O Romance do Vaqueiro Voador conseguiu me tirar da clausura. E foi fácil. Numa dessas incríveis “coincidências”, encontrei Helton Paulino na noite de sexta e fui avisado: “Ó, amanhã pela manhã…”.
Quando o filme foi exibido na abertura do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2006, minha cabeça já passeava por outros lugares. Acho até que eu não estava na cidade. Perdi de ver Baixio das bestas na telona, não perdi nada em esperar para ver Batismo de Sangue em casa e graças aos céus não vi Cleópatra. O único filme que realmente queria ter visto naquela edição do festival era Romance do Vaqueiro Voador, que nem estava em competição.
Sabia apenas que falava sobre os operários que construíram Brasília. E assim permaneci, quase virgem de informações, por aproximadamente dois anos, para finalmente vê-lo em uma sala de cinema em Campina Grande, na mesma Paraíba onde nasceram seu diretor, Manfredo Caldas, e o ator Luiz Carlos Vasconcelos.
O vaqueiro me pegou de jeito e na hora certa. Não me deu chances de pensar, analisar, criticar.
Confesso: estou com saudades de Brasília. Confesso duplamente: gosto muito de Brasília. Dos lugares onde morei, foi o único para o qual escolhi ir. E único do qual saí com aquele gosto de “espere que eu volto já”.
Adoro Brasília porque é uma cidade inventada. E quem chega por lá se reinventa. É um lugar repleto de personagens. Uma história que está acontecendo, um livro que está sendo escrito. Foi lá que experimentei ser ninguém e isso, ao contrário do que pensa aquele que sonha ser alguém, é algo maravilhoso e extremamente enriquecedor. Principalmente para uma pessoa como eu, que anda por aí lendo as cidades, as pessoas, as coisas. Só dá para fazer isso sendo invisível ou sendo ninguém.
Brasília é uma terra de sonhos. As pessoas vão para lá atrás de dinheiro. Podem conseguir muito e agir como senhores de tudo; podem conseguir algum e agir do mesmo jeito até esbarrar com um que tenha muito; podem não ter nenhum e fingir que têm. Em Brasília, parece que todo mundo fica rico. A primeira providência é se reinventar, aprender o que é preciso fazer para ser aceito no mundo dos novos ricos, dos novos estabelecidos. A má educação é esquecida, o passado pobre é anulado, novos hábitos são adquiridos. Agora todos são gente.
Foi assim desde sempre. Aliás, antes ainda, quando a cidade nem existia. Lá estava o sonho, o Eldorado, o dinheiro, a vida que se sonhou. Os candangos foram chegando para construí-la com o próprio sangue. Literalmente. É isso que o Vaqueiro mostra.
A história oficial conta que houve apenas uma morte durante a construção da cidade: a de Bernardo Sayão, quando uma árvore caiu sobre a barraca onde ele estava. Ele também morreu voando. No helicóptero que tentava levá-lo a um hospital.
No Romance do Vaqueiro Voador vemos uma conta e uma história diferentes. “Três ou quatro mortos por dia”, sepultados em valas comuns ou junto com a obra. Mais de mil para cada ano de construção. Grande parte no “28”, como costumava ser chamado o maior prédio da cidade, o do Congresso.
Eu trabalhei no “21 do 28”. Para chegar lá, saindo da Asa Norte, percorria toda a extensão da Esplanada dos Ministérios. Em meus primeiros tempos de Brasília, adorava fazer isso a pé. Passava pela rodoviária. Esta sempre vomitando gente vinda do Norte, do Nordeste, de todo canto onde há pouco ou quase nada. Gente não; uns cabras querendo ser gente. Milhares de rostos. Passei seis anos prometendo me deter em três pontos: nos barbeiros que cortam cabelo ao ar livre, ao lado da parte baixa da rodoviária; nos que enlouqueceram e nos fantasmas da Esplanada. Mas, ainda que menos apressado que a maioria e curtindo o anonimato, eu também estava com a cabeça em outras coisas e deixei isso passar.
Manfredo foi lá e fez muito melhor. Deu voz ao povo para que contasse sua história. Até hoje muita gente tem medo, não gosta de falar. No filme, mulher nenhuma fala.
