| Postado
em 26 de julho de 2006, quarta |
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A mulher que serei
A
mulher que habita em mim andava em um distendido
momento Clarice. Daí
fez rápida escala em Pagu
e baixou de vez em Carmen Verônica.
Deve
ser pela Lua Nova. Ou por não achar Clarice
nas estantes. A culpa é delas. Dessas
lunáticas.
Para
hoje, quero ser Carmen Verônica amanhã.
Em minhas conversas com Deus, sempre aviso que
se Ele inventar de me fazer mulher em alguma
encarnação, serei uma
puta. Homem, mulher, cachorro, hidrante,
poste... que a clonagem esteja suficientemente
avançada para me proporcionar novos condutos,
pois usarei à exaustão os que
me forem dados. Como se fosse todas
as mulheres de Carlos Zéfiro em uma só.
Quero
ser uma puta diletante. E quero ser naturalmente
curvilínea e sensual como a Carmen Verônica
que encontrei nas páginas de Brasilidade.
Quero ter um bom material de trabalho. O talento,
já levarei desta vida.
Com
as formas de Carmen, o fuego de Luz
e pagã como Elvira,
vou querer ainda ser dona de idéias próprias
como somente as minhas poderiam ser. Vou criar
o incriado, o incrível, o inculpável,
o incorrigível, o incomparável.
Esta
noite, coloco uma música cantada pela
língua ferina de Valéria,
peço a Janis que prepare
um drink, acendo um incenso, deito
e espero passar.
Em
alguma sinapse, nasce o grito: “Volta,
Clarice, volta logo!”
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| Postado
em 23 de julho de 2006, domingo |
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Minha tese de Doutorado

Está
definido. Se um dia este outsider que
vos bloga resolver cortar os cabelos, apagar
as tatuagens, querer ser dito cidadão
respeitável, que ganha alguns mil reais
por mês, ser responsável, cristão
convicto, cidadão modelo, burguês
padrão e voltar à vida acadêmica,
já sei qual será o foco de minha
tese de Doutorado: a contracultura dos
meus contemporâneos.
Muitos
serão abordados, mas a demoníaca
trindade ficará por conta de
Lobão, Paulo
de Carvalho e Rogério
Skylab.
Lobão
foi a primeira pessoa que entrevistei na vida,
em 1987, em um hotel em Natal, no dia seguinte
ao seu show O Rock errou.
Por anos, guardei aquela fita K7 com quase uma
hora de papo. Infelizmente foi perdida em alguma
de minhas várias mudanças. Pelo
menos não sei onde está. Em abril
de 2001, fiz outra entrevista, dessa vez com
um Lobão mais arredio, mas igualmente
sem papas na língua.
Paulo
de Carvalho, o Paulão das Velhas
Virgens, é um caso
que enlouqueceria Freud. “Beber,
meter, tocar”,
como deixa bem claro em seus shows, é
sua vida. Vieram os 40 anos, vieram os cabelos
brancos, vieram os problemas gástricos
pelo excesso de bebida e tudo isso só
faz melhorar sua performance nos palcos e suas
músicas que jamais serão veiculadas
nas rádios e TVs. Velhinha
dizendo, em horário nobre, que
aprendeu a gozar aos 45 e até
hoje não precisa de homem, pode.
Isso tem um nome: é siririca,
baby! Mas tocar uma bela canção
com o singelo título de Quero te
ver gozar pelo cu, última faixa
do mais recente CD das Velhas Virgens, Cubanajarra,
não pode. Nem clássicos como Abre
essas pernas ou O que é que
a gente quer?(B.U.C.E.T.A.). Paulão
é uma vítima desse mundo hipócrita.
Voto nele para governador de São Paulo
e para presidente do Corinthians. Com sua moral
ilibada, daria jeito nos dois em meio tempo
de jogo.
Skylab
é o cara que mandou o capeta parar de
roncar! Pára de roncar, filha da
puta! Quando ele morrer, o diabo vai dar
um jeito de ele não ir para o inferno.
Confesso que a primeira vez que vi Rogério
Skylab, há alguns anos, cantando Matador
de passarinho, achei que fosse um demente.
