Postado em 26 de agosto de 2007, domingo

:: Pecados de Cassandra

Identificação. Essa é a palavra-chave para o sucesso de um livro ou, pelo menos, para uma leitura agradável. O tema, a história, o personagem... o leitor precisa se identificar com algo para que sua atenção fique presa ali. Não consigo essa mágica quando leio Cassandra Rios.

Ela foi um sucesso como escritora. Já havia vendido mais de um milhão de exemplares quando estava na casa dos 30 títulos lançados. Chegou a lançar 52 títulos, alguns com dezenas de edições. Foi a escritora mais censurada, mais perseguida, mais proibida (36 livros) na História literária brasileira.

Desde A volúpia do pecado, seu primeiro livro, lançado em 1948, quando tinha apenas 16 anos, Cassandra causou polêmica. Sua páginas contam o amor entre duas jovens mulheres (Lyeth e Irez). A maioria de suas histórias tem homossexualismo ou algum tipo de amor menos ortodoxo. São inúmeros os depoimentos, de homens e mulheres, que descobriram-se (entenda-se perceberam-se homossexuais) lendo Cassandra Rios. A papisa do homossexualismo – um de seus muitos títulos – também me fez descobrir algo. Eu, que sempre assumi ser um homem com uma alma feminina lésbica, ao ler Cassandra percebi que sou lésbico, sim, mas com alma masculina!

Em seus poucos livros que li até o momento, fiquei surpreso com o amor meloso, pueril, princesinha de algumas personagens lésbicas. Absolutamente nada contra. Até acho mais interessante assim. Mas é justamente aí que reside minha não-identificação. Definitivamente, apesar de lésbico, eu amo como homem.

É claro que o público de Cassandra nunca foi exclusivamente de homossexuais. E creio que suas histórias causassem curiosidade e furor numa época em que abordar tais temas soasse como algo realmente proibido. Talvez por isso não se mais fale a seu respeito nos dias de hoje e ela tenha se transformado em ícone cultuado somente pela tribo que cantou.

Comecei a ler Cassandra de forma errada. O primeiro livro que li foi o último que ela escreveu (apesar de planos, não tenho informações de que tenha publicado outros depois dele), a autobiografia Mezzamaro, Flores e Cassis. Ali está uma Cassandra em seus últimos anos, já com câncer, mais desabafando que contando histórias sobre sua vida. Não meio amarga. Muito amarga. Como em todas as suas entrevistas.

Toda essa mágoa parece ter nascido da perseguição que ela sofreu durante toda a vida e nunca digeriu plenamente. Indo um pouco mais fundo, parece-me que essa perseguição, essa censura, não foi em relação aos seus livros, mas sim à sua própria sexualidade. A escritora que ajudou milhares de pessoas a se aceitarem, parece nunca ter vivido em paz com seus próprios desejos. Tinha grande admiração pela mãe, seus admitidos relacionamentos com homens nunca foram ostensivos (o que lhe daria certa tranqüilidade para sustentar que ela era uma coisa e sua obra outra), não teve filhos, sempre se esquivou de falar sobre sua questionada homossexualidade e, nos últimos anos de vida, fez um voto de castidade.

Quais eram os pecados que Cassandra carregava? Por que, tão revolucionária no papel, não conseguiu revolucionar sua própria vida? Por que tanta amargura? Pelo amor de Deus, gente! Eu não tenho nada a ver com as estórias dos meus livros, eu só os escrevo! Invento!, gritaria ela agora. E eu a respeito. Não discuto a sexualidade de quem quer que seja, só exponho aqui este tema por dois motivos: primeiro porque Cassandra merecia ter sido (muito mais) feliz; e segundo porque me compadeço por seu sofrimento e pelo de vários amigos – homens e mulheres – que nos dias de hoje ainda sofrem, como os personagens de Cassandra, pela hipocrisia, pela intolerância, pelo preconceito de pessoas que se preocupam com a vida dos outros em vez de tomar conta das suas.

Talvez minha não-identificação seja não somente pela sexualidade mas também pelo fato de que não consigo ver nada anormal nas histórias daqueles personagens. São apenas pessoas que querem ser felizes, buscando aceitação. Quem não faz isso?

