encenada se o grupo se cansar dela ou se entrarmos em um período de tão densas trevas que ela passe a ser considerada uma ameaça aos poderes estabelecidos. Pensar livremente e tomar as rédeas da própria vida são sempre uma ameaça aos donos do poder.

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Texto relacionado
Jacy (setembro de 2013)

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A charge política em dois tempos

Uma coisa sobre o futuro, nós já sabemos: vai ser difícil explicar este período da vida política brasileira. Diferente de outros tempos em que as pedaladas e rabos de arraia eram feitos nos bastidores e seus resultados podiam ser acompanhados quase como um capítulo diário de novela, pelos jornais e rádios, hoje a coisa acontece descaradamente e em velocidade tão vertiginosa que, até para quem está com todos os portais e redes sociais abertos ao mesmo tempo, fica difícil acompanhar. Mais difícil ainda entender. Some-se a isso a total ignorância da maioria sobre organização e processos políticos, e o resultado é o sanguinário Fla x Flu (Corinthians x São Paulo, se preferir) que estamos vivendo.

Provavelmente será mais confortável falar disso daqui a cinquenta anos. Se for permitido falar. Tomara! Do jeito que a coisa está, com gente sendo agredida na rua por conta da cor de uma camisa, é sempre bom ter os dois pés atrás e não duvidar de qualquer possibilidade. Mas vamos apostar no melhor, acreditar que teremos evoluído e que alguém irá se aventurar a destrinchar esse momento. Vai encontrar mais joio do que trigo e uma dificuldade de proporções bíblicas para separá-los. Pior ainda será para quem quiser entender isso através das charges. E boa parte do trigo está nelas.

Quando comecei as pesquisas sobre Appe – e lá se vai uma década! – esta foi uma das primeiras dificuldades com que me deparei: como explicar as charges – fortes, diretas e de imediata compreensão à época – para o público de meio século depois, que não conhecia o cenário da piada, a situação ou mesmo seus personagens? Seria preciso desconstruir a charge, contar a história e correr o risco de que ela perdesse completamente a graça. Mas há outro jeito?

Como chargista político, Appe viu a deposição de Getúlio (1945), a eleição de Dutra, o retorno de Getúlio à presidência pelo voto popular (1950), seu suicídio (1954), a eleição de Juscelino Kubitschek (1955), a de Jânio Quadros (1960), a renúncia deste (1961), Jango assumindo e Jango deposto (1964) pela então chamada – e intensamente apoiada pela imprensa – “revolução”. Caricaturou e ironizou políticos extremamente influentes que costuravam ascensões e quedas. Muitos dos quais, cinquenta anos depois, a maioria do povo não faz a mínima ideia de quem seja e, portanto, jamais os reconheceria nas charges ou entenderia o que elas mostram.

Para minha sorte, Appe anotou os nomes de muitos deles em cópias de charges. Daí era “só” conhecer todos os detalhes de todas as histórias que os envolviam. Getúlio, Dutra, JK, Jânio, Jango, Carlos Lacerda, Brizola, Tancredo… Estes, “todos” sabem quem foram. Mas João Mangabeira, Odilon Braga, Armando Falcão, Sérgio Magalhães, Juracy Magalhães e dezenas de outros, você saberia dizer quem era ou reconhecer algum deles nas charges? Quem irá reconhecer Delcídios, Moros e Janots, de bate-pronto, em 2065? Nomes e rostos de ministros do STF, donos de empreiteiras, marqueteiros e dezenas de delatores – a profissão que mais cresce no Brasil de hoje – são facilmente reconhecidos por nós, que estamos acompanhando todo o lamaçal, capítulo a capítulo, dia a dia, mas quantas linhas essas pessoas ganharão nos livros de História? Deixo o trabalho aos historiadores e pesquisadores do amanhã.

Foi sem esperanças de encontrar Appe que li Jango e o golpe de 1964 na caricatura (Jorge Zahar Editor, 2006), de Rodrigo Patto Sá Motta. Minhas pesquisas já haviam mostrado que o pré-golpe e o golpe de 64 foram pouco ou nada explorados por Appe, principalmente na revista O Cruzeiro. A pesquisa de Sá Motta se debruça, principalmente, nas charges de Lan, Hilde, Augusto Bandeira e Theo, passando por Adail e Biganti, e compreende o período de abril de 1962 a abril de 1964. Mesmo depois de centenas de páginas sobre política que li em O Cruzeiro e em outras publicações da época, o livro ainda ajuda a entender o período e o humor daquele momento.

A revista O Cruzeiro entra os anos 1960 em franca decadência. Manchete, mais moderna, já havia conquistado seu espaço. A televisão no Brasil já tinha dez anos. Assis Chateaubriand, acometido por uma trombose, já não era mais o tanque de guerra que costumava ser. Sua seção de humor também sofreu mudanças. Dos grandes da época de ouro, restavam apenas Carlos Estevão e Péricles Maranhão (que tiraria a própria vida no final de 1961). Ziraldo, mais novo, estava lá há alguns anos. Appe continuava como ilustrador e chargista político. Aqui e ali, ganhava algum espaço com outras charges e cartuns. Em 1963, ano que antecedeu o golpe, a maior participação de Appe em relação à política brasileira acontece na edição de 16 de março, em que ele coloca os políticos em ritmo de carnaval: Brizola “com a macaca”; JK e Lacerda flertando com Brasília; um folião preocupado com a “ameaça comunista” se queixa a Jango, um guarda que não dá a mínima para isso. Depois disso e até o golpe, as charges feitas por Appe na revista se ocupam da política internacional, mais precisamente da guerra fria. No fim do ano, com o assassinato de John F. Kennedy, some por completo. O humor com a política brasileira só voltaria depois da deposição de Jango. Mas por pouco tempo.

O humor antes e depois do golpe de 1964

Com a tomada do poder pelos militares, a charge política de O Cruzeiro se volta para o que está acontecendo no Brasil. O clima inicial – de aparente equilíbrio, tranquilidade e esperança –, deixa Appe à vontade para brincar com a situação. As charges mostram a “limpeza” que Castelo Branco estaria promovendo, o corte de relações com Cuba, o “corte das cabeças” dos adversários, o sempre conveniente discurso da revolução versus corrupção, Castelo cortejando a UDN (que seria dissolvida em 1965, tendo parte de seu quadro migrando para a Arena, o partido da situação), a esperança dos políticos que apoiaram o golpe de que logo haveria eleição para presidente e, na sequência, a frustração destes ao perceber que isso não aconteceria tão cedo.

Revista de variedades para toda a família, O Cruzeiro nunca foi pródiga em capas com políticos. A revista lançou uma edição extra, datada de 10 de abril de 1964, com o acompanhamento das últimas horas de Jango no governo e a ascensão dos militares chamada de “Edição histórica da revolução”. Na capa, Magalhães Pinto, governador de Minas Gerais, um dos principais articuladores da derrubada de João Goulart. Sua edição regular, datada de 11 de abril de 1964, a primeira fechada após o golpe, traz Sophia Loren na capa e informa que a atriz italiana quer ser mãe. Duas semanas depois, com Castelo Branco já empossado, a revista (25 de abril de 1964) traz o novo presidente na capa e o saúda como “o cérebro da revolução”. Na semana seguinte, a capa é de Costa e Silva, então Ministro da Guerra e que viria a ser o segundo mandatário do período militar. A revista o apresenta como “o executor da revolução”.

