| Postado
em 29 de agosto de 2006, terça |
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O imortal e incomparável Pasquim

Tá
lá o corpo estendido no chão.
Sobre centenas de exemplares de O
Pasquim. Deu
na Folha. Bomba! Bomba! Bomba! Rato
Sig, urgente! Direto da capital da República
das Bananas.
Gabriela
Longman deu o furo! Oops! Furo jornalístico.
Desculpe, Gabriela, é toda essa intensa
leitura d’ O Pasquim.
E
o furo sai logo em um jornal paulista! Alguém
percebeu a ironia? O Pasquim, carioquíssimo,
sempre cutucou os paulistas com vara curta.
Tudo começou na décima edição,
no final de agosto de 1969, com o artigo São
Paulo, meu amor, de Tarso
de Castro. Pronto! As provocações
e troca de farpas durariam por mais vinte anos.
São
Paulo nunca parou de reagir a’ O Pasquim.
Só que agora reagiu muito bem. Deu a
notícia antes dos jornais cariocas. Meus
conterrâneos devem estar na praia jogando
frescobol com o Millôr...
Verdade
seja dita: a imprensa carioca
sempre tratou bem o Memória
Viva. Desde uma ótima
matéria na revista Domingo,
do Jornal do Brasil,
em 2003, até uma recente nota de Ancelmo
Gois, o colunista mais lido do país,
em O Globo.
E
agora não tem mais segredo: está
vindo aí, em setembro,
um site totalmente dedicado a’ O Pasquim.
A coleção completa do jornal,
doada
pelo mineiro Rogério
“Saddam” Gomes, em abril
deste ano, não poderia só ficar
guardada. As informações de todos
os exemplares estão sendo catalogadas
e farão parte de um grande banco de dados
que poderá ser consultado pela Internet.
Você vai colocar um nome ou assunto e
o sistema vai informar em quais edições
aquela pessoa ou aquele tema foi abordado. Nunca
mais receberei um e-mail perguntando:
“Você
sabe quando foi que saiu aquela entrevista com
a Leila Diniz?”
Nem precisarei responder: “Compre
o primeiro volume da Antologia de O Pasquim
que está lá.”
Tudo isso graças à genialidade
de outros dois modestos cariocas:
eu e José
Luiz Coe, o (ir)responsável
pelo banco de dados. Ou você acha que
o site, assim como o jornal, não manteria
a tradição de gênios
mal remunerados que resolvem meter
as caras e fazer o mundo girar por conta própria?
Além
da pesquisa, existirão áreas totalmente
dedicadas aos colaboradores d’ O Pasquim.
Ziraldo, Henfil,
Fortuna e Luiz Carlos
Maciel já estão confirmados.
Até a estréia do site, creio que
Millôr e Jaguar
também estarão.
Resumindo:
o jornal mais irreverente da imprensa brasileira
não morre nunca e o site facilitará
muito as pesquisas que são feitas a respeito
dele.
Agora
é só esperar um pouquinho mais.
É em setembro...
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| Postado
em 26 de agosto de 2006, sábado |
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Para não dizer que não falei de
Brasília
(Nem
bem, nem mal. Só o essencial)
A
gente vê cada uma! Cada uma verdade! Esse
excerto de duas páginas de parceria entre
Jaguar e Hugo Bidet,
que analisam, de forma radical e politicamente
incorreta (quando isso nem existia), a “lei
de conversão nacional”,
sugere uma Brasília
que, na coletividade, é uma das
piores formas de marasmo de que já
se ouviu falar.
Brasília
é um excelente lugar para muitas coisas.
Para quem quer largar a vida boêmia,
por exemplo. Em Brasília, cura-se alcoolismo
mais rápido do que se vira gente ao ser
aprovado em concurso público. E depois
de passar, você que já abandonou
o álcool, vai para os barbitúricos,
indicados pelo seu psicanalista.
Há
todo um cronograma a se respeitar na brasiliensização
de um ser humano. Você chega toda humilde,
vindo de sua cidade, para estudar ou fazer concurso.
Vai morar em uma cidade satélite ou num
quarto sem banheiro no Plano Piloto. Ou numa
república. Faz vários concursos.
Faz cursinho. Faz mais concursos. Faz mais cursinhos.
Faz outros concursos. Passa. Diz pra todo mundo
que passou em primeiro lugar.
