| Postado
em 28 de fevereiro de 2007, quarta |
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Mendigos profissionais e o trabalho de
Sísifo

Nas
duas últimas semanas, tive três
encontros com policiais. Os dois últimos
com uma diferença de apenas 48 horas.
E fui eu quem os chamou.
No
Plano Piloto, em Brasília,
um chamado policial, às vezes, é
atendido com eficiência americana. Os
policiais chegam em até 3, 5 minutos
após o chamado.
Na
sexta de carnaval e na quinta-feira após
a festa, tive que acionar a polícia.
Um grupo de “moradores
de rua”
– para sermos politicamente corretos
– estava acampado em frente à
entrada do prédio onde moro. Eram pelo
menos dez pessoas.
As
mães, avós, babás e bebês,
moradores da vizinhança, sumiram.
Não se ouviam mais crianças
por aqui. Ainda no horário de verão,
as pessoas chegavam do trabalho com o dia
ainda claro e se trancavam em suas
casas.
À
noite, os moradores de rua cheiram cola (ou
mesmo dia, sem se incomodar se estão
sendo vistos), mexem nos carros, falam alto
durante horas logo abaixo das janelas dos
apartamentos, brigam, fazem arruaça,
fazem suas necessidades fisiológicas
ao lado dos carros ou nas entradas dos prédios.
Um deles vomitou a lateral do meu carro.
Enquanto
isso, quem trabalha e tem família
fica preso em casa.
Final
de tarde. Chamo a polícia. Chegam em
três minutos. Um camburão da
Rocam e outra viatura. Oito policias, armamento
pesado. “Levanta.
Abre as pernas. Fica quieto. Documento. Circulando”.
Pronto. Alguns dias de paz.
Infelizmente,
é tudo que a polícia pode fazer.
Vadiagem não dá mais cadeia.
Se desse, a superlotação de
delegacias e presídios como vemos hoje
iria parecer a Disneylândia.
Os
responsáveis pela assistência
social do governo também não
podem fazer grande coisa. No máximo,
convidar as pessoas a sair das ruas e oferecer
abrigo público. Mas não podem
mantê-los lá. Afinal, lá
eles só ganham teto e comida.
Não ganham dinheiro (pedindo ou roubando),
não podem usar drogas, não podem
ter relações sexuais, não
podem fazer qualquer coisa que quiserem e
a qualquer hora.
A
polícia assusta, eles passam um tempo
sem aparecer, escolhem outro local para ficar
e o ciclo se reinicia: incomodam, alguém
chama a polícia, “levanta,
abre as pernas... circulando”...
Assim
como se foi o tempo de se pegar cadeia por
vadiagem, se foi também o tempo
de ter pena. Se alguém ainda
é ingênuo o suficiente para achar
que dar um prato de comida ou um cobertor
a esses tipos é ajudar, esse alguém
pode tirar carteira de otário. São
vagabundos profissionais
e só querem alguém assim –
com a alma caridosa – para se encostar
e sugar até não mais poder.
Ofereça um prato de comida em troca
de trabalho e veja a resposta que terá.
No
mesmo dia em que solicitei a força
policial pela última vez – quem
dera tenha sido mesmo a última! –
um artigo na Folha de São
Paulo falava sobre os “bancos
antimendigos”
instalados na Praça da República
em São Paulo. Quem
conhece, sabe que aquela praça é
uma grande casa sem teto. E os novos bancos
– com divisórias de ferro entre
os assentos – só conseguiram
fazer os mendigos mudarem de lugar. Se os
passantes não podiam sentar porque
os bancos serviam de cama, agora tropeçam
nos mendigos que passam quase todo
o tempo deitados no chão.
Trabalho
de Sísifo . Não
leva a uma solução e está
condenado a repetir eternamente o mesmo processo.
Se
temos um Estado incompetente, procuremos fazer
nossa parte. Ninguém por aqui
vai sair matando mendigos, mas, por favor,
não incentive a mendicância
como profissão. Não
dê nada a eles além de oportunidades
para que mudem de vida. Não
dê nada, principalmente, a crianças.
Essas, se você colaborar e ligar para
a Secretaria de Assistência Social,
podem ser retiradas das ruas e ter seus pais
responsabilizados por deixarem menores nessas
condições. Assim, talvez, elas
aprendam que a rua não é
lugar para se viver e não
se transformem em mendigos profissionais.
Não
se acovarde também. Não
se tranque em casa esperando que
aquelas pessoas saiam dali e você possa
ter de volta o direito de transitar livremente.
