Postado em 26 de junho de 2006, segunda

:: Clarice, Rosa e Bandeira nas lembranças de um amigo

Estou começando a juntar um acervo de depoimentos que um dia, sabe-se lá quando e como, será muito bem aproveitado. O interessante é que parte dele foi conseguida de forma não intencional. Misturam-se às boas histórias de Maria Matilde e Fernandinha, respectivamente, filha e neta de Cecília Meireles, ou do escritor e jornalista José Louzeiro, ricos depoimentos como os do ator-galã-diretor Anselmo Duarte e do embaixador Lauro Moreira.

Na semana passada, um amigo diplomata me convidou para uma festa de despedida de seu amigo Lauro. Pensei que fosse outro diplomata, um Lauro qualquer, como diria mais tarde ao próprio. Mas ele estava falando de Lauro Moreira, que eu conhecia por seu envolvimento e comprometimento com o que há de melhor na cultura brasileira. O Lauro Moreira, dentre muitas outras coisas, do CD Manuel Bandeira – O Poeta em Botafogo, lançado ano passado.

O fato de ter uma carreira profissional brilhante, de ter sido embaixador em Marrocos e agora embaixador do Brasil junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP são pequenos detalhes frente à riquíssima vida cultural que ele levou desde sempre.

Lauro foi casado com Marly de Oliveira, uma das melhores poetas brasileiras, quiçá da Língua Portuguesa. Foram padrinhos desse casamento, Clarice Lispector e Manuel Bandeira.

Na noite da última sexta, fui à festa de despedida na qual se apresentou o grupo Solo Brasil com o espetáculo Uma viagem através da música do Brasil 2, que deveria ter apresentação obrigatória em todas as escolas do país. Ambos – grupo e espetáculo – foram criados por Lauro. No sábado, estive em sua casa para gravarmos uma entrevista para o Memória Viva. O que eu pensei que se resolveria em 20 ou 30 minutos transformou-se em uma aula de História e Cultura brasileiras com de três horas e meia de duração. E espero que tenha sido apenas a aula inaugural.

Dentre tudo que foi falado, trago para cá um aperitivo do que poderá ser lido em julho quando parte da entrevista estará on line. Histórias que só podem ser contadas por quem as viveu, como a da louca viagem, debaixo de chuva, dentro de um fusca lotado, do Rio a Petrópolis e de lá a Teresópolis, com uma Clarice Lispector que não sabia para onde deveriam ir e que estava louca para tomar um vinho mas não havia como abrir a garrafa. Ou do nascimento de A paixão segundo GH, que Lauro viu ser escrito. Detalhes poucos conhecidos de Clarice, momentos engraçados, de extremo bom humor, à chegada a sua (dela) casa após o incêndio que quase a matou.

Histórias de Manuel Bandeira e Isabel, a cozinheira de Lauro, que ganhava livros do poeta agradecido pelos deliciosos pratos que ela preparava. Da noite, em 1967, que Bandeira pediu a Lauro que gravasse alguns poemas seus, que os recitava muito bem... e quase 40 anos depois virou CD.

E ainda as divertidas passagens do convívio com Guimarães Rosa, desde a encenação de A volta do marido pródigo, montada por Lauro, até a última vez em que se viram, numa conversa rápida, no Itamaraty, logo após a posse do escritor na Academia Brasileira de Letras. Dessas passagens, duas me marcaram: quando Lauro fala da certeza de que convivia com a posteridade e da defesa que ele fez de Rosa quando os amigos diplomatas acusaram o escritor de ser alguém extremamente presunçoso. Disse Lauro: Se Rosa fosse o sujeito mais presunçoso do país, ainda assim estaria aquém de sua genialidade.

Concordo plenamente. E termino com um poema de Marly de Oliveira que me faz pensar sobre o trabalho de memorialista, além de aumentar meu carinho pelos depoimentos que venho colhendo.

Quando um dia estiver morta

Quando um dia estiver morta
e sobre mim caírem os adjetivos mais ternos,
não vou mover um dedo
de dentro do meu silêncio:
vou desdenhar do eterno
o que sempre chegou tarde,
demais, quando já nem era preciso.

