Postado em 28 de fevereiro de 2007, quarta

:: Mendigos profissionais e o trabalho de Sísifo

Nas duas últimas semanas, tive três encontros com policiais. Os dois últimos com uma diferença de apenas 48 horas. E fui eu quem os chamou.

No Plano Piloto, em Brasília, um chamado policial, às vezes, é atendido com eficiência americana. Os policiais chegam em até 3, 5 minutos após o chamado.

Na sexta de carnaval e na quinta-feira após a festa, tive que acionar a polícia. Um grupo de moradores de rua – para sermos politicamente corretos – estava acampado em frente à entrada do prédio onde moro. Eram pelo menos dez pessoas.

As mães, avós, babás e bebês, moradores da vizinhança, sumiram. Não se ouviam mais crianças por aqui. Ainda no horário de verão, as pessoas chegavam do trabalho com o dia ainda claro e se trancavam em suas casas.

À noite, os moradores de rua cheiram cola (ou mesmo dia, sem se incomodar se estão sendo vistos), mexem nos carros, falam alto durante horas logo abaixo das janelas dos apartamentos, brigam, fazem arruaça, fazem suas necessidades fisiológicas ao lado dos carros ou nas entradas dos prédios. Um deles vomitou a lateral do meu carro.

Enquanto isso, quem trabalha e tem família fica preso em casa.

Final de tarde. Chamo a polícia. Chegam em três minutos. Um camburão da Rocam e outra viatura. Oito policias, armamento pesado. Levanta. Abre as pernas. Fica quieto. Documento. Circulando. Pronto. Alguns dias de paz.

Infelizmente, é tudo que a polícia pode fazer. Vadiagem não dá mais cadeia. Se desse, a superlotação de delegacias e presídios como vemos hoje iria parecer a Disneylândia.

Os responsáveis pela assistência social do governo também não podem fazer grande coisa. No máximo, convidar as pessoas a sair das ruas e oferecer abrigo público. Mas não podem mantê-los lá. Afinal, lá eles ganham teto e comida. Não ganham dinheiro (pedindo ou roubando), não podem usar drogas, não podem ter relações sexuais, não podem fazer qualquer coisa que quiserem e a qualquer hora.

A polícia assusta, eles passam um tempo sem aparecer, escolhem outro local para ficar e o ciclo se reinicia: incomodam, alguém chama a polícia, levanta, abre as pernas... circulando...

Assim como se foi o tempo de se pegar cadeia por vadiagem, se foi também o tempo de ter pena. Se alguém ainda é ingênuo o suficiente para achar que dar um prato de comida ou um cobertor a esses tipos é ajudar, esse alguém pode tirar carteira de otário. São vagabundos profissionais e só querem alguém assim – com a alma caridosa – para se encostar e sugar até não mais poder. Ofereça um prato de comida em troca de trabalho e veja a resposta que terá.

No mesmo dia em que solicitei a força policial pela última vez – quem dera tenha sido mesmo a última! – um artigo na Folha de São Paulo falava sobre os bancos antimendigos instalados na Praça da República em São Paulo. Quem conhece, sabe que aquela praça é uma grande casa sem teto. E os novos bancos – com divisórias de ferro entre os assentos – só conseguiram fazer os mendigos mudarem de lugar. Se os passantes não podiam sentar porque os bancos serviam de cama, agora tropeçam nos mendigos que passam quase todo o tempo deitados no chão.

Trabalho de Sísifo . Não leva a uma solução e está condenado a repetir eternamente o mesmo processo.

Se temos um Estado incompetente, procuremos fazer nossa parte. Ninguém por aqui vai sair matando mendigos, mas, por favor, não incentive a mendicância como profissão. Não dê nada a eles além de oportunidades para que mudem de vida. Não dê nada, principalmente, a crianças. Essas, se você colaborar e ligar para a Secretaria de Assistência Social, podem ser retiradas das ruas e ter seus pais responsabilizados por deixarem menores nessas condições. Assim, talvez, elas aprendam que a rua não é lugar para se viver e não se transformem em mendigos profissionais.