Elas vão ficar. Ligue para as autoridades.
Não modifique seus hábitos.
Não se torne insensível a sua
condição de preso em sua própria
casa. Não colabore com a perda de seus
direitos mais básicos. Não
perca sua capacidade de se revoltar.
Não
espere, por milagre, acordar um dia e perceber
que todos têm casa, comida e podem andar
em segurança nas ruas. Se quiser
um mundo assim, construa-o. Faça
sua parte.
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| Postado
em 26 de fevereiro de 2007, segunda |
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Adelaide, o Rei e o Homem do Baú
Este
texto deveria começar com uma declaração
recente de Elke Maravilha
sobre Sílvio Santos.
E falaria somente dele. Mas um juiz do Rio
de Janeiro decidiu, na sexta passada, mandar
recolher os exemplares de Roberto
Carlos em detalhes, livro de
Paulo César de Araújo,
e eu não poderia deixar de encaixá-lo
no tema inicial.
O
título chegou às livrarias pouco
antes do último Natal e já vendeu
60 mil exemplares. Alguns textos em grandes
sites de vendas de livros chegaram
a anunciá-lo como uma “biografia
oficial”.
As reclamações do Rei começaram
ainda em dezembro e agora chegamos a essa
decisão de “prejuízo
à honra”.
Aposto que isso será uma tremenda
campanha a favor e que o livro –
que custava R$ 40 quando do lançamento
e hoje pode ser comprado por quase metade
disso – vai vender pelo menos outros
60 mil exemplares rapidinho.
Acredito
que ninguém tenha o direito de escrever
sobre outra pessoa e ganhar dinheiro
com isso sem sua autorização.
A não ser que seja uma figura pública
(o que é o caso) e o autor considere
que o que ele pretende dizer seja realmente
importante, que ele tenha certeza de que é
verdade e tenha como provar isso. Ainda assim,
é bom que esteja disposto a arcar com
as conseqüências do que coloca
no papel.
Paulo
César é também autor
do ótimo Eu não
sou cachorro não. O livro
sobre Roberto não tem absolutamente
nada de desrespeitoso ou polêmico.
Trata-se, sobretudo, de intensa pesquisa de
material já publicado na imprensa.
Por ética – ou até por
receio – o autor evita, por exemplo,
citar Nichollas Mariano,
mordomo do cantor por mais de dez anos e que
traiu duplamente sua confiança: ao
usar uma antiga procuração para
sacar dinheiro e ao publicar Eu
e o Rei – Minha vida com Roberto Carlos.
O
então já ex-mordomo, por conta
própria, publicou o livro em 1977 e,
como era de se esperar, caiu em desgraça.
Em 1984, foi a vez de Adelaide Carraro
dar voz – ou mais páginas –
a Nicholas escrevendo Eu sou o
Rei.
Parafraseando
a chamada de capa do livro de Adelaide, estendo
a pergunta – e a sugestão –
aos outros dois livros: O que
existe nesses livros de diabólico,
horripilante e tétrico que eles não
poderiam chegar até as suas mãos,
caro leitor? É você
quem vai julgar. Pegue-os e leia-os.
Eu
digo que não há nada
de mais neles. E por que o Rei tentou
impedir a circulação deles?
Porque tem esse direito. Ou – o que
não creio ser necessário em
seu caso – para causar polêmica
e manter seu nome sob os holofotes. Tudo
é possível. E tudo
precisa ser visto com cuidado.
Paulo
César não falou nada que já
não tivesse sido dito. Só juntou
tudo em um balaio (bem organizado, por sinal).
Mas, em seu livro, há também
vários erros de informação.
Talvez pela pressa de chegar às livrarias
no final do ano.
No
livro de Adelaide, que costumava “florear
os
fatos”,
também não havia qualquer novidade.
A autora, quando não era a protagonista
de seus livros, colocava-se sempre como um
personagem que ouvia a história ou
que, de alguma forma, participava dela. Nas
últimas páginas de Eu sou
o Rei, ela conta que o viu em pelo menos
duas ocasiões. Em uma, descreve como
uma garota arranca um chumaço dos cabelos
do cantor. A escritora se pergunta sobre os
motivos que levariam as garotas a fazer coisas
desse tipo com tanto homem livre pela cidade.
Sugere a solidão e a fantasia como
causas para tal comportamento e diz ainda
que “a
moça foi espancada com violência
pelas guardas de seguranças do Rei”.