Hoje, depois de ouvir repetidas vezes seus 7
CDs, tenho certeza que é o demente
mais genial que existe. É o
nosso Anticristo particular. O Rei Lato Sensu
da Escatologia. O Drummond do Caos. E aproveitando
a comparação... conhecer o Skylab
daquelas músicas para crianças
que ele toca no Jô é como dizer
que conhece Drummond por saber que ele escreveu
“aquele
poema da pedra no caminho”.
É preciso mergulhar na piscina
de secreções que é
a obra de Skylab, ouvi-lo dizer que Chico Xavier
é viado e Roberto Carlos tem perna de
pau ou qual é a semelhança entre
ele, Mário Covas e Ana Maria Braga na
roscofélica canção Câncer
no cu. Se viver dá câncer,
como já avisou o poeta, Rogério
é o próprio.
No
futuro, os acadêmicos debruçar-se-ão
sobre suas obras. Pode anotar.
Não
falo de incensamento a prováveis malditos,
de fetichismo mauricinho ou de uma busca desesperada
por se aliar ao que pareça underground
somente para não se assumir mais uma
ovelha. Falo de descascar a obra de cada um
deles. Dissecar os anos de criação,
cada letra vomitada por esses eternos inconformados.
Mas
que não esperem essa tese acadêmica
parida por mim. Peguem a idéia. Que surjam
muitas. Talvez alguma vá prestar. Inoculem
esses vírus no hermético
e estéril ambiente acadêmico. Contracultura
na veia é com esses caras, o
resto é rebeldia de Malhação.
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| Postado
em 19 de julho de 2006, quarta |
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Quando Nietzsche subiu aos palcos
Nietzsche
tinha consciência de sua genialidade.
Era a consciência alterada dos iluminados,
do tipo que os ditos normais chamam de “loucura”.
Não se tratava de presunção.
Aliás, se ele fosse o mais vaidoso e
arrogante dos filósofos de todos os tempos,
é provável que ainda assim estivesse
muito distante de aquilatar devidamente a importância
de seu pensamento.
Essa
consciência fez de Nietzsche também
um profeta. Em Ecce Homo,
logo no início do capítulo Por
que eu sou um destino, ele diz: “Eu
conheço meu fado. Um dia haverão
de unir ao meu nome a lembrança de algo
monstruoso – uma crise como jamais houve
outra na Terra, na mais profunda colisão
de consciência, em uma decisão
evocada contra tudo aquilo que até então
havia sido acreditado, reivindicado santificado...”
Meio século depois de ter escrito isto,
começava a Segunda Guerra e, durante
muito tempo, a filosofia de Nietzsche foi estupidamente
apontada como a base das idéias nazistas.
No
prefácio de O Anticristo,
ele vaticina: “Este
livro pertence aos homens mais raros. Talvez
nenhum deles sequer esteja vivo. (...) Somente
os dias vindouros me pertencem. Alguns homens
nascem póstumos”.
E somente cem anos após sua morte, ocorrida
em 1900, o pensamento nietzschiano saiu do meio
acadêmico e começou a chamar a
atenção de uma parcela maior de
pessoas interessadas, nestes novos tempos, dentre
outras coisas, em “consumir
cultura”.
O
centenário da morte fez o filósofo
renascer em todo o mundo. No Brasil, desde então,
a Companhia das Letras
vem editando toda a obra de Nietzsche com a
cuidadosa tradução de Paulo
César de Souza. Também
foi só em 2000, oito anos depois de lançado,
que o livro Quando Nietzsche chorou,
do psiquiatra e neurologista americano Irvin
D. Yalom, estourou.
Best-seller
em pelo menos 13 países – mais
de 200 mil exemplares vendidos no Brasil; mais
de um milhão na Alemanha – Quando
Nietzsche chorou conta a história
de fictícios encontros entre Nietzsche
e Josef Breuer, um dos pais
da psicanálise. Lou Salomé,
por quem o filósofo era apaixonado e
teve um pedido de casamento negado, procura
Breuer pedindo que trate a doença de
Nietzsche que, então, lhe enviava cartas
demonstrando um instinto suicida.
