Postado em 27 de janeiro de 2006, sábado

:: Por que sou vegetariano?

E antes de se erguer, chupou os dedos sujos de sangue,
que lhe deixaram na boca um gosto amargo de vida.

(Chico Bento em O Quinze, de Rachel de Queiroz)

Gênese. No início, tudo era carne. Arroz, feijão, bife e batatas fritas. O quaternário básico da alimentação carioca ditava o Fora vida saudável da suburbana família que precisava de energia para trabalhar. Nada de verduras! Os urbanóides – ou suburbanóides – comiam carne, muita carne. Até porque isto era um sinal de prosperidade e fartura. Quando adolescente, em tempos de esfaimada inflação, lembro de ver em um telejornal duas irmãs, também adolescentes, moradoras de uma favela no Rio, dizerem que há muitos meses não tinham carne em casa. Fiquei me perguntando porquê isso seria tão chocante se não há necessidade do consumo de carne para vivermos.

Aos onze anos, resolvi ser vegetariano. Totalmente desprovido de qualquer conhecimento sobre Nutrição e – pior! – do hábito de comer verduras e legumes, achei que o Popeye era o melhor exemplo de que folhas faziam bem. Pedi a minha mãe que comprasse espinafre. Troquei o bife com fritas pelo ovo com espinafre. Não sei se pela falta de costume ou pela má vontade de minha mãe em preparar o novo prato, garanto, aquilo não era apetitoso. Na sétima série, quando você começa a sair com turminhas e pipocando Bobs e McDonalds em todos os bairros do Rio, eu tinha pouca motivação para não comer carne. A esquisitice passou logo.

Dez anos depois, aos 21, nascia Aimée, minha primeira filha. Antes que ela saísse da dieta de leite materno, decidi me tornar vegetariano e criar meus filhos do mesmo jeito. Lembro bem de um almoço, na casa da minha mãe, no final de julho de 1993, quando olhei para um pedaço de galinha e disse: Essa é a última vez que estou comendo carne. Seguiram-se duas semanas durante as quais perdi 15 quilos, tive febres de mais de 40 graus e delírios que me faziam ver coisas nas paredes como se um filme estivesse sendo projetados nelas. Tire a bebida de um alcoólatra, o pó de um cocainômano e você verá o mesmo. Não vacilei um instante. Quinze dias depois, o corpo começou a se acostumar à nova dieta e tirar dela o necessário para viver. Perguntavam se eu estava doente, se estava com câncer, com AIDS… Não. Estava apenas me limpando.

Passados treze anos, ainda encontro quem se surpreenda com o fato de eu ser vegetariano. Mais ainda quando sabe que a transformação não se deu ontem. Não admitem que eu possa ser vegetariano tendo quase 90 quilos, uns brações desses e esteja sempre saudável e cheio de energia. Eu até poderia ser vegetariano, mas tinha que ser magro, curvado, de pele embaçada, sem energia e parecendo estar sempre com aquele ar de quem está fazendo vestibular para defunto. Puro preconceito. Na acepção mais pura do termo. E depois, ninguém se chama Sandro Fortunato impunemente. De família italiana, adoro massas.

Conheço vegetarianos que o são pelos motivos mais variados: por quererem se livrar das toxinas das carnes e levar uma vida mais saudável, por convicção religiosa, por algum motivo de saúde que os impeçam de comer determinado tipo de carne, porque foram criados assim desde sempre… Eu sou por um único motivo: por saber que não preciso tirar vidas para manter a minha. Só por isso.

As pessoas minimamente civilizadas, isto é, as que estão afastadas de uma vida mais bruta e vivem de modo mais moderno, utilizando-se das comodidades da chamada civilização, talvez nunca tenham se dado conta de que aquelas peças embaladas em isopor e plástico ou ainda em caixas com belas fotos não passam de restos mortais que só não apodreceram tão rápido quanto quaisquer outros porque estão cheios de produtos que os mantém agradáveis aos olhos por mais algum tempo.