 
Postado em 19 de junho de 2006, segunda

:: Sobre não ler

Eu leio. Muito se comparado à maioria. Muito pouco se comparado ao que desejo ler.

Eu escrevo. E quero ser lido.

Remexendo livros e revistas durante o último final de semana, me deparei com uma entrevista – coisa rara! – de Guimarães Rosa a alunos do colégio Dom Pedro II, do Rio de Janeiro. Foi feita em setembro de 1967, dois meses antes de sua morte (19/11), e publicada pela revista O Cruzeiro em sua edição de 23 de dezembro do mesmo ano.

Para quem não sabe, Guimarães Rosa era um perfeccionista. Refazia e corrigia seus textos à exaustão. São reproduções dos originais corrigidos de Grande Sertão: Veredas que estão na exposição sobre Guimarães e sua obra no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

Na tal entrevista, o escritor diz o seguinte:

“Leio muito pouco, quase não tenho tempo. Os livros que leio são os que estão na moda e, também, os escritos dos amigos. Gosto mesmo é de ouvir conversas. Com pessoas estranhas, de preferência. Ouvir a vida para poder transmiti-la. Se a gente lê muito, em demasia, acaba contando coisas que todo mundo sabe. É preciso dar coisas novas, há milhares de coisas novas para dar. É descobri-las”.

Palavra do Senhor Rosa.

Graças a ele, que pensava como Nietzsche – outro que deixou as leituras de lado em busca de um pensamento próprio –, mui humildemente recolho-me a minha condição de aprendiz que ainda precisa ler muito. Muito mesmo. Naquele ritmo sonhado quando de uma fictícia aposentadoria: um livro por dia.

Graças a ele, fico na dúvida. Será que até lá, evitarei o contágio de idéias alheias e então mergulharei – finalmente! – em busca de meu próprio mundo?

Por ora, sei que mal alcanço o primeiro degrau e sequer enxergo o topo da escada.

Meu próximo passo chama-se Sagarana.

 
Postado em 17 de junho de 2006, sábado

:: É piada, não é?

Agora que é de verdade, eu não quero acreditar. Morreu Bussunda.

Ele já havia morrido pelo menos outras duas vezes. Uma na capa da Revista da Web, de setembro de 2000. Capa que deu o que falar. Muita gente não gostou e disse que morte é assunto tabu, não é algo para se brincar. Da outra vez, em 2003, circulava um hoax (um e-mail com uma história falsa e alarmante) que dava conta de sua morte. Rendeu até piada no Casseta e Planeta.

Só hoje me dei conta de que Bussunda faz parte da minha vida há mais ou menos 20 anos. Desde quando a Casseta Popular virou revista e chegou às bancas.

Não o conheci pessoalmente. Estive uma vez, em dezembro de 1993, com Beto Silva. Ele e a esposa estavam passando férias na praia de Pipa, no Rio Grande do Norte. Esperavam um bebê. Naquele mesmo ano, Bussunda havia sido pai. A oportunidade não poderia ter sido desperdiçada...

Bussunda ficou no Rio, tá com filha pequena, disse Beto
E ela nasceu com a cara dele?, perguntei.
Sacanagem com a menina! Não, ela vai ser bonitinha. Se crescer com a cara do pai vai ter que estudar muito.

A morte de Bussunda não tem a mínima graça. Morre jovem, talentoso, no auge de sua carreira. É difícil engolir essas coisas. Espero que onde quer que esteja, ele continue com o mesmo humor ferino e não poupe santos ou anjos. Para quem fica, resta a vontade de que seus companheiros revelem a piada:Brincadeira! Brincadeira! Ele está aqui. Fala aí, Fofômeno!

 
Postado em 15 de junho de 2006, quinta

:: O Amigo da Onça

A expressão é antiga. E de tão antiga deu origem a outra: isso é do tempo do Onça. Também já antiga e não mais usada. O Amigo da Onça, personagem do pernambucano Péricles Maranhão, que fez fama nas páginas da revista O Cruzeiro, é aquela figura na qual não se pode confiar, que só dá conselhos para ver o outro quebrar a cara (essa também é antiga).