Essa obra alicerçada com ferro, concreto, carne e sangue talvez explique muita coisa, inclusive a antipatia que muitos têm pela cidade, meio século depois, mesmo sem nunca ter pisado nela. Talvez explique a tristeza e o desencontro de muitos que foram morar lá.
Começo a ver fantasmas que antes pareciam ter histórias isoladas. A queda do avião com o fotógrafo da revista O Cruzeiro, que cobriu o primeiro baile de debutantes da cidade. Os filmes, recuperados nos destroços, mostravam imagens bizarras, assustadoras, da cidade e das meninas que estavam sendo apresentadas à sociedade. Na edição especial de O Cruzeiro sobre a inauguração da nova capital, o Amigo da Onça, personagem que vemos muitas vezes encarnado nos políticos que fazem Brasília, abria o gás do banheiro para a própria mulher morrer. No final do ano seguinte, o próprio Péricles, criador e desenhista do personagem, se mataria abrindo o gás do fogão em seu apartamento.
Em abril de 1960, na festança para a alta corte, os candangos já estavam esquecidos. Um registro mínimo, mas importante, foi o de Maneco Muller, o Jacinto de Thormes, na revista Manchete. Intitulada O candango – Herói de Brasília, a crônica da edição que mostrava a inauguração da cidade homenageava aqueles que realmente a construíram. O cronista dizia:
Pena que o candango com sua fibra, bondade e intenção, vá desaparecer. Ele e sua Cidade Livre vão restar apenas na história essencial das coisas brasileiras. (…) Candango será absorvido pela cidade organizada, e será operário penteado, roupa limpa, sapato novo, dinheirinho no banco. Com o desaparecimento da poeira vermelha, o candango perderá o aspecto heróico e se transformará em folclore.
Os candangos não desapareceram. Eles continuam desembarcando ali a três quilômetros do 28, sempre cheios de sonhos e esperanças. A poeira vermelha também continua por lá. Levantada pelo vento, dá uma secura enorme dentro da gente. Uma secura na alma. Talvez seja a forma dos candangos lembrarem que continuam lá, que fazem parte da cidade, entrando em cada um, embrutecendo, entristecendo, enlouquecendo os que acreditam ter virado gente.
Eu continuo candangueando pelo mundo, mas hoje respeito e amo muito mais Brasília. Não a das aparências, a dos personagens inventados, mas a da argamassa feita com gente de verdade. Amo mais porque a entendo melhor. Entendo que aquele céu lindo foi a maneira que encontraram para equilibrar toda a podridão que existe dentro dos seus prédios. Foi o céu que os vaqueiros voadores ganharam para nunca saírem de lá. A partir de agora, vou lembrar deles toda vez que olhar para o alto.
Ou melhor, da família de Cascudo. Não canso de dizer que esta é um exemplo de preocupação com a preservação e a divulgação da obra criada por um familiar já encantado. Hoje, quando lembramos os 22 anos de encantamento do mestre, está sendo lançada a exposição Câmara Cascudo, cada dia mais vivo. “Coincidentemente” o título de um artigo que escrevi há dois anos. Daliana Cascudo adora fazer essas coisas porque sabe que não posso processá-la por conta de outra “coincidência”: minha advogada é irmã dela. Numa hora dessas, as irmãs se desentendem e aí eu quero ver!
Brincadeiras à parte – e que todos na família Cascudo sejam sempre e ainda mais unidos –, vamos ao serviço. A exposição está sendo apresentada no Memorial Câmara Cascudo, em Natal (RN). Mais detalhes no Blog Memória Viva.
E por falar em blog, o do Cascudo retoma hoje suas atualizações. Trata-se da coluna Acta Diurna, que o escritor manteve entre 1939 e 1960 nos jornais de Natal. A atualização acontece sempre às quartas. As fotos que ilustram o texto são do amigo e parceiro Canindé Soares. Eventualmente aparece uma feita por mim.
Mais. Tem livro inédito de Cascudo pintando em breve: A casa de Cunhaú. E se você quer saber dos outros quase 200 de sua autoria e de outras dezenas de títulos a seu respeito, dê uma olhada aqui.
O pensamento surgiu há alguns anos. Eu me via em uma reunião de família, com meus filhos e netos, procurando nestes últimos um “bom rebelde”. Eu, o avô maluco, contestador, atiçando sempre e perguntando se alguém ali, além de mim, estava vivo. Ao pensar nisso, ainda não sabia, mas algo me dizia que a geração dos meus filhos seria bem quadrada, chatinha, sem graça mesmo.