Inicialmente
o autor queria que o encontro fosse entre Nietzsche
e Freud (outro que foi apaixonado
por Lou), mas isso não seria factível.
A ação se passa no verão
de 1882, quando Freud tinha apenas 27 anos e
ainda estava para entrar no campo da psiquiatria.
Todos os personagens do livro são reais:
Nietzsche, Breuer, Lou Salomé, Freud,
Matilda Altmann (esposa de
Breuer) e Anna O. (codinome
dado a Bertha Pappenheim, paciente
de Breuer).
A
ficção fica por conta do pedido
de Lou Salomé e dos encontros “para
tratamento”
entre Breuer e Nietzsche. Os estudos sobre histeria,
a utilização de hipnose e o drama
pessoal do envolvimento de Breuer com Anna O.
são reais, assim como tudo que sai da
boca de Nietzsche. O estudioso de suas obras
não tem dificuldades em apontar de onde
saiu cada uma das falas do filósofo no
livro de Yalom.
Apesar
de seus esforços particulares, pagando
pela publicação de pequenas tiragens
dos próprios livros, Nietzsche dizia
que sua filosofia não poderia ser comunicada
por texto impresso. Seria possível pela
fala? Através do teatro?
Estreou
em abril, no Teatro Imprensa,
em São Paulo, a primeira adaptação
teatral feita no mundo para o livro de Irvin
D. Yalom. Dirigida por Ulisses Cohn,
tem Nelson Baskerville no papel
de Breuer e Cássio Scapin
como Nietzsche. São apenas os dois atores
no palco. Duas horas de intensos diálogos
entrecortados por inserções em
vídeo de outros três personagens:
Lou Salomé (Ana Paula Arosio),
Matilda (Lígia Cortez)
e Freud (Flávio Tolezani).
O
recurso do vídeo pode sugerir aos mais
puristas algo que não seja teatro mas,
garanto, neste caso, foi muito bem empregado.
As inserções servem como fundo
para situar o espectador na época e no
momento das vidas dos personagens principais.
Servem também para que o público
respire por alguns instantes entre as batalhas
verbais que acontecem entre Breuer e Nietzsche.
Aproveita melhor a peça quem já
tiver algo sobre psicanálise e filosofia
(principalmente nietzschiana) na bagagem. Ou
que ao menos já tenha lido o livro de
Yalom.
Também
pode parecer estranho Cássio Scapin como
Nietzsche. É difícil imaginar
o frágil Nino do Castelo
Rá-Tim-Bum como o bigodudo e
grave filósofo. Além do que, optou-se
por não mostrar um “Nietzsche
caricato, bigodudo”.
Certo é que, depois de vista a peça,
entende-se o porquê. Dispensa-se até
a explicação do próprio
ator de que eles quiseram mostrar “um
Nietzsche mais jovem”
(na época em que conheceu Lou, ele já
usava o famoso bigode). Cássio tem uma
atuação memorável e suas
expressões são parte vital na
composição e no sucesso do personagem.
O bigode pareceria uma fantasia.
É
também interessante saber que a peça
vem lotando – e por isso já estendeu
até o final do ano a temporada paulistana
que terminaria em agosto – e, provavelmente,
nunca se reuniu tantas pessoas para ouvir
Nietzsche. Nem mesmo em seus tempos
de professor na Universidade da Basiléia.
E aqui são brasileiros. Quase sempre
pouco afeitos à história do pensamento
e seu desenvolvimento. Não vi mais do
que um ou dois momentos para um riso breve na
peça. Mas o público, em geral,
ri bastante. Talvez por ter a concepção
de que teatro é sinônimo de diversão.
Talvez por não entender a gravidade e
os porquês de certas falas irônicas
de Nietzsche. Talvez porque queiram ver o Cássio
Scapin engraçado com o qual estão
acostumados na tevê. E isso nem é
culpa dele. Eu só via Nietzsche –
mesmo sem o bigode – muito bem vivido.
Até porquê só assim se entende
Nietzsche: sendo ele.
