Postado em 26 de julho de 2006, quarta

:: A mulher que serei

A mulher que habita em mim andava em um distendido momento Clarice. Daí fez rápida escala em Pagu e baixou de vez em Carmen Verônica.

Deve ser pela Lua Nova. Ou por não achar Clarice nas estantes. A culpa é delas. Dessas lunáticas.

Para hoje, quero ser Carmen Verônica amanhã. Em minhas conversas com Deus, sempre aviso que se Ele inventar de me fazer mulher em alguma encarnação, serei uma puta. Homem, mulher, cachorro, hidrante, poste... que a clonagem esteja suficientemente avançada para me proporcionar novos condutos, pois usarei à exaustão os que me forem dados. Como se fosse todas as mulheres de Carlos Zéfiro em uma só.

Quero ser uma puta diletante. E quero ser naturalmente curvilínea e sensual como a Carmen Verônica que encontrei nas páginas de Brasilidade. Quero ter um bom material de trabalho. O talento, já levarei desta vida.

Com as formas de Carmen, o fuego de Luz e pagã como Elvira, vou querer ainda ser dona de idéias próprias como somente as minhas poderiam ser. Vou criar o incriado, o incrível, o inculpável, o incorrigível, o incomparável.

Esta noite, coloco uma música cantada pela língua ferina de Valéria, peço a Janis que prepare um drink, acendo um incenso, deito e espero passar.

Em alguma sinapse, nasce o grito: Volta, Clarice, volta logo!

 
Postado em 23 de julho de 2006, domingo

:: Minha tese de Doutorado

Está definido. Se um dia este outsider que vos bloga resolver cortar os cabelos, apagar as tatuagens, querer ser dito cidadão respeitável, que ganha alguns mil reais por mês, ser responsável, cristão convicto, cidadão modelo, burguês padrão e voltar à vida acadêmica, já sei qual será o foco de minha tese de Doutorado: a contracultura dos meus contemporâneos.

Muitos serão abordados, mas a demoníaca trindade ficará por conta de Lobão, Paulo de Carvalho e Rogério Skylab.

Lobão foi a primeira pessoa que entrevistei na vida, em 1987, em um hotel em Natal, no dia seguinte ao seu show O Rock errou. Por anos, guardei aquela fita K7 com quase uma hora de papo. Infelizmente foi perdida em alguma de minhas várias mudanças. Pelo menos não sei onde está. Em abril de 2001, fiz outra entrevista, dessa vez com um Lobão mais arredio, mas igualmente sem papas na língua.

Paulo de Carvalho, o Paulão das Velhas Virgens, é um caso que enlouqueceria Freud. Beber, meter, tocar, como deixa bem claro em seus shows, é sua vida. Vieram os 40 anos, vieram os cabelos brancos, vieram os problemas gástricos pelo excesso de bebida e tudo isso só faz melhorar sua performance nos palcos e suas músicas que jamais serão veiculadas nas rádios e TVs. Velhinha dizendo, em horário nobre, que aprendeu a gozar aos 45 e até hoje não precisa de homem, pode. Isso tem um nome: é siririca, baby! Mas tocar uma bela canção com o singelo título de Quero te ver gozar pelo cu, última faixa do mais recente CD das Velhas Virgens, Cubanajarra, não pode. Nem clássicos como Abre essas pernas ou O que é que a gente quer?(B.U.C.E.T.A.). Paulão é uma vítima desse mundo hipócrita. Voto nele para governador de São Paulo e para presidente do Corinthians. Com sua moral ilibada, daria jeito nos dois em meio tempo de jogo.

Skylab é o cara que mandou o capeta parar de roncar! Pára de roncar, filha da puta! Quando ele morrer, o diabo vai dar um jeito de ele não ir para o inferno. Confesso que a primeira vez que vi Rogério Skylab, há alguns anos, cantando Matador de passarinho, achei que fosse um demente. Hoje, depois de ouvir repetidas vezes seus 7 CDs, tenho certeza que é o demente mais genial que existe. É o nosso Anticristo particular. O Rei Lato Sensu da Escatologia. O Drummond do Caos. E aproveitando a comparação... conhecer o Skylab daquelas músicas para crianças que ele toca no Jô é como dizer que conhece Drummond por saber que ele escreveu aquele poema da pedra no caminho. É preciso mergulhar na piscina de secreções que é a obra de Skylab, ouvi-lo dizer que Chico Xavier é viado e Roberto Carlos tem perna de pau ou qual é a semelhança entre ele, Mário Covas e Ana Maria Braga na roscofélica canção Câncer no cu. Se viver dá câncer, como já avisou o poeta, Rogério é o próprio.