Os primeiros meses de Castelo (que não parecia uma ameaça à liberdade de expressão) como presidente renderam charges que mais retratavam um período de incerteza do que se posicionavam de forma contundente pró ou contra o governo. Isto enquanto ainda se acreditava que haveria eleição presidencial no ano seguinte (1965) e que Castelo iria apenas terminar o período para o qual Jânio Quadros havia sido eleito (31 de janeiro de 1961 a 31 de janeiro de 1966). No entanto, a “revolução” começou a mostrar sua verdadeira face. As eleições foram suspensas, o mandato de Castelo Branco prorrogado (até 15 de março de 1967) e seu sucessor seria “escolhido” pelo congresso, por voto indireto, sendo candidato único e votado apenas pelo seu partido.

Acabada a rápida lua de mel (e não é sempre assim?) do novo presidente com a imprensa, esta, que havia apoiado o golpe em peso, sentiu-se à vontade para criticar. No Jornal do Commercio, onde Appe mantinha um espaço diário para a charge política, os temas principais foram a política econômica capitaneada por Roberto Campos (apelidado de Bob Fields e considerado um entreguista a serviço do capital estrangeiro), a oposição feita pela Frente Ampla (formada por Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart) e a criação da Lei de Imprensa (já apontando para o que viria mais a frente). Na charge de 19 de janeiro de 1967, Appe teve tempo de perguntar: “E essa Lei de Imprensa em fim de governo? É para proteger o que vem ou o que vai?” Nos dois meses seguintes, a criação do Cruzeiro Novo, a mudança de governo (ou a “passagem de comando”) e certo alívio com a saída de Castelo (que engano!) pautaram as charges. Apesar da Lei de Imprensa, que previa prisão em casos de “abusos no exercício da liberdade de manifestação do pensamento e informação”, ainda era possível satirizar o que estava acontecendo. A coisa toda iria desandar de vez no final de 1968, quando foi decretado o Ato Institucional nº 5.

Acabou a graça

Em dezembro de 1968, Appe havia tirado alguns dias de férias da revista O Cruzeiro e viajado para o Norte com o objetivo de passar as festas de fim de ano com seus familiares. Desde que havia saído de Manaus, de barco, em 1946, tinha deixado de ser um jovem promissor e se transformado em um dos mais famosos chargistas do país, que frequentava festas com artistas e autoridades políticas, incluindo presidentes como Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros. No dia 13 daquele mês, pouco antes de Appe reencontrar sua família, o marechal Artur da Costa e Silva havia decretado o Ato Institucional número 5, mandando “às favas todos os escrúpulos de consciência” e endurecendo o regime criado pelo golpe de 1964. As liberdades individuais e os direitos políticos se tornavam ainda mais restritos, o Congresso era fechado e a imprensa estava sob censura prévia. A revista O Cruzeiro, que havia festejado o golpe chamando-o de “revolução” e lançado uma edição extra com tiragem de 425 mil exemplares, começava a se ver obrigada a repensar seus conceitos sobre “liberdade” e “democracia”.

Para cobrir sua ausência, Appe tinha deixado algumas charges prontas. Em uma delas, via-se Papai Noel caminhando em direção ao prédio do Congresso carregando um saco no qual estava escrito “cassações”. Foi com indisfarçado orgulho que, ainda no Norte, às vésperas do Natal, abriu a revista e viu a charge publicada. Naquele momento, acreditou que havia burlado a vigilância da ditadura. O orgulho durou pouco. De volta ao Rio, descobriu que a censura só deu o ar de sua graça quando quase metade da edição já circulava pelo Norte e Nordeste. O restante, cerca de trezentos mil exemplares, rodou novamente sem a “perigosa” charge, que contrariava os objetivos da censura e as normas do manual distribuído aos veículos de imprensa no dia da publicação do AI-5. O manual dizia que o objetivo da censura era “obter da imprensa falada, escrita e televisiva o total respeito à Revolução de Março de 1964, que é irreversível e visa a consolidação da democracia” e estabelecia normas como a não divulgação de notícias que veiculassem críticas aos atos institucionais e complementares, nem que desmoralizassem o governo e as instituições. Esta última, em bom português, decretava o fim da charge política.

Appe parou com a charge política e passou a navegar em águas menos turbulentas. A revista O Cruzeiro também entendeu o recado. Nos anos seguintes, a sessão “Política” não existiria em suas páginas. Pelas próximas duas décadas, fazer graça podia não ser tão engraçado. No saco cheio de cassações do Papai Noel, também havia uma para Appe. A graça e a liberdade de expressão só voltariam com a reabertura política e o retorno à democracia em 1985.

O humor hoje

O que o humor aprendeu com a ditadura e como se manifesta trinta anos depois de voltar a ser livre? Primeiramente, as charges não estão apenas mais nos impressos. Elas passaram para o mundo virtual e não é mais preciso estar atrelado a um veículo de imprensa para mostrar suas ideias. Ela também deixou de ser apenas um desenho. Temos a charge eletrônica, animada. Temos os memes. E temos a crítica através de vídeos, feita por humoristas, que também podem ser consideradas como uma nova forma de charge política.

Como chargista, Appe dizia que não tinha lado. Ainda que suas convicções pessoais pendessem para uma direção ou outra, no aspecto profissional Appe procurou manter a máxima de que “pau que dá em Chico dá em Francisco”. De Getúlio a Collor, só escaparam Médici e Geisel (período em que esteve afastado da prática por conta do AI-5).

Em 2016, com a polarização em que nos encontramos, há paus para Chico, há outros para Francisco e, mais raramente, um que dê em ambos. Ter que se posicionar, contra ou a favor de algo, é quase uma obrigação. Na atual reedição da famosa frase “Aos amigos tudo, aos inimigos, a lei”, temos um “Aos amigos tudo, aos inimigos, o ódio”. Uma pena. O ódio não permite que se ria da boa sacada, da piada bem feita por quem pensa diferente, viu algo por outro ângulo ou que esteja comprometido apenas com o humor.

O período entre a reeleição de Dilma Rousseff e a votação de seu afastamento pela Câmara tem sido de uma produção extremamente fértil para a charge política. Daqui a cinquenta anos, os estudiosos serão obrigados a passar pelos trabalhos de Laerte Coutinho, Angeli, Nani, Dalcio, Quinho, Edgar Vasques, Gilmar Machado, Aroeira, Duke, Ivan Cabral, Amarildo, Jean Galvão, Amorim, Bira Dantas e muitos outros. Algumas charges como a do político andando sobre a palavra “golpe” em forma de bicicleta e dizendo “Olha, mãe! … sem militares!”; a da Justiça, cega, guiada por um cão raivoso, ambas de Laerte; e a do grupo de pessoas vestindo camisetas amarelas e sendo dispersado quando jogam um livro de História (e a adulteração sofrida, deixando as camisas vermelhas e trocando o livro por uma carteira de trabalho), de Ivan Cabral; já conquistaram seus lugares na posteridade. As apropriações e adulterações de charges, assim como o policiamento de grupos radicais ao humor que pareça contrário às suas doutrinas são outros pontos que merecerão estudos.

Assim como o choro, o riso é livre. E grátis. Independente das diferenças políticas, é bom lembrar que vivemos um momento em que podemos rir. E devemos cuidar para que não nos tirem isso outra vez. Espero que, no próximo capítulo desta história, possamos manter este direito.

