| Postado
em 26 de junho de 2006, segunda |
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Clarice, Rosa e Bandeira nas lembranças
de um amigo

Estou
começando a juntar um acervo
de depoimentos que um dia, sabe-se
lá quando e como, será muito bem
aproveitado. O interessante é que parte
dele foi conseguida de forma não intencional.
Misturam-se às boas histórias
de Maria Matilde e Fernandinha,
respectivamente, filha e neta de Cecília
Meireles, ou do escritor e jornalista
José Louzeiro, ricos
depoimentos como os do ator-galã-diretor
Anselmo Duarte e do embaixador
Lauro Moreira.
Na
semana passada, um amigo diplomata me convidou
para uma festa de despedida de seu amigo Lauro.
Pensei que fosse outro diplomata, “um
Lauro qualquer”,
como diria mais tarde ao próprio. Mas
ele estava falando de Lauro Moreira, que eu
conhecia por seu envolvimento e comprometimento
com o que há de melhor na cultura
brasileira. O Lauro Moreira, dentre
muitas outras coisas, do CD Manuel
Bandeira – O Poeta em Botafogo,
lançado ano passado.
O
fato de ter uma carreira profissional brilhante,
de ter sido embaixador em Marrocos e agora embaixador
do Brasil junto à Comunidade
dos Países de Língua Portuguesa
– CPLP são pequenos detalhes
frente à riquíssima vida cultural
que ele levou desde sempre.
Lauro
foi casado com Marly de Oliveira,
uma das melhores poetas brasileiras, quiçá
da Língua Portuguesa. Foram padrinhos
desse casamento, Clarice Lispector
e Manuel Bandeira.
Na
noite da última sexta, fui à festa
de despedida na qual se apresentou o grupo Solo
Brasil com o espetáculo Uma
viagem através da música do Brasil
2, que deveria ter apresentação
obrigatória em todas as escolas do país.
Ambos – grupo e espetáculo –
foram criados por Lauro. No sábado, estive
em sua casa para gravarmos uma entrevista para
o Memória
Viva. O que eu pensei que
se resolveria em 20 ou 30 minutos transformou-se
em uma aula de História e Cultura
brasileiras com de três horas
e meia de duração. E espero que
tenha sido apenas a aula inaugural.
Dentre
tudo que foi falado, trago para cá um
aperitivo do que poderá ser lido em julho
quando parte da entrevista estará on
line. Histórias que só podem
ser contadas por quem as viveu, como a da louca
viagem, debaixo de chuva, dentro de
um fusca lotado, do Rio a Petrópolis
e de lá a Teresópolis, com uma
Clarice Lispector que não sabia para
onde deveriam ir e que estava louca para tomar
um vinho mas não havia como abrir a garrafa.
Ou do nascimento de A paixão
segundo GH, que Lauro viu ser
escrito. Detalhes poucos conhecidos de Clarice,
momentos engraçados, de extremo bom humor,
à chegada a sua (dela) casa após
o incêndio que quase a matou.
Histórias
de Manuel Bandeira e Isabel, a cozinheira
de Lauro, que ganhava livros do poeta agradecido
pelos deliciosos pratos que ela preparava. Da
noite, em 1967, que Bandeira pediu a Lauro que
gravasse alguns poemas seus, que os recitava
muito bem... e quase 40 anos depois virou CD.
E
ainda as divertidas passagens do convívio
com Guimarães Rosa,
desde a encenação de A
volta do marido pródigo,
montada por Lauro, até a última
vez em que se viram, numa conversa rápida,
no Itamaraty, logo após a posse do escritor
na Academia Brasileira de Letras. Dessas passagens,
duas me marcaram: quando Lauro fala da “certeza
de que convivia com a posteridade”
e da defesa que ele fez de Rosa quando os “amigos
diplomatas”
acusaram o escritor de ser alguém extremamente
presunçoso. Disse Lauro: “Se
Rosa fosse o sujeito mais presunçoso
do país, ainda assim estaria aquém
de sua genialidade”.
Concordo
plenamente. E termino com um poema de Marly
de Oliveira que me faz pensar sobre o trabalho
de memorialista, além de aumentar meu
carinho pelos depoimentos que venho colhendo.
Quando
um dia estiver morta
Quando
um dia estiver morta
e sobre mim caírem os adjetivos mais
ternos,
não vou mover um dedo
de dentro do meu silêncio:
vou desdenhar do eterno
o que sempre chegou tarde,
demais, quando já nem era preciso.