E no primeiro concurso que fez. Que passou em
outro também, mas escolheu o que oferecia
maior salário. Você compra um carro
zero com quatro portas e vai morar no Sudoeste.
Compra o apartamento. Você tem um ótimo
salário para comprar um carrinho legal,
não fazer mais contas e viver na boa.
Mas você compra um carrão, compra
um apartamento de 50 metros quadrados
por duzentos mil reais, se casa, compra
outro carro para a esposa. Topos os opcionais.
Você só sai com os colegas de trabalho
e só fala de trabalho. Toma dois chopes
em um lugar caro, puxa um de seus cartões
de crédito, reclama, discute, refaz as
contas para saber quanto é a
parte que lhe cabe naquele chopefúndio.
Em certas ocasiões, pede vinho. Tinto,
lógico. E bebe como se fosse refrigerante.
Lógico também. Para acompanhar,
tomate seco. Sempre tomate seco. Ah, já
ia esquecendo: aparelho nos dentes.
Trinta, quarenta anos na cara e aquele sorriso
metálico de adolescente.
Pronto.
Estabelecido e morto. Que saudades dos botecos
dos tempos da faculdade, hein? De nunca ter
dinheiro pra cerveja. De pendurar sempre. De
conhecer Deus, o diabo e até a Terra
do Sol. De uma cidade normal. Com pessoas.
Não,
não estou falando mal
de Brasília. Estou falando o
óbvio. Brasília é
o túmulo do bem viver, do “se
relacionar”.
Uma cidade sem esquinas, onde não acontecem
encontros. Onde não há um boteco
para você encostar no balcão, tomar
uma, conversar com o brevemente já ex-desconhecido
ao lado, lançar um olhar comprido para
aquela menina, coisa mais linda, mais cheia
de graça, que vem e que passa num doce
balanço a caminho do mar.
O
mesmo Jaguar, que em 69 já dizia que
uma reunião de brasilienses era uma monotonia
desgraçada, foi notícia
de primeira página nos jornais locais
quando disse que Brasília não
tinha vida boêmia. E agora é
proibido dizer a verdade? Onde já
se viu correr para casa às dez da noite
quando, em uma cidade normal, a esta hora nem
começamos a nos aprontar para sair? E
ache um lugar aberto às duas da manhã
nessa cidade! Ache que eu pago o chope.
Brasília
é uma cidade de guetos.
Guetos burocráticos. Vive-se de forma
burocrática, totalmente voltado para
se manter o status quo. Quem são
os meus semelhantes? Os que trabalham comigo
e sei que ganham como eu. Existe vida
além?
Eu
gosto da cidade. Gosto dos grandes monumentos.
Gosto do ar de mundo civilizado. Só o
ar. São caboclos querendo ser ingleses,
como diria o Caju.
Acho
que já começo a me despedir. Quando
estive em Brasília pela primeira vez,
há quinze anos, disse que poderia morar
aqui por uns seis anos sem reclamar. Já
vou em cinco. Antes de correr mais riscos, vou
apontar a bússola para algum lugar onde
possa não só morar, mas viver.
Um
brinde ao velho Jaguar!
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| Postado
em 24 de agosto de 2006, quinta |
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Meus mundos caíram

Plutão
não é mais planeta. O mundo não
é mais o mesmo. Aliás, o Universo
não é mais o mesmo. Ou pelo menos
o nosso sistema solar. Já já dizem
que esse papo de planetas girando ao redor do
Sol é balela. Com nosso galopante umbiguismo,
por esses dias anunciam que a Terra é
o centro de tudo e todo o Universo gira ao redor
dela.
Cada
vez que anúncios ou decisões desse
tipo surgem, percebo mais semelhanças
entre ciência e religião. Ciência
também é uma questão de
fé. Você acredita até o
papa de determinado assunto reunir um concílio
de sábios e mudar tudo.
E
como fica a Astrologia? Quem regerá
Escorpião agora? Quem representará
o impulso destruidor e reformador de Plutão?
Quem regerá os sistemas reprodutor e
excretor, o crescimento das verrugas, dos tumores,
das marcas de nascimento? Quem governará
as massas, a subversão, o poder atômico,
os crimes?! Ah, a resposta
para esse último nós já
sabemos. Foi só ameaçar Plutão
e olha no que deu: PCC, sanguessugas... Imagina
agora que limaram o planetinha do sistema!
Quem
regerá as fobias e as obsessões?