No segundo caso, conta ter visto uma situação
em que alguém, na rua, insulta o cantor.
Este desce do carro e agride uma outra pessoa.
A escritora teria então gritado com
o Rei – e assim, com uma lição
de moral, termina o livro.
Na
verdade, as duas histórias estão
em uma matéria sobre Roberto Carlos
na revista Realidade
de novembro de 1968. O episódio
da moça, que arrancou um chumaço
de cabelos do cantor, e a tese sobre “solidão
– conseqüência da mediocridade
na vida pequeno-burguesa – (...) gerar
um mundo de fantasias erótico-sentimentais
nessas moças”
são de autoria do repórter Roberto
Freire. O
“espancamento”
ficou por conta dos floreios de Adelaide.
Já a história do murro é
contada pelo próprio Roberto na mesma
matéria. A lição de moral
também é por conta de Adelaide.
Isso
tudo é para lembrar que “história
oficial é a versão que prevaleceu”.
E o Rei sempre foi muito cuidadoso com a sua
história.
Valendo-me
de outro trecho do livro de Adelaide, lembro
ainda que “com
o sucesso vêm os compromissos e os comprometimentos,
vem a necessidade de manter a ‘roda
viva’
girando sem parar”.
Não sendo um “mito
vivo”
– e por isso mesmo não vivendo
sua própria moral – é
difícil avaliar o comportamento dessas
pessoas que têm poder, dinheiro, que
vêem o mundo girar ao seu redor mas
não têm uma
das dádivas mais preciosas que alguém
pode ter: a liberdade para viver em
paz.
Outro
desses “mitos
vivos”,
também polêmico e muito cuidadoso
com sua vida pessoal (e quem nem de longe
quero fazer qualquer outra comparação
com o Rei), é Sílvio Santos.
Na
edição (nº 62) da revista
TPM, que está
nas bancas, Elke Maravilha, “a
jurada que mais dava nota 10”,
diz o seguinte do ex-patrão: “Ele
não é uma pessoa legal”.
Sílvio
também teve uma “biografia
não-autorizada”
lançada em 2000. A tal
“biografia não-autorizada”
foi insistentemente anunciada por comerciais
em seu próprio canal de tevê.
E a vida do camelô que hoje é
o maior pagador (como pessoa física)
de imposto de renda do país coube em
menos de duzentas páginas. Dois anos
depois teve nova edição –
revista e ampliada – falando sobre o
programa Casa dos Artistas, a homenagem que
ele recebeu no Carnaval 2001 e sobre o episódio
do seqüestro (de sua filha e depois dele
mesmo ser mantido refém em sua casa).
Mas
o livro Eu acuso,
de Adelaide Carraro, que trabalhou para ele,
nem chegou a sair. A versão
mais branda diz que os originais foram comprados
das mãos do editor e destruídos.
Adelaide
teve vários livros censurados, proibidos
de circular, recolhidos, mas esse, como dito,
nem chegou a sair. Em entrevista ao jornal
O Pasquim (2 a
8 de setembro de 1977), a escritora fala sobre
o caso e sua bronca com o empresário.
A partir da terceira edição
de seu livro Gente – O dia
em que fui presa, a “patética
entrevista”
é reproduzida. Sem as partes sobre
Sílvio Santos. (veja os trechos cortados
nas imagens abaixo)

Quem
tem razão? Quem é dono da história?
Quem tem direito em contá-la? Quem
tem direito em impedir alguém que participou
dela contá-la? O que é verdade
e o que é versão? Quem
pode julgar? Continuo apostando no
bom senso de quem escreve e no julgamento
de quem lê. Censura nunca é
um bom caminho. É sempre sinal
de algo sob o tapete.
E
quem nunca errou, que escreva a primeira página.
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| Postado
em 22 de fevereiro de 2007, quinta |
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Na cama com Adelaide

Sexo,
muito sexo. Muitas vezes não
consentido. Praticamente um estupro. Muitas
outras era ela a usar e abusar do parceiro.
Sevícias. Taras. Aquilo que só
é chamado assim quando em outrem. Corpos
usados à exaustão. Foi assim
meu carnaval.
Vou
contar como foram esses dias na cama com Adelaide.
Foi
no final do ano passado, já nem lembro
bem o porquê, que me interessei por
Adelaide Carraro. Não
lembro quais caminhos me levaram a ela. Mas
como de costume, deve ter sido um bem torto.