Nos caminhos escorregadios da desinformação, você vai encontrar por aí que a origem da expressão Amigo da Onça vem do personagem de Péricles, mas não é bem assim. O jovem desenhista fazia dupla com Millôr Fernandes no personagem Oliveira, o Trapalhão, antecessor do Amigo da Onça. Segundo Millôr e como está no livro Cobras Criadas, de Luiz Maklouf, o personagem foi remotamente calcado em The enemies of man, da revista americana Esquire, que deu origem a El enemigo del hombre, da revista argentina Patoruzu.

Mas a expressão Amigo da Onça já era conhecida antes do personagem. Vinha de uma anedota que era, mais ou menos, assim:

- O que faria você se estivesse na selva e uma onça aparecesse na sua frente?
- Dava um tiro nela.
- E se você não tivesse uma arma de fogo?
- Tentava furá-la com o meu facão.
- E se você não tivesse um facão?
- Apanhava qualquer coisa, como um pedaço de pau, para me defender.
- E se não tivesse um pedaço de pau por perto?
- Procurava subir na árvore mais próxima.
- E se não tivesse nenhuma árvore no lugar?
- Saía correndo.
- E se você estivesse paralisado pelo medo?
Aí, o outro, já aborrecido, retruca:
- Afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?

Este prólogo de apresentação do Amigo da Onça foi necessário para que eu pudesse me apresentar como aquele que não o é.

Explico. É época de Copa do Mundo. Os que realmente me conhecem, sabem que não tenho qualquer atração por futebol. Nos últimos anos, a não-atração vem se tornando repulsa. Cada vez mais forte. A supervalorização de uma banalidade em detrimento de uma boa educação é um dos pontos mais forte nessa repulsa. As crianças querem ser jogadores de futebol, cantores de pagode e axé, apresentadores de TV, modelos, querem ir para o Big Brother... Qualquer coisa que não necessite de estudo e dê muito dinheiro e fama, de preferência rápido e sem muito esforço.

Eu sou do tempo do Onça. Em que os valores eram outros. Melhor: um tempo em que havia valores.

Acho um absurdo um país parar por causa de um jogo. O país não pára – ou não se movimenta! – para fazer uma limpa em toda a bandalheira que aí está. Já imaginou uma mobilização tão grande para exigir a perda de mandato e colocar todo político corrupto na cadeia? Já imaginou tamanha mobilização pela educação ou pela saúde? Contra a fome e a mendicância? Se essa força fosse bem utilizada, nós não teríamos problemas! Mas preferimos canalizá-la para algo que, na verdade, não tem importância alguma. A seleção ganha a Copa. Lindo. E daí? As crianças continuam nas ruas, fora das escolas, trabalhando e morrendo pelo tráfico. Os maus políticos continuam sugando tudo que podem e enriquecendo graças ao suor dos que os elegeram. Pais de família continuam tendo que sustentar mulher e filhos, durante um mês inteiro, com o mesmo que você paga para ter Internet banda larga. E o que todas as crianças que crescem em um país assim vão ser? Que futuro terão? Será que tem vaga para todas elas na Seleção Brasileira? Será o futebol a grande panacéia pela qual rezamos?

Não sou do contra. Para ser sincero, sou a favor de um empate geral na Copa. Todos ganhem, voltem felizes para seus respectivos países e sejam vistos como campeões.

Torço a favor. Com a mesma força que eu gostaria de ver um brasileiro ganhar o Prêmio Nobel de Literatura e desfilar em carro do Corpo de Bombeiros, por várias cidades, sendo ovacionado, admirado. Queria ver o Brasil parar para ver o grande literato passar. Ou o grande médico sendo aclamado pelas ruas por sua grande descoberta. Ou o político que conquistou o povo, não pelo discurso ou pelas promessas, mas pelo que fez.

Sou a favor de tudo isso. E você? Montaria uma torcida comigo para celebrarmos esses campeões?

Que não seja só pelo futebol. Vamos celebrar também nossa imensa estupidez. Façamos de Perfeição o hino do país, até porque o atual são poucos que sabem cantar e, pior, conhecem o significado de seus versos. Vamos celebrar a aberração de toda a nossa falta de bom senso.