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Links relacionados e sugestões de leitura:
Que Appe é esse?
Memória Viva de Appe
Charge on line
Charges 2016 no Uol Notícias
Página de Laerte Coutinho no Facebook
Página de Quinho no Facebook
Ivan Cabral
Dalcio Machado
Nani Humor
Artigo “O trampo dos cartunistas está sendo vandalizado por grupos anti e pró-governo”
Porta dos Fundos ironiza “patrulha ideológica” e boicote em novo vídeo

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O amor nesses tempos

Aprendemos a odiar adequadamente. Quem se espanta com o atual estado das coisas, andava distraído. Não foi ontem que, pela primeira vez, um grupo de torcedores emboscou e atacou outro que vestia camisas de cor diferente. Não foi ontem que, pela primeira vez, alguém escorraçou um pedinte que entrou no restaurante ou queimou um morador de rua “por diversão”. Não foi ontem que, pela primeira vez, se resolveu mandar matar garotos que ficam assaltando pelas redondezas. Não foi ontem que, pela primeira vez, aceleramos o carro assim que o sinal abriu sem esperar o pedestre terminar de atravessar. Não foi ontem que, pela primeira vez, xingamos outro motorista. Não foi ontem que, pela primeira vez, discutimos com um vizinho e desejamos seu mal. Nem foi ontem que começamos a julgar e condenar sem provas, desejando a pior das penas ao acusado sem mesmo lhe dar o direito de se defender.

Há tempos frequentamos a escola do ódio. Há muito ele vem sendo aprendido e alimentado. Ainda que não estivéssemos usando, ele foi absorvido e pode ser utilizado a qualquer momento. Odiar é como andar de bicicleta: você pode passar anos sem praticar, mas nunca esquece como fazer.

Talvez, na ilusão de sermos civilizados, não tenhamos dado muita atenção a ele. E é aí onde mora o perigo. O germe do ódio não morre com facilidade. Com mil ocupações e preocupações, provavelmente também não demos muita atenção ao amor. E este morre mais facilmente. Ou se perde de um jeito que não conseguimos encontrá-lo quando sentimos necessidade. Ao buscar algo no abandonado jardim dos nossos sentimentos, encontramos apenas a erva daninha que tomou conta de tudo. Você pode não ter plantado o ódio, mas também não cuidou de arrancá-lo quando ainda era pequeno nem impediu que outros jogassem algumas sementes para o seu lado da cerca.

Esquecidos de ambos – o amor e o ódio –, acabamos também por esquecer como diferenciá-los. O melhor agora talvez seja esperar o tempo certo de colher o que foi plantado para só então separar uma coisa da outra. E, se possível, aprender com a experiência para que isso não se repita.

No momento, o ódio se tornou uma catarse coletiva. Falamos que é amor – pela pátria, por justiça, por certos princípios, por nossos filhos –, mas é só ódio mesmo. Foi isso que deixamos crescer. Responda com honestidade: isso nunca aconteceu em seu universo particular? Você continua amando aquela pessoa depois que vocês se separaram ou alimentou algum ódio em relação a ela para facilitar o afastamento? Você continua grato por quem lhe deu uma oportunidade ou passou a odiar quando ouviu um “não”? Você alimenta as boas lembranças que teve com alguém ou odeia que tenham se afastado? Que muros ou armadilhas você criou para se proteger quando a única proteção seria continuar alimentando o amor? Se existe ódio envolvido, nada de bom pode surgir ali.

Pratique bons sentimentos. Ainda que você não tenha sido educado para isso ou tudo ao redor pareça pouco propício, cultive bons sentimentos. Não deixe sua alma, sua essência, aquilo que o anima, se tornar seco e até incapaz de reconhecer as coisas boas. Antes de exigir algo que lhe pareça agradável, dê esse algo. Não economize amor e bondade. Eles são uma fonte inesgotável de riqueza. Dê amor aos que não estão atentos a ele, aos que não agradecem, aos que não retribuem, aos que não merecem. Ame com força e sem medo. Aprenda a amar adequadamente.

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Dois Amores y Um Bicho

Não importa se a intolerância é política, social, religiosa ou de gênero. Se há uma escolha diferente, logo aparece uma clava desferindo golpes para todos os lados. E se o objeto do ódio for eliminado, no instante seguinte um substituto será escolhido. O ódio e a intolerância têm uma fome que nunca se satisfaz.

Desconheço se um fato específico motivou o venezuelano Gustavo Ott a escrever Dos Amores y un Bicho, mas, quase uma década e meia depois de ser colocada no papel, a peça, em nova montagem, chega a um Brasil cada vez mais intolerante e que se alimenta disso de todas as formas: nas ruas, nas redes sociais, através dos meios de comunicação de massa. Parece que jamais houve tanta necessidade de odiar. Ou sempre foi assim e apenas alguns de nós não havia percebido. O choque aumenta quando entendemos que somos da mesma espécie daqueles que odeiam tanto. Ainda mais quando há o risco de sermos vistos como diferentes e termos esse ódio voltado contra nós. Fingir odiar para nos misturarmos? Fingir odiar até que o ódio seja real e nos tornemos tão selvagens quanto os outros? E depois? O que ou quem iremos odiar?

A estreia de Dois Amores y um Bicho (com esse “y” do título original em espanhol) com os Clowns de Shakespeare na quinta, 26 de fevereiro, parece ter superado todas as expectativas. Do elenco, da produção, do público e até a minha, por mais que meu olhar excessivamente crítico e racional fique buscando tudo que pareça errado ou desnecessário. Quando a porta do Barracão Clowns é aberta ao público, a peça já teve início. A luz, o som e o trabalho corporal de César Ferrario, antes de qualquer fala, já deixam o público perceber que não vai assistir a uma peça comum, a algo que seja mero entretenimento. O texto de Ott é sério, comprometido e muito direto. Em algum momento, os Clowns trarão algum humor à história. Eu dispensaria todo ele. Ando sem esperanças de que o público brasileiro – e o natalense em particular – entenda que teatro não é sinônimo de comédia. Há sempre o risco de provocar a gargalhada e não conseguir retomar a seriedade da história. Não tanto por culpa dos atores ou da direção, mas quase sempre pela plateia, que entrou neste século pisando fundo em um processo de idiotização que parece não ter fim.

Se por um lado os clowns relaxam e fazem rir – principalmente aproveitando o talento natural de Titina para a comédia –, por outro pegam mais pesado quando tratam de repressão, tortura e do ódio institucionalizado, uma área em que o texto original não é tão incisivo. Como o autor deixa claro nas epígrafes da peça – “É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.” (Einstein) e “Quanto ódio carregamos sem perceber em nossas vidas diariamente?” (DeLillo) –, o preconceito e o ódio, não importam os seus alvos, são a base de um tema geral e irrestrito. A bestialidade humana é o que está em pauta.

Pablo Estefano (César Ferrario) é a personificação do preconceito e do ódio. Seu alvo principal é a homossexualidade, mas sua intolerância e sua violência atingirão a tudo e a todos: a esposa, animais, crianças. O personagem se identifica com os animais mais ferozes, mas demonstra que também não se importa com eles. Busca se afirmar pela força, “age assim para se sentir superior a estes bichos” e, paradoxalmente, é o mais frágil e que necessita de maiores cuidados. Vejo César nos palcos desde 1993. Vi praticamente todos os seus trabalhos como ator de teatro – além dos de televisão – e não tenho medo de errar, parecer exagerado ou ainda muito empolgado ao dizer que ele jamais esteve tão bem. Está maduro, tranquilo, seguro, fazendo tudo no tempo certo, com extrema dedicação e profissionalismo. Ao fim da peça, assim que deixou Pablo sair, estava visivelmente emocionado e, tenho certeza, ciente de que havia feito a coisa certa.