Nada a ver com sexo ou literatura. Provavelmente,
história política.
Comecei
com Asco – sexo em troca
de fama. Uma história
sórdida – infelizmente muito
comum – sobre os bastidores da fama.
Corrupção de menores, estupros,
zoofilia forçada, bacanais sádicos...
tudo por alguns minutos de notoriedade que
quase nunca chegavam. Já na primeira
página, um carimbo enorme avisa: “É
estritamente vedado (sic) a distribuição
ou venda da obra a menores de 18 anos”.
Sujeita-se os infratores as penas previstas
em Lei. Era seu sétimo livro.
Em
1977, o cartel de Adelaide Carraro era apresentado
assim: “23
livros publicados em 12 anos (11 apreendidos
pela Censura), 5 processos, 18 prisões,
dois milhões de exemplares vendidos”.
Estava mais ou menos na metade dos livros
que escreveria. Junto a Cassandra
Rios – outro fenômeno
de vendas nos anos 60/70 –, só
seriam batidas, muito tempo depois, por Paulo
Coelho.
A
autora estreou em 1963 (portanto,em 1977,
já eram 14 e não 12 anos) com
Eu e o Governador,
no qual contava seu caso com Jânio
Quadros. Para a época, foi
um escândalo, mas a história
– que em momento algum dá nome
ao boi principal e muda o nome do resto do
gado – corre paralela às preocupações
de uma ex-tuberculosa (a própria autora)
em conseguir um emprego público e arrumar
melhores condições para outros
ex-tuberculosos.
E
veja que maravilha viver em um país
democrático! Àquela altura,
Jânio já havia renunciado como
presidente e ainda não havíamos
entrado nos anos de ditadura.
A
memória, que adora nos pregar peças,
faz com que muita gente diga que o governador
do livro era Adhemar de Barros.
Não era. Além da traiçoeira
memória – e, em alguns casos,
da falta de seriedade na pesquisa –,
é fácil enumerar vários
motivos para essa crença. Primeiro
porque Adhemar de Barros era o governador
de São Paulo quando o livro foi publicado
(foi interventor entre 1938 e 1941 –
quando Adelaide ainda era uma criança
e vivia em um asilo para órfãos
–, governador de 1947 a 1951 e novamente
governador de 1963 a 6 de junho de 1966, quando
teve seu mandato cassado pelo governo militar,
o qual havia apoiado). Segundo, Adhemar (dessa
vez, o boi tinha nome) é personagem
de outro livro (o terceiro) de Adelaide –
Eu mataria o presidente.
O mote é dado pelo assassinato de Kennedy
e o presidente em questão aqui era
Getúlio. Ou “qualquer
presidente que massacra uma filha do Estado”,
como diria a autora em entrevista a’
O Pasquim, em setembro
de 1977.
A
dúvida só existe entre não-leitores
de Adelaide. Em Falência
das elites, seu segundo livro
– e que iniciou a série de apreensões
e censura –, também sem citar
o nome, ela deixa bem claro quem era o governador:
–
Mas, viu ou não viu o governador depois
do livro? (...)
– Não, nunca. Nem por fotografia
em jornais.
– Você não acha que ele
foi um covarde, renunciando?
E,
mais adiante, em conversa com um empresário:
–
Você o viu depois da renúncia?
(...)
– Não pessoalmente...
O
empresário conta ainda como ele e outros
amigos ajudavam a manter o ex-presidente.
Pediu que Adelaide jurasse que não
contaria a ninguém. Ela não
contou. Só escreveu no livro.
Difícil
dizer quantos títulos “a
escritora dos milhões de livros vendidos”
lançou. Foram, pelo menos,
47. Tirando alguns poucos, mais água
com açúcar, usados como livros
paradidáticos, só podem ser
conseguidos em sebos. Em janeiro, li Asco
– sexo em busca de fama, Gente
(o dia em que fui presa) e Eu
e o Governador. Durante o carnaval, me
agarrava com Adelaide toda madrugada. De um
só fôlego, a cada noite, foram
Eu mataria o presidente, Falência
das elites, De prostituta
a primeira dama, A
mansão feita de lama,
O amante da Condessa
e Depois do crime.
Mexendo
aqui e acolá, mudando isso ou aquilo,
floreando, sempre em uma linguagem muito simples,
Adelaide contava as histórias que viveu
ou ouviu. Em média, lançava
um livro a cada seis meses. Não
havia apuro jornalístico – nem
era essa a intenção –
mas era, para dizer o mínimo, um
grande exercício de verossimilhança.