A foto que ilustra o texto foi feita há poucos dias na Feira Central de Campina Grande, Paraíba. Lá, somente naquela barraca, matam cerca de quinhentas aves por dia. Imagine quanto não se mata, em um dia, em toda cidade de São Paulo. É um derramamento de sangue, inútil, do qual eu não participo. E duvido que a maioria das pessoas participasse se houvesse a necessidade de fazer isso ativa e não passivamente. Se você tivesse que levar o animal vivo para casa, matá-lo, tirar seu couro/penas, limpá-lo, abri-lo, revirar suas entranhas, diariamente, você comeria carne? Como faria isso com um boi? Subiria as escadas com ele, colocaria bem no meio da sua sala, pegaria uma trava de carro e meteria na cabeça dele, depois cortaria o pescoço, suspenderia o corpo e deixaria o sangue escorrer em um balde... Comprar aquele pedacinho de borracha vermelha no supermercado é bem melhor, não?

Sou vegetariano porque isso é algo a respeito do qual me tornei consciente. Tornar-se consciente de algo está além de entendimentos, aprendizados ou estudos. Você, carnívoro, pode achar um absurdo como eu passo horas no banho, como não me tornei consciente da necessidade de economizar água. Você, carnívoro, pode se assombrar como eu não separo o lixo e encho sacos e mais sacos com material reciclável, como eu não me tornei consciente da necessidade de não sujar tanto o planeta. Você, carnívoro, pode ficar indignado ao ver alguém jogando lixo pela janela do carro ou alguém dando uma mamadeira cheia de refrigerante para um bebê. Você se tornou consciente dessas coisas, mesmo que não tenham tentado ensiná-las a você. E este é motivo pelo qual não faço campanhas pró-vegetarianismo. Acho uma idiotice querer convencer alguém de algo que só ela mesma poderia se convencer. Não adiantariam os milhares de argumentos em defesa do vegetarianismo. Se essa argumentação fosse possível, médico nenhum fumaria, beberia ou usaria as próprias drogas que receita.

Por outro lado, assombra-me o espanto das pessoas ao saberem que sou vegetariano e como elas se esforçam em me convencer dos benefícios do contrário. Eu conheço os dois lados, na prática, e sei bem qual é o melhor para mim. Mas você não gosta de um franguinho, de um peixinho? Adoro. Por isso mesmo deixo todos vivos. Se não gostasse, mataria. Outra coisa que me surpreende são as brincadeiras do tipo quer um bifinho? ou vai uma carninha aí?, como se isso pudesse me ofender. Acredito que uma pessoa que não goste de determinado alimento se ofenda com uma brincadeira desse tipo. Vai um jiló aí? – e ela sente engulhos, Quer um pepino? – e ela sente nojo. Não é o caso. Pior mesmo só quando alguém vem com o argumento: E por acaso as folhas que você come não têm vida? Claro que têm. E sempre emendo: E por que você não come seu cachorro ou um parente quando ele morre? Acho um tremendo desperdício de carne isso. Acho desnecessário ter completado o segundo grau ou mesmo ter um QI de três dígitos para perceber as diferenças entre os reinos Mineral, Vegetal e Animal. Carne só existe no Animal. Se você come galinha por que não come o seu cachorro? Se come vaca, por que não come a sua avó? Na China, come-se cachorro. Em várias tribos, na Ãfrica – quiçá ainda no Brasil – comem-se os parentes. Por que você não o faria? Pelo mesmo motivo que as garotas da reportagem achavam um absurdo não comerem carne há meses: cultura.

Foi ensinado a você que isso pode, isso não pode. Como costumo dizer – quando a paciência me falta –, se tivessem lhe dado merda para comer, desde pequeno, você acharia maravilhoso. Pode apostar nisso. Tudo é uma questão de costume. Tudo é uma questão de cultura.
 
Ainda sobre os Vegetais que – sim, têm vida! – e são comidos por nós, selvagens e esquisitos vegetarianos, sempre costumo lembrar que a relação que temos com o alimento é diferente. Enquanto o carnívoro diz eu até gostaria de não comer carne, mas eu adoro uma costela, uma coxa e está satisfazendo um desejo; o vegetariano está satisfazendo uma necessidade básica. Quem convive comigo já deve ter reparado que não costumo deixar restos de comida no prato. Tudo que havia nele se sacrificou por mim, para manter minha vida, e o mínimo que posso fazer para agradecer é fazer valer tal sacrifício.

Não desejo que ninguém se torne vegetariano. Não faço campanha para isso. E só escrevi a respeito porque resolvi nunca mais entrar nesse papo chato de explicar o porquê de ser vegetariano. A partir de agora, andarei com um cartão com o título deste texto impresso e, logo abaixo, o endereço para encontrá-lo na Internet. Se isso realmente interessar à pessoa, que leia. Se não, não me encha com isso também.