Não se acovarde também. Não se tranque em casa esperando que aquelas pessoas saiam dali e você possa ter de volta o direito de transitar livremente. Elas vão ficar. Ligue para as autoridades. Não modifique seus hábitos. Não se torne insensível a sua condição de preso em sua própria casa. Não colabore com a perda de seus direitos mais básicos. Não perca sua capacidade de se revoltar.

Não espere, por milagre, acordar um dia e perceber que todos têm casa, comida e podem andar em segurança nas ruas. Se quiser um mundo assim, construa-o. Faça sua parte.

 
Postado em 26 de fevereiro de 2007, segunda

:: Adelaide, o Rei e o Homem do Baú

Este texto deveria começar com uma declaração recente de Elke Maravilha sobre Sílvio Santos. E falaria somente dele. Mas um juiz do Rio de Janeiro decidiu, na sexta passada, mandar recolher os exemplares de Roberto Carlos em detalhes, livro de Paulo César de Araújo, e eu não poderia deixar de encaixá-lo no tema inicial.

O título chegou às livrarias pouco antes do último Natal e já vendeu 60 mil exemplares. Alguns textos em grandes sites de vendas de livros chegaram a anunciá-lo como uma biografia oficial. As reclamações do Rei começaram ainda em dezembro e agora chegamos a essa decisão de prejuízo à honra. Aposto que isso será uma tremenda campanha a favor e que o livro – que custava R$ 40 quando do lançamento e hoje pode ser comprado por quase metade disso – vai vender pelo menos outros 60 mil exemplares rapidinho.

Acredito que ninguém tenha o direito de escrever sobre outra pessoa e ganhar dinheiro com isso sem sua autorização. A não ser que seja uma figura pública (o que é o caso) e o autor considere que o que ele pretende dizer seja realmente importante, que ele tenha certeza de que é verdade e tenha como provar isso. Ainda assim, é bom que esteja disposto a arcar com as conseqüências do que coloca no papel.

Paulo César é também autor do ótimo Eu não sou cachorro não. O livro sobre Roberto não tem absolutamente nada de desrespeitoso ou polêmico. Trata-se, sobretudo, de intensa pesquisa de material já publicado na imprensa. Por ética – ou até por receio – o autor evita, por exemplo, citar Nichollas Mariano, mordomo do cantor por mais de dez anos e que traiu duplamente sua confiança: ao usar uma antiga procuração para sacar dinheiro e ao publicar Eu e o Rei – Minha vida com Roberto Carlos.

O então já ex-mordomo, por conta própria, publicou o livro em 1977 e, como era de se esperar, caiu em desgraça. Em 1984, foi a vez de Adelaide Carraro dar voz – ou mais páginas – a Nicholas escrevendo Eu sou o Rei.

Parafraseando a chamada de capa do livro de Adelaide, estendo a pergunta – e a sugestão – aos outros dois livros: O que existe nesses livros de diabólico, horripilante e tétrico que eles não poderiam chegar até as suas mãos, caro leitor? É você quem vai julgar. Pegue-os e leia-os.

Eu digo que não há nada de mais neles. E por que o Rei tentou impedir a circulação deles? Porque tem esse direito. Ou – o que não creio ser necessário em seu caso – para causar polêmica e manter seu nome sob os holofotes. Tudo é possível. E tudo precisa ser visto com cuidado.

Paulo César não falou nada que já não tivesse sido dito. Só juntou tudo em um balaio (bem organizado, por sinal). Mas, em seu livro, há também vários erros de informação. Talvez pela pressa de chegar às livrarias no final do ano.

No livro de Adelaide, que costumava florear os fatos, também não havia qualquer novidade. A autora, quando não era a protagonista de seus livros, colocava-se sempre como um personagem que ouvia a história ou que, de alguma forma, participava dela. Nas últimas páginas de Eu sou o Rei, ela conta que o viu em pelo menos duas ocasiões. Em uma, descreve como uma garota arranca um chumaço dos cabelos do cantor. A escritora se pergunta sobre os motivos que levariam as garotas a fazer coisas desse tipo com tanto homem livre pela cidade. Sugere a solidão e a fantasia como causas para tal comportamento e diz ainda que a moça foi espancada com violência pelas guardas de seguranças do Rei. No segundo caso, conta ter visto uma situação em que alguém, na rua, insulta o cantor. Este desce do carro e agride uma outra pessoa. A escritora teria então gritado com o Rei – e assim, com uma lição de moral, termina o livro.