Enquanto essa imensa torcida pelo Brasil não se organizar – da qual serei um dos líderes de primeira hora! –, vou continuar sendo visto como o Amigo da Onça.

Onde foi mesmo que coloquei minha camisa da Argentina?

 
Postado em 13 de junho de 2006, terça

:: Caros Amigos

Não sei se isso é possível, mas eu me ressinto de algo que não vivi. De amigos jornalistas, escritores, atores, cantores, compositores, poetas e loucos que se freqüentem, se unam, conheçam, curtam o trabalho de cada um, que colaborem mutuamente pelo sucesso de suas empreitadas. Não estou falando de corporativismo e suas facetas mais podres. Longe de mim, fazer parte de panelas, comuns nos segundos cadernos, que traduzem o termo esprit de corp por espírito de porco.

Falo de reconhecer, admirar e fortalecer o trabalho de nossos contemporâneos. Aqueles que valham realmente a pena. Ou, no mínimo, que dentro de nossos conceitos, de nossa cultura, consideremos como tal.

Valéria Oliveira, cantora nascida no Rio Grande do Norte, esteve se apresentando em Brasília na semana passada. Valéria é talentosa, sabe cantar, tem uma voz deliciosa, um extremo bom gosto para música e é profissionalíssima. Profissionalismo, aliás, que já vai em 15 anos de estrada. Eu a acompanho há pelo menos dez. Em julho, os Clowns de Shakespeare também passarão por aqui, dentro do projeto Palco Giratório, do SESC. Eu já nem me dou ao trabalho de falar bem deles. Os prêmios, as casas lotadas e os aplausos que eles vêm ganhando por onde quer que passem são suas melhores credenciais. Também os acompanho desde o início, quando, em 1994, o grupo era formado por quase 30 estudantes secundaristas. Destes, só restaram Fernando Yamamoto, César Ferrário (ambos na foto, no alto) e Renata Kaiser. No vai-e-vem de integrantes, entraram outras duas pessoas que conheço desde que eram garotinhas que não sabiam o que queriam ser quando crescessem: Titina e Nara Kelly (ambas também na foto).

Outro, também do Rio Grande do Norte, que só fui conhecer pessoalmente há poucos meses, mas ouço falar há anos, é Buca Dantas. Eu nem precisaria ter referências ou ver algo feito por ele. Só em ouvir sua forma apaixonada de falar sobre cinema, sabe-se que dali só pode sair coisa boa. Aliás, esse é um ponto em comum entre todos que citei: a paixão pelo que faz. Para quem está no Rio Grande do Norte, o mais novo filme de Buca – Viva o Cinema Brasileiro! – estréia no próximo sábado, dia 17, em Santa Cruz. Na quarta, 21, é a vez de Natal. Viva o Cinema Brasileiro! (nas fotos feitas por Henrique Santos, Buca e Luzia, a personagem principal) foi rodado sem verbas, sem roteiro e com muitas idéias. Idéias que iam nascendo das cabeças do povo de cada cidade do interior do Rio Grande do Norte por onde a trupe ia passando.

Todos esses – meus caros amigos – são pessoas pelas quais eu não tocaria em uma tecla para falar bem se não tivesse certeza de que são extremamente talentosas e competentes em tudo que fazem.

*   *   *

E aproveitando que estou falando em caros amigos, deixe-me falar (de novo?!) de algo relacionado a minha mania de colecionar revistas. Está nas bancas a Caros Amigos com Juca Kfouri, na capa, dizendo que o Brasil não vai ganhar a Copa. Copa para a qual, todos sabem, não dou a mínima, já que acho futebol uma das coisas mais imbecilizantes criadas pela humanidade. Pois bem. Juca foi capa da primeira edição de Caros Amigos, em abril de 1997. Nunca fui com a cara de Juca Kfouri. Talvez por ele ser sociólogo. Talvez por ser da USP. Talvez porque ele seja comentarista de futebol.Talvez devido ao seu jeito pernóstico de sociólogo da USP que comenta futebol. Já da revista Caros Amigos, eu gosto. Afinal, alguma coisa precisa contrabalancear – com a mesma vontade! –, o jornalismo de extrema direita da Veja. Então, prefiro o jornalismo de extrema esquerda (às vezes nem tanto) da Caros Amigos. E mais. Gosto da Caros Amigos a começar pelo nome. Os segundos cadernos e pretensas revistas culturais no Brasil só fazem isso: falar bem dos amigos. Eu gosto da Caros Amigos porque ela deixa isso bem claro a partir do título. E dá-lhe Juca Kfouri, Caco Barcelos, Marilena Chauí, João Pedro Stedile...