O crescimento lento, os fatores grupais, os
começos e os fins, a morte e o renascimento,
o seqüestro (o PCC, já sei!), as
bactérias e os vírus? Quem governará
as ditaduras (olha o Fidel
morrendo!) e as causas populares?
O
posicionamento de Plutão no mapa astral
mostra onde encontraremos a complexidade, onde
devemos resolver os problemas sozinhos
e sem ajuda. No meu, por exemplo, ele
está na démima primeira casa,
que mostra a capacidade de se ter amigos e a
atitude em relação a eles (não
fujam, amigos!). Também indica os objetivos
e o que mais se deseja na vida (mas logo agora
que eu estava acreditando ter encontrado o caminho?!).
E meus interesses humanitários? Como
ficam? E agora, quem poderá me
defender?
Os
Thundercats. O que os Thundercats têm
com isso? Vamos chamá-los para restaurar
a honra e o reino de Plutão? Não.
É que outra terrível notícia
chega junto com a injusta demissão do
pequeno planeta. Os Thundercats podem ganhar
novas aventuras na tevê. Que ótimo,
não? Não. Boatos (boatos não
são notícias) dão conta
de que será uma versão infantilóide
- ou teenlóide - totalmente
modificada.
A
ação deverá se passar aqui
na Terra, em uma grande cidade (americana, claro!).
Snarf será o líder!
Todos serão adolescentes!! O Olho
de Thundera não será
mais exclusividade da Espada Justiceira do Lion-O!!!
Mumm-Ra (não confundir
com o recente personagem turco interpretado
por Lima Duarte) terá
asas!!!! E quando não estiverem quebrando
o pau, eles serão uma banda de rock!!!!!
Emo, provavelmente.
O
pior de tudo... fico me perguntando como ficará
a Cheetara nessa história.
Você, homem na casa dos 30 que está
lendo isso, não vá me dizer que
nunca teve desejos inconfessáveis por
aquela gata! Cheetara foi um dos ícones
sexuais da minha adolescência. Se não
fosse seu poder de super velocidade, eu teria
corrido atrás dela. E nem venha dizer
que sou doente ou tarado. Descompensados são
os desenhistas que colocam em nossa cabeça
essas coisas. Se você só via os
desenhos de tevê e não achava a
Cheetara assim tão sensual, então
dá uma olhadinha na capa da revista americana
dos Thundercats aí ao lado.
A
visão dessa terrível versão
está muito além do meu alcance.
Se quiser matar as saudades, clique
aqui e veja a abertura dos desenhos
que começaram a ser exibidos no Brasil
em 1986.
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| Postado
em 20 de agosto de 2006, domingo |
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Eu, vítima dos editores
Não
é segredo para ninguém que na
última década me afastei do “jornalismo
convencional”
ou do “jornalismo
das redações”.
Também não é segredo que
sou um terrível crítico do “jornalismo
fast food”
tão em voga nos dias atuais. Sempre
preferi o compromisso com a verdade dos bons
historiadores. Mas por “arianismo”
e por força da profissão, costumo
trabalhar mais rápido que estes. Poderia
então me definir como um “historiador
diletante com tempo de jornalista”.
Uma
das principais funções que ocupei,
em impressos e na Internet, foi a de editor.
Não estou falando de um cargo de chefia.
Refiro-me ao “trabalho
braçal”
do editor: arrumar tudo, cortar para caber,
deixar o texto inteligível, etc. E sempre
procurei ser muito cuidadoso com esse trabalho.
Se, por acaso, não entendo algo em um
texto, peço a quem escreveu que me esclareça.
Não vou cortando ou modificando como
se a pessoa fosse uma incapaz ou um analfabeto.
Ainda que.
Mas
quase nunca recebo o mesmo tratamento. Uma vez,
em matéria de página inteira para
o Jornal do Brasil, tive um texto amputado
que me fez passar por idiota para quem o leu
em Natal. O texto dizia o seguinte: “O
Museu Casa de Café Filho está
instalado no Sobradinho ou ‘Véu
de noiva’,
na Cidade Alta, bairro que concentra a maior
parte das casas culturais e de preservação
de memória de Natal”.
Com a edição, Sobradinho ficou
parecendo o bairro e Cidade Alta o
município onde estaria o referido Memorial.