Subliteratura?
Paraliteratura? Quem pode julgar? Vale lembrar
que todos os personagens dos livros de Lima
Barreto representavam alguém
da vida real, assim como suas ações
e seus traços psicológicos.
Mas isso é conversa mais longa, para
um ensaio que estou escrevendo e posso, depois
de publicado, postar aqui também.
Outro
ponto interessante na história de Adelaide
é a censura que seus textos enfrentaram.
Não a oficial, que
impedia seus livros de circular. Mas aquela
que vinha de quem realmente manda: o
dinheiro (ou, se preferir, do empresariado).
Falo
a respeito na próxima segunda. Sílvio
Santos vem aí, lá-lá-lá-lá-lá-lá...
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| Postado
em 21 de fevereiro de 2007, quarta |
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Acabou!
Melhor... começou! Chegamos
a 2007! Mais ou menos. O povo de
ressaca, amanhã é quinta e já
vem chegando o final de semana, que é
pra descansar um pouco.
Ontem,
assistindo ao meu programa de humor
favorito, o Jornal Nacional,
me acabei de rir quando, depois de mostrar
os três feriados de uma semana que existem
na China, William Bonner soltou um “já
pensou se a moda pega?”.
Não pude me conter. Pega não,
Bonner. Ou você acha que vamos abrir
mão de inúmeros feriadões
e enforcamentos de 4, 5 dias ou mesmo de um
ano como 2006 – o ano que não
houve – em troca de três míseras
semanas? Pega nada. O povo aqui é vagabundo
profissional. Ou alguém duvida que
chinês trabalhe mais que brasileiro?
E
eu fiquei esses dias entre “ô,
linda, minha cama”
(ou como bem me lembraram alguns amigos nordestinos,
“Ó,
linda”,
assim aberto, que é muito mais bonito)
e “ô,
puto desse computador que resolveu parar de
trabalhar em pleno carnaval”.
Vai ver que é chinês.
Ouvi
muito Cartola, Kid
Morengueira e Noel.
Tanto, que cansei. Aí bateu aquele
saudosismo dos anos 80 e resolvi dividir com
vocês o que andei ouvindo nessa “terça-feira
gorda”,
quando quebrei minha promessa de jejuar se
acabasse a comida e pedi uma pizza. Foram
cem horas sem abrir a porta. Da tarde de sexta
à noite de ontem.
Então,
para os que estão no meio dos trinta,
para os que já entraram nos “enta”
e também para os
“teens”
que passam por aqui saberem como a década
de 80 foi uma alegria só (e pelo amor
de Deus, parem com essa idiotice
de chamá-la de “década
perdida”
como se não tivesse nada que
prestasse. Esse termo é usado para
falar da estagnação econômica
da América Latina naquele período,
não da diversão que foi os 80!),
estou atacando de VJ meia boca.
Resolvi
dar uma pequena ajuda à memória
já falha de meus contemporâneos
e catar umas coisinhas “maneiras”
no YouTube. Vamos então
à primeira
seleção de clips musicais para
lembrar os anos 80. Afaste
os móveis (ou pule sobre eles... vai
dizer que nunca pulou sobre a cama imitando
seu cantor preferido ou tocando uma guitarra
imaginária?), deixe os vídeos
carregarem e faça a festa com B-52’s,
Cindy Lauper, Go-Go’s, Wham!, A-Ha,
Baltimora, Duran Duran, Belinda Carlisle e
Erasure. Semana que vem tem mais.
E
amanhã, como prometido, conto em detalhes
como passei o carnaval na cama com Adelaide.
Está
reaberto o Brasil!
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| Postado
em 19 de fevereiro de 2007, segunda |
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Com as mãos na Merda
Apesar
de Brasília concentrar grande parte
da merda deste país, foi só
agora, pouco antes do Carnaval, que a Merda
– com M maiúsculo –
chegou aqui. Demorou dois meses e veio pelos
Correios. Obra de Anna
Fortuna.
Merda
– doravante denominada M...,
exceto quando da oportunidade de um trocadilho
infame – foi lançada em dezembro,
apenas dois meses depois dos lançamentos
das incensadas Piauí
e Rolling Stone brasileira
(1)°
. Com uma tiragem bem menor que as duas (10
mil, segundo consta no expediente), sem todo
o burburinho dos “colegas
de imprensa”,
sem propaganda e até sem periodicidade
definida, a M... ficou ali pelo Rio
de Janeiro, mas disponibilizou boa parte do
conteúdo da edição de
lançamento em seu
site.