 
Postado em 1º de junho de 2006, quinta

:: Uma semanas e dois pastel

Essa mais recente ida a São Paulo foi das mais profícuas. Do jeito que quase sempre planejo e quase nunca dá certo: programas culturais de ponta a ponta, sem desperdício de tempo e energia.

Tudo começou no final da manhã de sexta, 19 de maio, quando o avião que me levava pousou no aeroporto preferido de todo cervejeiro: Viracopos, em Campinas. De lá fui para a casa do João, de quem já falei no Leseira Geral e não conhecia pessoalmente. Depois de me deixar boquiaberto, olhiaberto e queixicaído com a quantidade de jornais, revistas e livros que ele tem, fomos para o Arquivo Edgard Leuenroth, na Unicamp.

À noite, fomos ao Sesc Campinas conferir o que estava rolando no evento Coletiva de Blues. Chegamos, o povo foi juntando, eu não estava muito ligado, os caras começaram a tocar. Achei a banda boazinha, mas o cara da gaita, que era para ser o fodão, não estava lá essas coisas. Lá pelas tantas entrou outro gaitista. Deu uma dura na galera do som e tudo melhorou. Aí sim, Flávio Guimarães (1) voltou como o Flávio Guimarães do Blues Etílicos que eu conheço. A banda que o acompanhava era a Prado Blues Band.

No sábado, 20, segui para São Paulo, capital. Ônibus, Tietê, metrô, Estação Bresser, espera Wilson, espera mais, cadê-o-Wilson-porra?, chega o Wilson, táxi, Mooca, despeja as mochilas na casa do Wilson, táxi, Ipiranga. Ufa! Era o começo da Virada Cultural, o evento que, pelo segundo ano, realiza 24 horas seguidas de variados shows e manifestações culturais em vários pontos de São Paulo. Lá pelas 8 da noite, o frio e o medo pareciam estar prendendo o paulistano em casa. Para as atrações que se apresentavam no palco montado no Ipiranga não havia tanto público. Era o primeiro final de semana pós-ataque do PCC.

Na rua que dá acesso ao Museu Paulista e ao parque, há uma feirinha que funciona aos domingos mas que, devido ao evento, funcionaria também durante as 24 horas da Virada Cultural. Wilson e eu mantivemos firme o propósito de experimentar as comidas de todas as barraquinhas. E dá-lhe pastel, pizza, chopp com vinho, cocada, brigadeiro, tortas... Entre a ida e a volta, fizemos uma parada no Museu Paulista, que à noite é muito mais bonito e também estava engajado na Virada, portanto aberto e com entrada gratuita. Em meus planos iniciais, eu ainda iria até Santos naquela noite, mas tudo conspirou para que eu fosse mesmo para casa, descansar e me preparar para uma semana intensa.

Começamos o domingo como bons cristãos e fomos à Catedral da Sé. A intenção não era ir à missa, mas como ainda estava rolando quando chegamos, eu posso mentir e dizer que era. Chamou-me a atenção a grande quantidade de seguranças durante a missa. Já quase no final, vi um senhor levantando-se do primeiro banco e dirigindo-se à porta lateral. Acompanhado pelos seguranças, ele cumprimentava a todos no caminho. Olhei e pensei: Já vi essas sobrancelhas de taturana em algum lugar. Tinha visto mesmo! No Casseta & Planeta, num quadro em que o governador de São Paulo era satirizado. Lá estava Cláudio Lembo mostrando que São Paulo é segura e que você pode ir à missa na santa paz do Senhor.