Aos carnívoros que convivem comigo, podemos continuar sentando juntos à mesa sem que vocês ouçam uma palavra sobre vegetarianismo. Os restos de meus amiguinhos sacrificados, em seus pratos, não me ofendem. Aos que me convidam para refeições ou recepções em suas casas e dizem olha, pra você tem isso e mais aquilo, meu reconhecimento e admiração. Demonstram respeito, atenção, preocupação e carinho. A estes meus amigos carnívoros, um brinde com suco de clorofila, afinal, entre eles pode haver algum abstêmio. Se não se importarem, no meu copo vai cerveja mesmo.

E bom apetite a todos.

Mais fotos da pobre galinha? Veja aqui.

 
Postado em 26 de janeiro de 2006, quinta

:: As loucas de Fellini e os outros eus

Em algum final de semana de 1987, trancado em um quarto para mais uma longa sessão de filmes no aparelho de vídeo que acabara de ganhar, conheci Federico Fellini. Até então, ele estava somente nas páginas das revistas de cinema e era, para mim, um italiano cultuado e que deveria ser visto por qualquer um que se pretendesse cinéfilo.

Amarcord, eu me lembro, foi meu primeiro Fellini. Naquele tempo, eram poucas asfitas seladas. As cópias não eram originais e só uma ou outra locadora se dava ao capricho de escrever cinco linhas sobre a história e informar diretor e principais nomes do elenco. Mas havia os cartazes. Aquele com o desenho de um navio e vários personagens caricaturados trazendo ao alto o nome do filme – uma palavra que me parecia sem sentido – me chamava atenção. Eu me lembro: Amarcord.

Finalmente eu entendia que era possível projetar o sonho de alguém para fora de sua mente e mostrá-lo a outras pessoas. E nestes mais de 110 anos de cinema, ninguém fez isso melhor que Federico Fellini. Nem toda a evolução dos efeitos especiais dos dias de hoje, capazes de dar vida a qualquer pensamento, conseguem o milagre do grande mentiroso. O fantástico nunca precisou de recursos adicionais em Fellini. E nem tinha nele sua mais perfeita representação. Era tão somente sua projeção através de uma película.

Desenho, música, teatro… várias artes convergindo para a sétima. Uma obra mágica. A contribuição genial e sensível de um artista completo, de um mentiroso que fazia da vida o que ele imaginava e não a rudeza limitada pelas amarras da realidade.

Logo depois eu veria o então recente Ginger e Fred, estrelado por dois de seus grandes amores; Giulietta Masina e Marcello Mastroianni. A mulher de sua vida e o homem que várias vezes representou o próprio diretor em seus filmes. 

Nos anos seguintes, aqui e ali nos encontraríamos de novo, até que em 2003, assisti o documentário Eu sou um grande mentiroso, no gigantesco Cine Brasília, junto a um público de… seis ou sete pessoas! Não é de se admirar. Em geral, os cultos aos grandes gênios do cinema são realizados no recesso dos cineclubes, das pequenas mostras e para alguns poucos bichos-grilos que se dispõem a ir a uma sala com as chamadas sessões de arte.

Foi quando me senti menos culpado em relação a Fellini. Até então, era mesmo difícil conseguir um filme seu aqui no Brasil. Naquele ano, dez anos após sua morte, o mundo real começou a se reaproximar do mundo de sonhos de Fellini. Na Itália, a Fundação Fellini, presidida por sua irmã, Maddalena,e pelos cineastas Ettore Scola e Woody Allen, inaugura o Museu Fellini. No Brasil, ganhamos a exposição Circo Fellini, que passou por Rio, São Paulo e Brasília.

Circo Fellini, que tive a oportunidade de vivenciar em julho de 2005, em Brasília, era composta de seis ambientes. O visitante era recebido por marionetes, que representavam personagens dos filmes, em um jogo de luz e sombra, e que levavam imediatamente ao ambiente lúdico do cineasta. Em seguida, passava-se a uma tenda com 23 cartazes de seus filmes. Na tenda seguinte, 40 desenhos feitos por Fellini acompanhados de 40 fotos de bastidores, mostrando como a idéia nascia no papel e tomava vida. Em outra área, fotos das atrizes, atores, roteiristas, diretores e outros colaboradores de Fellini. No quinto ambiente, livros, roteiros, quadrinhos e objetos pessoais. Tudo isso, embalado pelas maravilhosas e premiadas músicas que Nino Rotta compôs para os filmes de Fellini.