Cássio
disse que as risadas não o incomodam
e acredita que, assim como ele, as pessoas conseguem
ver humor em Nietzsche. Sempre vi o filósofo
de uma forma extremamente grave. Toda ironia
contida em sua obra parece ser de uma frieza
que dispensa o riso e leva à admiração
– por quem realmente a entendeu –
ou a um misto de vergonha e respeito –
por parte de quem recebeu tal tratamento.
No
aforismo 372 de Humano, demasiado
humano, ele diz:
“A
ironia só é adequada como instrumento
pedagógico, usada por um mestre na relação
com alunos de qualquer espécie: seu objetivo
é a humilhação, a vergonha,
mas do tipo saudável que faz despertar
bons propósitos, e que inspira respeito
e gratidão a quem assim nos tratou, como
a um médico. O irônico se faz de
ignorante, e tão bem que os discípulos
que com ele dialogam são enganados e
ficam arrojados ao crer que têm um conhecimento
melhor, expondo-se de todas as maneiras; eles
perdem o cuidado e se mostram como são,
– até que, num dado momento, a
luz que sustentavam ante o rosto do mestre manda
de volta os raios sobre eles, de modo bem humilhante.
– Quando não há uma relação
como essa entre o mestre e os discípulos,
a ironia é um mau comportamento, um afeto
vulgar. Todos os escritores irônicos contam
com a espécie tola de homens que gostam
de se sentir superiores a todos os demais, ao
lado do autor, que consideram o porta-voz de
sua presunção. – O hábito
da ironia, assim como o do sarcasmo, corrompe
também o caráter; confere aos
poucos a característica de uma superioridade
alegremente maldosa: por fim nos tornamos iguais
a um cão mordaz que aprendeu a rir, além
de morder”.
Duro
e sempre exercitando uma de suas sentenças
de granito – Torna-te quem tu és
– Nietzsche ainda perguntava “como
descobrir quem e o que se é sem a verdade?”
Em Aurora (aforismo
509), lê-se:
“Quê?
Você ainda necessita do teatro?
É ainda tão jovem? Seja
inteligente, busque a tragédia e a comédia
ali onde são representadas melhor! Onde
tudo é mais interessante e interessado.
Sim, não é tão fácil
permanecer apenas espectador então –
mas aprenda isso! E em quase todas as situações
que lhe forem difíceis e dolorosas, você
terá uma pequena porta para a alegria
e um refúgio, mesmo se as suas próprias
paixões o acometerem. Abra o seu olho
de teatro, o terceiro grande olho que olha para
o mundo pelos outros dois!”
Irônico,
não? Se às vezes parece ser difícil
ser um espectador no teatro, imagine de nossa
própria vida! Mais irônico ainda:
a peça leva a todo esse exercício.
Aqui e ali, existe algo que, após a risada
fora de hora, faz imediatamente pensar: “Mas
ele não está falando isso comigo?
Esse que ele acusa não sou eu?”
E
o que dizer da possibilidade de o livro, agora
peça, transformar-se também em
filme? Foi Nelson Baskerville, ator e adaptador
do livro para o teatro, quem me falou sobre
a novidade. Mas a glória não caberá,
dessa vez, a nós, brasileiros. Está
em fase de pós-produção
a versão cinematográfica
de Quando Nietzsche chorou, que deverá
estrear em 2007.
O
filme é a segunda experiência na
direção de Pinchas Perry.
O papel de Nietzsche ficou com Armand
Assante (conhecido no Brasil por Os
Reis do Mambo, Judge Dread, Striptease
e alguns filmes de ação). O veterano
Ben Cross faz Josef Breuer
e a bela e nada conhecida por aqui Katheryn
Winnick faz Lou Salomé. Não
se pode esperar muito, a começar pelo
fato de se tratar de cinema americano, que não
é famoso exatamente por produzir filmes
para se pensar. Mas tenhamos esperança.
Ou não, já que Nietzsche alerta
que ela é “o
pior dos males, pois prolonga o suplício
dos homens”.
Mas
ficamos com o crédito de haver levado
Nietzsche aos cinemas antes dos americanos.