Terminada a celebração, fomos ao que interessava: a Cripta da Sé. Os restos mortais de vários bispos de São Paulo, do cacique Tibiriçá e do regente Diogo Feijó estão lá. Eu me senti o próprio Robert Langdon entrando na Rosslyn Chapel. Só queria saber de toda simbologia escondida nas paredes, no teto, no chão, em toda a cripta. Dali, continuamos em um passeio pelo centro da cidade. Nunca vi São Paulo tão calma e segura. Puxávamos as câmeras e fotografávamos tudo, em pleno Anhangabaú, com toda calma do mundo. E foi lá mesmo, no Vale do Anhangabaú, um dos pontos mais legais (pelo menos durante o dia) da Virada Cultural. Foi onde encontrei o grande poeta e filósofo Marcondes Falcão Maia (4).

Do bebedouro dos demônios, rumamos mais uma vez para o Ipiranga onde fomos testemunha do dia mais longo que já existiu: 26 horas e meia. Vimos a chegada da noite ao som da Orquestra Sinfônica de São Paulo (2) e depois o showzaço de Luiz Melodia (3). O negão tem o diabo no corpo! Segurou a gigantesca platéia por quase duas horas. E como o cara tem música boa e de sucesso!! E não desafina nunca!!! E é simpático!!! Ah, tá bom, eu sou fã dele!

Para compensar o final de semana cheio de vida, na segunda, logo pela manhã, fomos ao Cemitério da Consolação (agora eu forcei!). Já fotografei cemitérios no Rio, em Natal, Mossoró, Londrina e em várias pequenas cidades pelo interior do Nordeste. Finalmente chegou a vez de São Paulo. Eu me interesso pelo temamorte, por assim dizer. Também por arte tumular (5). E mais ainda por apreciar a simbologia (lá vem Robert Langdon de novo) escondida nas obras de grandes artistas e que na maioria das vezes passa despercebida aos olhos de quem vai a um enterro ou vai visitar um túmulo. As despedidas em tons eróticos (sim, por que não?!) ou o que parece erótico mas simboliza simplesmente o renascimento ou a vitória da vida sobre a morte são dois pontos que me fascinam. Bem, quem tem olhos que veja.

Na segunda à noite, fomos bater o ponto no Belas Artes e finalmente pude dar vazão ao Robert Langdon que habita em mim. Fomos assistir aO Código da Vinci. Vamos lá... Se você leu o livro e gostou, você verá um filme legal, pipocão, que atropela toda a seqüência de suspenses e descobertas criadas por Dan Brown para poder contar a história em pouco mais de duas horas. Se você não leu o livro, pode ser que goste um pouco mais do filme. Se você não leu o livro, não viu o filme e não pretende fazer uma coisa nem outra, deixe de ser chato e vá procurar outra coisa com o que se ocupar.

Na terça, foi dia de Memorial do Imigrante. E só. Pelo menos em se tratando de passeios culturais. Precisava voltar à Mooca (ainda não tem Metrô lá), me aprontar para o iBest e atravessar de novo a cidade até a Vila Olímpia (onde também não há Metrô). Encontrei Clayton, aquele que segura minhas bolas há quatros anos, e seguimos para o Via Funchal. Confesso que já não tenho mais saco para a cerimônia de premiação do iBest. Um povinho pernóstico, sacal... Fui lá, peguei minha bola (fui o primeiro! Ainda nem estava liberada a entrega dos troféus), meus certificados (6) e rumamos para um bar. Fomos tomar uma sagrada cerveja. E que cerveja! Quem diria que o mestre cervejeiro aqui iria aprender algo com o aprendiz Clayton! Stella Artois, este é o nome da loira. Nunca mais eu digo que Skol desce redondo. Essa belga desce que é uma maravilha! Ô, loira gostosa!