No futuro, os acadêmicos debruçar-se-ão sobre suas obras. Pode anotar.

Não falo de incensamento a prováveis malditos, de fetichismo mauricinho ou de uma busca desesperada por se aliar ao que pareça underground somente para não se assumir mais uma ovelha. Falo de descascar a obra de cada um deles. Dissecar os anos de criação, cada letra vomitada por esses eternos inconformados.

Mas que não esperem essa tese acadêmica parida por mim. Peguem a idéia. Que surjam muitas. Talvez alguma vá prestar. Inoculem esses vírus no hermético e estéril ambiente acadêmico. Contracultura na veia é com esses caras, o resto é rebeldia de Malhação.

 
Postado em 19 de julho de 2006, quarta

:: Quando Nietzsche subiu aos palcos

Nietzsche tinha consciência de sua genialidade. Era a consciência alterada dos iluminados, do tipo que os ditos normais chamam de loucura. Não se tratava de presunção. Aliás, se ele fosse o mais vaidoso e arrogante dos filósofos de todos os tempos, é provável que ainda assim estivesse muito distante de aquilatar devidamente a importância de seu pensamento.

Essa consciência fez de Nietzsche também um profeta. Em Ecce Homo, logo no início do capítulo Por que eu sou um destino, ele diz: Eu conheço meu fado. Um dia haverão de unir ao meu nome a lembrança de algo monstruoso – uma crise como jamais houve outra na Terra, na mais profunda colisão de consciência, em uma decisão evocada contra tudo aquilo que até então havia sido acreditado, reivindicado santificado... Meio século depois de ter escrito isto, começava a Segunda Guerra e, durante muito tempo, a filosofia de Nietzsche foi estupidamente apontada como a base das idéias nazistas.

No prefácio de O Anticristo, ele vaticina: Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. (...) Somente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos. E somente cem anos após sua morte, ocorrida em 1900, o pensamento nietzschiano saiu do meio acadêmico e começou a chamar a atenção de uma parcela maior de pessoas interessadas, nestes novos tempos, dentre outras coisas, em consumir cultura.

O centenário da morte fez o filósofo renascer em todo o mundo. No Brasil, desde então, a Companhia das Letras vem editando toda a obra de Nietzsche com a cuidadosa tradução de Paulo César de Souza. Também foi só em 2000, oito anos depois de lançado, que o livro Quando Nietzsche chorou, do psiquiatra e neurologista americano Irvin D. Yalom, estourou.

Best-seller em pelo menos 13 países – mais de 200 mil exemplares vendidos no Brasil; mais de um milhão na Alemanha – Quando Nietzsche chorou conta a história de fictícios encontros entre Nietzsche e Josef Breuer, um dos pais da psicanálise. Lou Salomé, por quem o filósofo era apaixonado e teve um pedido de casamento negado, procura Breuer pedindo que trate a doença de Nietzsche que, então, lhe enviava cartas demonstrando um instinto suicida.

Inicialmente o autor queria que o encontro fosse entre Nietzsche e Freud (outro que foi apaixonado por Lou), mas isso não seria factível. A ação se passa no verão de 1882, quando Freud tinha apenas 27 anos e ainda estava para entrar no campo da psiquiatria. Todos os personagens do livro são reais: Nietzsche, Breuer, Lou Salomé, Freud, Matilda Altmann (esposa de Breuer) e Anna O. (codinome dado a Bertha Pappenheim, paciente de Breuer).

A ficção fica por conta do pedido de Lou Salomé e dos encontros para tratamento entre Breuer e Nietzsche. Os estudos sobre histeria, a utilização de hipnose e o drama pessoal do envolvimento de Breuer com Anna O. são reais, assim como tudo que sai da boca de Nietzsche. O estudioso de suas obras não tem dificuldades em apontar de onde saiu cada uma das falas do filósofo no livro de Yalom.

Apesar de seus esforços particulares, pagando pela publicação de pequenas tiragens dos próprios livros, Nietzsche dizia que sua filosofia não poderia ser comunicada por texto impresso. Seria possível pela fala? Através do teatro?