Dias de Nietzsche em Turim
(2001), de Júlio Bressane,
vale pela costura de trechos de Ecce Homo,
O caso Wagner, Crepúsculo
dos Ídolos, O Anticristo
(apesar de nem todos estarem creditados)
e cartas escritas pelo filósofo. Vale
também pela narração quase
sempre em off de Fernando Eiras
(que faz Nietzsche) e pela bela fotografia.
Como
me disse Cássio Scapin em uma conversa
depois da peça: “As
pessoas estão cansadas de futilidade”.
Então, ainda que existam adaptações
e o pensamento de Nietzsche seja mostrado de
diferentes formas – romance, teatro, cinema
–, o fato de fazê-lo presente já
é merecedor de algum crédito.
Aos
que desejam iniciar-se de uma forma amena na
obra de Nietzsche, antes de tentar filosofar
com o martelo, vejam o filme de Bressane, leiam
o romance de Yalom e assistam à peça.
E até o filme que está por vir.
Nada disso haverá de matá-los
e até aquilo que pareça um equívoco
há de se tornar uma benção.
Eis a obra. Eis o homem.
Originalmente
publicado no caderno Augusto,
do Jornal da Paraíba, em 16
de julho de 2006
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| Postado
em 17 de julho de 2006, segunda |
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Quatro revistas e um livro

Passei
o final de semana entre revistas e o computador
(que novidade!). A primeira delas, ainda não
tenho em mãos. A italiana Chi
(Quem) estampou na capa uma foto da
Princesa Diana em seus últimos
momentos de vida. Totalmente desprezível,
não fosse pelo fato de a imprensa britânica
ter dado um grande exemplo do que significa
a expressão “um
peso e duas medidas”
e de a imprensa mundial se fazer de doida e
condenar a aberração enquanto
fazia exatamente a mesma coisa. Os jornais
sensacionalistas britânicos,
que perseguiram Diana durante toda sua vida,
condenaram a publicação italiana
pela foto, até então inédita
em um veículo de imprensa (ou coisa que
o valha). Na seqüência, jornais,
revistas e sites do mundo inteiro repercutiram
o sentimento de raiva e indignação
dos ingleses e reproduziram a capa da Chi
para quem quisesse vê-la (inclusive eu).
Aí quando eu digo que jornalistas
e hienas são muito parecidos,
meus colegas me repreendem...
De
Londres para Natal. Recebi a Preá
número 17, de Março-Abril. Sempre
muito boa, tirando aqui e ali as babações
políticas e o eterno incenso às
cabeças coroadas. Destaco o artigo de
Carlão de Souza sobre
Quem sabe o que é bom ou ruim na
música popular? – e concordo
com ele –; Zila e eu, de Manoel
Onofre Jr., sobre sua correspondência
com Zila
Mamede, que merecia bem
mais que duas páginas da revista; e,
na coluna de Carlos Magno,
a rápida entrevista com Klécius
Henrique sobre a biografia do ator
José Dumont.
Voltando
no tempo... Realidade
não é uma revista assim tão
difícil de ser encontrada. A de novembro
de 1968, eu já comprara dois
exemplares: um em São Paulo, outro em
Belo Horizonte. Perseguia essa edição
por causa da matéria de capa com Carlos
Lacerda falando das eleições
americanas e seus candidatos. A que comprei
em São Paulo veio sem a matéria;
a de BH, faltando uma página. Eis que
na última sexta, chegam a mim três
volumes com várias edições
de Realidade, parte de uma doação
da jornalista Vera Barbosa,
de Campina Grande. E lá
estava a edição de novembro de
1968. Inteirinha. Valeu, Vera!
E
o site sobre a revista O
Cruzeiro volta a ser
atualizado. Nesta segunda, estará on
line a edição de 2 de agosto
de 1930 que, dentre outras coisas, fala sobre
a morte de João Pessoa.
Em agosto, mais uma edição do
mesmo ano. A partir de setembro, voltam as atualizações
semanais.
Também
vindo de Campina Grande, transferido quase compulsoriamente
da biblioteca de minha sogra para a minha, uma
edição especial, numerada (1.200
exemplares), de Noite na taverna
e Macário,
de Álvares de Azevedo.