Tudo levava a uma sala de vídeo, na qual foram exibidos vários filmes de Fellini, alguns dos quais ainda não lançados em DVD no Brasil, além de entrevistas e documentários. Imagine visitar essa exposição, todos os dias durante duas semanas, para poder assistir As noites de Cabíria, La dolce vita, As tentações do Dr. Antônio, 8 ½, Julieta dos Espíritos, Toby Dammit, Satyricon, I Clowns, Roma, Amarcord, Casanova, Ensaio de orquestra, A cidade das mulheres, E la nave va, Ginger e Fred...

Tive a oportunidade de corrigir terríveis falhas em minha educação, principalmente em relação a La dolce vita. O cartaz mais conhecido deste filme é uma dessas imagens que entraram para o inconsciente coletivo. Parece ser de um filme que todo mundo viu mesmo sem ter visto. Como alguns versos de Drummond que todos repetem sem jamais ter lido o poema inteiro. Gostaria de falar sobre a beleza de Anita Ekberg e a antológica cena na Fontana di Trevi, mas serei obrigado a falar de seu parceiro, Marcello Mastroianni, ou melhor, de seu personagem, o jornalista Marcello Rubini.

Jornalista de um periódico de escândalos, Marcello espera tornar-se, um dia, um escritor sério. Nesse meio tempo, encontra-se completamente imerso na dolce vita romana, entre uma aventura sentimental com uma aristocrata sempre em busca de novas emoções (Anouk Aimée como Maddalena), a tentativa de suicídio de uma companheira que o sufoca com seu ciúme (Yvonne Furneaux como Emma) e um flerte sem maiores conseqüências com uma célebre diva do cinema (Anita Ekberg como Sylvia). Após o contato com a família de Steiner, um refinado intelectual, Marcello acreditar ter encontrado um tipo de vida ideal.

Contar mais que isso, seria estragar o filme para quem ainda não o viu.

Apesar de todas as diferenças, mantidas as dimensões de cada história, partilhei e me identifiquei profundamente com a trajetória de Marcello.

A busca da existência ideal, o encantamento com o que há de mais ilusório, o desconhecimento e a negação de sua história pregressa... eu me vi em cada momento de sua vida. E vi muitos conhecidos no mesmo caminho. Só não pretendo comungar com o final. As metáforas de Fellini podem até ser poéticas, mas com a conhecida delicatezza à italiana. Nem eu, sempre acompanhado de minha majestosa estupidez, seria capaz de deixar passar o recado de Fellini a respeito dessa doce vida.

Foi o primeiro dos filmes que assisti durante a mostra e, a partir dele, todos os dias, religiosamente, fui àquela sala me conhecer melhor. Tenho o privilégio de dizer que Fellini foi meu psicanalista. No dia seguinte, assistindo o episódio As tentações do Dr.Antonio, comecei a me perguntar sobre minhas próprias alucinações, meus parâmetros de moralidade, sobre meus desejos irrealizados e que tipo de monstros poderiam ter criado dentro de mim. E se eu já achava Anita Ekberg umas das mulheres mais lindas, sensuais e voluptuosas de toda a História do Cinema, o que dizer depois de vê-la do tamanho de um prédio? Para mim, essa imagem representa os leões não alimentados com os quais convivo. Cada vez que me dou conta de que em meu interior habita um desejo desconhecido e reprimido, lembro daqueles seios gigantes e ouço a música se repetindo e fazendo pouco de mim: Bevete più latte, il latte fa bene...

Em 8 ½, minha terceira sessão consecutiva de psicanálise felliniana, já estava convencido de que nada sabia de mim mesmo e que deveria ir até o final, até ouvir A voz da Lua, para entender algo sobre mim e sobre Fellini. Com 8 ½, perdi qualquer temor que pudesse ter em relação a escrever, algo que faço profissionalmente há quase vinte anos. Eu deveria escrever e escrever e escrever com todos os medos e todas as idéias e sem saber qual seria o final ou onde aquilo poderia dar. Dei-me conta de ser uma obra incompleta, imperfeita e com necessidade de ser vivida. Início, meio e fim, um texto com sentido, boa pontuação... nada mais importava. Somente quando já não conseguia mais diferenciar se estava escrevendo sobre algo que vivi ou se estava inventando, passei a viver o momento do próprio texto, a vida que há nele, a história que surge e se modifica a cada palavra.