Karen (Titina Medeiros) é a mulher que tenta manter a razão, aparentar equilíbrio e autocontrole, deixar tudo nos eixos. Só eu gosto de ver Titina em papéis mais dramáticos?! Gosto muito! Ninguém duvida de sua capacidade de fazer rir. Quando sai disso, que pode ser considerada sua zona de conforto, é como se gritasse: “Olhem! Eu sou atriz! Posso fazer qualquer coisa.” E faz mesmo. Mas quem espera que ela faça rir em Dois Amores… não vai sair decepcionado. Há um momento “novela mexicana” para aqueles mais chegados à comédia.

Confesso que achei um pouco estranho quando, há algumas semanas, soube que o papel de Carolina, a filha de Pablo e Karen, seria feito por um ator. Tendo visto o resultado, admito que foi uma boa opção. Perigosa, ousada, mas que funcionou. Homem? Mulher? Transexual? Travesti? Andrógino? “Viado”, “bichona”, como muitas vezes Pablo grita? O que é a Carolina vivida por João Júnior? Não é nada disso e, ao mesmo, é tudo isso. A filha do intolerante Pablo – talvez a única criatura com a qual ele se importe – é a soma dos preconceitos do pai. Em alguns instantes, há o risco da caricatura não intencional, mas até assim a experiência pode ser bem sucedida. Quem, na plateia, só conseguir ver Carolina como “algo” engraçado ou bizarro, pode apenas estar sendo mais um personagem tão limitado e preconceituoso quanto os que são denunciados na peça.

Em uma montagem ortodoxa, Dois Amores… seria encenada em uma hora. Esta versão, dirigida por Renato Carrera, ficou com duas horas em sua primeira apresentação. Pode ser enxugada durante a temporada ou quando pegar a estrada, mas já fica o aviso de que não cansa. Com todos os problemas comuns a uma estreia, Dois Amores y um Bicho teve os aplausos mais demorados que já vi em uma apresentação de teatro em Natal. Foram interrompidos porque Titina pediu para falar e retomados quando toda a equipe foi chamada ao palco. Uma noite de estreia como há muito não se via. Duas horas não foram suficientes. Eu vou de novo. Quem está em Natal pode se dar ao prazer dessa experiência até 22 de março. Mas é bom correr. As apresentações vão lotar e nunca se sabe por quanto tempo mais o mundo vai resistir à agressividade humana.

SERVIÇO
Dois Amores y Um Bicho, de Gustavo Ott
Com: Medeiros Titina, César Ferrario e João Júnior
Direção: Renato Carrera
No Barracão Clowns (Natal, RN)
De 26/02 a 22/03, quintas e sextas, às 20h; sábados e domingos às 19h
R$ 30 inteira | R$ 15 meia
Vendas e informações no Barracão Clowns: 3221-1816

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Aquele abrazo

Entre minhas lembranças de infância estão algumas peças assistidas em um teatro subterrâneo ao lado da Basílica Imaculado Coração de Maria, no Méier, no Rio de Janeiro. Eram sempre versões de clássicos infantis: Branca de Neve, Os Três Porquinhos, Pinóquio… Os personagens apareciam vestidos como nas ilustrações dos livros em circulação nos anos 70 e as histórias eram as mesmas que ouvíamos/líamos em casa. Cresci, tive filhos, mudei diversas vezes de cidade e continuei indo a peças infantis nas décadas seguintes. Estas eram – e ainda são – quase sempre versões de algum filme de sucesso da Disney. Norte-americanizados, importamos também a vontade de ganhar dinheiro fácil. As peças já não querem ensinar algo às crianças. São apenas caça-níqueis. Shrek faz sucesso? Vamos vender Shrek. Rei Leão chama a garotada? Empurremos mais Rei Leão em suas goelas. Mamãe-alienada e papai- que-não-pensa, a bilheteria é logo ali, tá?

Se meus filhos não viram grande coisa, imagine meus netos! Já lastimava profundamente pelo que viriam a encontrar neste mundo, quando os Clowns de Shakespeare aparecem com Abrazo.  O novo espetáculo infantil do grupo nos aproxima da cultura da América Latina, esta aqui onde estamos e sobre a qual temos profundo desconhecimento. Um mundo tão perto e tão longe. Uma espécie de Reino Tão Tão Distante, para que os shrekzados possam entender. Tão distante e tão aqui.

Vem de El libro de los abrazos, obra do uruguaio Eduardo Galeano, a inspiração para Abrazo. É uma peça para crianças. Para todos os tipos: as pequenas, as grandes, as que cresceram e não deixaram de ser e até – talvez sobretudo – para as que já nasceram neste mundo neurótico e barulhento, vomitado pela cultura norte-americana. Sim, sobretudo para estas, pois Abrazo ensina a olhar. É preciso muita atenção para não perder nada. Não há cores fortes piscando o tempo todo, não há barulho constante, não há gritos… ou melhor, há tudo isso no momento certo, da forma certa, mostrando guerras, tragédias, opressão, insensibilidade, falta de amor. Se a peça fosse resumida em uma frase, seria algo como: cale-se e sinta. Ou de maneira ainda mais concisa: com um monossílabo e um gesto.

Acompanho o trabalho dos Clowns de Shakespeare desde 1994, quando montaram sua primeira peça. Vi quase todos os seus espetáculos desde então, mesmo quando eu morava em Brasília e o grupo ainda não percorria com tanta regularidade nem tão intensamente o país. Nas vindas a Natal, lá estava eu batendo ponto. Se perdi uma ou duas montagens foi por esses momentos – minhas viagens e suas apresentações – não terem coincidido. Com eles, não há peça perdida. Se é algo feito pelos Clowns, é no mínimo bom. Porém, há muito o grupo não me surpreendia. Abrazo conseguiu isso. É a melhor montagem dos Clowns desde O Capitão e a Sereia (2009). Deixo Sua Incelença, Ricardo III (2010) de fora dessa avaliação, pois tinha muito de Gabriel Villela em sua composição.

Dudu Galvão e Camille CarvalhoEm Abrazo, são apenas os Clowns. Pelo jeito, a melhor configuração do grupo nos últimos anos. Quase na contramão de vir experimentando maior reconhecimento e mais popularidade como ator (fez o matador Bigode de Arame, em Amores Roubados, e o cozinheiro Adão, em O Rebu, duas produções da Globo em 2014), César Ferrário tem se dedicado a escrever. Somente este ano, ele assinou Guerras, Formigas e Palhaços (que vai rodar o Brasil, em 2015, pelo festival Palco Giratório), Quintal de Luís (uma das peças de final de ano encenadas em praças públicas e patrocinadas pela Prefeitura de Natal) e Abrazo. Marco França encontrou uma função que lhe cai muito bem. Fez a música – algo do qual entende –, os arranjos e toda a direção musical de Abrazo. A música é um componente de extrema importância para a peça. Além disso, faz a direção geral com precisão e respeito ao trabalho dos atores. À ameaça de um lugar-comum, a situação se apresenta de maneira inusitada tornando-se um divertido e “melhor-lugar”. Camille Carvalho, Dudu Galvão e Paula Queiroz estão maduros e finalmente protagonistas. Ainda que tenham tido bons destaques em peças anteriores do grupo, aqui estão na linha de frente, somente os três, mostrando que cresceram e dão conta do recado como os mais antigos e experientes colegas dos Clowns. Ou até melhor. Perderam cacoetes comuns ao grupo, largaram muletas e foram essencialmente o que devem ser: atores. Digo mais: o que fazem como atores em Abrazo não é para qualquer um. Querem saber o motivo? Vão assistir. Isto aqui não é uma sinopse travestida de crítica. O que há de melhor no espetáculo não pode ser dito. Nem tem como.