Eu,
que coleciono revistas e primeiras edições,
sem querer comparar – até porque
M... é uma revista de humor
– mas já comparando, digo que,
dos três lançamentos do final
de 2006, esse foi o que teve a primeira
edição mais redondinha.
É o que se pode chamar de uma
merda bem feita.
Tire
pelo material que está no site. As
entrevistas com Clodovil
e Odair José já
são antológicas. Como algumas
entrevistas d’
O Pasquim (2),
daqui a trinta anos estarão perguntando:
“Em
qual edição da M... saiu aquela
entrevista?”.
Super bem escolhido. Afinal, apesar da adubada
verborragia que grassa em nosso país,
pouca gente fala tanta merda quanto Clodovil.
Só lamento que a revista – que
traz na capa o nobre deputado sentado na privada
– não estivesse nas bancas
de Brasília (3)
no final de janeiro, pouco antes da posse
dos parlamentares. Venderia como água
no deserto e ganharia uma praça!
O
site, a propósito, é bem transado.
Mas nada como ter a Merda em mãos.
Pequena, quase quadrada (20 x 23 cm), toda
em papel couché e com uma galera sangue
bom: Fernando de Castro,
Sílvio Lach e Ulisses
Mattos (editores); Marcelo
Rubens Paiva, Paulo Caruso,
Xico Sá, Nani,
André Dahmer, Ingrid
Guimarães, Gabriel
O Pensador e muitos outros. Sangue
bom até demais. A revista corre o risco
de ficar “excessivamente
carioca”
(o que para mim, que também o sou,
não é exatamente um problema).
Esperemos
a segunda edição, que deve sair
em março. E que essa distribuição
de Merda melhore. Queremos Merda espalhada
por todo o Brasil.
Vamos
ver no que vai dar.
(1)
Cadê o site da Rolling Stone?
Quase seis meses de revista e nada! Depois ficam
como o pessoal da Veja que demorou
dez anos para perceber que a Internet também
é um veículo de comunicação
– e infinitamente mais ágil que
uma revista – e fica se deslumbrando como
se tivesse inventado a lâmpada elétrica.
(2)
Apesar da fama, nem todas as entrevistas d’
O Pasquim eram maravilhosas. Na verdade,
poucas são inesquecíveis: Leila
Diniz, Elis Regina, Madame Satã...
Muitas delas, mesmo com toda a provocação
dos entrevistadores, não rendiam grande
coisa.
(3)
Não obstante os fatos de ser a capital
do país, de ter um dos mais altos índices
de escolaridade e de poder aquisitivo, Brasília
tem tratamento de cidadezinha de quinta no
quesito distribuição de revistas.
Até hoje não consegui comprar
por aqui os lançamentos da Mythos feitos
no final do ano passado: Recruta Zero,
Hagar e Fantasma. A Rolling
Stone brasileira, que chega às
bancas paulistanas nos primeiros dias do mês,
não havia chegado por aqui até
sexta passada, dia 16. Já a edição
de fevereiro da RS americana estava nas bancas
candangas na primeira semana do mês.
Vai entender...
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| Postado
em 15 de fevereiro de 2007, quinta |
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Carnaval em Olinda

Como
todos sabem, há anos passo o carnaval
em Olinda. Ô, linda, minha cama!
Pilhas de livros e revistas, barriga pro alto,
silêncio como só existia em tempos
antigos e que me chamem quando o Brasil reabrir.
Neste,
nem se fala. Estou só. Sozinho em
“ô, linda”.
Imagina. Sem os apelos do dia-a-dia de pai
e marido, estou inteiramente à
disposição da folia bibliófila.
Tranco-me nesta sexta e não abro a
porta antes da próxima quinta nem para
entregador de pizza. Se a comida acabar, faço
jejum. Entro numa de retiro espiritual e está
resolvido.
Para
não dizer que ficarei totalmente alheio
às festas desse período, separei,
dentre outros, o livro Figuras
e coisas do carnaval carioca,
de Jota Efegê. Pronto.
Esta é a parte que me cabe neste festifúndio.
Brasília
é ótima no Carnaval. Como em
todo feriadão, a cidade fica vazia.
Mas, diferente do que muitos pensam, Brasília
tem Carnaval, sim. E muito bom, por
sinal. Blocos, marchinhas, orquestra de frevo...