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| Postado
em 19 de junho de 2006, segunda |
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Sobre não ler

Eu
leio. Muito se comparado à maioria.
Muito pouco se comparado ao que desejo ler.
Eu
escrevo. E quero ser lido.
Remexendo
livros e revistas durante o último final
de semana, me deparei com uma entrevista –
coisa rara! – de Guimarães
Rosa a alunos do colégio Dom
Pedro II, do Rio de Janeiro. Foi feita
em setembro de 1967, dois meses
antes de sua morte (19/11), e publicada pela
revista O
Cruzeiro em sua edição
de 23 de dezembro do mesmo ano.
Para
quem não sabe, Guimarães Rosa
era um perfeccionista. Refazia e corrigia seus
textos à exaustão. São
reproduções dos originais corrigidos
de Grande Sertão: Veredas
que estão na exposição
sobre Guimarães e sua obra no Museu
da Língua Portuguesa, em São
Paulo.
Na
tal entrevista, o escritor diz o seguinte:
“Leio
muito pouco, quase não tenho tempo.
Os livros que leio são os que estão
na moda e, também, os escritos dos
amigos. Gosto mesmo é de ouvir conversas.
Com pessoas estranhas, de preferência.
Ouvir a vida para poder transmiti-la. Se a
gente lê muito, em demasia, acaba contando
coisas que todo mundo sabe. É preciso
dar coisas novas, há milhares de coisas
novas para dar. É descobri-las”.
Palavra
do Senhor Rosa.
Graças
a ele, que pensava como Nietzsche
– outro que deixou as leituras de lado
em busca de um pensamento próprio –,
mui humildemente recolho-me a minha condição
de aprendiz que ainda precisa ler muito.
Muito mesmo. Naquele ritmo sonhado quando de
uma fictícia aposentadoria: um
livro por dia.
Graças
a ele, fico na dúvida. Será que
até lá, evitarei o contágio
de idéias alheias e então mergulharei
– finalmente! – em busca
de meu próprio mundo?
Por
ora, sei que mal alcanço o primeiro degrau
e sequer enxergo o topo da escada.
Meu
próximo passo chama-se Sagarana.
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| Postado
em 17 de junho de 2006, sábado |
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É piada, não é?
Agora
que é de verdade, eu não quero
acreditar. Morreu Bussunda.
Ele
já havia morrido pelo menos outras duas
vezes. Uma na capa da Revista da
Web, de setembro de 2000. Capa
que deu o que falar. Muita gente não
gostou e disse que morte é assunto tabu,
não é algo para se brincar. Da
outra vez, em 2003, circulava um hoax
(um e-mail com uma história falsa e alarmante)
que dava conta de sua morte. Rendeu até
piada no Casseta e Planeta.
Só
hoje me dei conta de que Bussunda faz parte
da minha vida há mais ou menos 20 anos.
Desde quando a Casseta Popular
virou revista e chegou às bancas.
Não
o conheci pessoalmente. Estive uma vez, em dezembro
de 1993, com Beto Silva. Ele
e a esposa estavam passando férias na
praia de Pipa, no Rio Grande do Norte.
Esperavam um bebê. Naquele mesmo ano,
Bussunda havia sido pai. A oportunidade não
poderia ter sido desperdiçada...
“Bussunda
ficou no Rio, tá com filha pequena”,
disse Beto
“E
ela nasceu com a cara dele?”,
perguntei.
“Sacanagem
com a menina! Não, ela vai ser bonitinha.
Se crescer com a cara do pai vai ter que estudar
muito”.
A
morte de Bussunda não tem a mínima
graça. Morre jovem, talentoso, no auge
de sua carreira. É difícil engolir
essas coisas. Espero que onde quer que esteja,
ele continue com o mesmo humor ferino e não
poupe santos ou anjos. Para quem fica, resta
a vontade de que seus companheiros revelem a
piada:
“Brincadeira! Brincadeira! Ele
está aqui. Fala aí, Fofômeno!”
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| Postado
em 15 de junho de 2006, quinta |
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O Amigo da Onça
A
expressão é antiga. E de tão
antiga deu origem a outra: isso é do
tempo do Onça. Também
já antiga e não mais usada. O
Amigo da Onça, personagem
do pernambucano Péricles Maranhão,
que fez fama nas páginas da revista O
Cruzeiro, é
aquela figura na qual não se pode confiar,
que só dá conselhos para ver o
outro quebrar a cara (essa também é
antiga).