Abrazo é teatro. É cinema no teatro. É literatura no teatro. A música é música plenamente. Os palhaços são palhaços plenamente. A linguagem corporal dispensa o uso do verbo. Uma frase tirada de El Libro de los abrazos define o trabalho do grupo: “Fizeram sua tarefa entregando-se inteiros, com tudo, com alma e vida; e foi uma maravilha.” Fecharam o ano em grande estilo, diriam os antigos. “Lacraram tudo”, diriam os modernosos.

A peça é mero entretenimento? Não. E quais lições devemos tirar dela? São muitas e isso vai depender da sua sensibilidade, do seu poder de percepção e de leitura das entrelinhas, da sua capacidade de abandonar a superfície e mergulhar sem medo. Da segunda vez em que assisti, quando um dos personagens faz “Shhhhhh!” em direção à plateia, uma criança soltou um sonoro e muito seguro “Não!” contra a ordem de silêncio. Certamente ela entendeu uma das mais importantes lições de Abrazo.

Ao final da apresentação, entre rir e segurar o choro, ficou em mim a impressão de que os Clowns experimentaram uma pequena morte. Galeano explica: “Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.”

Os Clowns estão mortos. Longa vida aos Clowns! Desconfio que virão ainda melhores em 2015.

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A Grande Beleza

Nunca leio algo sobre um filme antes de assisti-lo. Nada. Nem ao menos uma linha. Seja uma crítica gabaritada ou mesmo a opinião de um amigo. As sinopses estendidas e repletas de revelações, que insistem em chamar de “crítica”, não leio nem depois. Preciso chegar virgem ao filme, sem saber o que vai acontecer. Preciso me entregar verdadeiramente, sem esperar algo em troca. Nos últimos meses, apesar de todo o cuidado, aqui e acolá passaram pelos meus olhos uma ou duas linhas sobre A Grande Beleza. Invariavelmente acompanhadas de comparações com Fellini e com La Dolce Vita. Tentei evitar que isso me causasse incômodo, curiosidade ou me influenciasse de qualquer forma. Vi A Grande Beleza e constatei o óbvio em relação às comparações: são bem rasas. Sorrentino é um bom diretor e fez um ótimo filme, que – em uma época medíocre e de cinema idem – vem sendo bem recebido por público e crítica em todo o mundo. É claro que ele, como muitos, tem influências de um realizador genial como Fellini. Daí a celebrar um filme seu como um de Fellini é forçar demais! Sorrentino está longe de fazer o que Roberto Benigni já fez. E ninguém é maluco de comparar Benigni com Fellini, então…

Quando foi lançado em 1960, La Dolce Vita provocou reações violentas do público e de vários setores do Vaticano. Foi considerado “moralmente inaceitável”. Proibiram os fiéis de o assistirem. Petições foram feitas ao Parlamento Italiano exigindo que sua exibição fosse proibida. Numa época em que um filme poderia demorar mais de cinco anos para ser exibido em outro país (ou mesmo nunca chegar), La Dolce Vita varreu o mundo. No Brasil, chegou no mesmo ano, apenas cinco meses após ser exibido em Cannes. Foi exibido aqui antes de entrar em cartaz nos Estados Unidos. Sobre La Dolce Vita, Fellini disse que a história poderia “ser ambientada em qualquer lugar, qualquer época”, e que não era uma crítica direta à sociedade romana. Certamente, ele falava do mundo que conhecia e existia até então, não de um futuro (o nosso presente) no qual estupros, assassinatos e todo tipo de violência se tornaram coisas banais, e que heresias e sexo explícito só causam alguma comoção em adolescentes ou em adultos pouco experientes.

Paradoxalmente, se há algo em que o ser humano se aprofundou, da época de La Dolce Vita para cá, foi em se tornar superficial.

O vazio mostrado em La Dolce Vita é uma busca por algo que o preencha. O vazio de A Grande Beleza é algo que não pode ser preenchido. Ele vem de várias décadas de futilidade, que parecem ter consumido nossa capacidade de sentir. Parece que as pessoas de hoje foram destituídas de uma vida de significados antes de se darem conta de que tinham uma vida. Não estão buscando algo que perderam. Elas sentem falta de algo que nunca experimentaram e nem mesmo sabem o que é.

Marcello Rubini (o personagem interpretado por Marcello Mastroianni no filme de Fellini) buscava um sentido para sua vida, acreditava em uma mudança. Imaginava um mundo que lhe parecia ser o ideal e não percebia as oportunidades do mundo real. Jep Gambardella (de A Grande Beleza) fez o que Marcello nunca conseguiu e não obteve satisfação com isso. Marcello nunca encontrou o caminho. Jep o perdeu. Marcello é alguém que não alcança o que deseja e se frustra continuamente. Jep atingiu o que muitos desejam e se frustrou com o resultado e a falta de perspectiva para além disso. Marcello se mostra um medíocre que não se encontra nem evolui na busca por se estabelecer e ser reconhecido. Jep é um profissional reconhecidamente talentoso, que parece ter desperdiçado seus dons e suas conquistas. Jep jogou fora o que Marcello nunca teve.

As histórias de Fellini não costumam acabar bem. Seus personagens principais não encontram a felicidade comumente idealizada. Eles perdem tudo, continuam sofrendo, continuam angustiados, morrem. Os que têm mais sorte são mostrados tomando um rumo diferente que, em tese – pelo menos, queremos acreditar nisso – não lhes causará tanto sofrimento. Mas não há um final feliz. A mensagem é sempre de que o filme acaba, mas a vida continua: a dos personagens e a sua. E não sabemos onde isso vai dar. Não há redenção, não há esperança, ninguém vive feliz para sempre.

O personagem do filme de Sorrentino representa bem o homem atual: fútil, entediado, que não valoriza o que foi conquistado, que perdeu o rumo não se sabe quando e nem o porquê. Sorrentino conta uma história para ser entendida pelo público de hoje com toda a sua superficialidade. Ele faz com que o personagem chegue a uma conclusão óbvia e simplista. O que está faltando e provoca essa falta de rumo? O que pode preencher esse vazio? Qual é a resposta que todos querem ouvir? Essa identificação com os tempos atuais talvez explique, pelo menos em parte, o grande sucesso do filme. A Grande Beleza mostra como as pessoas são superficiais, como desaprenderam a dar valor aos sentimentos e como estão desesperadas por acreditar que o amor (ao qual não se entregaram, nem souberam cultivar) pode surgir como uma resposta mágica para seus males. Jep conclui o mesmo que aparece por escrito, com palavras de Céline, antes de o filme começar. Ele vai perceber aquilo que a música em ritmo alucinante, na primeira cena de festa, repete sem que ninguém se dê conta: a far l’amore comincia tu. Para amar, para viver, para percorrer seu caminho, não espere por nada nem por ninguém, tome você mesmo a iniciativa e faça o que precisa ser feito! A grande beleza não está em algum lugar onde se deva chegar ou em algo a ser conquistado. Está no próprio caminho e na percepção da importância de percorrê-lo.