Ou não. Talvez ainda haja salvação. Esta geração, entre a minha e a de meus filhos, a que está entrando na fase adulta, que está com vinte e poucos, é a tal que vidiei. Apática, sonhando com uma casa e independência financeira. Uma geração burguesinha-burra, sem poesia, sem rock’n’roll. Sem interesse em aprender grande coisa. Os macetes para passar no concurso é toda “cultura” almejada.
Pesquisa publicada neste domingo, 27 de julho, na Folha de São Paulo constata o óbvio: “O jovem rebelde e niilista de gerações passadas deu lugar àquele que busca acima de tudo a realização profissional e a independência financeira. Para atingir esse objetivo, eles consideram o estudo importante. Ambiguamente, mais da metade deles (54%) já repetiu o ano”.
O “estudo” ao qual se referem os jovens deve ser entendido como títulos que são degraus para atingir uma vida mansa. Não entenda por “estudo” o desejo ou a necessidade de enriquecer culturalmente. Como o surgimento desenfreado de faculdades particulares vem mostrando nos últimos tempos, se for possível pagar à vista pelo diploma e não ter que esperar quatro ou cinco anos, a maioria topa. Afinal, grande parte vai sair de lá apenas com um papel. Se o transtorno de comprá-lo a prazo pudesse ser evitado, o objetivo real poderia ser atingido mais rápido.
Acho deprimente a perspectiva de uma sociedade onde urbanóides mentecaptos sejam maioria. Essa sociedade é fruto de um Brasil medroso. Não há contestação, não há revolta, não há revolução. É o filho contente com o que o pai pode dar. Se o mundo lá fora é assustador, para que sair de casa? Transformá-lo em algo melhor? Isso é trabalhoso. Nem pensar!
Tomara que esse não seja o mundo dos meus filhos. Tomara que eu consiga manter os meus acordados, de olhos bem abertos. Tomara que não se contentem com uma vida em pequenas jaulas onde há comida, banho, tratamento médico e nenhuma liberdade. Tomara que não permitam que roubem seus direitos.
Não fui criado nem estou criando ninguém para ser ovelha ou mais um tijolinho no muro. Eu faço parte de outra Legião.
Valeu, Globo!
Nunca pensei que fosse dizer isso, mas sou obrigado. A exibição na noite de ontem, quinta, do programa Por toda a minha vida em homenagem a Chacrinha rendeu algumas centenas de visitas a este blog em poucas horas. Por que? Porque os tarados de plantão danaram a procurar por chacretes no Google e vieram bater aqui. Bater aqui, entenderam?
Dercy
Tenho que agradecer a Dercy Gonçalves. Durante toda a semana ela também fez o mesmo. Começo a achar que ela deveria ter morrido mais vezes. Morreria e voltaria, numa espécie de bis interminável. A maioria dos que passaram por aqui entendeu a justa homenagem de primeiríssima hora feita no texto Puta que pariu! Dercy morreu!. Nunca foi tão correto dizer que a morte é uma festa. E continuo a me impressionar com o fascínio que isso causa nas pessoas. Já estou escrevendo os obituários para Hebe, Niemeyer, Glória Maria, Sílvio Santos, Roberto Carlos…
Dercy II
Logo depois que Dercy morreu, coisas estranhas aconteceram. O Orkut deu um pau medonho fazendo com que as pessoas acessassem perfis que não eram os seus ao entrarem no sistema. Os seguidos e seguidores de vários perfis do Twitter foram abduzidos e devolvidos 24 horas depois. E hoje, uma semana depois da morte (eu não acredito que ela tenha morrido… esse negócio de ser enterrada em pé está me cheirando à facilitação de fuga), bem… hoje, uma semana depois do anúncio da morte, estréia Arquivo X – Eu quero acreditar. Aposto que Dercy está ligada a todos esses mistérios.
Na Merda e na Estação
Já estava com a Merda (a revista) chegando ao meu pescoço, mas finalmente foi despachado o textículo sobre o São João em Campina Grande, a ser publicado na próxima edição, que trará também Sidney Magal e Mulher Acerola. Na próxima Estação (que eu já nem sei qual é o número, pois só recebi a primeira), se eu cumprir o deadline (eu vou! eu vou!), tem texto meu sobre a revista O Cruzeiro.