Na verdade, as duas histórias estão em uma matéria sobre Roberto Carlos na revista Realidade de novembro de 1968. O episódio da moça, que arrancou um chumaço de cabelos do cantor, e a tese sobre solidão – conseqüência da mediocridade na vida pequeno-burguesa – (...) gerar um mundo de fantasias erótico-sentimentais nessas moças são de autoria do repórter Roberto Freire. Oespancamento ficou por conta dos floreios de Adelaide. Já a história do murro é contada pelo próprio Roberto na mesma matéria. A lição de moral também é por conta de Adelaide.

Isso tudo é para lembrar que história oficial é a versão que prevaleceu. E o Rei sempre foi muito cuidadoso com a sua história.

Valendo-me de outro trecho do livro de Adelaide, lembro ainda que com o sucesso vêm os compromissos e os comprometimentos, vem a necessidade de manter a roda viva girando sem parar. Não sendo um mito vivo – e por isso mesmo não vivendo sua própria moral – é difícil avaliar o comportamento dessas pessoas que têm poder, dinheiro, que vêem o mundo girar ao seu redor mas não têm uma das dádivas mais preciosas que alguém pode ter: a liberdade para viver em paz.

Outro desses mitos vivos, também polêmico e muito cuidadoso com sua vida pessoal (e quem nem de longe quero fazer qualquer outra comparação com o Rei), é Sílvio Santos.

Na edição (nº 62) da revista TPM, que está nas bancas, Elke Maravilha, a jurada que mais dava nota 10, diz o seguinte do ex-patrão: Ele não é uma pessoa legal.

Sílvio também teve uma biografia não-autorizada lançada em 2000. A talbiografia não-autorizada foi insistentemente anunciada por comerciais em seu próprio canal de tevê. E a vida do camelô que hoje é o maior pagador (como pessoa física) de imposto de renda do país coube em menos de duzentas páginas. Dois anos depois teve nova edição – revista e ampliada – falando sobre o programa Casa dos Artistas, a homenagem que ele recebeu no Carnaval 2001 e sobre o episódio do seqüestro (de sua filha e depois dele mesmo ser mantido refém em sua casa).

Mas o livro Eu acuso, de Adelaide Carraro, que trabalhou para ele, nem chegou a sair. A versão mais branda diz que os originais foram comprados das mãos do editor e destruídos.

Adelaide teve vários livros censurados, proibidos de circular, recolhidos, mas esse, como dito, nem chegou a sair. Em entrevista ao jornal O Pasquim (2 a 8 de setembro de 1977), a escritora fala sobre o caso e sua bronca com o empresário. A partir da terceira edição de seu livro Gente – O dia em que fui presa, a patética entrevista é reproduzida. Sem as partes sobre Sílvio Santos. (veja os trechos cortados nas imagens abaixo)

Quem tem razão? Quem é dono da história? Quem tem direito em contá-la? Quem tem direito em impedir alguém que participou dela contá-la? O que é verdade e o que é versão? Quem pode julgar? Continuo apostando no bom senso de quem escreve e no julgamento de quem lê. Censura nunca é um bom caminho. É sempre sinal de algo sob o tapete.

E quem nunca errou, que escreva a primeira página.

Postado em 22 de fevereiro de 2007, quinta

:: Na cama com Adelaide

Sexo, muito sexo. Muitas vezes não consentido. Praticamente um estupro. Muitas outras era ela a usar e abusar do parceiro. Sevícias. Taras. Aquilo que só é chamado assim quando em outrem. Corpos usados à exaustão. Foi assim meu carnaval.

Vou contar como foram esses dias na cama com Adelaide.

Foi no final do ano passado, já nem lembro bem o porquê, que me interessei por Adelaide Carraro. Não lembro quais caminhos me levaram a ela. Mas como de costume, deve ter sido um bem torto. Nada a ver com sexo ou literatura. Provavelmente, história política.