Foi ainda em 8 ½ e com confirmação em seu filme seguinte, Julieta dos Espíritos, que as personagens femininas começaram a chamar ainda mais a minha atenção, em especial, as vividos por Sandra Milo. A voz, o sorriso e o olhar de Sandra Milo são capazes de dispensar toda a lascívia do seu rebolado. Milo sempre entra em cena para mostrar a superioridade da mulher e sua capacidade de fazer do homem um simples joguete. Homem nenhum tem domínio de seu próprio destino diante dela. E em Julieta dos Espíritos, estrelado por Giulietta Masina, esposa de Fellini, fica patente que a vida do diretor é o cinema. Não há distinção entre realidade e ficção. Não se sabe onde acaba uma e começa outra. Fellini se auto-analisa na frente dos espectadores. Julieta é vivida por sua esposa, que tem o mesmo nome. A personagem é uma mulher que após descobrir a traição do marido passa a viver uma vida liberta dos fantasmas que a torturavam. Julieta e uma figura recatada, simples, devotada ao marido, totalmente diferente da personagem de Sandra Milo. Uma é a nora sonhada pela mãe italiana; a outra, a mulher desejada pelo homem italiano. Seria assim na vida real? Fellini, o marido, tentado pelas belas mulheres do cinema? Ou seria Fellini a própria Julieta, preso em suas convicções morais e louco para sentir-se livre? A sublimação viria pela arte?

Mas são as loucas de Fellini com quem mais me identifico. Elas não são lindas e nem estão dentro dos padrões da mulher sensual. Elas vivem seus desejos sem medida, sem moral, sem qualquer limite. São vibrantes, espontâneas, instintivas, anárquicas e, por tudo isso, as mais próximas ao mundo real. São as loucas de Fellini, a ponte entre o real e o imaginário.

Em seu desconhecimento de uma moral ou vivenciando uma moral própria e única, elas não se colocam para além do Bem e do Mal. Elas estão sempre à margem e, até por isso, podem passar despercebidas pelo espectador comum. Perceba os olhares de Volpina em Amarcord e da flautista em Ensaio de Orquestra. Perceba o que dizem suas línguas quando não falam nada, mas apenas saem da boca em busca do que desejam. Perceba o que seus corpos magros dizem. Perceba do que são capazes.

As loucas de Fellini superam seu alter ego, Mastroianni. Elas sempre estão lá dizendo eu sou assim! eu sou assim!. Da próxima vez em que você assistir um filme do diretor italiano, preste atenção na louca que estiver nele. Talvez ela seja a chave para entender a busca de Fellini pela verdade através da mentira.

Originalmente publicado no caderno Augusto,
do Jornal da Paraíba, em 22 de janeiro de 2006

 
Postado em 19 de janeiro de 2006, quinta

:: O Grande Irmão zela por ti

Férias servem para você apreciar coisas novas. O Big Brother, por exemplo. Não falo daquele desfile de peitos, bundas, abdomens malhados e bíceps que discutem abertamente quanto cobrarão das revistas de nus para deixarem fotografar o que todo mundo já viu. Falo do verdadeiro Big Brother. O de George Orwell, em 1984.

Mais uma vez me arrasto na leitura por não ter a mínima vontade de largar o livro. A edição que estou lendo é de 1976. Foi pinçada da biblioteca de meus sogros, em Campina Grande, onde, há quase dois meses, cumpro exílio voluntário.

A idéia do Big Brother, o da tevê, como todos sabem, saiu do livro de Orwell. E como devem ter lido por aí desde a primeira versão do programa no Brasil, em 2001, pouco tem do Grande Irmão do livro além da linha principal de vigilância constante.

No entanto, vendo toda a manipulação feita pela produção do programa – a começar pela escolha dos participantes descerebrados –, acredito que existam mais semelhanças. Não tive dúvidas quando cheguei à leitura do seguinte diálogo:

- Escuta. Quanto mais homens tiveste, mais te quero. Compreendes?
- Perfeitamente.
- Odeio a pureza, odeio a virtude. Não quero que exista virtude alguma, em parte nenhuma. Quero que todos sejam corruptos até os ossos.
- Então eu sirvo, querido. Sou corrupta até os ossos.
- Gostas de fazer isto? Não me refiro a mim, somente. Gosta da coisa em si?
- Adoro!