Nos
caminhos escorregadios da desinformação,
você vai encontrar por aí que a
origem da expressão “Amigo
da Onça”
vem do personagem de Péricles, mas não
é bem assim. O jovem desenhista fazia
dupla com Millôr Fernandes
no personagem Oliveira, o Trapalhão,
antecessor do Amigo da Onça. Segundo
Millôr e como está no livro Cobras
Criadas, de Luiz Maklouf,
“o
personagem foi remotamente calcado em The
enemies of man, da revista americana Esquire,
que deu origem a El enemigo del hombre,
da revista argentina Patoruzu”.
Mas
a expressão “Amigo
da Onça”
já era conhecida antes do personagem.
Vinha de uma anedota que era,
mais ou menos, assim:
-
O que faria você se estivesse na selva
e uma onça aparecesse na sua frente?
- Dava um tiro nela.
- E se você não tivesse uma arma
de fogo?
- Tentava furá-la com o meu facão.
- E se você não tivesse um facão?
- Apanhava qualquer coisa, como um pedaço
de pau, para me defender.
- E se não tivesse um pedaço
de pau por perto?
- Procurava subir na árvore mais próxima.
- E se não tivesse nenhuma árvore
no lugar?
- Saía correndo.
- E se você estivesse paralisado pelo
medo?
Aí, o outro, já aborrecido,
retruca:
- Afinal, você é meu amigo ou
amigo da onça?
Este
prólogo de apresentação
do Amigo da Onça foi necessário
para que eu pudesse me apresentar como aquele
que não o é.
Explico.
É época de Copa do Mundo. Os que
realmente me conhecem, sabem que não
tenho qualquer atração por futebol.
Nos últimos anos, a não-atração
vem se tornando repulsa. Cada vez mais forte.
A supervalorização de
uma banalidade em detrimento de uma
boa educação é um dos pontos
mais forte nessa repulsa. As crianças
querem ser jogadores de futebol, cantores de
pagode e axé, apresentadores de TV, modelos,
querem ir para o Big Brother... Qualquer
coisa que não necessite de estudo
e dê muito dinheiro e fama, de preferência
rápido e sem muito esforço.
Eu
sou do tempo do Onça. Em que os valores
eram outros. Melhor: um tempo em que
havia valores.
Acho
um absurdo um país parar por causa de
um jogo. O país não pára
– ou não se movimenta! –
para fazer uma limpa em toda a bandalheira que
aí está. Já imaginou
uma mobilização tão grande
para exigir a perda de mandato e colocar todo
político corrupto na cadeia? Já
imaginou tamanha mobilização pela
educação ou pela saúde?
Contra a fome e a mendicância?
Se essa força fosse bem utilizada, nós
não teríamos problemas! Mas preferimos
canalizá-la para algo que, na verdade,
não tem importância alguma.
A seleção ganha a Copa. Lindo.
E daí? As crianças continuam nas
ruas, fora das escolas, trabalhando e morrendo
pelo tráfico. Os maus políticos
continuam sugando tudo que podem e enriquecendo
graças ao suor dos que os elegeram. Pais
de família continuam tendo que sustentar
mulher e filhos, durante um mês inteiro,
com o mesmo que você paga para ter Internet
banda larga. E o que todas as crianças
que crescem em um país assim vão
ser? Que futuro terão? Será
que tem vaga para todas elas na Seleção
Brasileira? Será o futebol a
grande panacéia pela qual rezamos?
Não
sou “do
contra”.
Para ser sincero, sou a favor de um
empate geral na Copa. Todos ganhem,
voltem felizes para seus respectivos países
e sejam vistos como campeões.
Torço
a favor. Com a mesma força que eu gostaria
de ver um brasileiro ganhar o Prêmio Nobel
de Literatura e desfilar em carro do Corpo de
Bombeiros, por várias cidades, sendo
ovacionado, admirado. Queria ver o Brasil
parar para ver o grande literato passar.
Ou o grande médico sendo aclamado pelas
ruas por sua grande descoberta. Ou o político
que conquistou o povo, não pelo discurso
ou pelas promessas, mas pelo que fez.
Sou
a favor de tudo isso. E você?
Montaria uma torcida comigo para celebrarmos
esses campeões?
Que
não seja só pelo futebol. Vamos
celebrar também nossa imensa estupidez.
Façamos de Perfeição
o hino do país, até porque o atual
são poucos que sabem cantar e, pior,
conhecem o significado de seus versos. “Vamos
celebrar a aberração de toda a
nossa falta de bom senso”.