Comecei com Asco – sexo em troca de fama. Uma história sórdida – infelizmente muito comum – sobre os bastidores da fama. Corrupção de menores, estupros, zoofilia forçada, bacanais sádicos... tudo por alguns minutos de notoriedade que quase nunca chegavam. Já na primeira página, um carimbo enorme avisa: É estritamente vedado (sic) a distribuição ou venda da obra a menores de 18 anos. Sujeita-se os infratores as penas previstas em Lei. Era seu sétimo livro.

Em 1977, o cartel de Adelaide Carraro era apresentado assim: 23 livros publicados em 12 anos (11 apreendidos pela Censura), 5 processos, 18 prisões, dois milhões de exemplares vendidos. Estava mais ou menos na metade dos livros que escreveria. Junto a Cassandra Rios – outro fenômeno de vendas nos anos 60/70 –, só seriam batidas, muito tempo depois, por Paulo Coelho.

A autora estreou em 1963 (portanto,em 1977, já eram 14 e não 12 anos) com Eu e o Governador, no qual contava seu caso com Jânio Quadros. Para a época, foi um escândalo, mas a história – que em momento algum dá nome ao boi principal e muda o nome do resto do gado – corre paralela às preocupações de uma ex-tuberculosa (a própria autora) em conseguir um emprego público e arrumar melhores condições para outros ex-tuberculosos.

E veja que maravilha viver em um país democrático! Àquela altura, Jânio já havia renunciado como presidente e ainda não havíamos entrado nos anos de ditadura.

A memória, que adora nos pregar peças, faz com que muita gente diga que o governador do livro era Adhemar de Barros. Não era. Além da traiçoeira memória – e, em alguns casos, da falta de seriedade na pesquisa –, é fácil enumerar vários motivos para essa crença. Primeiro porque Adhemar de Barros era o governador de São Paulo quando o livro foi publicado (foi interventor entre 1938 e 1941 – quando Adelaide ainda era uma criança e vivia em um asilo para órfãos –, governador de 1947 a 1951 e novamente governador de 1963 a 6 de junho de 1966, quando teve seu mandato cassado pelo governo militar, o qual havia apoiado). Segundo, Adhemar (dessa vez, o boi tinha nome) é personagem de outro livro (o terceiro) de Adelaide – Eu mataria o presidente. O mote é dado pelo assassinato de Kennedy e o presidente em questão aqui era Getúlio. Ou qualquer presidente que massacra uma filha do Estado, como diria a autora em entrevista a O Pasquim, em setembro de 1977.

A dúvida só existe entre não-leitores de Adelaide. Em Falência das elites, seu segundo livro – e que iniciou a série de apreensões e censura –, também sem citar o nome, ela deixa bem claro quem era o governador:

– Mas, viu ou não viu o governador depois do livro? (...)
– Não, nunca. Nem por fotografia em jornais.
– Você não acha que ele foi um covarde, renunciando?

E, mais adiante, em conversa com um empresário:

– Você o viu depois da renúncia? (...)
– Não pessoalmente...

O empresário conta ainda como ele e outros amigos ajudavam a manter o ex-presidente. Pediu que Adelaide jurasse que não contaria a ninguém. Ela não contou. Só escreveu no livro.

Difícil dizer quantos títulos a escritora dos milhões de livros vendidos lançou. Foram, pelo menos, 47. Tirando alguns poucos, mais água com açúcar, usados como livros paradidáticos, só podem ser conseguidos em sebos. Em janeiro, li Asco – sexo em busca de fama, Gente (o dia em que fui presa) e Eu e o Governador. Durante o carnaval, me agarrava com Adelaide toda madrugada. De um só fôlego, a cada noite, foram Eu mataria o presidente, Falência das elites, De prostituta a primeira dama, A mansão feita de lama, O amante da Condessa e Depois do crime.

Mexendo aqui e acolá, mudando isso ou aquilo, floreando, sempre em uma linguagem muito simples, Adelaide contava as histórias que viveu ou ouviu. Em média, lançava um livro a cada seis meses. Não havia apuro jornalístico – nem era essa a intenção – mas era, para dizer o mínimo, um grande exercício de verossimilhança.