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Jacy

Errei ao acreditar que Jacy, do Grupo Carmin, seria a melhor peça produzida em Natal este ano. Criei uma expectativa perigosa. Ir sem esperar nada costuma ser a melhor alternativa. O risco de se decepcionar é menor. Afinal, se for ruim, você não estava esperando nada mesmo; se for bom, já é lucro.

Errei ao acreditar que Jacy seria a melhor peça produzida em Natal este ano. Que outras disputem este lugar. Jacy está acima de comparações.

Não via Henrique Fontes no palco desde pq nunca nos trataram com amor e Quitéria Kelly desde Pobres de Marré, peças que vi em 2008, na mesma Casa da Ribeira, onde estreou Jacy. Era de se esperar que eu tivesse mesmo alguma expectativa, ainda mais pelo fato de que veria os dois juntos em cena pela primeira vez.

De Henrique, nunca espero menos que excelência. Faz tudo bem feito: escreve, dirige, administra, atua e ainda é um black bloc sem máscara e sem medo quando se trata de estar na linha de frente na luta por uma política cultural que possa ser chamada assim. No meio de tudo isso, o ator acaba perdendo espaço, mas quando aparece é para mostrar que continua desempenhando muito bem o seu ofício.

De Quitéria, nunca espero que seja menos que perfeita. Talvez por isso eu tenha gostado daqueles dois ou três momentos em que ela atravessou ou esqueceu o texto (rapidamente corrigido). Isso lhe acrescentou certo charme. Finalmente percebi que ela é humana e estava atuando. Até então, achava que, no palco, Quitéria era possuída por alguma entidade que a transformava em uma überschauspielerin (isso existe?! se não, acabei de inventar), algo para além de uma atriz, que promove uma transvaloração da arte de representar, um processo contínuo de superação ou, em claro nordestinês, a danada é boa que só o diabo! Não é exagero. Você está olhando para uma garota toda coquete em seu vestidinho de festa, desvia os olhos por um instante para Henrique e, quando os volta para ela, encontra uma velha. Uma mudança instantânea, mágica, sem nenhum artifício de luz, maquiagem ou qualquer outro efeito. Ela realmente se transforma. Sozinha, como por mágica.

Jacy, a pessoa, poderia ter sido um desses seres que só existem e teria sua história apagada, completamente esquecida, depois de morta. No entanto, a necessidade de viver uma vida que valesse a pena fez com que ela continuasse seu caminho entre nós, os que se creem vivos. Sua vida além-túmulo começou ao chamar a atenção de Henrique para sua frasqueira, jogada no lixo. Três anos depois, Jacy renasce como peça teatral. Ou algo maior que isso, já que o espetáculo não é mera encenação de uma história – real ou fictícia –, mas uma experiência que mexe com o mais insensível e grosseiro espectador. Em algum instante, Jacy, a peça, vai falar diretamente a você, que se aventurou a sair de casa e ir ao teatro. Sem que você perceba – e quando perceber já será tarde demais –, vai jogar na sua cara a alienação em que você vive (rindo do que não tem a mínima graça), a inutilidade da sua vida (que você julga muito produtiva) e até o medo da solidão e do total desamparo na velhice (que você ainda nem sabe que tem).

A montagem utiliza diversas linguagens para mostrar algo que não é apenas a história de uma pessoa, mas as histórias de cada um de nós, desde os momentos mais solitários, em que nos sentimos perdidos em nosso microcosmo, até nossa participação no contexto político e histórico da cidade, do estado, do mundo em que habitamos. Do minimalismo aos recursos tecnológicos (que promovem um “documentário ao vivo”), da atuação clássica e pura dos atores à utilização de “técnicas da moda” no teatro, as histórias vão se misturando: a de Jacy, a minha, a sua, a dos atores, dos políticos locais, a de alguém que você conhece, as dos seus avós, as de muita gente que você esqueceu ou vai esquecer.

Jacy teve uma estreia com casa lotada e o maior tempo de palmas de que tenho notícias para uma peça originalmente montada nesta cidade. Errei ao acreditar que Jacy seria somente a melhor peça produzida em Natal este ano. Ela já nasceu muito maior. Terá uma longa vida em muitos palcos, ensinando que nunca se deve ter medo de lembrar.

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Mulheres de Fellini

Vem de longa data a cobrança: “Quando é que você vai publicar um livro?” Ouvi isso pela primeira vez ainda na casa dos vinte anos. Não importava se as pessoas queriam, incentivavam ou cobravam. Eu achava que, no futuro, morreria de vergonha por qualquer coisa que tivesse escrito e achasse genial naquela época. Atravessei os trinta, cheguei aos quarenta e não acho mais isso. Agora, tenho plena certeza! Fiz bem em esperar amadurecer um pouco, percorrer diversos caminhos, errar bastante, observar os erros alheios, pensar e repensar até chegar ao momento certo. Ou, pelo menos, o melhor deles. Posso até errar, mas vou errar com convicção e sem arrependimento.

Sim, vou publicar. E essa estreia será de uma forma bem diferente do que muitos pensavam. Não será uma reunião de artigos e matérias desses 25 anos escrevendo (só aqui no blog, são mais de 500 textos em quase nove anos) e nem uma biografia. Será um guia para cinéfilos. Mais precisamente, um guia para estudo dos filmes de Federico Fellini através de ensaios sobre seus personagens femininos.

Quem são verdadeiramente essas mulheres nascidas dos sonhos de Fellini? Não são um tipo único ou um pequeno time que interpretou uma dúzia de personagens inesquecíveis. Além das mulheres perfeitas, há também as comuns e sonhadoras, as matronas, as loucas e até aquelas que muitos nem perceberam que estavam lá. Todas têm sua importância e função no mundo criado pelo diretor italiano. São complexas, cheias de detalhes, humanas e verdadeiras. Por isso são tão próximas e fascinantes.

Minha adoração por Fellini começou nos tempos em que frequentava cineclubes e cursos de cinema, durante a faculdade de jornalismo, no final dos anos 1980. Em casa, meu primeiro Fellini foi Ginger e Fred (1986) em alguma fita pirata de VHS, como eram quase todas as das locadoras de vídeo daquela época. A partir daí, todos sabem o que aconteceu com o cinema no mundo: foi destruído pela indústria americana, tornando-se um monopólio que vomita gigantescos clipes alucinados, repletos de tiros, explosões, carros voando, muita morte e destruição. Cheguei tarde ao mundo, mas Fellini me salvou a tempo. Cinema é outra coisa. É, sobretudo, uma história bem contada. “Nunca vou ao cinema, mas quando vou, só me interesso pela história”, disse Fellini.

São os detalhes dessas histórias – muitas vezes imperceptíveis para a maioria – que o livro pretende mostrar: falas e gestos que parecem não ter (mas têm!) grande importância, brincadeiras com a vida pessoal dos atores, traduções que fazem perder o sentido dado à determinada fala, referências culturais pouco conhecidas (ou totalmente desconhecidas) estão em Mulheres de Fellini. De 2010 a 2012, revi todos os filmes e escrevi a respeito de cada personagem feminino. Isso daria um único volume de aproximadamente quatrocentas páginas, o que poderia parecer assustador e deixaria o preço do livro pouco atraente. Como estou negociando com outras editoras as duas biografias que venho escrevendo há seis anos, fui deixando Fellini de lado. Chegou 2013. Achei que o livro deveria sair este ano, quando Fellini e Masina fariam 70 anos de casados e quando lembraremos os 20 anos de encantamento de Fellini. Assim, resolvi dividir o trabalho em três volumes (anos 1950, anos 1960 e 1970 em diante). Mulheres de Fellini nos anos 1950 – De Liliana a Cabíria sai em maio. O segundo volume está programado para outubro e o terceiro deve sair até abril do próximo ano.

