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Ei, ei, ei, Roberto é nosso Rei

Cresci
ouvindo Roberto Carlos. A
sentença é verdadeira, inevitável,
incorrigível, irrevogável. Minha
mãe achava (e ainda acha) o Roberto
lindo, romântico. Meu pai não
penteava os cabelos lisos herdados de italianos
e portugueses para que pudessem ficar cacheados,
usava camisas abertas, cordão, pulseira
largona e só não corria a 300
quilômetros por hora porque aquele Corcel
Luxo dele não dava nem metade disso,
mas vivia em alta velocidade. E eu no meio
dessa história. Era uma brasa, mora?
Passei
meus primeiros anos em ritmo de aventura.
Na década de 80, o nosso Rei do Rock
assumiu o romantismo e deu passagem aos heróis
da minha geração. Nos anos 90,
bem lá no início, no dia do
meu aniversário, fui a um show do Rei.
Meio desconfiado. E se algum amigo me visse
ali? Ora, ele seria tão culpado (e
feliz!) quanto eu. Relaxei e cantei todas
as músicas. Quase todas. Aquelas sobre
mulheres baixinhas, gordinhas e afins eu conhecia
mas não curtia. Foi um showzaço.
Nunca vi uma apresentação de
Raul Seixas, Tim
Maia ou Nelson Gonçalves,
mas posso dizer: fui a um show do Roberto.
Em
junho deste ano, resolvi ler com calma a (mais
recente) “biografia
proibida”
do Rei. Com muita calma. Curtindo cada pedacinho,
cada sucesso, cada música. Mexeu com
minha memória emocional. Nisso, fui
apresentado a um dos lugares mais maravilhosos
que conheci nos últimos tempos: a KF
vídeo locadora, em Campina
Grande. Fiz meu cadastro numa terça-feira
e nem pensava em alugar nada até o
final de semana. Mas quando perguntado sobre
o que iria levar, respondi: “Hoje
eu só levaria uma coisa, mas sei que
o senhor não tem. Eu queria ver os
três filmes do Roberto Carlos”.
Seu Carlos, o dono da locadora, mandou um
“tem”
como só um padeiro diria se você
perguntasse
“tem pão?”.
E
lá fui eu, feliz da vida, com Roberto
Carlos em ritmo de aventura
(1968), Roberto Carlos e o diamante
cor-de-rosa (1970) e Roberto
Carlos a 300 quilômetros por hora
(1972) debaixo do braço. O primeiro
e o último em VHS (mas existem em DVD).
A KF existe há 22 anos e, diferente
da maioria das locadoras, não se desfez
das fitonas VHS. E Seu Carlos não é
daquele tipo de atendente que diz algo como
“esse
filme é bom”
ou “o
pessoal tá pedindo muito”,
só pra garantir a locação.
Ele conhece aqueles mais de vinte mil filmes
que tem ali, principalmente os antigos e os
clássicos. Falo mais a respeito dele
e da KF em outra oportunidade.
Voltemos
ao Rei.
Roberto
Carlos em ritmo de aventura, o primeiro,
era o mais vivo em minhas lembranças.
Lembro bem da capa do LP de mesmo nome com
Roberto, cabelos lisos tipo Beatles, em um
helicóptero. No filme, Roberto não
beija, não ama, não sofre, não
apanha. É o ídolo intocável.
E dá-lhe Eu sou terrível
no pé do ouvido. Roteiro, quase nenhum.
Poucos diálogos fazem as conexões
entre uma série de clips dos sucessos
do Rei. O filme ainda brinca com realidade
e ficção: Roberto é Roberto,
que conversa com o diretor do filme, que diz
não saber como o filme vai se desenrolar
mas dá dicas do tipo “veja
se não está acontecendo isso
agora!”.
E ainda tem outra história, outra armação
de gente querendo aproveitar o filme para
matar o mocinho. Uma mistura louca.
Roberto
Carlos e o diamante cor-de-rosa é
o único que reúne o Rei, a Ternurinha
e o Tremendão. Roberto já não
está com os cabelos esticados, Erasmo
ainda insiste. Wanderléa,
dispensável dizer, está linda!
A história começa no Japão,
passa por Israel e termina no Rio com os três
cantando É preciso saber
viver, que só pode ser
ouvida desse jeito no filme. Como os três
não faziam parte da mesma gravadora,
essa versão nunca saiu em disco.
Roberto
Carlos a 300 quilômetros por hora
traz o Rei como o mecânico Lalo tentando
conquistar a namorada do patrão (interpretado
por Raul Cortez). Os cabelos já estão
ao natural, encaracolados. Roberto sai de
vez do rock e assume totalmente o romantismo.
Está concluída a transição.
Tão
gostoso quanto ver os três grandes ícones
da Jovem Guarda e a mudança de Roberto
é apreciar as atuações
de José Lewgoy, Reginaldo
Faria (os três filmes foram
dirigidos por seu irmão, Roberto
Farias), Raul Cortez,
Flávio Migliaccio
e Otelo Zelloni.
Aos
que tem mais de 45, vale reviver; aos que
estão na casa dos 30, vale perceber
com outros olhos e ouvidos o que nossos pais
nos obrigaram a ver e ouvir; e à garotada
de hoje... bem, descubram que muitas das músicas
que os grupos de rock ainda gravam atualmente
são da dupla Roberto e Erasmo. Querendo
ou não, somos todos súditos.