Em
outra terrível ocasião, que nem
vale a pena entrar em detalhes, um gênio
mexeu em várias partes de um artigo assinado
por mim. Tive que me apressar em colocar o texto
original na Internet e me desculpar, pela genialidade
do pseudo-editor, com as pessoas a quem fazia
referência. Mas o caso está tão
aquém de uma classificação
profissional que nem merece ser lembrado. Trata-se
de caso patológico.
Atualmente,
colaboro com algumas revistas e jornais do país.
Sempre envio os textos prontinhos, revisados,
revisados de novo, revisados outra vez, com
todos os estilos (itálico em
títulos de livros e palavras estrangeiras,
etc), chamo atenção para isso
e, quando sinto necessidade, aviso que “se
encontrar algo estranho e não tiver como
falar comigo, bota daquele jeito que eu
me responsabilizo por minha própria idiotice”.
O que eu detesto é passar por idiota
pela displicência ou pela arrogância
de terceiros.
Neste
domingo, fui vitimado mais uma vez. Nada grave.
Nem tive ganas de matar alguém. Mas começo
a achar que existe um complô contra mim,
que essas coisas só acontecem comigo.
O
jornal O Povo, de Fortaleza, publicou
um ótimo material sobre Câmara
Cascudo. Matéria, artigos, entrevista
com Vicente Serejo. Tudo ótimo.
Contribuí modestamente com o envio de
algumas imagens do acervo do Memória
Viva e com um textículo dando
conta do que andam fazendo com a obra e a memória
de Cascudo nos dias de hoje, passados vinte
anos de seu encantamento.
Tudo
bonitinho, mas para não quebrar o costume,
atropelaram meus escritos. O simplório
título Cascudo - A cada dia,
mais vivo se transformou em A
cada dia mais leve. Sei que a
situação está difícil,
que não é uma profissão
tão bem remunerada como os outros pensam,
mas viu no que dá fazer bico vendendo
Herbalife? Fica condicionado. Só pensa
em perder peso. Mas tudo bem. Meus amigos do
Ceará estão perdoados.
Com
vocês, o texto (com o título correto):
Cascudo
– A cada dia, mais vivo
Sandro
Fortunato
Republicação
de toda a obra, dicionário crítico,
edição especial de revista, um
dos maiores sites dedicados a uma personalidade
brasileira, blog com atualização
semanal (!), edição luxuosa de
Prelúdio da Cachaça pela
Confraria dos Bibliófilos do Brasil,
peça teatral com seu nome, duas semanas
de eventos dedicados aos seus 20 anos de encantamento...
Cascudo nunca esteve tão vivo.
Apesar
de seu conhecido provincianismo, das recusas
de fazer sucesso no Sul Maravilha, Cascudo foi
um desses raros brasileiros reconhecidos em
vida.
Pudera.
Entre livros, plaquetes, traduções,
anotações e trabalhos ainda inéditos,
foram quase duzentos títulos. Ninguém
estudou e publicou tanto sobre cultura brasileira.
E nem precisaria de tudo isso.
Vaqueiros
e Cantadores, Lendas brasileiras,
Contos tradicionais do Brasil, Meleagro,
Literatura oral no Brasil, Dicionário
do Folclore Brasileiro, Superstições
e Costumes, Made in África,
História da alimentação
no Brasil, Coisas que o povo diz,
Prelúdio da cachaça,
Locuções tradicionais no Brasil.
Doze títulos. Quem não os leu
ou não os consultou, não fez o
mínimo para se dizer estudioso de cultura
brasileira. Agora tente juntar outros doze títulos
essenciais e com a mesma qualidade utilizando-se
de todos os grandes autores e pesquisadores
do gênero. Difícil, não?
O
mais fascinante da curiosidade em torno de Cascudo
é que o foco está não em
sua vida, mas em sua obra. E não se trata
de obra literária hermética com
margem para estudos pseudo-intelectuais. É
um estudo histórico, de costumes, quase
sempre in loco. Cascudo foi um grande
repórter, na mais pura acepção
do termo.
Com
a licença de Afrânio Peixoto, sobre
Cascudo pode-se dizer que ensinou, escreveu
e tudo mais lhe aconteceu. E continuará
acontecendo. Ainda nem começamos a estudar
sua obra com o desvelo necessário.
Sandro
Fortunato é jornalista, editor
do site Memória
Viva
e “neto honorário”
de Cascudo.