O livro é de 1952 e vem autografado pelo
prefaciador – Carlos Dantes de Morais
– e pelo ilustrador João
Fahrion, de quem eu me tornei grande
admirador. Alguém, por favor, me explique
o que é aquilo! Que talento! A ilustração
ao lado é reprodução de
uma que está no livro.
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| Postado
em 13 de julho de 2006, quinta |
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Violência e medo

É
traço de uma cultura grosseira fazer
calar alguém
tornando visível a brutalidade, suscitando
o medo.
Friedrich
Nietzsche, in Humano, demasiado
humano
Nós somos brutos. Não
nos enganemos. Somos brutos.
É
ridículo – no sentido de ser totalmente
destituído de bom senso, de qualquer
ponderação – ver sempre,
ao final de uma matéria sobre violência,
alguém dizendo:
“A gente
nunca pensa que isso pode acontecer com a gente”.
Se acontece com qualquer pessoa, já está
acontecendo com a gente.
Quando
se nasce no Iraque, no Afeganistão ou
em algum país da África em que
quase toda a população tem AIDS,
já se nasce sabendo que
tudo que há de pior acontece dentro de
casa, com você, com seus familiares, com
todos que se conhece. Nós ainda não
temos essa consciência.
As
chacinas no Rio, os incêndios de ônibus
em São Paulo, qualquer tipo de violência...
tudo pode parecer muito distante e transitório.
Mas não é. Vivemos uma
guerra civil como nos acostumamos a
ver, durante anos, no noticiário sobre
o Oriente Médio. Vivemos acossados
pelo terrorismo, como nos acostumamos
a ver, durante anos, no noticiário sobre
a Europa. Quando algo acontece com o outro,
já está acontecendo com a gente.
Nós
somos brutos. Não tenhamos esperança
quanto a isso. Somos irremediavelmente brutos.
Não
temos refinamento emocional para nos
sensibilizarmos com música suave. Gostamos
de barulho, de gritos, de volume alto. Gostamos
de pagode, de sertanejo, de axé. Não
temos refinamento emocional para nos sensibilizarmos
com bons filmes. Gostamos de gritos, de tiros,
de explosões, de muito barulho. Gostamos
de novelas com gente neurótica, brigando,
tramando contra outras.
“Se
ninguém quer ouvir, nada mais natural
do que gritar!”
Em silêncio, talvez conseguíssemos
ouvir nossa voz interior, nosso eu verdadeiro,
nosso próprio coração.
Talvez pudéssemos descobrir nossa sensibilidade.
E nossos medos.
Se
tivéssemos tido a coragem de ouvir essa
voz interior, coragem de assumir nossas fraquezas,
provavelmente não chegaríamos
aonde chegamos. Teríamos nos
preocupado em educar, em viver em paz. Viveríamos
sem medo.
Você
tem coragem de ser sensível?
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| Postado
em 10 de julho de 2006, segunda |
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Rita Cadillac, uma mulher que sabe se virar

Digam
o que quiserem, mas Rita Cadillac
é uma mulher que sabe se virar. E não
só nesse sentido que você pensou.
No
início dos anos 1980, quando eu ainda
era um projeto de maníaco sexual, o Cassino
do Chacrinha era então
o grande canal erótico. Tinha pensamentos
– até hoje inconfessáveis
– ao ver as chacretes
rebolando ao som de Blitz e
outros convidados do Velho Guerreiro.
Índia
Amazonense, Índia Poti,
Fátima Boa Viagem, Lia
Hollywwod, Valéria Mon
Amour, Gracinha Copacabana,
Regina Polivalente, Dayse
Cristal, Sarita Catatau...
Loucura! Loucura! Loucura! Como diria o novo
guerreiro mauricinho. Cada um tinha sua preferida.
Eu, com meus dons premonitórios, gostava
mais daquela que daria (em todos os sentidos)
o que falar no futuro: Rita Cadillac.
A
bunda de Rita é um patrimônio nacional!
Foi-se a Gretchen, foi-se a
Carla Perez, foram-se as Scheilas,
mas Rita Cadillac está aí, firme
e forte! Ainda mais firme e forte agora que
recebeu uma bombada na comissão de frente
que nunca chamara atenção de ninguém.