Estreou em abril, no Teatro Imprensa, em São Paulo, a primeira adaptação teatral feita no mundo para o livro de Irvin D. Yalom. Dirigida por Ulisses Cohn, tem Nelson Baskerville no papel de Breuer e Cássio Scapin como Nietzsche. São apenas os dois atores no palco. Duas horas de intensos diálogos entrecortados por inserções em vídeo de outros três personagens: Lou Salomé (Ana Paula Arosio), Matilda (Lígia Cortez) e Freud (Flávio Tolezani).

O recurso do vídeo pode sugerir aos mais puristas algo que não seja teatro mas, garanto, neste caso, foi muito bem empregado. As inserções servem como fundo para situar o espectador na época e no momento das vidas dos personagens principais. Servem também para que o público respire por alguns instantes entre as batalhas verbais que acontecem entre Breuer e Nietzsche. Aproveita melhor a peça quem já tiver algo sobre psicanálise e filosofia (principalmente nietzschiana) na bagagem. Ou que ao menos já tenha lido o livro de Yalom.

Também pode parecer estranho Cássio Scapin como Nietzsche. É difícil imaginar o frágil Nino do Castelo Rá-Tim-Bum como o bigodudo e grave filósofo. Além do que, optou-se por não mostrar um Nietzsche caricato, bigodudo. Certo é que, depois de vista a peça, entende-se o porquê. Dispensa-se até a explicação do próprio ator de que eles quiseram mostrar um Nietzsche mais jovem (na época em que conheceu Lou, ele já usava o famoso bigode). Cássio tem uma atuação memorável e suas expressões são parte vital na composição e no sucesso do personagem. O bigode pareceria uma fantasia.

É também interessante saber que a peça vem lotando – e por isso já estendeu até o final do ano a temporada paulistana que terminaria em agosto – e, provavelmente, nunca se reuniu tantas pessoas para ouvir Nietzsche. Nem mesmo em seus tempos de professor na Universidade da Basiléia. E aqui são brasileiros. Quase sempre pouco afeitos à história do pensamento e seu desenvolvimento. Não vi mais do que um ou dois momentos para um riso breve na peça. Mas o público, em geral, ri bastante. Talvez por ter a concepção de que teatro é sinônimo de diversão. Talvez por não entender a gravidade e os porquês de certas falas irônicas de Nietzsche. Talvez porque queiram ver o Cássio Scapin engraçado com o qual estão acostumados na tevê. E isso nem é culpa dele. Eu só via Nietzsche – mesmo sem o bigode – muito bem vivido. Até porquê só assim se entende Nietzsche: sendo ele.

Cássio disse que as risadas não o incomodam e acredita que, assim como ele, as pessoas conseguem ver humor em Nietzsche. Sempre vi o filósofo de uma forma extremamente grave. Toda ironia contida em sua obra parece ser de uma frieza que dispensa o riso e leva à admiração – por quem realmente a entendeu – ou a um misto de vergonha e respeito – por parte de quem recebeu tal tratamento.

No aforismo 372 de Humano, demasiado humano, ele diz:

A ironia só é adequada como instrumento pedagógico, usada por um mestre na relação com alunos de qualquer espécie: seu objetivo é a humilhação, a vergonha, mas do tipo saudável que faz despertar bons propósitos, e que inspira respeito e gratidão a quem assim nos tratou, como a um médico. O irônico se faz de ignorante, e tão bem que os discípulos que com ele dialogam são enganados e ficam arrojados ao crer que têm um conhecimento melhor, expondo-se de todas as maneiras; eles perdem o cuidado e se mostram como são, – até que, num dado momento, a luz que sustentavam ante o rosto do mestre manda de volta os raios sobre eles, de modo bem humilhante. – Quando não há uma relação como essa entre o mestre e os discípulos, a ironia é um mau comportamento, um afeto vulgar. Todos os escritores irônicos contam com a espécie tola de homens que gostam de se sentir superiores a todos os demais, ao lado do autor, que consideram o porta-voz de sua presunção. – O hábito da ironia, assim como o do sarcasmo, corrompe também o caráter; confere aos poucos a característica de uma superioridade alegremente maldosa: por fim nos tornamos iguais a um cão mordaz que aprendeu a rir, além de morder.