Bem, aqui está uma rápida apresentação. Mais detalhes serão mostrados em uma sequência de posts em um blog especial sobre o livro. Trechos; a capa, que foi inspirada nos cartazes da década de 1950; as ilustrações feitas com exclusividade para o livro; datas e locais de lançamento… O primeiro volume já está em pré-venda e com frete grátis. Basta pedir pelo e-mail mulheresdefellini@gmail.com ou pela página Mulheres de Fellini no Facebook. Corram. O lote promocional já está acabando.

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Celhoca

Outra vez, a morte veio no carnaval. Outra vez, na sexta-feira. Deu um abraço na Célia – provavelmente com misericórdia e carinho – e fez um convite: “Vamos brincar em outro lugar?” Ela aceitou.

Há muito não brincava. Há muito não se divertia. Estivemos junto de julho a setembro do ano passado. Talvez não tenhamos passado tanto tempo juntos desde que ela saiu de casa, em 1978, após a morte da minha avó Mafalda. Eram loucas uma pela outra. Célia era sobrinha de minha avó, mas foi criada como filha. Sua mãe morreu quando ela ainda era pequena. Nunca perguntei quando isso aconteceu exatamente, portanto não sei dizer se a sobrinha se tornou filha antes do nascimento do meu pai – único filho biológico da minha avó –, depois ou mais ou menos na mesma época. Os primos-irmãos tinham seis anos de diferença. Moravam juntos com outros quatro primos, filhos da irmã mais velha. Eram assim as famílias italianas. Todos juntos, fazendo barulho, amando e odiando intensamente, berrando e chorando por tudo.

Meu pai, o mais novo dos seis primos, casou e teve um filho (este que vos). A famiglia continuou ali, se abrasileirando, mas ainda unida, em uma casa em Todos os Santos: meu pai, minha mãe, minha avó, meu avô e Célia, que além de sobrinha-filha, prima-irmã e dublê de cunhada, passava também a acumular a função de minha madrinha. Graças à onda das perucas e enormes óculos escuros dos anos 70, Célia parecia o Chico Xavier de vestido em meu batizado. Já adulto, eu costumava mostrar a foto e dizer: “Chico Xavier era católico, travesti e é minha madrinha.”

Órfã pela segunda vez após a morte da minha avó, Célia seguiu o sonho dos suburbanos solteiros daquela época: morar na Zona Sul. Fez uma escala na Tijuca e, em meados dos anos 80, se estabeleceu em Copacabana, de onde nunca mais saiu. “Aqui tem tudo”, dizia sempre. Era o mantra, repetido por três décadas, que a impedia de ver qualquer outra possibilidade de vida além de Copa. O tudo era quase nada. O mercado, a padaria, a farmácia e o banco a, no máximo, um quarteirão de distância. E havia também os amigos. Muitos foram desaparecendo nessa estrada. Alguns mudaram, outros morreram, outros eram apenas colegas e passaram. Só não Laizi e Miriam. Estas estiveram sempre ali, por perto, prontas para qualquer coisa, até o fim. São de uma espécie em extinção.

Em agosto de 2012, o garoto da foto que ilustra este texto perguntou a Célia o que lhe dava alegria, o que lhe dava motivação. Ouviu como resposta um “acho que nada”, uma pausa e uma conclusão: “só os cachorros”. Era difícil fazê-la deixar o pequeno apartamento. Caminhávamos pelo calçadão depois de sua décima desculpa diária para não sair. Com uma piada ou outra, o riso, que também teimava em se esconder, aparecia. O olhar ia para algum lugar, provavelmente no passado, onde era mais fácil ser feliz. E o que era difícil para mim, era extremamente simples para um cachorro. Para qualquer um desses metidinhos de Copacabana. Bastava aparecer um para ela se derreter, sorrir, pegar no colo, abraçar, beijar, perguntar como estava. Do Posto 3 à Pedra do Leme, conhecia os nomes de todos os cachorros que encontrava, mas não dos seus humanos. Sabia dos históricos de todos eles: as doenças que tiveram, as brigas com outros cães, fugas, aventuras, cruzamentos… Às vezes, acho que não era o antigo glamour de Copacabana em suas lembranças, a facilidade de acesso, o bairro que tem tudo, a praia (que ela não encarava havia mais de uma década) ou qualquer outra coisa que não a deixava sair dali. Eram os cachorros. Quando seu último companheiro canino morreu, há alguns anos, contentava-se com os das amigas. Não queria outro morando com ela. Não iria aguentar outra perda.

Foi-se a Celinha, a Celhoca, a Célia da tia Mafalda. Se existe céu, o da Célia deve ser parecido com a Pracinha do Leme: com um monte de cachorros soltos, correndo, comendo besteiras, enquanto ela grita o nome de cada um deles, sorrindo, sorrindo, sorrindo…

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Hamlet

Algo está a acontecer no reino dos Clowns.  Logo no início de sua versão de Hamlet, todos são Hamlet. Se você, como eu, acompanha a história dos Clowns de Shakespeare desde seu início, há vinte anos, faz imediatamente a leitura de que ali está um grupo unido e no qual cada um está preparado para fazer qualquer papel. O principal não vai ficar com o melhor ou com o mais experiente ator. O ego – e talvez até o óbvio e o mais sensato – parece ser deixado de lado para que o grupo seja beneficiado. Nos Clowns de Shakespeare, todos são brancos e augustos, todos são principais e secundários, estrelas e escadas. Eles são mais fortes como grupo e parecem saber disso. Ou tudo isso pode ser apenas uma impressão muito pessoal. Eles podem estar cansados, podem ter suas intrigas e desentendimentos, suas estrelas e seus candidatos a estrelas, privilegiados e depreciados, mas no palco de seu Hamlet, o que aparece é um grupo forte, coeso, que se entende como tal e se aproveita disso, buscando equilibrar faltas e excessos.

Hamlet não é uma peça qualquer. Hamlet não é um personagem qualquer. Nem mesmo são uma peça qualquer e um personagem qualquer de Shakespeare. É uma história tão contada e recontada durante quatro séculos que deixou de ser peça/personagem e passou a ser algo que faz parte da vida de todos. Quem nunca ouviu ou repetiu versões de frases como “Ser ou não ser. Eis a questão.” e “Há mais mistérios no céu e na terra…”? E quem irá dizê-las pela enésima vez com a força necessária para que acreditemos que é mesmo Hamlet quem as está dizendo? O ator mais experiente da companhia? O que já esteve em um papel principal e tem grande empatia com o público? Ou um ator mais novo, menos experiente e menos conhecido? Paulo Autran fez cinco peças de Shakespeare (Hamlet não foi uma delas). Walmor Chagas foi Hamlet logo depois da morte de Cacilda Becker (o que deve ter pesado consideravelmente em sua interpretação). Hoje, os tempos são outros. O Capitão Nascimento pode ser Hamlet. Thiago Jesus-crucificado-de-cuecas-sorrindo-e-acenando-para-os-fãs Lacerda pode ser Hamlet. Sendo assim, os Clowns poderiam escolher qualquer um de seus atores sem medo de que não fosse, no mínimo e até então, o melhor Hamlet deste século nos palcos brasileiros. Para viver o atormentado príncipe, é preciso ser jovem. Quanto a isso, não vejo impedimentos para César Ferrário ou Marco França fazê-lo. Por outro lado, Hamlet me parece exigir, por vezes, uma fragilidade que seria difícil engolir em uma figura com o porte físico de um ou outro. Não sei como se deu a escolha, mas quem ficou com o papel foi Joel Monteiro.