É a perfeita representação dos animais enjaulados no programa. Esta sim é a verdadeira Revolução dos Bichos!

* * *

O Grande Irmão também zela por mim.

Onde quer que eu vá, sempre visito sebos. Gosto das cidades pequenas e com certa idade. Aqui e ali encontram-se coisas boas e baratas. Aqui, encontrei dois livros de David Nasser que ainda não possuía. Um deles custou apenas 5 reais! E ainda encontrei uma banca com algumas poucas edições de O Cruzeiro e de quebra uma de Manchete. Comprei por 4 reais cada. Normalmente custariam pelo menos 15 reais, vendidas assim no varejo.

Mas surpresa mesmo foi encontrar fotos-postais de Natal, Recife, Rio e São Paulo dos anos 50 nas fotos de Seu Farias e Dona Terezinha, bisavós de meu filho Pietro. Material de primeira para o Memória Viva que, pelo quarto ano consecutivo, está novamente entre os melhores do país apontados pelo iBest. Está no Top 10 nas categorias Arte & Cultura (da qual foi vencedor em 2005) e na Regional RN.

E a hora de votar é essa. Clique aqui e dê seu voto. É rápido, indolor e rápido como a leitura deste parágrafo.

 
Postado em 2 de janeiro de 2006, terça

:: O jardineiro aprendiz

Cada vez mais, as comemorações de final de ano fazem menos sentido para mim. Para início de conversa, não sou cristão e os ditos que vejo por aí fazem tudo no Natal, menos celebrar o nascimento de Jesus. Aliás, nunca entendi porque se comemora o nascimento de Jesus nessa época se a Bíblia diz que Ele nasceu na Primavera e, até onde eu saiba, em dezembro não é Primavera em nenhum lugar do planeta. Quanto ao réveillon, neste só não estava dormindo como meus filhos e minha esposa porque às 23h começou a ser exibido, na tevê, um filme que eu queria assistir. Festival de fogos? Poupe-me. Só mesmo o da Zona Sul do Rio presta e mesmo assim eu acho insano ficar olhando para o alto em meio a todo aquele barulho.

Pela manhã, eu fazia a mesma pergunta que sempre faço no primeiro de janeiro: qual livro seria o primeiro do ano? Queria começar com algum livro budista, mas nos últimos dias comprei três sobre Nietzsche e meus dedos andam coçando por eles. Mas o escolhido – ou imposto por minha esposa – foi O veredicto, de Kafka, o que me levou imediatamente à pergunta qual será o segundo livro do ano?, já que esse é coisa para uma deitada de rede.

Resolvi, então, meditar. Mas de uma forma diferente. Diferente para mim. Meditaria enquanto limpava o jardim. A idéia inicial era a de fazer uma limpeza interna enquanto promovia a limpeza do jardim. Podar, juntar folhas mortas, descobrir aquelas que caíram em cantos esquecidos e estão lá há meses ou anos, aparar pontas que pudessem machucar, deixar tudo limpo, em cores vivas e em harmonia.

Mas a meditação atingiu outras áreas não previamente imaginadas. Primeiro foram as formas de vida que fui encontrando. Pequenas aranhas, formigas, marimbondos, minhocas… Será que todos comemoraram o réveillon? Pareciam tão ativos. Nenhum sinal de ressaca. Todos tocando suas vidas, lenta e rotineiramente. Imaginei o que representaria aquele jardim para cada uma delas. Um bairro, uma cidade, todo o mundo que conheciam. Ou só mais um jardim para aqueles marimbondos que podiam voar para onde quisessem.

Já no final do trabalho, espetei o dedo em uma planta, o que me valeu uma espécie de alergia que deixou boa parte do meu antebraço irritado e bastante inchado. E eu curti isso. Curti o poder daquela plantinha e a reação do meu organismo contra seu veneno. Incrível como algo aparentemente inofensivo pode causar dor em uma criatura tão maior que ela. E eu, como plantinha, o que posso causar ao que me parece gigantesco? O que mais aquela plantinha poderia me ensinar?

O trabalho de jardinagem também me fez perceber que o todo fica mais bonito e harmonioso quando as pequenas coisas estão em seu lugar. O jardim ficou mais claro, mais vivo. Para isso, tudo que precisei fazer foi tirar o que não era mais necessário para ele. Apenas isso. O jardineiro manteve seu emprego e eu ganhei o dia.

 
 
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