Enquanto
essa imensa torcida pelo Brasil não se
organizar – da qual serei um dos líderes
de primeira hora! –, vou continuar sendo
visto como o Amigo da Onça.
Onde
foi mesmo que coloquei minha camisa da Argentina?
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| Postado
em 13 de junho de 2006, terça |
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Caros Amigos

Não
sei se isso é possível, mas eu
me ressinto de algo que não vivi.
De amigos jornalistas, escritores, atores, cantores,
compositores, poetas e loucos que se freqüentem,
se unam, conheçam, curtam o trabalho
de cada um, que colaborem mutuamente
pelo sucesso de suas empreitadas. Não
estou falando de corporativismo e suas facetas
mais podres. Longe de mim, fazer parte de panelas,
comuns nos segundos cadernos, que traduzem o
termo esprit de corp
por espírito de porco.
Falo
de reconhecer, admirar e fortalecer o trabalho
de nossos contemporâneos. Aqueles que
valham realmente a pena. Ou, no mínimo,
que dentro de nossos conceitos, de nossa cultura,
consideremos como tal.
Valéria
Oliveira, cantora nascida
no Rio Grande do Norte, esteve se apresentando
em Brasília na semana passada. Valéria
é talentosa, sabe cantar, tem uma voz
deliciosa, um extremo bom gosto para música
e é profissionalíssima. Profissionalismo,
aliás, que já vai em 15 anos de
estrada. Eu a acompanho há pelo menos
dez. Em julho, os Clowns
de Shakespeare também
passarão por aqui, dentro do projeto
Palco Giratório, do
SESC. Eu já nem me dou ao trabalho de
falar bem deles. Os prêmios, as casas
lotadas e os aplausos que eles vêm ganhando
por onde quer que passem são suas melhores
credenciais. Também os acompanho desde
o início, quando, em 1994, o grupo era
formado por quase 30 estudantes secundaristas.
Destes, só restaram Fernando
Yamamoto, César Ferrário
(ambos na foto, no alto) e Renata Kaiser.
No vai-e-vem de integrantes, entraram outras
duas pessoas que conheço desde que eram
garotinhas que não sabiam o que queriam
ser quando crescessem: Titina
e Nara Kelly (ambas também
na foto).
Outro,
também do Rio Grande do Norte, que só
fui conhecer pessoalmente há poucos meses,
mas ouço falar há anos, é
Buca Dantas. Eu nem precisaria
ter referências ou ver algo feito por
ele. Só em ouvir sua forma apaixonada
de falar sobre cinema, sabe-se que dali só
pode sair coisa boa. Aliás, esse é
um ponto em comum entre todos que citei: a paixão
pelo que faz. Para quem está
no Rio Grande do Norte, o mais novo
filme de Buca – Viva o Cinema
Brasileiro! – estréia
no próximo sábado, dia 17, em
Santa Cruz. Na quarta, 21, é a vez de
Natal. Viva o Cinema Brasileiro! (nas fotos
feitas por Henrique Santos, Buca e Luzia, a
personagem principal) foi rodado sem
verbas, sem roteiro e com muitas idéias.
Idéias que iam nascendo das cabeças
do povo de cada cidade do interior do Rio Grande
do Norte por onde a trupe ia passando.
Todos
esses – meus caros amigos – são
pessoas pelas quais eu não tocaria em
uma tecla para falar bem se não tivesse
certeza de que são extremamente talentosas
e competentes em tudo que fazem.
*
* *
E
aproveitando que estou falando em caros amigos,
deixe-me falar (de novo?!) de algo relacionado
a minha mania de colecionar revistas. Está
nas bancas a Caros Amigos
com Juca Kfouri, na capa, dizendo
que o Brasil não vai ganhar a Copa. Copa
para a qual, todos sabem, não dou a mínima,
já que acho futebol uma das coisas
mais imbecilizantes criadas pela humanidade.
Pois bem. Juca foi capa da primeira edição
de Caros Amigos, em abril de 1997.
Nunca fui com a cara de Juca Kfouri. Talvez
por ele ser sociólogo. Talvez por ser
da USP. Talvez porque ele seja comentarista
de futebol.Talvez devido ao seu jeito pernóstico
de sociólogo da USP que comenta futebol.
Já da revista Caros Amigos,
eu gosto. Afinal, alguma coisa precisa contrabalancear
– com a mesma vontade! –, o “jornalismo”
de extrema direita da Veja.