Duro e sempre exercitando uma de suas sentenças de granito – Torna-te quem tu és – Nietzsche ainda perguntava “como descobrir quem e o que se é sem a verdade?” Em Aurora (aforismo 509), lê-se:

Quê? Você ainda necessita do teatro? É ainda tão jovem? Seja inteligente, busque a tragédia e a comédia ali onde são representadas melhor! Onde tudo é mais interessante e interessado. Sim, não é tão fácil permanecer apenas espectador então – mas aprenda isso! E em quase todas as situações que lhe forem difíceis e dolorosas, você terá uma pequena porta para a alegria e um refúgio, mesmo se as suas próprias paixões o acometerem. Abra o seu olho de teatro, o terceiro grande olho que olha para o mundo pelos outros dois!

Irônico, não? Se às vezes parece ser difícil ser um espectador no teatro, imagine de nossa própria vida! Mais irônico ainda: a peça leva a todo esse exercício. Aqui e ali, existe algo que, após a risada fora de hora, faz imediatamente pensar: Mas ele não está falando isso comigo? Esse que ele acusa não sou eu?

E o que dizer da possibilidade de o livro, agora peça, transformar-se também em filme? Foi Nelson Baskerville, ator e adaptador do livro para o teatro, quem me falou sobre a novidade. Mas a glória não caberá, dessa vez, a nós, brasileiros. Está em fase de pós-produção a versão cinematográfica de Quando Nietzsche chorou, que deverá estrear em 2007.

O filme é a segunda experiência na direção de Pinchas Perry. O papel de Nietzsche ficou com Armand Assante (conhecido no Brasil por Os Reis do Mambo, Judge Dread, Striptease e alguns filmes de ação). O veterano Ben Cross faz Josef Breuer e a bela e nada conhecida por aqui Katheryn Winnick faz Lou Salomé. Não se pode esperar muito, a começar pelo fato de se tratar de cinema americano, que não é famoso exatamente por produzir filmes para se pensar. Mas tenhamos esperança. Ou não, já que Nietzsche alerta que ela é o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens.

Mas ficamos com o crédito de haver levado Nietzsche aos cinemas antes dos americanos. Dias de Nietzsche em Turim (2001), de Júlio Bressane, vale pela costura de trechos de Ecce Homo, O caso Wagner, Crepúsculo dos Ídolos, O Anticristo (apesar de nem todos estarem creditados) e cartas escritas pelo filósofo. Vale também pela narração quase sempre em off de Fernando Eiras (que faz Nietzsche) e pela bela fotografia.

Como me disse Cássio Scapin em uma conversa depois da peça: As pessoas estão cansadas de futilidade. Então, ainda que existam adaptações e o pensamento de Nietzsche seja mostrado de diferentes formas – romance, teatro, cinema –, o fato de fazê-lo presente já é merecedor de algum crédito.

Aos que desejam iniciar-se de uma forma amena na obra de Nietzsche, antes de tentar filosofar com o martelo, vejam o filme de Bressane, leiam o romance de Yalom e assistam à peça. E até o filme que está por vir. Nada disso haverá de matá-los e até aquilo que pareça um equívoco há de se tornar uma benção. Eis a obra. Eis o homem.

Originalmente publicado no caderno Augusto,
do Jornal da Paraíba, em 16 de julho de 2006

 
Postado em 17 de julho de 2006, segunda

:: Quatro revistas e um livro

Passei o final de semana entre revistas e o computador (que novidade!). A primeira delas, ainda não tenho em mãos. A italiana Chi (Quem) estampou na capa uma foto da Princesa Diana em seus últimos momentos de vida. Totalmente desprezível, não fosse pelo fato de a imprensa britânica ter dado um grande exemplo do que significa a expressão um peso e duas medidas e de a imprensa mundial se fazer de doida e condenar a aberração enquanto fazia exatamente a mesma coisa. Os jornais sensacionalistas britânicos, que perseguiram Diana durante toda sua vida, condenaram a publicação italiana pela foto, até então inédita em um veículo de imprensa (ou coisa que o valha). Na seqüência, jornais, revistas e sites do mundo inteiro repercutiram o sentimento de raiva e indignação dos ingleses e reproduziram a capa da Chi para quem quisesse vê-la (inclusive eu). Aí quando eu digo que jornalistas e hienas são muito parecidos, meus colegas me repreendem...