O antigo gigante e o novo monstro foram as primeiras visitas da quarta. O Martinelli e o Banespa. A foto no alto do Banespa está virando tradição. Neste ano, fomos só Wilson e eu (7). Depois fomos ao Martinelli, minha paixão paulistana no qual, pelo menos nesta vida, nunca havia entrado. Continuo com a impressão de que aquele prédio ainda será meu... Todo! De lá fomos ao Museu da Língua Portuguesa (8). Aquele mesmo, todo interativo, que você viu na tevê. Aquele no qual você puxa as páginas de texto penduradas no teto. Aquele que tem coisa escrita em todo canto. Mas o museu não é só isso. Tem uma andar moderno, com totens multimídia repletos de informações e um corredor gigantesco onde vídeos sobre a língua portuguesa são exibidos continuamente. Há ainda um mural cronológico e um andar com um auditório, no qual há exibição de filmes, e uma praça. Um passeio imperdível para quem tem um mínimo de amor à última flor do lácio. Não satisfeitos, fomos bater outra vez o ponto no Belas Artes. Desta para ver Tapete Vermelho, o filme no qual Matheus Nachtergaele interpreta um caipira que, para cumprir uma promessa, cisma em levar o filho para ver um filme de Mazzaropi no cinema. Na mesma fileira de poltronas em que sentamos, estavam os atores Miguel Magno e Zezé Polessa.

Finalmente (finalmente por que?) chegou a quinta para coroar os primeiros sete dias de vida paulistana. Mais um pouco e eu já começaria a falar mooquês. Ôra, mano, tá entendeeeendo? O dia começou com uma longa viagem de metrô ao Memorial da América Latina. Além da exposição permanente com artesanato e trajes típicos de todos os países da... adivinha... América Latina, outras duas exposições estavam sendo apresentadas: Retratos da vida, com esculturas gigantes, em metal, de Geraldo Pinna, e Mario Gruber e a metafísica dos planos. Na seqüência, fomos para uma entrevista com o jornalista e escritor Gonçalo Junior, autor de A guerra dos gibis, O Homem-Abril, Tentação à Italiana, Quadrinhos sujos e as biografias de Alceu Penna e José Luís Benício da Fonseca, dentre outros livros. Um papo muito bacana! O resultado, você verá ainda este mês no Memória Viva. Às 18h, sem almoço, corremos para o Metrô. No caminho, Nescau Light por 50 centavos e outras baganas para enganar a fome. Mooca, troca de panos, os ingressos e (aí sim!) finalmente a esperadíssima noite do teatro. A peça: Quando Niestzsche chorou. Só ela merecia um post maior do que este até agora. Vou dizer o mesmo que disse a Nelson Baskerville (Joseph Brauer) e Cássio Scapin: Vocês leram O Código da Vinci? Viram o filme? Então saibam que vocês deveriam estar ganhando milhões! A peça é extremamente bem adaptada. Sou suspeito em falar porque sou tarado por Nietzsche. Sempre recomendo esse romance aos não-iniciados. As participações em vídeo são na medida certa e os dois seguram os longos diálogos do livro com uma mestria irrepreensível. São duas horas sem desgrudar os olhos e os ouvidos e você ainda sai querendo mais. Como disse a Cássio (9), se eu os tivesse cumprimentado imediatamente após o término, eles me veriam chorando. Recomendo inúmeras idas. É a primeira encenação, no mundo, do romance de Irvin D. Yalom. E vai virar filme. Americano. Para fechar a quinta, a Sé à noite (10). Com patrulhamento e sem receios de puxar câmera.

Na sexta, descansamos dentro de ônibus. De vários. O lado mal da cidade se manifestando. No trânsito, passamos tempo suficiente para ir, de ônibus, de São Paulo a Campinas e voltar ou para ir, de carro, de Natal a Recife. Tirando um passeio pelo Ibirapuera, aquela sexta poderia não ter existido.