Então, prefiro o jornalismo de extrema
esquerda (às vezes nem tanto) da Caros
Amigos. E mais. Gosto da Caros Amigos
a começar pelo nome. Os segundos cadernos
e pretensas revistas culturais no Brasil só
fazem isso: falar bem dos amigos. Eu gosto da
Caros Amigos porque ela deixa isso
bem claro a partir do título. E dá-lhe
Juca Kfouri, Caco Barcelos, Marilena Chauí,
João Pedro Stedile...
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| Postado
em 1º de junho de 2006, quinta |
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Uma semanas e dois pastel

Essa
mais recente ida a São Paulo
foi das mais profícuas. Do jeito que
quase sempre planejo e quase nunca dá
certo: programas culturais de ponta
a ponta, sem desperdício de
tempo e energia.
Tudo
começou no final da manhã de sexta,
19 de maio, quando o avião que
me levava pousou no aeroporto preferido de todo
cervejeiro: Viracopos, em Campinas.
De lá fui para a casa do João,
de quem já
falei no Leseira Geral
e não conhecia pessoalmente. Depois de
me deixar boquiaberto, olhiaberto e queixicaído
com a quantidade de jornais, revistas e livros
que ele tem, fomos para o Arquivo Edgard
Leuenroth, na Unicamp.
À
noite, fomos ao Sesc Campinas
conferir o que estava rolando no evento
Coletiva de Blues. Chegamos,
o povo foi juntando, eu não estava muito
ligado, os caras começaram a tocar. Achei
a banda boazinha, mas o cara da gaita, que era
para ser o fodão, não estava lá
essas coisas. Lá pelas tantas entrou
outro gaitista. Deu uma dura na galera do som
e tudo melhorou. Aí sim, Flávio
Guimarães (1)
voltou como o Flávio Guimarães
do Blues Etílicos que
eu conheço. A banda que o acompanhava
era a Prado Blues Band.
No
sábado, 20, segui para
São Paulo, capital. Ônibus, Tietê,
metrô, Estação Bresser,
espera Wilson, espera mais, cadê-o-Wilson-porra?,
chega o Wilson, táxi, Mooca, despeja
as mochilas na casa do Wilson, táxi,
Ipiranga. Ufa! Era o começo da Virada
Cultural, o evento que, pelo segundo
ano, realiza 24 horas seguidas de variados shows
e manifestações culturais em vários
pontos de São Paulo. Lá pelas
8 da noite, o frio e o medo pareciam estar prendendo
o paulistano em casa. Para as atrações
que se apresentavam no palco montado no Ipiranga
não havia tanto público. Era o
primeiro final de semana pós-ataque
do PCC.
Na
rua que dá acesso ao Museu Paulista
e ao parque, há uma feirinha que funciona
aos domingos mas que, devido ao evento, funcionaria
também durante as 24 horas da Virada
Cultural. Wilson e eu mantivemos firme
o propósito de experimentar as comidas
de todas as barraquinhas. E dá-lhe pastel,
pizza, chopp com vinho, cocada, brigadeiro,
tortas... Entre a ida e a volta, fizemos uma
parada no Museu Paulista, que à noite
é muito mais bonito e também estava
engajado na Virada, portanto aberto
e com entrada gratuita. Em meus planos iniciais,
eu ainda iria até Santos naquela noite,
mas tudo conspirou para que eu fosse mesmo para
casa, descansar e me preparar para uma semana
intensa.
Começamos
o domingo como bons cristãos
e fomos à Catedral da Sé.
A intenção não era ir à
missa, mas como ainda estava rolando quando
chegamos, eu posso mentir e dizer que era. Chamou-me
a atenção a grande quantidade
de seguranças durante a missa. Já
quase no final, vi um senhor levantando-se do
primeiro banco e dirigindo-se à porta
lateral. Acompanhado pelos seguranças,
ele cumprimentava a todos no caminho. Olhei
e pensei: “Já
vi essas sobrancelhas de taturana
em algum lugar”.
Tinha visto mesmo! No Casseta &
Planeta, num quadro em que o
governador de São Paulo era
satirizado. Lá estava Cláudio
Lembo mostrando que São Paulo
é segura e que você pode ir à
missa na santa paz do Senhor.
