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Pecados de Cassandra

Identificação.
Essa é a palavra-chave para o sucesso
de um livro ou, pelo menos, para uma leitura
agradável. O tema, a história,
o personagem... o leitor precisa se identificar
com algo para que sua atenção
fique presa ali. Não consigo essa mágica
quando leio Cassandra Rios.
Ela
foi um sucesso como escritora. Já havia
vendido mais de um milhão de
exemplares quando estava na casa
dos 30 títulos lançados. Chegou
a lançar 52 títulos,
alguns com dezenas de edições.
Foi a escritora mais censurada, mais
perseguida, mais proibida (36 livros)
na História literária brasileira.
Desde
A volúpia do pecado,
seu primeiro livro, lançado em 1948,
quando tinha apenas 16 anos, Cassandra causou
polêmica. Sua páginas contam
o amor entre duas jovens mulheres (Lyeth e
Irez). A maioria de suas histórias
tem homossexualismo ou algum tipo de “amor
menos ortodoxo”.
São inúmeros os depoimentos,
de homens e mulheres, que “descobriram-se”
(entenda-se “perceberam-se
homossexuais”)
lendo Cassandra Rios. A papisa do
homossexualismo – um de seus
muitos títulos – também
me fez descobrir algo. Eu, que sempre assumi
ser um homem com uma alma feminina
lésbica, ao ler Cassandra
percebi que sou lésbico, sim, mas com
alma masculina!
Em
seus poucos livros que li até o momento,
fiquei surpreso com o amor meloso, pueril,
“princesinha”
de algumas personagens lésbicas. Absolutamente
nada contra. Até acho mais interessante
assim. Mas é justamente aí que
reside minha não-identificação.
Definitivamente, apesar de lésbico,
eu amo como homem.
É
claro que o público de Cassandra nunca
foi exclusivamente de homossexuais. E creio
que suas histórias causassem curiosidade
e furor numa época em que abordar tais
temas soasse como algo realmente proibido.
Talvez por isso não se mais fale a
seu respeito nos dias de hoje e ela tenha
se transformado em ícone cultuado somente
pela tribo que cantou.
Comecei
a ler Cassandra de forma errada. O primeiro
livro que li foi o último que ela escreveu
(apesar de planos, não tenho informações
de que tenha publicado outros depois dele),
a autobiografia Mezzamaro, Flores
e Cassis. Ali está uma
Cassandra em seus últimos anos, já
com câncer, mais desabafando que contando
histórias sobre sua vida. Não
meio amarga. Muito amarga. Como em todas as
suas entrevistas.
Toda
essa mágoa parece ter nascido da perseguição
que ela sofreu durante toda a vida e nunca
digeriu plenamente. Indo um pouco mais fundo,
parece-me que essa perseguição,
essa censura, não
foi em relação aos seus livros,
mas sim à sua própria
sexualidade. A escritora que ajudou
milhares de pessoas a se aceitarem, parece
nunca ter vivido em paz com seus próprios
desejos. Tinha grande admiração
pela mãe, seus admitidos relacionamentos
com homens nunca foram ostensivos (o que lhe
daria certa tranqüilidade para sustentar
que “ela
era uma coisa e sua obra outra”),
não teve filhos, sempre se esquivou
de falar sobre sua questionada homossexualidade
e, nos últimos anos de vida, fez um
voto de castidade.
Quais
eram os “pecados”
que Cassandra carregava? Por que,
tão revolucionária no papel,
não conseguiu revolucionar sua própria
vida? Por que tanta amargura? “Pelo
amor de Deus, gente! Eu não tenho nada
a ver com as estórias dos meus livros,
eu só os escrevo! Invento!”,
gritaria ela agora. E eu a respeito. Não
discuto a sexualidade de quem quer que seja,
só exponho aqui este tema por
dois motivos: primeiro porque Cassandra
merecia ter sido (muito mais) feliz; e segundo
porque me compadeço por seu sofrimento
e pelo de vários amigos – homens
e mulheres – que nos dias de hoje ainda
sofrem, como os personagens de Cassandra,
pela hipocrisia, pela intolerância,
pelo preconceito de pessoas que se preocupam
com a vida dos outros em vez de tomar conta
das suas.
Talvez
minha não-identificação
seja não somente pela sexualidade mas
também pelo fato de que não
consigo ver nada anormal nas histórias
daqueles personagens. São apenas pessoas
que querem ser felizes, buscando aceitação.
Quem não faz isso?
Essa
minha alma bruta que Cassandra revelou
está em dívida com a escritora.
Eudemônia,
Georgette, A
breve história de Fábia,
A serpente e a flor,
As mulheres dos cabelos de metal,
Minha metempsicose
e tantos outros não vão ficar
ali na estante como meros troféus de
colecionador tarado. Gostando ou não,
darei a eles a merecida atenção
solicitada por quem os escreveu.
Fique
em paz, Cassandra. Sua obra a absolveu de
qualquer pecado.