Postado em 19 de julho de 2007, quinta

:: Uma Luz que nunca se apaga

Depois de semanas de céu nublado, hoje o dia está especialmente iluminado. Pelo menos aqui em Campina Grande, onde acordei pensando em Luz del Fuego. Nessa mesma data, a levaram deste mundo. Talvez por isso o Rio de Janeiro tenha feito o contrário: acordou com brisa fria e tempo fechado. Soturno, lembrando silenciosamente o triste aniversário.

Luz foi assassinada há exatas quatro décadas. Portanto, já não estava entre nós quando nasci. E quando Lucélia Santos a reviveu no cinema, no filme de David Neves, eu ainda era um garoto de dez anos. Luz chegou a mim através de um livro. A primeira biografia que li sobre uma personalidade brasileira, numa edição do saudoso Círculo do Livro, há uns vinte anos. Em 1998, Luz deu origem a meu trabalho mais duradouro e que virou parte de mim: o site Memória Viva.

Há poucos meses, em São Paulo, ao perguntar ao dono de um sebo, no Centro, se tinha algum livro escrito pela vedete, ele respondeu: Luz Del Fuego?! Só você e eu sabemos quem é Luz del Fuego. Será? Este país não tem memória. Duvido que o Brasil tenha tido uma estrela como Luz del Fuego, rebati, citando a própria. Dias depois, eu encerraria uma busca que durou nove anos. A busca por seu primeiro livro, Trágico Black-out. Teve apenas uma edição de mil exemplares. Mais da metade foi comprada e destruída por um irmão da autora. Isso foi há sessenta anos. Quantos terão chegado aos dias de hoje? Um, garanto que existe.

Para mim, Luz continua brilhando. De alguma forma, ela cruzou minha história e continuamos convivendo até hoje. Não morreu aos 50, nem teria 90. Continua linda, com pouco mais de trinta anos, andando nua na Ilha do Sol.

 
Postado em 6 de julho de 2007, sexta

:: Ei, ei, ei, Roberto é nosso Rei

Cresci ouvindo Roberto Carlos. A sentença é verdadeira, inevitável, incorrigível, irrevogável. Minha mãe achava (e ainda acha) o Roberto lindo, romântico. Meu pai não penteava os cabelos lisos herdados de italianos e portugueses para que pudessem ficar cacheados, usava camisas abertas, cordão, pulseira largona e só não corria a 300 quilômetros por hora porque aquele Corcel Luxo dele não dava nem metade disso, mas vivia em alta velocidade. E eu no meio dessa história. Era uma brasa, mora?

Passei meus primeiros anos em ritmo de aventura. Na década de 80, o nosso Rei do Rock assumiu o romantismo e deu passagem aos heróis da minha geração. Nos anos 90, bem lá no início, no dia do meu aniversário, fui a um show do Rei. Meio desconfiado. E se algum amigo me visse ali? Ora, ele seria tão culpado (e feliz!) quanto eu. Relaxei e cantei todas as músicas. Quase todas. Aquelas sobre mulheres baixinhas, gordinhas e afins eu conhecia mas não curtia. Foi um showzaço. Nunca vi uma apresentação de Raul Seixas, Tim Maia ou Nelson Gonçalves, mas posso dizer: fui a um show do Roberto.

Em junho deste ano, resolvi ler com calma a (mais recente) biografia proibida do Rei. Com muita calma. Curtindo cada pedacinho, cada sucesso, cada música. Mexeu com minha memória emocional. Nisso, fui apresentado a um dos lugares mais maravilhosos que conheci nos últimos tempos: a KF vídeo locadora, em Campina Grande. Fiz meu cadastro numa terça-feira e nem pensava em alugar nada até o final de semana. Mas quando perguntado sobre o que iria levar, respondi: Hoje eu só levaria uma coisa, mas sei que o senhor não tem. Eu queria ver os três filmes do Roberto Carlos. Seu Carlos, o dono da locadora, mandou um tem como só um padeiro diria se você perguntassetem pão?.

E lá fui eu, feliz da vida, com Roberto Carlos em ritmo de aventura (1968), Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa (1970) e Roberto Carlos a 300 quilômetros por hora (1972) debaixo do braço. O primeiro e o último em VHS (mas existem em DVD). A KF existe há 22 anos e, diferente da maioria das locadoras, não se desfez das fitonas VHS. E Seu Carlos não é daquele tipo de atendente que diz algo como esse filme é bom ou o pessoal tá pedindo muito, só pra garantir a locação. Ele conhece aqueles mais de vinte mil filmes que tem ali, principalmente os antigos e os clássicos. Falo mais a respeito dele e da KF em outra oportunidade.

Voltemos ao Rei.

Roberto Carlos em ritmo de aventura, o primeiro, era o mais vivo em minhas lembranças. Lembro bem da capa do LP de mesmo nome com Roberto, cabelos lisos tipo Beatles, em um helicóptero. No filme, Roberto não beija, não ama, não sofre, não apanha. É o ídolo intocável. E dá-lhe Eu sou terrível no pé do ouvido. Roteiro, quase nenhum. Poucos diálogos fazem as conexões entre uma série de clips dos sucessos do Rei. O filme ainda brinca com realidade e ficção: Roberto é Roberto, que conversa com o diretor do filme, que diz não saber como o filme vai se desenrolar mas dá dicas do tipo veja se não está acontecendo isso agora!. E ainda tem outra história, outra armação de gente querendo aproveitar o filme para matar o mocinho. Uma mistura louca.

Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa é o único que reúne o Rei, a Ternurinha e o Tremendão. Roberto já não está com os cabelos esticados, Erasmo ainda insiste. Wanderléa, dispensável dizer, está linda! A história começa no Japão, passa por Israel e termina no Rio com os três cantando É preciso saber viver, que só pode ser ouvida desse jeito no filme. Como os três não faziam parte da mesma gravadora, essa versão nunca saiu em disco.

Roberto Carlos a 300 quilômetros por hora traz o Rei como o mecânico Lalo tentando conquistar a namorada do patrão (interpretado por Raul Cortez). Os cabelos já estão ao natural, encaracolados. Roberto sai de vez do rock e assume totalmente o romantismo. Está concluída a transição.

Tão gostoso quanto ver os três grandes ícones da Jovem Guarda e a mudança de Roberto é apreciar as atuações de José Lewgoy, Reginaldo Faria (os três filmes foram dirigidos por seu irmão, Roberto Farias), Raul Cortez, Flávio Migliaccio e Otelo Zelloni.

Aos que tem mais de 45, vale reviver; aos que estão na casa dos 30, vale perceber com outros olhos e ouvidos o que nossos pais nos obrigaram a ver e ouvir; e à garotada de hoje... bem, descubram que muitas das músicas que os grupos de rock ainda gravam atualmente são da dupla Roberto e Erasmo. Querendo ou não, somos todos súditos.

 
 
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