Memória Viva
O blog tem parecido meio abandonado neste julho porque uma antiga amante tem ocupado grande parte do meu tempo. Memória Viva está bombando com atualizações diárias, principalmente no Blog, que só este mês já vai ali pelos 50 posts. Mas não é só isso. Os sites biográficos têm sido revisados e vêm ganhando novas informações. Outras áreas também. Destaques da semana: texto de Wilson Natal sobre sua visita à exposição em homenagem a Machado de Assis no Museu da Língua Portuguesa e atualização da área de livros de Câmara Cascudo. Neste fim de semana, tem José Dumont sob regência de Klecius Henrique. Todas as atualizações do portal podem ser acompanhadas pelo Twitter do Memória Viva.
Quero ver quem é o filho da puta que vai noticiar isso adequadamente. E quero ver se algum viado vai querer fazê-la de santa. Santa é o caralho!
Dercy passou mais de um século mandando a morte se fuder. Claro que um dia a piranha chega para todos, mas que levou um baile de mais de um século, isso ela levou!
Nem lembro quando foi. Dercy já estava com 90 e lá vai cacete. Fazia um show de despedida. Sabe-se lá de quê. Apoiada numa bengala, entrava e saía de cena várias vezes. A cada saída, descansava, tomava água, respirava. Enquanto isso, um amigo fazia sala e contava histórias. Ela voltava, sempre de pé, mandava uma dúzia de porras, outro tanto de puta que os pariu e tudo se repetia.
Para uns, uma velha doida. Para outros, um ícone. Acho que ela sempre foi a escrota que todo mundo queria ter por perto na hora de dizer umas verdades. Personagem de si mesma ou não, representava o lado filho da puta que todo mundo tem e tenta esconder. “Vá esconder no cu da mãe”, diria ela.
Já esteve no céu. Em uma novela. Se for para o inferno, aquilo lá vai ser um diversão dos diabos. Acredito que, a esta hora, meio além já foi mandado à merda. Seja lá de onde, já escuto Dercy gritando: “Vem logo, Niemeyer! Vem logo!”.
Há frases que repetimos constantemente para expressar nossas idéias, nossas certezas, mas muitas vezes não dos damos conta do que realmente querem dizer e de quão verdadeiras e presentes são em nossas vidas.
Há duas que repito sempre. Uma é a de que não me importa o que meus filhos sejam desde que saibam ler e pensar. Acho absurdo alguém dar este ou aquele tipo de brinquedo, livro ou roupa para uma criança tentando de alguma forma influenciá-la na “escolha de uma profissão”. Criança tem que brincar e ser educada dentro dos costumes de sua família, preferencialmente atualizando e melhorando estes. Não tem que se preocupar com nada. Mas ao falar que desejo apenas que meus filhos saibam ler e pensar, talvez eu esteja fazendo a mesma coisa, afinal é só isso o que eu mais ou menos sei fazer.
Enquanto a maioria dos pais gostaria que os filhos seguissem suas carreiras ou escolhessem uma que garantisse bons ganhos materiais e destaque social, confesso que ficaria muito satisfeito se os meus simplesmente optassem por algo que lhes trouxesse felicidade. Não me importa se um deseje ser padre, monge budista ou artista plástico, se outra quiser ser atriz, outra escritora, carreiras ingratas que presenteiam pouquíssimos com reconhecimento e dinheiro.
Se optassem por uma profissão por ela trazer prestígio, mais rentabilidade e estabilidade financeira, não iria censurá-los, mas em meu íntimo perguntaria: “Onde foi que eu errei?”. Se algum chegasse dizendo que queria ser jogador de futebol, dançarina de axé, pagodeiro ou coisa parecida, diferente do que pensava até um tempo atrás – “mato, me suicido ou os dois?” –, apenas pediria um exame de DNA para que não restassem dúvidas sobre eu não ser o pai. E se por acaso fosse, pediria que lhe abrissem a cabeça para saber o que aconteceu ao cérebro.
Portanto, o desejo é esse: Saibam ler, pensar e sejam felizes.