Como sempre disse a própria, ela quer
ser velada de bunda pra cima para ser reconhecida.
A bunda é a cara da Rita.
Tenho
o maior respeito por Rita Cadillac. Não
só por estar em minhas lembranças
de pré-púbere, mas por sua história
de vida. Ela sempre soube se virar. Ela subiu
e desceu conforme a ocasião, mas sempre
esteve pronta para a batalha.
Foi
chacrete, tentou emplacar como cantora, virou
rainha dos presidiários e, quando o dinheiro
faltou, encarou um filme pornô
aos 50 anos de idade. Ela é
corajosa. E, apesar do “trauma”,
resolveu fazer outro, dessa vez com uma mulher.
Admitamos: Rita Cadillac é foda!
Praticamente
estuprada, aos 15 anos, pelo primeiro marido,
Rita parece saber superar traumas. Em 1981,
em entrevista à revista Internacional,
numa edição especial somente com
ensaios de chacretes, Rita disse muitas e ótimas.
Deu o nome de famosos que já haviam freqüentado
sua cama, disse com todas as letras o que gostava
de fazer e por aí foi... Seu ensaio também
chama atenção. É o mais,
digamos, recatado.
Rita
não teve a manha de enriquecer ou se
aproveitar do corpo e da fama enquanto jovem.
Nos anos 2000, parece que a sorte começou
a olhar para ela de outra forma. O corpão,
mesmo aos 40, agora vivia em uma época
mais despudorada, mais sacana, em que bunda
na TV era sinônimo de carreira e dinheiro
rápido. Uma época em que mães
colocavam suas menininhas para dançar
na boquinha da garrafa desde a mais tenra idade.
A bunda transformara-se, finalmente, em um grande
investimento.
Então
veio a Sexy, o filme
Carandiru e, para
“realizar
o sonho da casa própria”,
o primeiro filme pornô. Rita fez seu próprio
Big Brother (ganhou declaradamente
mais de meio milhão com os dois filmes)
fazendo o que todo mundo faz ou tem vontade
de fazer, mas que nossos (vossos!) falsos pudores
e moralismo não costumam permitir a exibição.
Rita
de Cássia nunca foi santa. Assumiu a
personagem Rita Cadillac e aproveitou a vida.
Do jeito que o diabo gosta.
Uma
“curiosidade
histórica”:
a cantora francesa Rita Cadillac (a loirinha
na montagem fotográfica que abre o texto),
de quem nossa Rita pegou o nome, lançou
um LP intitulado Não conte comigo...
(para me mostrar toda nua) – Ne
comptez pas sur moi... (pour me montrer toute
nue). Já com nossa versão
nacional é diferente. Podemos contar
com ela não só para se mostrar
toda nua, mas também para vê-la
fazendo o que há de melhor neste mundo.
É a nossa vingança contra a França.
Allez Rita!
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| Postado
em 4 de julho de 2006, terça |
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Da obtusidade de nossos contemporâneos
Se
você utiliza a Internet para ler e-mails
e navegar um pouco, provavelmente não
tem idéia das possibilidades do que tem
em mãos. Seria mais ou menos como ter
uma TV com milhares canais e só saber
usar o botão de ligar e desligar. Você
nem ajeita o som, as cores, a nitidez daquele
único canal que assiste.
E
estou falando de ser apenas um usuário.
Assim
como quem trabalha com TV – da técnica
às estrelas – sabe que aquilo não
é só uma caixinha de fazer idiotas,
quem trabalha com Internet também sabe
que nem só de idiotas que não
sabem a diferença entre geeks
e nerds ou de gEnTi
AxIm é feito o mundo virtual.
Uma
das milhares de possibilidades existentes na
Internet é saber detalhes de quem visita
sua página. De onde veio a visita, que
navegador o internauta estava utilizando, em
qual resolução, quanto tempo ele
passou na página, se já havia
estado antes, como chegou até ela, qual
IP foi usado... ou seja, só falta dar
um retrato da pessoa que está do outro
lado.
Acompanhando
esses dados, é possível traçar
um perfil dos internautas que se interessam
por seu site e, com isso, oferecer um serviço
melhor.