Terminada
a celebração, fomos ao que interessava:
a Cripta da Sé. Os restos
mortais de vários bispos de São
Paulo, do cacique Tibiriçá
e do regente Diogo Feijó
estão lá. Eu me senti o próprio
Robert Langdon entrando na
Rosslyn
Chapel. Só queria
saber de toda simbologia “escondida”
nas paredes, no teto, no chão, em toda
a cripta. Dali, continuamos em um passeio pelo
centro da cidade. Nunca vi São
Paulo tão calma e segura. Puxávamos
as câmeras e fotografávamos tudo,
em pleno Anhangabaú, com toda calma do
mundo. E foi lá mesmo, no Vale
do Anhangabaú, um dos pontos
mais legais (pelo menos durante o dia) da Virada
Cultural. Foi onde encontrei o grande poeta
e filósofo Marcondes
Falcão
Maia (4).
Do
bebedouro dos demônios, rumamos mais uma
vez para o Ipiranga onde fomos
testemunha do dia mais longo que já
existiu: 26 horas e meia. Vimos a chegada
da noite ao som da Orquestra Sinfônica
de São Paulo (2)
e depois o showzaço de Luiz
Melodia (3).
O negão tem o diabo no corpo! Segurou
a gigantesca platéia por quase duas horas.
E como o cara tem música boa e de sucesso!!
E não desafina nunca!!! E é simpático!!!
Ah, tá bom, eu sou fã dele!
Para
compensar o final de semana cheio de vida, na
segunda, logo pela manhã, fomos
ao Cemitério da Consolação
(agora eu forcei!). Já fotografei cemitérios
no Rio, em Natal, Mossoró, Londrina e
em várias pequenas cidades pelo interior
do Nordeste. Finalmente chegou a vez de São
Paulo. Eu me interesso pelo tema
“morte”,
por assim dizer. Também por arte
tumular (5).
E mais ainda por apreciar a simbologia (lá
vem Robert Langdon de novo) escondida nas obras
de grandes artistas e que na maioria das vezes
passa despercebida aos olhos de quem vai a um
enterro ou vai visitar um túmulo. As
despedidas em tons eróticos
(sim, por que não?!) ou o que parece
erótico mas simboliza simplesmente o
renascimento ou a vitória da vida sobre
a morte são dois pontos que
me fascinam. Bem, quem tem olhos que veja.

Na
segunda à noite, fomos bater o ponto
no Belas Artes e finalmente
pude dar vazão ao Robert Langdon que
habita em mim. Fomos assistir a’O
Código da Vinci.
Vamos lá... Se você leu
o livro e gostou, você verá
um filme legal, pipocão, que atropela
toda a seqüência de suspenses e descobertas
criadas por Dan Brown para
poder contar a história em pouco mais
de duas horas. Se você não leu
o livro, pode ser que goste um pouco mais do
filme. Se você não leu o livro,
não viu o filme e não pretende
fazer uma coisa nem outra, deixe de ser chato
e vá procurar outra coisa com o que se
ocupar.
Na
terça, foi dia de Memorial
do Imigrante. E só. Pelo menos
em se tratando de passeios culturais. Precisava
voltar à Mooca (ainda não tem
Metrô lá), me aprontar para o iBest
e atravessar de novo a cidade até a Vila
Olímpia (onde também
não há Metrô). Encontrei
Clayton, aquele que segura
minhas bolas há quatros anos, e seguimos
para o Via Funchal. Confesso
que já não tenho mais saco para
a cerimônia de premiação
do iBest. Um povinho pernóstico,
sacal... Fui lá, peguei minha
bola (fui o primeiro! Ainda nem estava
liberada a entrega dos troféus), meus
certificados (6)
e rumamos para um bar. Fomos tomar uma
sagrada cerveja. E que cerveja! Quem
diria que o mestre cervejeiro aqui iria aprender
algo com o aprendiz Clayton! Stella
Artois, este é o nome da loira.
Nunca mais eu digo que Skol desce redondo. Essa
belga desce que é uma maravilha! Ô,
loira gostosa!
O
antigo gigante e o novo monstro foram as primeiras
visitas da quarta. O Martinelli
e o Banespa. A foto no alto
do Banespa está virando tradição.
Neste ano, fomos só Wilson e eu (7).
Depois fomos ao Martinelli, minha paixão
paulistana no qual, pelo menos nesta vida, nunca
havia entrado. Continuo com a impressão
de que aquele prédio ainda será
meu... Todo! De lá fomos ao Museu
da Língua Portuguesa (8).