De Londres para Natal. Recebi a Preá número 17, de Março-Abril. Sempre muito boa, tirando aqui e ali as babações políticas e o eterno incenso às cabeças coroadas. Destaco o artigo de Carlão de Souza sobre Quem sabe o que é bom ou ruim na música popular? – e concordo com ele –; Zila e eu, de Manoel Onofre Jr., sobre sua correspondência com Zila Mamede, que merecia bem mais que duas páginas da revista; e, na coluna de Carlos Magno, a rápida entrevista com Klécius Henrique sobre a biografia do ator José Dumont.

Voltando no tempo... Realidade não é uma revista assim tão difícil de ser encontrada. A de novembro de 1968, eu já comprara dois exemplares: um em São Paulo, outro em Belo Horizonte. Perseguia essa edição por causa da matéria de capa com Carlos Lacerda falando das eleições americanas e seus candidatos. A que comprei em São Paulo veio sem a matéria; a de BH, faltando uma página. Eis que na última sexta, chegam a mim três volumes com várias edições de Realidade, parte de uma doação da jornalista Vera Barbosa, de Campina Grande. E lá estava a edição de novembro de 1968. Inteirinha. Valeu, Vera!

E o site sobre a revista O Cruzeiro volta a ser atualizado. Nesta segunda, estará on line a edição de 2 de agosto de 1930 que, dentre outras coisas, fala sobre a morte de João Pessoa. Em agosto, mais uma edição do mesmo ano. A partir de setembro, voltam as atualizações semanais.

Também vindo de Campina Grande, transferido quase compulsoriamente da biblioteca de minha sogra para a minha, uma edição especial, numerada (1.200 exemplares), de Noite na taverna e Macário, de Álvares de Azevedo. O livro é de 1952 e vem autografado pelo prefaciador – Carlos Dantes de Morais – e pelo ilustrador João Fahrion, de quem eu me tornei grande admirador. Alguém, por favor, me explique o que é aquilo! Que talento! A ilustração ao lado é reprodução de uma que está no livro.

 
Postado em 13 de julho de 2006, quinta

:: Violência e medo

É traço de uma cultura grosseira fazer calar alguém
tornando visível a brutalidade, suscitando o medo.

Friedrich Nietzsche, in Humano, demasiado humano


Nós somos brutos. Não nos enganemos. Somos brutos.

É ridículo – no sentido de ser totalmente destituído de bom senso, de qualquer ponderação – ver sempre, ao final de uma matéria sobre violência, alguém dizendo: A gente nunca pensa que isso pode acontecer com a gente. Se acontece com qualquer pessoa, já está acontecendo com a gente.

Quando se nasce no Iraque, no Afeganistão ou em algum país da África em que quase toda a população tem AIDS, já se nasce sabendo que tudo que há de pior acontece dentro de casa, com você, com seus familiares, com todos que se conhece. Nós ainda não temos essa consciência.

As chacinas no Rio, os incêndios de ônibus em São Paulo, qualquer tipo de violência... tudo pode parecer muito distante e transitório. Mas não é. Vivemos uma guerra civil como nos acostumamos a ver, durante anos, no noticiário sobre o Oriente Médio. Vivemos acossados pelo terrorismo, como nos acostumamos a ver, durante anos, no noticiário sobre a Europa. Quando algo acontece com o outro, já está acontecendo com a gente.

Nós somos brutos. Não tenhamos esperança quanto a isso. Somos irremediavelmente brutos.

Não temos refinamento emocional para nos sensibilizarmos com música suave. Gostamos de barulho, de gritos, de volume alto. Gostamos de pagode, de sertanejo, de axé. Não temos refinamento emocional para nos sensibilizarmos com bons filmes. Gostamos de gritos, de tiros, de explosões, de muito barulho. Gostamos de novelas com gente neurótica, brigando, tramando contra outras.

Se ninguém quer ouvir, nada mais natural do que gritar! Em silêncio, talvez conseguíssemos ouvir nossa voz interior, nosso eu verdadeiro, nosso próprio coração. Talvez pudéssemos descobrir nossa sensibilidade. E nossos medos.

Se tivéssemos tido a coragem de ouvir essa voz interior, coragem de assumir nossas fraquezas, provavelmente não chegaríamos aonde chegamos. Teríamos nos preocupado em educar, em viver em paz. Viveríamos sem medo.

Você tem coragem de ser sensível?

Postado em 10 de julho de 2006, segunda

:: Rita Cadillac, uma mulher que sabe se virar

Digam o que quiserem, mas Rita Cadillac é uma mulher que sabe se virar. E não só nesse sentido que você pensou.