Outra das coisas que repito é que os filhos ensinam muito mais aos pais que estes a eles. Pais estão aí para orientar e proteger. Se forem suficientemente inteligentes, aproveitarão a oportunidade para aprender algo e esperarão a vez de seus filhos aprenderem quando eles também forem pais. Criança aprende tudo sozinha. E só aprende o que quer. Quem é pai sabe. Quantas vezes você já disse “Não bota isso na boca”, “Não pula daí que você vai se machucar”, “Caiu no chão, joga fora”, “Antes de comer, precisa lavar as mãos”. Centenas? Milhares? Desistiu? Mas basta um único dia na escola e as crianças vêm cheias de novidades. Aprendem um monte de coisas: palavras erradas, hábitos abomináveis, gritaria, vozes e risadas de desenhos animados… Aprendem rápido, sozinhas e só o que querem. E assim, ensinam aos pais a ter paciência, perseverança, a buscarem caminhos para driblar a selvageria do mundo, a melhorarem seus hábitos para que os filhos possam repeti-los.
Há poucos dias, levei Pietro, meu mais novo, a uma igreja. Logo na entrada, uma imagem de Jesus de braços abertos. Perguntou quem era, eu respondi. Imediatamente ele observou:
– Ele está machucado.
Para tentar diminuir a seqüência de “É? Por que?”, tentei usar um acontecimento do dia para diminuir a história.
– Hoje, no colégio, um colega seu não o machucou sem querer? Às vezes as pessoas machucam as outras sem querer e sem saber porquê estão fazendo isso.
Ele me olhou com aquela cara de “que história mal contada” e disparou:
– Ele veio assim da fábrica?
Passei toda a vida dizendo que não sigo qualquer religião e que sou iconoclasta, mas precisei de uma criança de três anos para me mostrar que estávamos diante de uma imagem. O que ou quem ela representa, que histórias evoca, os valores que lhe são atribuídos, tudo isso forma um conjunto de informações que vamos recebendo e criando durante a vida e que, muitas vezes, fazem com que percamos a capacidade de olhar para algo e enxergar o óbvio. Mesmo que nunca tivesse visto algo daquele tipo, Pietro sabia que estávamos diante de um “boneco” e que certamente ele não havia se machucado na escola enquanto brincava com seus coleguinhas. Simples assim. Pensamento puro, direto, sem complicações.
Nesse dia, finalmente entendi e aceitei: na relação pais e filhos, os educadores são os filhos.
Recolho-me a pensar nas muitas lições contidas numa pergunta simples e a procurar outros caminhos para me orientar e, se possível, orientar meus filhos.
Devo ter visto Flávio Rezende pela primeira vez ali no corredor do Bloco C, do Setor V da UFRN, em 1988. Jovem, mas com aquele ar de irmão mais velho da garotada que dava seus primeiros passos no ingrato mundo jornalístico.
Vinte anos depois, ele tem a mesma cara, a mesma juventude, a mesma energia, a mesma aura. Tudo isso muito típico das almas puras. A mais, história, experiência, sabedoria. E livros.
Hoje, no dia de seu aniversário de 47 anos – sim, esse menino na foto, feita há poucos dias, logo logo terá meio século de existência! –, está lançando seu 19º livro: O sonhador.
Li e tenho pelo menos meia dúzia deles, os lançados na época em que estávamos mais próximos, até meados dos anos 90. Flavinho sempre divulgou meus trabalhos. Talvez por gostar, por bondade, para completar suas colunas. Também sempre divulguei os dele, mas que fique claro que não por agradecimento ou política. Sempre fiz isso porque Flavinho é o cara “mais do Bem” que conheço. Então, nem me preciso ver o que ele fez. Se foi feito por ele, só pode ser uma coisa boa, algo para o Bem.
Nessas duas décadas, sou testemunha de suas batalhas e realizações. Nada fácil, nada sem muito esforço. Tudo tão impregnado de bondade, de bons fluídos, que invariavelmente dá certo, não importando o tempo que seja necessário para se tornar real. E o início de cada uma dessas realizações é sempre um sonho ao qual outras boas almas vão se juntando até que se concretize.
O sonhador livro está sendo lançado hoje. O sonhador-realizador Flavinho está só começando a encher nosso mundo de Luz.
Um grande beijo, meu querido. Sonho junto com você.