Originalmente
publicado no caderno Vida & Arte,
do jornal O Povo, em 20 de agosto de
2006
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| Postado
em 13 de agosto de 2006, domingo |
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Fidel 80 anos
No
início deste ano, me bateu uma vontade
louca de ir a Cuba.
E só existia uma preocupação:
ir antes que Fidel morresse.
Mesmo que eu vá hoje, não sei
se isso ainda é possível.
Não
sei em qual dos dois porta-vozes devo acreditar.
Se no Lula, que disse que ele
está mal, ou no Chávez,
que disse que Fidel está firme e forte.
Nenhum inspira grande confiança.
Eu
gostaria de ter ido a Cuba logo após
a queda de Fulgêncio Batista
(quando eu ainda não havia nascido) e
agora. Queria ver com meus próprios olhos
no que se transformou a Ilha de Fidel, o que
restou do sonho romântico da revolução.
Não
há estudo que substitua essa experiência
pessoal. Se pudesse, seria eternamente um Repórter
Esso, testemunha ocular da
história. De todas as histórias.
Uma
dificuldade comum em pesquisas com periódicos
antigos é o entendimento das charges.
Você precisa estar muito inteirado do
tema para não só reconhecer os
personagens como a situação que
o desenho satiriza. Em se tratando de história
do Brasil, vou numa boa até os anos 1940.
Afastando-se mais – 1930, 1920... –,
a coisa já começa a complicar.
E se sair da História brasileira, nem
é preciso ir tão longe no tempo.
Por
esses dias, revirando o material que tenho de
Appe, me deparei com a charge
que ilustra este texto. É de 1962. Fiquei
louco por não reconhecer a figura montada
em Fidel. Em 1962, o presidente americano era
o Kennedy, que obviamente não
era o careca no cangote do cubano. O Eisenhower
já não tinha nada a ver. Quem
eram os ministros de Kennedy? Poderia ser algum
deles? Mas aqueles dentinhos... eu conheço
aqueles dentes tortos. As dúvidas me
consumindo a uma e meia da manhã. Liguei
o computador de novo, conectei, vi se Wilson
– meu comentador oficial e assessor especial
para assuntos históricos nos quais sou
completamente ignorante – estava conectado,
escaneei a imagem e enviei a ele.
“É
o Kruschev!”
Claro que é o Kruschev! Eu sabia que
aqueles dentes tortos não eram do Ronaldinho.
O premier russo, Nikita Kruschev, conduzindo
Fidel a uma experiência que hoje sabemos
no que deu.
Ou
não. Eu ainda quero ver com meus próprios
olhos.
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| Postado
em 10 de agosto de 2006, quinta |
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Rolling Stone ganha versão brasileira.
Como assim?!!

Leio
na Ilustrada, da Folha
de S. Paulo, nesta quinta, que
“a
edição brasileira da revista norte-americana
Rolling Stone deve
chegar às bancas em outubro”.
Como assim, Bial? Só se for a versão
brasileira A&C São Paulo, porque
a versão Herbert Richers, nasceu no Rio
de Janeiro, em 1972.
Muita
hora nessa calma. E um pouco de história.
A Rolling Stone foi fundada em San
Francisco, em 1967, por Jann Wenner
(ainda o editor) e o crítico de música
Ralph J. Gleason. Era muito
ligada à cultura hippie, mas era visivelmente
distante das publicações underground
da época. A Rolling Stone nasceu
para ser grande, adaptar-se, sobreviver e tornar-se
um ícone. E lá se vão mais
de mil edições e quase 40 anos.
A
revista ganhou uma versão brasileira
em 1972. Na capa da número
0, Gal Costa. Na número
1, Caetano. Os grandes ícones
mundiais da época também tinha
vez: Beatles, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim
Morrison... mas dividiam as glórias –
e as capas – com Rita Lee,
Jards Macalé, Tom
Jobim e Gonzagão.
Nada mais Rock’n’Roll do que o Rei
do Baião na capa da Rolling Stone.
A
experiência durou pouco e os interessados
pelo tema não dão, não
vendem, não trocam, não nada suas
coleções. E eu duvido
que essa outra Rolling Stone
brasileira repita o fetiche,
afinal, será lançada com uma tiragem
de 100 mil exemplares. Segundo está na
Ilustrada, isso é justificado
“pelos
editores da publicação pela ‘falta
de concorrência’”.