Tudo bem família e muito saudável.
Os chatos que gostam de barulho vazam e deixam
a cidade para os cariocas, nordestinos e seus
descendentes fazerem a festa.
Mas
se alguma alma pervertida
quiser interromper meu retiro livresco, pode
até ter sucesso. Por dois motivos:
este talvez seja meu último carnaval
em Brasília e gostaria de fotografar
um pouco mais as festas daqui; e também
porque se continuar esse calor dos infernos,
não vai ser má idéia
sair para tomar umas cervejas.
Música?
Não vivo sem. Durante o reinado de
Momo (mais 10 quilos e eu me candidataria),
muito Cartola, Bezerra
da Silva e Carnavelhas,
o CD de marchas das Velhas Virgens.
A propósito, Paulão
liberou duas faixas para os leitores do Sempre
Algo. Clique aí e baixe
Marcha
do tira a roupa e O
que é que você tem na boca, Maria?.
Quem quiser escutar as outras faixas, ver
as letras e comprar o CD, é só
passar no site
das Velhas.
Mais
carnaval? Três
textos de Câmara Cascudo,
escritos em 1948, provando que, quase 60 anos
depois, a festa não mudou muito. E
no Amigos
do Lobo, Carnaval até
no seu celular com arte de Jal
e Allan Sieber em armações
ilimitadas de Anna Fortuna
e Claudio Iusi.
Fui
pra “ô, linda”. Volto quando
o Brasil reabrir.
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| Postado
em 7 de fevereiro de 2007, quarta |
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Ninon e As Flores do Mal

C’est
la Mort qui console, hélas! et qui
fait vivre;
C’est le but de la vie – et c’est
le seul espoir (...)
C’est
un Ange qui tient dans ses doigts magnétiques
Le sommeil et le don des rêves extatiques,
Et qui refait le lit des gens pauvres et nus;
Baudelaire,
La Mort des Pauvres - La Mort - Les Fleurs
du Mal
Ninon
deve ter, hoje, 45, 46 anos. Ao menos, deveria.
Ninon desapareceu, aos 10 anos de idade, em
1971, em Belford Roxo, no Rio de Janeiro.
A família procurou ajuda da imprensa.
Levou um retrato e deve ter recebido a promessa
de que “seria
publicado na sexta”.
Ou melhor, na cesta. A foto de Ninon foi para
o lixo. Resgatada, ganhou a primeira página
do número de lançamento do jornal
Flor do Mal, editado por Luiz Carlos Maciel.
Além
do próprio nome, que homenageava Baudelaire,
a epígrafe do jornal também
era de autoria do poeta francês. Dizia:
“Todo
jornal, da primeira à última
linha, não passa de um tecido de horrores.
Guerras, crimes, roubos, impudicícias,
torturas, crimes de príncipes, crimes
de particulares, uma embriaguez de atrocidade
universal. E é deste aperitivo repugnante
que o homem civilizado acompanha sua refeição
de cada manhã”.
Ele viveu entre 1821 e 1867.
A
desprezada foto de Ninon no início
dos anos 1970 mostra o descaso e a insensibilidade
com que o jornalismo trata a vida de um ser
humano. Ainda hoje me pergunto em qual momento
se dá a mudança do jovem aprendiz
que quer mudar o mundo e deixá-lo mais
justo com suas palavras para o profissional
frio que busca sempre um escândalo maior
que o anterior, uma cena mais bizarra que
a de ontem.
Ninon
não era miss Brasil e foi para Londres
sem avisar aos pais. Também não
tinha um irmão famoso que mantivesse
seu caso na mídia durante anos. Ninon
era pobre. É provável que tenha
mesmo encontrado uma morte consoladora, o
início da vida e sua última
esperança já que, em um mundo
como este, o que ela teria não poderia
ser considerado digno.
A
morte dos pobres só pode ser cantada
pelos poetas. É preciso ter alma e
sentimentos para isso. Como o dom dos êxtases
poéticos que atravessam séculos,
a menina pobre, negra e de lindo sorriso viverá,
para sempre, tocada pelos dedos magnéticos
de um Anjo.
E
o texto com a grande reportagem de hoje estará
no lixo amanhã.
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| Postado
em 1º de fevereiro de 2007,
quinta |
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Joelma – 33 anos depois

Em
meus primeiros tempos de idas a São
Paulo, costumava ficar no Hotel
Cambridge, na Avenida Nove de Julho,
próximo ao Vale do Anhangabaú.