Vai um caju aí? Ainda dá tempo de conferir a exposição Céu, Mar e Cajus, do artista plástico Vatenor. Ela está sendo apresentada até quarta, 16 de julho, no Espaço Cultural Agência Sebrae, no Natal Shopping, em Natal (dãã!).
A exposição, que inaugura o novo espaço cultural, mostra 25 trabalhos inéditos, todos dentro do universo dos cajus, dunas e mar. Vatenor começou a pintar de forma autodidata há 34 anos e já fez mais de 30 exposições individuais no Brasil e no exterior.
Meus amigos andam parindo livros aos borbotões neste 2008. E que seja assim sempre! Na próxima terça-feira, dia 15, Flávio Rezende dá à luz seu 19º livro, O Sonhador. O lançamento será na Siciliano do Midway Mall, em Natal. Parte da renda será destinada às ações humanitárias da Casa do Bem. Acima, o convite. Logo, mais sobre Flavinho, o sonhador que realiza.
Tem gente, como eu, que guarda toneladas de papel, arruma direitinho, tenta preservar infinitamente suas características. Tem gente que pega qualquer papel e faz arte com ele como se estivesse brincando. Kusudama é o nome. São origamis modulares atualmente muito usados em decoração. Particularmente, acho que é “uma forma de meditar fazendo arte”.
Andréa Garcia, prima de minha esposa e advogada que ficará milionária cuidando de meus direitos autorais, é uma artista da dobradura. Ela e duas amigas estarão expondo em Campina Grande a partir do próximo sábdo. Quem estiver na cidade, confira de perto. Quem estiver longe, dê uma boa olhada no Brincadeiras com papel, blog onde Andréa mostra algumas de suas criações.
Eu quero acreditar que até o próximo dia 25, quando estréia o segundo longa de Arquivo X, conseguirei assistir aos mais de 200 episódios da série. Teria que ver mais de meia temporada por dia para dar tempo, mas em se tratando de Arquivo X, tudo é possível.
Não lembro exatamente quando a série começou a ser exibida na Record, mas creio que foi em 1995, dois anos depois da estréia (setembro de 1993) e já com a primeira temporada completa (maio de 1994). Lembro que em 1996 empreendi uma caçada a Songs in the Key of X, CD com músicas alusivas à série, que eu não estava a fim de esperar para comprar quando fosse lançado no Brasil (se é que isso chegou a acontecer). Além das 15 faixas indicadas, havia ainda duas escondidas, antes da primeira. Com a Internet, ficou fácil ter acesso a esses segredos, existentes em quase tudo que se relaciona ao seriado, mas na época do lançamento do CD, você só dizia isso a alguém se o considerasse um eXcer a sua altura e digno de ser guardião de tal mistério. Era como se só Mulder, Scully e você soubessem.
Em 1998, assisti a The X-Files ou Arquivo X – O filme em uma última sessão com meia dúzia de pessoas no falecido Marabá, em São Paulo. Em 2001, trabalhando no Senado Federal, costumava usar uma camiseta com a famosa frase do filme escrita no original em inglês: The Truth is out there. Trabalhar naquele lugar e dizer que A verdade está lá fora era uma espécie de válvula de escape, um pequeno ato de rebeldia que eu carregava à vista de todos mas sem que ninguém percebesse. Era o meu segredo particular antes da primeira faixa.
Sim, tudo isso é coisa de maluco aficionado. Assim como essa maratona Arquivo X, que resolvi fazer antes do lançamento de I want to believe.
Totalmente dispensável, ao menos para os fãs, qualquer explicação sobre o título do filme. Mas os produtores jogam uma luz na memória dos mais esclerosados e não-iniciados lembrando que a frase estava lá em um pôster na sala de trabalho de Fox Mulder. Eu lembrava até quando o pôster aparece pela primeira vez logo no início do episódio piloto. Scully entra na sala para se apresentar a Mulder. A cena mostra a visão da agente percorrendo o ambiente com os olhos. É quando aparece o cartaz (na imagem ao lado, um momento logo depois disso quando Scully se aproxima de Mulder).
Rever Arquivo X desde a primeira temporada tem me trazido boas lembranças. Serve também como exercício de memória. Fico impressionado como as cenas seguintes vão surgindo em minha cabeça como se as tivesse visto uma hora atrás. Trazem ainda surpresas (episódios aos quais não havia assistido!) e a percepção de detalhes anteriormente desprezados, como a forma de apresentar os personagens, o envolvimento e a importância de cada um deles para a trama geral, pecinhas que vão se encaixando ao longo dos episódios.