Aquele mesmo, todo interativo, que você
viu na tevê. Aquele no qual você
puxa as páginas de texto penduradas
no teto. Aquele que tem coisa escrita
em todo canto. Mas o museu não é
só isso. Tem uma andar moderno, com totens
multimídia repletos de informações
e um corredor gigantesco onde vídeos
sobre a língua portuguesa são
exibidos continuamente. Há ainda um mural
cronológico e um andar com um auditório,
no qual há exibição de
filmes, e uma praça. Um passeio imperdível
para quem tem um mínimo de amor
à última flor do lácio.
Não satisfeitos, fomos bater outra vez
o ponto no Belas Artes. Desta para
ver
Tapete Vermelho,
o filme no qual Matheus Nachtergaele
interpreta um caipira que, para cumprir uma
promessa, cisma em levar o filho para ver um
filme de Mazzaropi no cinema.
Na mesma fileira de poltronas em que sentamos,
estavam os atores Miguel Magno
e Zezé Polessa.
Finalmente
(finalmente por que?) chegou a quinta
para coroar os primeiros sete dias de vida paulistana.
Mais um pouco e eu já começaria
a falar “mooquês”.
Ôra, mano, tá entendeeeendo?
O dia começou com uma longa viagem de
metrô ao Memorial da América
Latina. Além da exposição
permanente com artesanato e trajes típicos
de todos os países da... adivinha...
América Latina, outras duas exposições
estavam sendo apresentadas: Retratos
da vida, com esculturas gigantes,
em metal, de Geraldo Pinna,
e Mario Gruber e a metafísica
dos planos. Na seqüência,
fomos para uma entrevista com o jornalista
e escritor Gonçalo Junior, autor
de A guerra dos gibis, O Homem-Abril,
Tentação à Italiana,
Quadrinhos sujos e as biografias de
Alceu Penna e José
Luís Benício da Fonseca,
dentre outros livros. Um papo muito bacana!
O resultado, você verá ainda
este mês no Memória
Viva. Às 18h, sem
almoço, corremos para o Metrô.
No caminho, Nescau Light por 50 centavos
e outras baganas para enganar a fome. Mooca,
troca de panos, os ingressos e (aí sim!)
finalmente a esperadíssima noite do teatro.
A peça: Quando Niestzsche
chorou. Só ela merecia
um post maior do que este até agora.
Vou dizer o mesmo que disse a Nelson
Baskerville (Joseph Brauer)
e Cássio Scapin: “Vocês
leram O Código da Vinci? Viram
o filme? Então saibam que vocês
deveriam estar ganhando milhões!”
A peça é extremamente bem adaptada.
Sou suspeito em falar porque sou tarado por
Nietzsche. Sempre recomendo
esse romance aos “não-iniciados”.
As participações em vídeo
são na medida certa e os dois seguram
os longos diálogos do livro com uma mestria
irrepreensível. São duas
horas sem desgrudar os olhos e os ouvidos e
você ainda sai querendo mais. Como disse
a Cássio (9),
se eu os tivesse cumprimentado imediatamente
após o término, eles me veriam
chorando. Recomendo inúmeras
idas. É a primeira encenação,
no mundo, do romance de Irvin
D. Yalom. E vai virar filme. Americano.
Para fechar a quinta, a Sé à
noite (10).
Com patrulhamento e sem receios de puxar câmera.
Na
sexta, “descansamos”
dentro de ônibus. De vários. O
lado mal da cidade se manifestando. No trânsito,
passamos tempo suficiente para ir, de ônibus,
de São Paulo a Campinas e voltar ou para
ir, de carro, de Natal a Recife. Tirando um
passeio pelo Ibirapuera, aquela
sexta poderia não ter existido.
Em
compensação, o sábado
foi ótimo! Fizemos parte do “Roteiro
da Luz”.
Logo na chegada, me encantei pelo Edifício
Josefa (11),
um antigo puteiro (escapou!
queria dizer prostíbulo) nos
anos 60 e que hoje é um grande cortiço.
Na rua, Wilson foi abordado por um simpático,
direto e comunicativo jovem que gentilmente
pediu
“dez reais para eu comprar
uma pedra”.
Até o pronome foi empregado corretamente.