Eu
sofro de um certo “transtorno
bipolar internético”
(quem fala “esquizofrenia”
desconhece o significado do termo). Explico.
O que é pessoal, eu trato de uma maneira
completamente diferente – quase sempre
oposta – ao que é profissional.
Acompanho
esses dados no Memória
Viva, mas nunca me interessei
em fazer isso com meu site pessoal. Há
algumas semanas, quase por acaso, comecei a
faze-lo. Quantas surpresas...!!! Todas referentes
a como as pessoas chegam aqui. Vou abordar três
tipos que aportam neste site.
1.
O tarado sem bússola
Esse é o tipo que digita fotos
gostosa carangola ou flog
putas rio grande ou ainda puteiro
são paulo em uma ferramenta
de busca e chega até aqui. Se você
quiser “dar
um Ctrl+F”
e buscar essas palavras nesta página,
confirmará que todas elas estão
aqui. As fotos que creditei a alguém,
a cerveja gostosa que tomei e o mineiro
de Carangola que fez doações
ao Memória Viva. Mas
não há fotos de gostosas em
Carangola por aqui. E também não
há fotos de jogadores de
futebol nus ou fotos
de bombeiros americanos nus. Mas
as palavras, separadamente, estão aqui
espalhadas.
2.
O que pensa que o Google é um oráculo
É o tipo que faz perguntas diretas à
ferramenta de buscas ou digita sentenças
gigantescas e desconexas. O significado
das cores da bandeira dos países que
jogaram na copa ou bussunda
morte futebol vídeo. É
sério! Pessoas efetuaram buscas exatamente
como transcrevi e chegaram aqui.
3.
O analfabeto que quer passar por leitor/intelectual/bem
informado
Esse é o tipo que mais me choca
e que mais cai, desorientadamente, nesta página.
Ele busca Clarice Lispector resumo,
Quando Nietzsche chorou resumo
ou Judas em sábado de aleluia
resumo. Resumindo: qualquer livro
ou nome de escritor acompanhado da palavra resumo.
Sobre
este último, deveria ser o texto inteiro
se eu quisesse gastar meu tempo com isso. Só
tenho uma coisa a dizer: Resumo??!! A criatura
tem que ser muito limitada para buscar o resumo
de um livro. E ninguém me fale de “falta
de tempo”.
Quem pretende ler um resumo, presumo, nasceu
com o cérebro bem resumido.
Orelha,
resenha, crítica... tudo normal para
que se saiba do que se trata. Mas resumo?
Ler
o resumo de um livro é como ir a uma
grande museu ou pinacoteca e se admirar ao passar
por uma janela. Você diz que esteve lá
mas nem percebeu toda a riqueza ao seu redor.
É como o turista que faz fotos aparecendo
nos locais conhecidos e desconhece os hábitos
e costumes do lugar visitado. Esteve lá,
mas não conheceu nada. É um pobre
de espírito. O leitor de resumos
é isso: um espírito miserável.
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| Postado
em 1° de julho de 2006, sábado |
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Aus! Aus! Aus!

Acabou!
Acabou! Acabou! Acabou a euforia insana. Quarta
não tem feriado e haverá de se
achar outro motivo para a vadiagem nossa de
cada dia. Voltemos aos escândalos. Qual
zumbis, bestificados na frente da TV, assistamos
a tudo como novela. Mas sem emoção.
Sem entender que somos parte ativa e também
passiva de todo o enredo. Duplamente responsáveis.
Acabou!
Acabou! Não entendo a euforia, tampouco
a dor. Estamos tão acostumados. Corrupção.
Crianças sem escola. Doentes sem hospitais.
Gente sem trabalho. Falta de segurança.
Nada disso dói? Ou dói menos que
um gol do adversário?
Acabou!
Tocam a campainha. É o entregador de
pizza. “Veio
à francesa?”
Ele dá uma risada e responde: “Se
pediram assim...”.
Esse é o tipo de brasileiro que eu gosto:
honesto, trabalhador e que não perde
o humor.
Voltemos
à programação normal.
Acabou.
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