Subliteratura? Paraliteratura? Quem pode julgar? Vale lembrar que todos os personagens dos livros de Lima Barreto representavam alguém da vida real, assim como suas ações e seus traços psicológicos. Mas isso é conversa mais longa, para um ensaio que estou escrevendo e posso, depois de publicado, postar aqui também.

Outro ponto interessante na história de Adelaide é a censura que seus textos enfrentaram. Não a oficial, que impedia seus livros de circular. Mas aquela que vinha de quem realmente manda: o dinheiro (ou, se preferir, do empresariado).

Falo a respeito na próxima segunda. Sílvio Santos vem aí, lá-lá-lá-lá-lá-lá...

 
Postado em 21 de fevereiro de 2007, quarta

Acabou! Melhor... começou! Chegamos a 2007! Mais ou menos. O povo de ressaca, amanhã é quinta e já vem chegando o final de semana, que é pra descansar um pouco.

Ontem, assistindo ao meu programa de humor favorito, o Jornal Nacional, me acabei de rir quando, depois de mostrar os três feriados de uma semana que existem na China, William Bonner soltou um já pensou se a moda pega?. Não pude me conter. Pega não, Bonner. Ou você acha que vamos abrir mão de inúmeros feriadões e enforcamentos de 4, 5 dias ou mesmo de um ano como 2006 – o ano que não houve – em troca de três míseras semanas? Pega nada. O povo aqui é vagabundo profissional. Ou alguém duvida que chinês trabalhe mais que brasileiro?

E eu fiquei esses dias entre ô, linda, minha cama (ou como bem me lembraram alguns amigos nordestinos, Ó, linda, assim aberto, que é muito mais bonito) e ô, puto desse computador que resolveu parar de trabalhar em pleno carnaval. Vai ver que é chinês.

Ouvi muito Cartola, Kid Morengueira e Noel. Tanto, que cansei. Aí bateu aquele saudosismo dos anos 80 e resolvi dividir com vocês o que andei ouvindo nessa terça-feira gorda, quando quebrei minha promessa de jejuar se acabasse a comida e pedi uma pizza. Foram cem horas sem abrir a porta. Da tarde de sexta à noite de ontem.

Então, para os que estão no meio dos trinta, para os que já entraram nos enta e também para osteens que passam por aqui saberem como a década de 80 foi uma alegria só (e pelo amor de Deus, parem com essa idiotice de chamá-la de década perdidacomo se não tivesse nada que prestasse. Esse termo é usado para falar da estagnação econômica da América Latina naquele período, não da diversão que foi os 80!), estou atacando de VJ meia boca.

Resolvi dar uma pequena ajuda à memória já falha de meus contemporâneos e catar umas coisinhas maneiras no YouTube. Vamos então à primeira seleção de clips musicais para lembrar os anos 80. Afaste os móveis (ou pule sobre eles... vai dizer que nunca pulou sobre a cama imitando seu cantor preferido ou tocando uma guitarra imaginária?), deixe os vídeos carregarem e faça a festa com B-52’s, Cindy Lauper, Go-Go’s, Wham!, A-Ha, Baltimora, Duran Duran, Belinda Carlisle e Erasure. Semana que vem tem mais.

E amanhã, como prometido, conto em detalhes como passei o carnaval na cama com Adelaide.

Está reaberto o Brasil!

 
Postado em 19 de fevereiro de 2007, segunda

:: Com as mãos na Merda

Apesar de Brasília concentrar grande parte da merda deste país, foi só agora, pouco antes do Carnaval, que a Merda – com M maiúsculo – chegou aqui. Demorou dois meses e veio pelos Correios. Obra de Anna Fortuna.

Merda – doravante denominada M..., exceto quando da oportunidade de um trocadilho infame – foi lançada em dezembro, apenas dois meses depois dos lançamentos das incensadas Piauí e Rolling Stone brasileira (1)° . Com uma tiragem bem menor que as duas (10 mil, segundo consta no expediente), sem todo o burburinho dos colegas de imprensa, sem propaganda e até sem periodicidade definida, a M... ficou ali pelo Rio de Janeiro, mas disponibilizou boa parte do conteúdo da edição de lançamento em seu site.