Tem sido como rever fotos e filmes de velhos amigos. Lembro e faço comparações entre os aspectos que tinham naquela época e os de hoje. Quase cinquentão (e depois de ter tomado todas na pele de Hank Moody, em Californication), David Duchovny já não tem a carinha de menino dos primeiros anos de Arquivo X. Já Gillian Anderson, que sempre esteve em minha lista das “dez feinhas que são lindas”, está muito melhor agora (aos 39 anos) sem aquele cabelo “que saudade dos anos 80”. Vai ser muito bom reencontrá-los daqui a alguns dias.
E agora, com licença. Tenho uma missão para terminar antes do dia 25.
Pergunte-se: Quantas pessoas deixaram uma obra que influenciou sua (dela) própria geração, a de seus pais, a sua (sua mesmo), as seguintes e continua se perpetuando?
Meus pais, hoje na casa dos 60, eram criancinhas quando Monteiro Lobato morreu. Meu avô, que completará 88 anos em agosto, nasceu no mesmo ano de Narizinho: 1920.
Monteiro Lobato foi – e continua sendo – meu principal professor. Ensinou-me História, Geografia, Matemática, Gramática,… ensinou-me, principalmente, a sonhar. E se não me ensinou a escrever a culpa é toda de minha incompetência. Mas na matéria Amor à leitura sempre tirei nota dez. Graças a ele.
Vira e mexe, escrevo sobre ele ou sobre o mundo que criou. A mais recente foi há duas semanas, quando o Visconde André Valli se encantou. Há quase dez anos, mantenho um singelo sítio dedicado a ele no Memória Viva. Quando fiz o sítio, sabe-se lá o porquê, dei o final /mlobato ao endereço. O normal seria o nome inteiro, mas achei que ficaria muito grande. Bobagem. É o nome pelo qual é conhecido. Deixei o /mlobato. Isso foi em 1999. Quatro anos depois, tive o privilégio de ter em mãos algumas cartas suas. Algumas datilografadas, outras escrita a mão. Todas enviadas a Câmara Cascudo. Qual não foi minha surpresa ao ver que, na maioria delas, assinava M. Lobato.
Hoje, quando se completa 60 anos em que resolveu deixar este mundo e ir viver com seus personagens, aproveito para reverenciar sua memória e agradecê-lo, mais uma vez, por toda a riqueza de minha infância.
Nem João, nem Pedro, muito menos Rosa, Pelé ou Garrincha. Todos os temas programados de sexta até domingo ficaram na vontade. O site ficou fora do ar por três dias. Estourou a largura de banda definida para ele. Em português: andou tendo um porrilhão de acessos e foi pras picas. Aproveitei para visitar o mundo real, mas muito sem vontade de fazer nada. Fiquei nuns livrinhos fáceis e filmes idem. Foi-se junho e meio 2008. Começo o segundo semestre mais organizado, (muito) mais chato, mais sedento e me preparando para uma nova gestação. Eu sou uma gata. Entro em gestação a cada dois meses. Vou fazer umas sinapses e volto já.
Asmodeu Rábula – ou terá sido o Mágico? foi rápido, não vi – passou por aqui e roubou outro pedaço de minha infância.
Morei boa parte de meus dias de menino no Sítio. E não era com o outro menino minha identificação maior. Era com o Visconde. Educado, sereno, grande leitor, sempre com respostas para tudo e se não as tinha era questão de tempo.
O Visconde de minha infância é imortal. E o Visconde, como soube mais tarde, chamava-se André Valli, uma dessas pessoas que quebram a tal regra que diz que ninguém é insubstituível. Ninguém vírgula. Visconde só tem um. Não tem desenho de Belmonte, de Leblanc, Manoel Victor Filho ou Seu Ninguém fantasiado, tentando se passar por. Visconde é o André Valli.
Cumpriu muito bem sua sentença e quebrou outra regra ao driblar aquele dito mal irremediável, pois sempre estará vivo em nossos corações.
Minhas orações, meus agradecimentos. Obrigado, sábio Visconde de Sabugosa, cavaleiro andante das paragens de minha meninice. Mil vezes obrigado.