De uma finesse invejável. Apesar
de Wilson presidir e patrocinar um programa
de sustentação de todos os vagabundos
fumantes da cidade de São Paulo, dessa
vez não rolou. Depois de fotografarmos
a parte exterior da Sorocabana
e da Estação Júlio
Prestes, seguimos para o antigo Dops
(12),
hoje chamado Memorial da Liberdade
(ainda que o lugar só lembre justamente
o contrário) ou Museu do Imaginário
do Povo Brasileiro. Você imagina
que não houve ditadura, que não
houve censura, imagina que ninguém foi
torturado, que ninguém foi assassinado...
Um nome bem dado, desde que você tenha
muita imaginação. O lugar é
pesado. Baixou um santo no
Wilson na última cela. Ele se sentiu
mal. Outra mulher que visitava o “Museu
do Imaginário”
também não quis entrar lá.
Vai saber o que rolou ali dentro... Ao sair,
passando por um longo muro onde, digamos, descansavam
uns sessenta admiradores urbanos, vimos dobrar
a esquina uma dupla de policiais. Malandro
é malandro, mané é mané,
já ensinava o velho Bezerra.
Parecia uma tropa de soldados sendo pega de
surpresa pelo general. Todo mundo levantando
rapidinho. Circulando, circulando. "Policial,
por fav...”
“Um
momentinho, cidadão”.
“Limpou”
o muro todo e voltou. “Pois
não”
“Prender
por vadiagem não se pode mais...”
“Não. Infelizmente
os direitos humanos não permitem”.
Isso é que é aula prática
de cidadania! Circulando, Sandro! Circulando,
Wilson!
Chegamos
à Pinacoteca do Estado de São
Paulo. Acho que andamos mais ali dentro
do que durante toda a semana por toda a cidade.
E andamos rápido! E dá-lhe foto
de tudo. Três câmeras e um sem números
de sticks. Foi bem rápido. Umas
duas horas e meia. Calculo que se parasse na
frente de cada obra que não me interessasse
por 5 segundos e 15 na frente das que me interessassem,
levaria pelo menos um dia inteiro para
ver tudo o que tem ali. Deus me livre
de conhecer o Louvre!
Ou então me dê uma longa estada
na França e muitos dias de entrada gratuita
nele. No final da tarde, ainda andamos pelo
Jardim da Luz. Vagabundos,
drogados, putas de quinta (provavelmente de
sexta, sábado e domingo também),
cafetões... todo tipo de gente colocada
à margem. E, claro, Sandro e
Wilson, dois marginais, com suas indefectíveis
câmeras.
No
domingo, 28, comecei a fazer
o trabalho de casa. Passei parte da manhã
e início da tarde reproduzindo imagens
antigas de São Paulo dos livros
do Wilson. Pense num cicerone competente
para se conhecer São Paulo de outras
épocas! Te prepara, meu,
logo, logo nós vorta pra Mooca e vai
andar essa cidade toda outra vez. Tietê,
ônibus e Campina. Até a próxima,
Sampa.
Da
rodoviária, fui direto, com João,
para o Espaço Cultural CPFL.
Assistimos a’O
livro de cabeceira (The pillow
book), de Peter Greenaway,
diretor conhecido no Brasil por O
Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o
Amante. O que dizer do filme?
Teóricos da Comunicação,
babai! Para ver e rever centenas de vezes. Nem
quis saber de Mônica Salmaso depois.
Depois daquela ceia, não engoliria qualquer
sobremesa.
A
segunda começou com
trabalho logo cedo. Digitalização
de 55 edições da Revista
Ilustrada na Unicamp, entrevista
com o diretor do Arquivo
Edgard Leuenroth (que também
será mostrada no Memória
Viva) e digitalização
das capas da Rolling Stone
brasileira e outras revistas porra-loucas dos
anos 1960 e 1970. Depois Viracopos, o aeroporto
de bêbado, e a volta à Corte.
Há
um detalhe muito importante
sobre essa viagem. Pouco dinheiro foi gasto.
Praticamente só transporte e alimentação.
Mesmo assim, voltei para casa com quase
30 quilos a mais na bagagem: livros,
revistas, catálogos, folders... Todos
os livros foram presentes (tenho amigos
bacanas!). Boa parte das revistas também.
Medir o quanto aprendi e quão prazerosos
foram os momentos de conversa, as trocas de
conhecimentos... isso é impossível.
E também não tem preço.
Portanto, faça as pedras rolarem e não
fique adiando seus projetos de viagem. Vá.
E vá agora.
Acabou?
Não. Isso foi um “resumo”.
A alguns dos temas abordados aqui, darei maior
atenção nos próximos textos.
Fotos de todos os lugares e situações
comentadas? Estarão em breve no Flickr.
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