Porta giratória, sofazões gastos,
restaurante gigante, imensos lustres, quartos
espaçosos com banheiras antigas...
tudo como eu gosto. Cheio (e cheiro) de História.
Preferia
ficar em andares altos e de frente para a
avenida. Uma vez, hospedado no décimo
terceiro andar, faltou energia durante quase
todo o dia. Era preciso usar as escadas. Mas
valeu o esforço. O Cambridge faz parte
da minha história.
O
prédio em frente ao hotel
me intrigava. Cabeça em outros assuntos,
nas primeiras vezes ficava só olhando.
Muitas salas vazias. Um edifício gigantesco
e aparentemente pouco usado.
No
dia em que o Cambridge ficou sem energia,
sentiu-se cheiro de fumaça
nos elevadores. Houve correria e
apreensão. Meu então anestesiado
interesse foi finalmente desperto quando uma
camareira, olhos esbugalhados, me disse: “O
senhor sabe, né? – beiço
apontando para a janela – Depois
do Joelma,
qualquer coisa assusta logo a gente...”
Era
o Joelma bem ali de frente para minha janela.
Eu
tinha dois anos incompletos quando o incêndio
do Joelma aconteceu. E no ano em que nasci,
1972, havia sido o do Andraus.
Neste, eu ainda estava na barriga. No outro,
era muito pequeno para guardar lembrança,
mas foi algo tão forte e marcante que,
em 1981, quando aconteceu o incêndio
do edifício Grande Avenida,
também em São Paulo, os adultos
na frente da tevê só falavam
do Joelma.
Todos
aconteceram no mês de fevereiro:
Andraus, 24 de fevereiro de 1972 ; Joelma,
1º de fevereiro de 1974; Grande Avenida,
14 de fevereiro de 1981. Cinco anos depois,
também em fevereiro, seria a vez do
edifício Andorinha,
no Rio.
O
Andraus deixou 330 feridos e 16 mortos. No
Grande Avenida, 17 morreram. No Andorinha,
21. No Joelma, foram 189 mortos
e mais de 300 feridos. Por isso o Joelma ficou
marcado como o pior de todos. Desde 1961,
quando houve o incêndio do Gran-Circo
Norte-Americano, em Niterói,
não se via nada tão terrível.
No circo, foram 317 pessoas mortas, a maioria
crianças e mulheres, e mais de 300
feridos.
Incêndio
é algo aterrador. Em prédio,
é ainda pior. Fogo sobe e não
há o que o segure. Quem está
nos andares acima de onde começa um
incêndio só pode subir e esperar
socorro. Ou se jogar. Foi
assim que muita gente morreu no Joelma.
Por
que estou falando sobre isso? Eu “trabalho
com mortos”.
Trabalhar com História e biografias
é, de certa forma, um “trabalho
mediúnico”.
I don’t see dead
people, garanto! Não
faço questão alguma, nem pretendo.
Mas... “sinto
certas coisas”,
para ser bem eufêmico.
Semana
passada, por quase duas horas durante a madrugada,
me bateu uma dessas “sensações”.
Revi centenas e centenas de fotos
que fiz em São Paulo nos últimos
quatro anos. Procurava uma foto do
Andraus. Eu sabia que em outubro
passado havia estado na calçada dele
(sempre passo por lá, é quase
na esquina da Ipiranga com a São João,
bem pertinho do Bar da Brahma) mas não
havia feito uma foto pois as condições
(luminosidade, estava muito próximo,
no chão...) não eram boas. Mas
eu devia tê-lo fotografado, do alto,
em outra ocasião. Começou então
um envio de fotos para Wilson,
que também estava acordado e conectado
à Internet, a fim de descobrir uma
ponta que fosse do Andraus. Só quando
isso aconteceu, a tal “sensação”
passou e eu pude finalmente dormir.
Durante
a busca, na qual comparei fotos feitas por
mim com outras do Andraus na Internet, acabei
percebendo que os tristes aniversários
se aproximavam. Trinta e cinco anos
do Andraus; 26, do Avenida; 21, do Andorinha.
Hoje, 1° de fevereiro, o incêndio
do Joelma completa 33 anos.
Se
você leu até aqui, peço
que, da maneira que lhe parecer mais apropriada,
envie boas energias aos espíritos
das pessoas que morreram lá. Quanto
a mim, na próxima ida a São
Paulo, pretendo fotografar apropriadamente
esses lugares. Talvez eles estejam querendo
me dizer algo.
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