Eu, que coleciono revistas e primeiras edições, sem querer comparar – até porque M... é uma revista de humor – mas já comparando, digo que, dos três lançamentos do final de 2006, esse foi o que teve a primeira edição mais redondinha. É o que se pode chamar de uma merda bem feita.

Tire pelo material que está no site. As entrevistas com Clodovil e Odair José já são antológicas. Como algumas entrevistas d O Pasquim (2), daqui a trinta anos estarão perguntando: Em qual edição da M... saiu aquela entrevista?. Super bem escolhido. Afinal, apesar da adubada verborragia que grassa em nosso país, pouca gente fala tanta merda quanto Clodovil. Só lamento que a revista – que traz na capa o nobre deputado sentado na privada – não estivesse nas bancas de Brasília (3) no final de janeiro, pouco antes da posse dos parlamentares. Venderia como água no deserto e ganharia uma praça!

O site, a propósito, é bem transado. Mas nada como ter a Merda em mãos. Pequena, quase quadrada (20 x 23 cm), toda em papel couché e com uma galera sangue bom: Fernando de Castro, Sílvio Lach e Ulisses Mattos (editores); Marcelo Rubens Paiva, Paulo Caruso, Xico Sá, Nani, André Dahmer, Ingrid Guimarães, Gabriel O Pensador e muitos outros. Sangue bom até demais. A revista corre o risco de ficar excessivamente carioca (o que para mim, que também o sou, não é exatamente um problema).

Esperemos a segunda edição, que deve sair em março. E que essa distribuição de Merda melhore. Queremos Merda espalhada por todo o Brasil.

Vamos ver no que vai dar.



(1) Cadê o site da Rolling Stone? Quase seis meses de revista e nada! Depois ficam como o pessoal da Veja que demorou dez anos para perceber que a Internet também é um veículo de comunicação – e infinitamente mais ágil que uma revista – e fica se deslumbrando como se tivesse inventado a lâmpada elétrica.

(2) Apesar da fama, nem todas as entrevistas d O Pasquim eram maravilhosas. Na verdade, poucas são inesquecíveis: Leila Diniz, Elis Regina, Madame Satã... Muitas delas, mesmo com toda a provocação dos entrevistadores, não rendiam grande coisa.

(3) Não obstante os fatos de ser a capital do país, de ter um dos mais altos índices de escolaridade e de poder aquisitivo, Brasília tem tratamento de cidadezinha de quinta no quesito distribuição de revistas. Até hoje não consegui comprar por aqui os lançamentos da Mythos feitos no final do ano passado: Recruta Zero, Hagar e Fantasma. A Rolling Stone brasileira, que chega às bancas paulistanas nos primeiros dias do mês, não havia chegado por aqui até sexta passada, dia 16. Já a edição de fevereiro da RS americana estava nas bancas candangas na primeira semana do mês. Vai entender...

 
Postado em 15 de fevereiro de 2007, quinta

:: Carnaval em Olinda

Como todos sabem, há anos passo o carnaval em Olinda. Ô, linda, minha cama! Pilhas de livros e revistas, barriga pro alto, silêncio como só existia em tempos antigos e que me chamem quando o Brasil reabrir.

Neste, nem se fala. Estou só. Sozinho emô, linda. Imagina. Sem os apelos do dia-a-dia de pai e marido, estou inteiramente à disposição da folia bibliófila. Tranco-me nesta sexta e não abro a porta antes da próxima quinta nem para entregador de pizza. Se a comida acabar, faço jejum. Entro numa de retiro espiritual e está resolvido.

Para não dizer que ficarei totalmente alheio às festas desse período, separei, dentre outros, o livro Figuras e coisas do carnaval carioca, de Jota Efegê. Pronto. Esta é a parte que me cabe neste festifúndio.

Brasília é ótima no Carnaval. Como em todo feriadão, a cidade fica vazia. Mas, diferente do que muitos pensam, Brasília tem Carnaval, sim. E muito bom, por sinal. Blocos, marchinhas, orquestra de frevo... Tudo bem família e muito saudável. Os chatos que gostam de barulho vazam e deixam a cidade para os cariocas, nordestinos e seus descendentes fazerem a festa.