No início dos anos 1980, quando eu ainda era um projeto de maníaco sexual, o Cassino do Chacrinha era então o grande canal erótico. Tinha pensamentos – até hoje inconfessáveis – ao ver as chacretes rebolando ao som de Blitz e outros convidados do Velho Guerreiro.

Índia Amazonense, Índia Poti, Fátima Boa Viagem, Lia Hollywwod, Valéria Mon Amour, Gracinha Copacabana, Regina Polivalente, Dayse Cristal, Sarita Catatau... Loucura! Loucura! Loucura! Como diria o novo guerreiro mauricinho. Cada um tinha sua preferida. Eu, com meus dons premonitórios, gostava mais daquela que daria (em todos os sentidos) o que falar no futuro: Rita Cadillac.

A bunda de Rita é um patrimônio nacional! Foi-se a Gretchen, foi-se a Carla Perez, foram-se as Scheilas, mas Rita Cadillac está aí, firme e forte! Ainda mais firme e forte agora que recebeu uma bombada na comissão de frente que nunca chamara atenção de ninguém. Como sempre disse a própria, ela quer ser velada de bunda pra cima para ser reconhecida. A bunda é a cara da Rita.

Tenho o maior respeito por Rita Cadillac. Não só por estar em minhas lembranças de pré-púbere, mas por sua história de vida. Ela sempre soube se virar. Ela subiu e desceu conforme a ocasião, mas sempre esteve pronta para a batalha.

Foi chacrete, tentou emplacar como cantora, virou rainha dos presidiários e, quando o dinheiro faltou, encarou um filme pornô aos 50 anos de idade. Ela é corajosa. E, apesar do trauma, resolveu fazer outro, dessa vez com uma mulher. Admitamos: Rita Cadillac é foda!

Praticamente estuprada, aos 15 anos, pelo primeiro marido, Rita parece saber superar traumas. Em 1981, em entrevista à revista Internacional, numa edição especial somente com ensaios de chacretes, Rita disse muitas e ótimas. Deu o nome de famosos que já haviam freqüentado sua cama, disse com todas as letras o que gostava de fazer e por aí foi... Seu ensaio também chama atenção. É o mais, digamos, recatado.

Rita não teve a manha de enriquecer ou se aproveitar do corpo e da fama enquanto jovem. Nos anos 2000, parece que a sorte começou a olhar para ela de outra forma. O corpão, mesmo aos 40, agora vivia em uma época mais despudorada, mais sacana, em que bunda na TV era sinônimo de carreira e dinheiro rápido. Uma época em que mães colocavam suas menininhas para dançar na boquinha da garrafa desde a mais tenra idade. A bunda transformara-se, finalmente, em um grande investimento.

Então veio a Sexy, o filme Carandiru e, para realizar o sonho da casa própria, o primeiro filme pornô. Rita fez seu próprio Big Brother (ganhou declaradamente mais de meio milhão com os dois filmes) fazendo o que todo mundo faz ou tem vontade de fazer, mas que nossos (vossos!) falsos pudores e moralismo não costumam permitir a exibição.

Rita de Cássia nunca foi santa. Assumiu a personagem Rita Cadillac e aproveitou a vida. Do jeito que o diabo gosta.

Uma curiosidade histórica: a cantora francesa Rita Cadillac (a loirinha na montagem fotográfica que abre o texto), de quem nossa Rita pegou o nome, lançou um LP intitulado Não conte comigo... (para me mostrar toda nua)Ne comptez pas sur moi... (pour me montrer toute nue). Já com nossa versão nacional é diferente. Podemos contar com ela não só para se mostrar toda nua, mas também para vê-la fazendo o que há de melhor neste mundo. É a nossa vingança contra a França. Allez Rita!

 
Postado em 4 de julho de 2006, terça

:: Da obtusidade de nossos contemporâneos

Se você utiliza a Internet para ler e-mails e navegar um pouco, provavelmente não tem idéia das possibilidades do que tem em mãos. Seria mais ou menos como ter uma TV com milhares canais e só saber usar o botão de ligar e desligar. Você nem ajeita o som, as cores, a nitidez daquele único canal que assiste.

E estou falando de ser apenas um usuário.

Assim como quem trabalha com TV – da técnica às estrelas – sabe que aquilo não é só uma caixinha de fazer idiotas, quem trabalha com Internet também sabe que nem só de idiotas que não sabem a diferença entre geeks e nerds ou de gEnTi AxIm é feito o mundo virtual.