Com
isso, eu concordo. A RS não é
uma revista exclusivamente de música,
mas esse é seu carro-chefe. Para os trintões
saudosistas – como eu –
que passam as páginas da ressuscitada
Bizz
recitando o mantra “Ah,
como a Bizz era boa!”
e não engolem a adolescente Revista
da MTV, a RS brasileira poderia
ser uma salvação. Poderia. O editor
já foi da Revista da MTV e os
tempos hoje são outros. Com um retardo
empresarial de quatro décadas, a revista
aporta em um quintal cultural dos Estados Unidos.
Os teens vão adorar. Eu prefiro
Outracoisa.
Se
eu fosse dono do empreendimento, teria pelo
menos um nome certo para dar cara à versão
brasileira e seus prometidos 50% de conteúdo
produzido aqui: Luiz
Carlos Maciel. Se ele peitou
a empreitada em 1972, sem condições,
e fez o que fez, imagina agora com toda força
que a Rolling Stone pretende utilizar.
Meu voto vai para ele.
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| Postado
em 7 de agosto de 2006, segunda |
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Desculpe, Appe, eu demorei...
A
idéia foi lançada no final de
maio, em Campinas. João
Antônio me perguntou:
“Por
que você não escreve uma
biografia sobre o Appe?”
Uma idéia ótima. Excelente chargista
e artista plástico, Appe andava sumido
há décadas.
No
dia 5 de julho, recebi uma visita inesperada
aqui em Brasília. A recepcionista me
liga e diz que o “Sr.
Antônio”
estava querendo falar comigo. Sr. Antônio?
“Sr.
Antônio, do Rio”.
Mandei entrar. Enquanto me encaminhava para
a porta, fiquei pensando se não seria
o Accioly. Era ele mesmo. Antes de ir para o
aeroporto e retornar ao Rio, resolveu passar
para dar um alô. Antônio
é filho de Accioly Netto, diretor
de redação da revista O
Cruzeiro por quase
40 anos. Aproveitei para perguntar se tinha
notícias do Appe.
“Salvo
engano, acho que Appe morreu há uns quinze
dias”,
disse ele.
Eu
não podia acreditar. Ele disse que não
tinha certeza, pois estava viajando e tinha
visto algo no Globo Online sobre a
morte de um desenhista de O Cruzeiro.
Fui procurar. Foi o Fritz Granado
que havia morrido. Morreu no dia 26 de junho.
Granado foi o último desenhista do Amigo
da Onça nos últimos anos
da revista.
Na
semana seguinte, falando com Ziraldo
ao telefone, perguntei por Appe. Disse que há
alguns anos não tinha contato com ele,
que devia estar morando em Teresópolis.
Passou um telefone. Liguei. Uma mensagem dizia
para consultar a lista. A companhia telefônica
não soube dar um novo número.
Liguei
para Jal,
cartunista e senhor de todos os números
dos artistas gráficos do país.
O número que tinha era o mesmo. Pedi
que ficasse alerta, que me passasse qualquer
informação. No dia seguinte, liguei
para todos os Pedrosa que moravam em
Teresópolis. Mais de quarenta. Nada.
Nenhum era parente do Appe. Nenhum sabia quem
ele era.
Liguei
para os colegas jornalistas de Teresópolis.
Wanderley Peres, editor de
O Diário de Teresópolis,
prometeu ajudar. Pediu três ou quatro
dias. No final do prazo, me ofereceu um espaço
no jornal. Algo do tipo “Por
onde anda Appe?”.
Muito agradecido, fiquei de enviar.
Passado
um mês, Appe não saiu de minha
cabeça um único dia. Falei com
colegas do Jornal do Brasil, da Folha
de S. Paulo... Qualquer notícia
seria bem-vinda.
Menos
a que o Jal me deu na noite de segunda.
Amilde
Pedrosa, o Appe, morreu na sexta, 4
de agosto, aos 86 anos. Tinha a mesma idade
e morreu no dia do aniversário de meu
avô Moacyr. Estava morando em
São Pedro da Aldeia.
Desculpe,
Appe, eu demorei. Prometo me empenhar mais em
meu ofício. Ser mais rápido e
competente. Como seus traços.
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| Postado
em 1º de agosto de 2006, terça |
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Da série "Anúncios premonitórios"
- Varig - 1969
Anúncios
da Varig nas primeiras edições
de O Pasquim, em 1969.
Será que daria para usar hoje?
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