Mas se alguma alma pervertida quiser interromper meu retiro livresco, pode até ter sucesso. Por dois motivos: este talvez seja meu último carnaval em Brasília e gostaria de fotografar um pouco mais as festas daqui; e também porque se continuar esse calor dos infernos, não vai ser má idéia sair para tomar umas cervejas.

Música? Não vivo sem. Durante o reinado de Momo (mais 10 quilos e eu me candidataria), muito Cartola, Bezerra da Silva e Carnavelhas, o CD de marchas das Velhas Virgens. A propósito, Paulão liberou duas faixas para os leitores do Sempre Algo. Clique aí e baixe Marcha do tira a roupa e O que é que você tem na boca, Maria?. Quem quiser escutar as outras faixas, ver as letras e comprar o CD, é só passar no site das Velhas.

Mais carnaval? Três textos de Câmara Cascudo, escritos em 1948, provando que, quase 60 anos depois, a festa não mudou muito. E no Amigos do Lobo, Carnaval até no seu celular com arte de Jal e Allan Sieber em armações ilimitadas de Anna Fortuna e Claudio Iusi.

Fui pra “ô, linda”. Volto quando o Brasil reabrir.

Postado em 7 de fevereiro de 2007, quarta

:: Ninon e As Flores do Mal

C’est la Mort qui console, hélas! et qui fait vivre;
C’est le but de la vie – et c’est le seul espoir (...)

C’est un Ange qui tient dans ses doigts magnétiques
Le sommeil et le don des rêves extatiques,
Et qui refait le lit des gens pauvres et nus;

Baudelaire, La Mort des Pauvres - La Mort - Les Fleurs du Mal

Ninon deve ter, hoje, 45, 46 anos. Ao menos, deveria. Ninon desapareceu, aos 10 anos de idade, em 1971, em Belford Roxo, no Rio de Janeiro. A família procurou ajuda da imprensa. Levou um retrato e deve ter recebido a promessa de que seria publicado na sexta. Ou melhor, na cesta. A foto de Ninon foi para o lixo. Resgatada, ganhou a primeira página do número de lançamento do jornal Flor do Mal, editado por Luiz Carlos Maciel.

Além do próprio nome, que homenageava Baudelaire, a epígrafe do jornal também era de autoria do poeta francês. Dizia: Todo jornal, da primeira à última linha, não passa de um tecido de horrores. Guerras, crimes, roubos, impudicícias, torturas, crimes de príncipes, crimes de particulares, uma embriaguez de atrocidade universal. E é deste aperitivo repugnante que o homem civilizado acompanha sua refeição de cada manhã. Ele viveu entre 1821 e 1867.

A desprezada foto de Ninon no início dos anos 1970 mostra o descaso e a insensibilidade com que o jornalismo trata a vida de um ser humano. Ainda hoje me pergunto em qual momento se dá a mudança do jovem aprendiz que quer mudar o mundo e deixá-lo mais justo com suas palavras para o profissional frio que busca sempre um escândalo maior que o anterior, uma cena mais bizarra que a de ontem.

Ninon não era miss Brasil e foi para Londres sem avisar aos pais. Também não tinha um irmão famoso que mantivesse seu caso na mídia durante anos. Ninon era pobre. É provável que tenha mesmo encontrado uma morte consoladora, o início da vida e sua última esperança já que, em um mundo como este, o que ela teria não poderia ser considerado digno.

A morte dos pobres só pode ser cantada pelos poetas. É preciso ter alma e sentimentos para isso. Como o dom dos êxtases poéticos que atravessam séculos, a menina pobre, negra e de lindo sorriso viverá, para sempre, tocada pelos dedos magnéticos de um Anjo.

E o texto com a grande reportagem de hoje estará no lixo amanhã.

 
Postado em 1º de fevereiro de 2007, quinta

:: Joelma – 33 anos depois

Em meus primeiros tempos de idas a São Paulo, costumava ficar no Hotel Cambridge, na Avenida Nove de Julho, próximo ao Vale do Anhangabaú. Porta giratória, sofazões gastos, restaurante gigante, imensos lustres, quartos espaçosos com banheiras antigas... tudo como eu gosto. Cheio (e cheiro) de História.