Uma das milhares de possibilidades existentes na Internet é saber detalhes de quem visita sua página. De onde veio a visita, que navegador o internauta estava utilizando, em qual resolução, quanto tempo ele passou na página, se já havia estado antes, como chegou até ela, qual IP foi usado... ou seja, só falta dar um retrato da pessoa que está do outro lado.

Acompanhando esses dados, é possível traçar um perfil dos internautas que se interessam por seu site e, com isso, oferecer um serviço melhor.

Eu sofro de um certo transtorno bipolar internético (quem fala esquizofrenia desconhece o significado do termo). Explico. O que é pessoal, eu trato de uma maneira completamente diferente – quase sempre oposta – ao que é profissional.

Acompanho esses dados no Memória Viva, mas nunca me interessei em fazer isso com meu site pessoal. Há algumas semanas, quase por acaso, comecei a faze-lo. Quantas surpresas...!!! Todas referentes a como as pessoas chegam aqui. Vou abordar três tipos que aportam neste site.

1. O tarado sem bússola
Esse é o tipo que digita fotos gostosa carangola ou flog putas rio grande ou ainda puteiro são paulo em uma ferramenta de busca e chega até aqui. Se você quiser dar um Ctrl+F e buscar essas palavras nesta página, confirmará que todas elas estão aqui. As fotos que creditei a alguém, a cerveja gostosa que tomei e o mineiro de Carangola que fez doações ao Memória Viva. Mas não há fotos de gostosas em Carangola por aqui. E também não há fotos de jogadores de futebol nus ou fotos de bombeiros americanos nus. Mas as palavras, separadamente, estão aqui espalhadas.

2. O que pensa que o Google é um oráculo
É o tipo que faz perguntas diretas à ferramenta de buscas ou digita sentenças gigantescas e desconexas. O significado das cores da bandeira dos países que jogaram na copa ou bussunda morte futebol vídeo. É sério! Pessoas efetuaram buscas exatamente como transcrevi e chegaram aqui.

3. O analfabeto que quer passar por leitor/intelectual/bem informado
Esse é o tipo que mais me choca e que mais cai, desorientadamente, nesta página. Ele busca Clarice Lispector resumo, Quando Nietzsche chorou resumo ou Judas em sábado de aleluia resumo. Resumindo: qualquer livro ou nome de escritor acompanhado da palavra resumo.

Sobre este último, deveria ser o texto inteiro se eu quisesse gastar meu tempo com isso. Só tenho uma coisa a dizer: Resumo??!! A criatura tem que ser muito limitada para buscar o resumo de um livro. E ninguém me fale de falta de tempo. Quem pretende ler um resumo, presumo, nasceu com o cérebro bem resumido.

Orelha, resenha, crítica... tudo normal para que se saiba do que se trata. Mas resumo?

Ler o resumo de um livro é como ir a uma grande museu ou pinacoteca e se admirar ao passar por uma janela. Você diz que esteve lá mas nem percebeu toda a riqueza ao seu redor. É como o turista que faz fotos aparecendo nos locais conhecidos e desconhece os hábitos e costumes do lugar visitado. Esteve lá, mas não conheceu nada. É um pobre de espírito. O leitor de resumos é isso: um espírito miserável.

 
Postado em 1° de julho de 2006, sábado

:: Aus! Aus! Aus!

Acabou! Acabou! Acabou! Acabou a euforia insana. Quarta não tem feriado e haverá de se achar outro motivo para a vadiagem nossa de cada dia. Voltemos aos escândalos. Qual zumbis, bestificados na frente da TV, assistamos a tudo como novela. Mas sem emoção. Sem entender que somos parte ativa e também passiva de todo o enredo. Duplamente responsáveis.

Acabou! Acabou! Não entendo a euforia, tampouco a dor. Estamos tão acostumados. Corrupção. Crianças sem escola. Doentes sem hospitais. Gente sem trabalho. Falta de segurança. Nada disso dói? Ou dói menos que um gol do adversário?

Acabou! Tocam a campainha. É o entregador de pizza. Veio à francesa? Ele dá uma risada e responde: Se pediram assim.... Esse é o tipo de brasileiro que eu gosto: honesto, trabalhador e que não perde o humor.

Voltemos à programação normal.

Acabou.

 
 
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