Essa minha alma bruta que Cassandra revelou está em dívida com a escritora. Eudemônia, Georgette, A breve história de Fábia, A serpente e a flor, As mulheres dos cabelos de metal, Minha metempsicose e tantos outros não vão ficar ali na estante como meros troféus de colecionador tarado. Gostando ou não, darei a eles a merecida atenção solicitada por quem os escreveu.

Fique em paz, Cassandra. Sua obra a absolveu de qualquer pecado.

 
Postado em 24 de agosto de 2007, sexta

:: Maldição no Marabá

Morreu Marabá. E foi épico. Fechou as portas o último cinema de rua da capital paulistana. O único que ainda não havia virado um antro de sacanagem como cinema pornô ou igreja evangélica.

A maldição do Multiplex atingiu o Marabá. Suas cerca de oitocentas poltronas desaparecerão para dar lugar a cinco salinhas. Não veremos mais os grandes painéis pintados anunciando o filme. Não teremos mais aquela tela enorme.

A primeira vez que entrei no Marabá foi no final dos anos 90. Assisti Arquivo X numa sessão que terminou depois da meia-noite. Menos de seis expectadores. Um lanterninha jogando a luz em cada um para ver se alguém estava se masturbando para algum extraterrestre ou para a Dana Scully. A última vez foi em outubro do ano passado, numa tarde, para assistir Maldição. Fotografei o amplo salão térreo pois sabia que poderia ser minha última oportunidade de fazer isso. E foi. Morreu Marabá.

Agora o último bastião das grandes salas do país, o último cinema de verdade, é o Cine Brasília. Quando ele não mais acender a luz mágica de seu projetor, será o sinal de que devo abrir meu próprio cinema. Apontar o projetor para a igreja, para os prédios da praça e lembrar a todos que a magia está dentro de nós. E nunca morrerá.

 
Postado em 6 de agosto de 2007, segunda

:: Meu mel, não diga adeus

Se a melodia veio à sua cabeça assim que leu o título, então você deve ter mais de 35 anos. Deve lembrar também daquela voz feminina que invadiu as rádios em 1987 com essa açucarada (não resisti!) canção que dizia Meu mel não diga adeus/ eu tenho tanto medo/ de ficar sem o seu amor/ e pra sempre ser um ser só.

Em 1987, eu estava ouvindo Que país é este?, da Legião Urbana; Codinome Beija-flor, de Cazuza; e Um certo Alguém, de Lulu Santos, mas era impossível não ouvir também as onipresentes Meu Mel, de Markinhos Moura e O amor e o poder, da bochechuda e também meteórica Rosana.

Markinhos Moura. Era ele o cantor de voz feminina que, não obstante seu jeito também efeminado, encantou a mulherada com este e outro sucesso: Anjo azul. E sumiu. Para mim, pelo menos até sábado passado quando, surpreso, ouvi anunciarem seu nome dentre os atores da peça O amor venceu, baseada em livro homônimo de Zíbia Gaspareto e que vem sendo encenada há doze anos.

Ali no teatro, poucos devem ter percebido isso. O sucesso de Meu Mel, que levou Markinhos a se apresentar nos Estados Unidos, China e Japão parecia ter sido totalmente esquecido pelo público classe média de Campina Grande. Mas foi só ele chegar em uma pizzaria que os populares ficaram em polvorosa. Sim, o povo é fiel aos seus ídolos. Que ator, que nada! Markinhos Moura é cantor. E tem seus admiradores até hoje.

Do alto de minha arrogância de pequeno burguês, fiz apenas um comentário ao final da melosa (não resisti de novo!) peça: O único ator de verdade é o que faz tal personagem. Do alto de minha ignorância de pequeno burguês, só no dia seguinte, quando a trupe já estava a caminho de João Pessoa, fui descobrir que o tal era Clery Cunha, diretor, dentre outros filmes, de Joelma – 23º Andar. Se eu tivesse a fiel memória dos simples teria ido trocar idéias esclarecedoras com ele.

Quanto à peça, incomodou-me mais a falta de preparo do público – que acha que tudo em um palco é comédia – que a dos atores. Mas isso é tema para outro texto.

 
 
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