Preferia ficar em andares altos e de frente para a avenida. Uma vez, hospedado no décimo terceiro andar, faltou energia durante quase todo o dia. Era preciso usar as escadas. Mas valeu o esforço. O Cambridge faz parte da minha história.

O prédio em frente ao hotel me intrigava. Cabeça em outros assuntos, nas primeiras vezes ficava só olhando. Muitas salas vazias. Um edifício gigantesco e aparentemente pouco usado.

No dia em que o Cambridge ficou sem energia, sentiu-se cheiro de fumaça nos elevadores. Houve correria e apreensão. Meu então anestesiado interesse foi finalmente desperto quando uma camareira, olhos esbugalhados, me disse: O senhor sabe, né? – beiço apontando para a janela – Depois do Joelma, qualquer coisa assusta logo a gente...

Era o Joelma bem ali de frente para minha janela.

Eu tinha dois anos incompletos quando o incêndio do Joelma aconteceu. E no ano em que nasci, 1972, havia sido o do Andraus. Neste, eu ainda estava na barriga. No outro, era muito pequeno para guardar lembrança, mas foi algo tão forte e marcante que, em 1981, quando aconteceu o incêndio do edifício Grande Avenida, também em São Paulo, os adultos na frente da tevê só falavam do Joelma.

Todos aconteceram no mês de fevereiro: Andraus, 24 de fevereiro de 1972 ; Joelma, 1º de fevereiro de 1974; Grande Avenida, 14 de fevereiro de 1981. Cinco anos depois, também em fevereiro, seria a vez do edifício Andorinha, no Rio.

O Andraus deixou 330 feridos e 16 mortos. No Grande Avenida, 17 morreram. No Andorinha, 21. No Joelma, foram 189 mortos e mais de 300 feridos. Por isso o Joelma ficou marcado como o pior de todos. Desde 1961, quando houve o incêndio do Gran-Circo Norte-Americano, em Niterói, não se via nada tão terrível. No circo, foram 317 pessoas mortas, a maioria crianças e mulheres, e mais de 300 feridos.

Incêndio é algo aterrador. Em prédio, é ainda pior. Fogo sobe e não há o que o segure. Quem está nos andares acima de onde começa um incêndio só pode subir e esperar socorro. Ou se jogar. Foi assim que muita gente morreu no Joelma.

Por que estou falando sobre isso? Eu trabalho com mortos. Trabalhar com História e biografias é, de certa forma, um trabalho mediúnico. I don’t see dead people, garanto! Não faço questão alguma, nem pretendo. Mas... sinto certas coisas, para ser bem eufêmico.

Semana passada, por quase duas horas durante a madrugada, me bateu uma dessas sensações. Revi centenas e centenas de fotos que fiz em São Paulo nos últimos quatro anos. Procurava uma foto do Andraus. Eu sabia que em outubro passado havia estado na calçada dele (sempre passo por lá, é quase na esquina da Ipiranga com a São João, bem pertinho do Bar da Brahma) mas não havia feito uma foto pois as condições (luminosidade, estava muito próximo, no chão...) não eram boas. Mas eu devia tê-lo fotografado, do alto, em outra ocasião. Começou então um envio de fotos para Wilson, que também estava acordado e conectado à Internet, a fim de descobrir uma ponta que fosse do Andraus. Só quando isso aconteceu, a tal sensação passou e eu pude finalmente dormir.

Durante a busca, na qual comparei fotos feitas por mim com outras do Andraus na Internet, acabei percebendo que os tristes aniversários se aproximavam. Trinta e cinco anos do Andraus; 26, do Avenida; 21, do Andorinha. Hoje, 1° de fevereiro, o incêndio do Joelma completa 33 anos.

Se você leu até aqui, peço que, da maneira que lhe parecer mais apropriada, envie boas energias aos espíritos das pessoas que morreram lá. Quanto a mim, na próxima ida a São Paulo, pretendo fotografar apropriadamente esses lugares. Talvez eles estejam querendo me dizer algo.

 
 
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