Confesso minha desconfiança inicial. Eu o vi (e gostei muito) em Sua Incelença, Ricardo III. E só. Não dava para avaliar e tentar fazer uma projeção. Mas eu sou apenas um espectador dos Clowns há vinte anos. Os Clowns são os Clowns há vinte anos! E devem saber muito bem o que estão fazendo. A peça já havia estreado oficialmente há alguns dias em Natal e feito uma passagem por Recife. Assisti no primeiro dia da temporada e, por isso, acharia cruel e estúpido ser excessivamente crítico. É preciso algum tempo para saber o que funciona ou não, para fazer correções e azeitar toda a engrenagem. Minha impressão foi de que acertaram na escolha de Joel. Ele transitou bem entre a loucura e a lucidez, e o posicionamento e luz adequados ajudaram bastante na maior parte do tempo. Em alguns poucos momentos, me pareceu cansado, sem a ênfase necessária na voz e sem o auxílio necessário do restante, como no final. A última frase de Hamlet (“O resto é silêncio.”), se bem pontuada e com a luz cortada no mesmo instante não deixaria dúvida, aos que não conhecem a peça, de que ela termina ali. Nem aos que conhecem e pudessem estar esperando um arremate feito por Horácio. Creio que esse tempo perfeito será atingido.

Houve um ligeiro hiato entre o encerramento da peça e o começo das palmas. Tempo suficiente para que eu pensasse: “Será que o público sabe que acabou?” Mas qual é o público dos Clowns hoje? Parece ser diferente do que víamos há alguns anos. Ou não. Apenas se depararam com a mudança do grupo e ainda não aprenderam a reagir às novidades. Ri-se menos em Hamlet. Era de se esperar. É uma tragédia. Os “velhos Clowns”, que poderiam ser mais facilmente reconhecidos pelo público que vai ao teatro em busca de risos, aparecem oportunamente no momento em que a peça mostra o teatro dentro do teatro, quando surge o grupo de atores que será usado por Hamlet para fazer aflorar a culpa de Claudius. O riso também aparece por conta de César Ferrário, como Polônio. César é o principal responsável por saciar a plateia que busca rir, mas é também quem empresta a dramaticidade necessária a outro personagem – Laertes – a ponto de fazer surgir a esperança de outros que, como eu, sonham em vê-lo atuando de forma mais grave. Talvez nem tenha sido essa a real ou a principal intenção, mas foi o que vi. Seja na literatura, no teatro ou no cinema, uma coisa é o que se pretende mostrar, infinitas outras são as leituras que fazemos. Em rápida conversa com ele, após a apresentação, lembrei um papo que tive com Cássio Scapin, em 2006, sobre a reação da plateia em Quando Nietzsche Chorou, em que ele fazia Nietzsche. Sempre achei que o humor do filósofo fosse de causar incômodo aos que se sentissem acusados ou discretas expressões de escárnio aos que compartilhassem de sua opinião, nunca gargalhadas como as que escutei do público da peça.  Julguei que isso fosse causado pela “crença” do público médio de que teatro é para fazer rir. Ainda hoje, creio não estar errado. De lá para cá, os idiotas se multiplicaram nos palcos com grosserias que chamam de humor, e o público de hienas deu cria como se fosse um bando de coelhos. Nos dias atuais, grupos de teatro com atores de verdade, principalmente os mais voltados à comédia, precisam buscar um difícil equilíbrio entre o humor, a arte e o bom gosto. E não caírem na tentação de agradar à necessidade de humor grosseiro de um público idiotizado, criado com comédias americanas e televisão. Com Hamlet, os Clowns me parecem suficientemente maduros e livres desse risco.

Camille Carvalho (Rosencratz), Paula Queiroz (Guildenstern) e Dudu Galvão (Horácio) cumprem bem suas funções. A veterana Renata Kaiser, no ingrato papel de Gertrudes, também. Marco França, como o fantasma do pai de Hamlet, me fez acreditar que Ricardo III estava de volta. Como o coveiro, me fez lembrar Corniso, de Muito Barulho por Quase Nada. Ainda que lhe caiam bem os papéis de monarca arrogante ou criatura ordinária, talvez esteja na hora de colocá-lo em outros tipos. Quem sabe em um papel feminino, delicado, de gestos contidos, sem voz retumbante. Seria interessante.

Propositalmente – e como de costume – deixei para falar sobre Titina Medeiros por último. Com uma diferença: desta vez, falo mesmo. Nunca consegui me afastar o suficiente para entender que aquela garota destrambelhada, de 15 ou 16 anos, que acabava de chegar a Natal, e que conheci como secretária de uma revista onde eu trabalhava, havia se tornado atriz. Sempre temi ser paternalista e “achar bonitinho” tudo que ela fizesse. Foi necessário atravessar uma perigosa ponte (chamada “novela de televisão”) onde, de um lado estava a rainha Elizabeth (de Ricardo III) e, do outro, Ofélia (de Hamlet) para eu entender no que ela havia se transformado. O primeiro instante em que ela aparece, quando tira a máscara de Hamlet, pensei: “Socorro morreu!” Mesmo calada, não havia qualquer resquício de sua personagem na novela Cheias de Charme. Acho até que se alguém for assistir a Hamlet procurando por aquela “atriz da novela”, corre o risco de nem reconhecê-la. Ninguém sai de uma rainha Elizabet, passa por uma Socorro e se transforma em Ofélia impunemente ou de uma hora para outra. “A revelação de 2012 na tevê” era revelação só na tevê e para quem não a conhecia. Lá se vão mais de quinze anos no palco, aquele lugar onde se formam os atores de verdade. Além de todo seu talento, Titina tem experiência, tem estrada. Ofélia não é só mais um papel ou um de seus melhores papéis. Ofélia mostra o quanto amadureceu. Rosto, corpo, voz, tudo está diferente e melhor do que em qualquer época. Amadureceu como atriz a ponto de recusar emendar outro sucesso popular na televisão.  Preferiu o caminho mais difícil, mais longo, mais duro, porém, o único capaz de trazer reconhecimento verdadeiro, duradouro.  Parece ter ouvido os conselhos de Laertes: “Cuidado, Ofélia, cuidado, minha querida irmã! Mantenha-se na retaguarda dos anseios, fora da mira e dos perigos do desejo.

Repito minha máxima: Se é Clowns, vá! Aos vinte anos, o grupo mostra o motivo de ser considerado um dos melhores do país. Cresceram, amadureceram e se tornaram deliciosamente trágicos, mas sem perder o humor. Já alcançaram o trono, mas não se acomodaram. Brincam em torno dele e convidam a todos. Uma salva geral!

(Marcha circense. Não há pano. Acendem-se as luzes. O público se mistura aos atores)

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