Em compensação, o sábado foi ótimo! Fizemos parte do Roteiro da Luz. Logo na chegada, me encantei pelo Edifício Josefa (11), um antigo puteiro (escapou! queria dizer prostíbulo) nos anos 60 e que hoje é um grande cortiço. Na rua, Wilson foi abordado por um simpático, direto e comunicativo jovem que gentilmente pediudez reais para eu comprar uma pedra. Até o pronome foi empregado corretamente. De uma finesse invejável. Apesar de Wilson presidir e patrocinar um programa de sustentação de todos os vagabundos fumantes da cidade de São Paulo, dessa vez não rolou. Depois de fotografarmos a parte exterior da Sorocabana e da Estação Júlio Prestes, seguimos para o antigo Dops (12), hoje chamado Memorial da Liberdade (ainda que o lugar só lembre justamente o contrário) ou Museu do Imaginário do Povo Brasileiro. Você imagina que não houve ditadura, que não houve censura, imagina que ninguém foi torturado, que ninguém foi assassinado... Um nome bem dado, desde que você tenha muita imaginação. O lugar é pesado. Baixou um santo no Wilson na última cela. Ele se sentiu mal. Outra mulher que visitava o Museu do Imaginário também não quis entrar lá. Vai saber o que rolou ali dentro... Ao sair, passando por um longo muro onde, digamos, descansavam uns sessenta admiradores urbanos, vimos dobrar a esquina uma dupla de policiais. Malandro é malandro, mané é mané, já ensinava o velho Bezerra. Parecia uma tropa de soldados sendo pega de surpresa pelo general. Todo mundo levantando rapidinho. Circulando, circulando. "Policial, por fav... Um momentinho, cidadão.Limpou o muro todo e voltou. Pois não Prender por vadiagem não se pode mais...” “Não. Infelizmente os direitos humanos não permitem. Isso é que é aula prática de cidadania! Circulando, Sandro! Circulando, Wilson!

Chegamos à Pinacoteca do Estado de São Paulo. Acho que andamos mais ali dentro do que durante toda a semana por toda a cidade. E andamos rápido! E dá-lhe foto de tudo. Três câmeras e um sem números de sticks. Foi bem rápido. Umas duas horas e meia. Calculo que se parasse na frente de cada obra que não me interessasse por 5 segundos e 15 na frente das que me interessassem, levaria pelo menos um dia inteiro para ver tudo o que tem ali. Deus me livre de conhecer o Louvre! Ou então me dê uma longa estada na França e muitos dias de entrada gratuita nele. No final da tarde, ainda andamos pelo Jardim da Luz. Vagabundos, drogados, putas de quinta (provavelmente de sexta, sábado e domingo também), cafetões... todo tipo de gente colocada à margem. E, claro, Sandro e Wilson, dois marginais, com suas indefectíveis câmeras.

No domingo, 28, comecei a fazer o trabalho de casa. Passei parte da manhã e início da tarde reproduzindo imagens antigas de São Paulo dos livros do Wilson. Pense num cicerone competente para se conhecer São Paulo de outras épocas! Te prepara, meu, logo, logo nós vorta pra Mooca e vai andar essa cidade toda outra vez. Tietê, ônibus e Campina. Até a próxima, Sampa.

Da rodoviária, fui direto, com João, para o Espaço Cultural CPFL. Assistimos aO livro de cabeceira (The pillow book), de Peter Greenaway, diretor conhecido no Brasil por O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante. O que dizer do filme? Teóricos da Comunicação, babai! Para ver e rever centenas de vezes. Nem quis saber de Mônica Salmaso depois. Depois daquela ceia, não engoliria qualquer sobremesa.

A segunda começou com trabalho logo cedo. Digitalização de 55 edições da Revista Ilustrada na Unicamp, entrevista com o diretor do Arquivo Edgard Leuenroth (que também será mostrada no Memória Viva) e digitalização das capas da Rolling Stone brasileira e outras revistas porra-loucas dos anos 1960 e 1970. Depois Viracopos, o aeroporto de bêbado, e a volta à Corte.

um detalhe muito importante sobre essa viagem. Pouco dinheiro foi gasto. Praticamente só transporte e alimentação. Mesmo assim, voltei para casa com quase 30 quilos a mais na bagagem: livros, revistas, catálogos, folders... Todos os livros foram presentes (tenho amigos bacanas!). Boa parte das revistas também. Medir o quanto aprendi e quão prazerosos foram os momentos de conversa, as trocas de conhecimentos... isso é impossível. E também não tem preço. Portanto, faça as pedras rolarem e não fique adiando seus projetos de viagem. Vá. E vá agora.

Acabou? Não. Isso foi um resumo. A alguns dos temas abordados aqui, darei maior atenção nos próximos textos. Fotos de todos os lugares e situações comentadas? Estarão em breve no Flickr. Ah! E deixe seu comentário logo abaixo.

 
 
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