Postado em 26 de fevereiro de 2006, domingo

:: Ressaca de Carnaval (sem ter bebido)

Paulão das Velhas em momento íntimo... no palcoVocê também nunca me enganou. Biscoito Bono passou por Brasília, tocou uma para o Lula e depois foi cantar Axé na Bahia. Brega até na Irlanda! E teve quem pagasse mais de meia milha pra ver o bonequinho pulando duas noites seguidas na Colina Verde. Só mesmo no túmulo do samba! Enquanto isso, na terra do mesmo, as pedras rolaram soltas. Nick Jega, como diria minha filha, rebolando adoidado para um milhão de pessoas e mostrando que sexo, drogas e rocknroll não fazem mal a ninguém. Talvez até sejam o elixir da longa vida. Aquilo é que é simpatia pra o Demo! E para fechar a segunda noite da festa da carne, Velhas Virgens na Hebe! Valeu a pena. Reitero: fiquei em casa na noite de sábado de carnaval para ver o programa da Hebe. Para ver as Velhas mandando todo mundo tirar a roupa enquanto é tempo no meio daquele povo brega. SambanRoll, sim, senhor! E os sambas-enredos? A Beija-Flor veio com um título bem fácil de gravar: Poços de Caldas derrama sobre a Terra suas águas milagrosas – Do caos inicial à explosão da vida... Água, a nave-mãe da existência. Isso já é o samba todo ou uma tese ecológico-existencialista da Nova Era? Rock mesmo foi Tati Quebra-Barraco dando entrevista dizendo que não gosta de dar entrevista enquanto descia de um trio elétrico, no qual passou três horas, e declarando não gostar de Axé. Toda atoladinha. Sheena é o cacete! Tati is a punk rocker. And Me 2. U não 2. I dont wanna get samba fashion. I wanna get satisfaction. And I try, and I try, and I try, and I try...

 
Postado em 7 de fevereiro de 2006, terça

:: Meu avô tramou contra Tenório Cavalcanti

Tenho aproveitado estes meses de férias para fazer, principalmente, duas coisas: ler e ver filmes. Nada de praia ou outras futilidades que me pareçam pura perda de tempo. No cardápio de livros e filmes, tem um re. Isto é, tenho relido e revisto. Há muita coisa que li e vi há mais de 15, 20 anos. Hoje, ou já esqueci ou pretendo tirar dessas coisas mais do que tirei quando era tão jovem.

No caso dos filmes, o cinema brasileiro não poderia ficar de fora do revival. Dentre eles, O Homem da Capa Preta, de Sérgio Rezende. O filme, de 1986, tem o personagem título – o lendário político Tenório Cavalcanti – vivido por José Wilker. Sempre adorei esse filme. Eu o assisti pela primeira vez aos 14 anos de idade. Agora, depois de alguma História e muita Cruzeiro passada em minha vida – principalmente as dos anos 50 e 60 –, certamente eu tiraria muito mais proveito do filme.

Lá estou eu, languidamente espichado na frente da tevê, quando em uma cena percebo uma familiar cabeça grisalha entre o grupo de políticos e empresários que discutem como dar cabo de Tenório. Era o meu avô Moacyr!

Sim, meu avô, que brincava comigo na vila suburbana em Todos os Santos. Meu avô, que me ajudou a dar os primeiros passos. Meu avô, com quem eu brigava quando chegava em casa sem um presentinho que fosse para mim. Meu avô, que deu fim a minha carreira de desenhista quando achou fracas as cores de um Pinóquio e resolveu reforçá-las por conta própria. Meu avô que, hoje, está com 85 anos.

A imagem não me deixa mentir. Meu avô (aquele em primeiro plano e de costas na reprodução acima) tramou contra Tenório Cavalcanti.

Na verdade, por cerca de 25 anos, meu avô fez parte do elenco de apoio da Globo. Durante esse tempo, também participou de vários filmes para cinema. Vez por outra, tenho uma surpresa dessas. Uma Sessão da Tarde e lá vai meu avô passando em meio a uma multidão. Um Vale a pena ver de novo e meu avô conversando em uma festa. Um Linha Direta e meu avô, de padre, levando uma garrafada na cabeça.

Ainda quero juntar suas fotonovelas, sua filmografia, seus comerciais e contar essa história toda bem direitinho. Quando eu fizer isso, ele será o único artista e terá seu nome escrito em letras garrafais: MOACYR IGNÁCIO ALVES, avô e ator.

 
Postado em 1º de fevereiro de 2006, quarta

:: Histórias do bruxo de Copacabana

Há exatos oito meses, postei o texto Ivo Carabajal, o bruxo de Copacabana no Leseira Geral, blog-pai deste Sempre algo a dizer. Foi um dos mais lidos e comentados desta minha experiência de quase um ano e meio na blogosfera. Nele, falava sobre um livro que o paranormal Ivo escreveu e do qual tinha perdido o arquivo. Ele havia me enviado uma cópia que também estava perdida.

Estava.

Encaixotando cerca de 400 quilos de papéis dos meus arquivos em Natal, encontrei a provavelmente única cópia de Histórias, o livro no qual Ivo conta casos de pessoas famosas, conhecidas nos meios político e artístico, que o procuraram para resolver algum problema. O livro não cita nomes, mas aqui e ali não é difícil saber de quem está se falando.

Histórias começou a ser escrito em Brasília, em 1996. No final do ano seguinte, Ivo me enviou o arquivo por e-mail. Li e sugeri que não publicasse. Falava de gente poderosa. Geraria represálias.

Agora, uma década depois de escrito, reli e achei alguns pontos bem interessantes.

Ivo sempre me contou muitas histórias. Algumas, eu achava que era pura fantasia. Mas, ainda que fossem, sabia que ele acreditava nelas. Outras, meu ceticismo profissional não me permitia acreditar. Eu sabia que Ivo não tinha condições de fazer viagens internacionais, mas vi fotos dele por todo o mundo. Isso poderia ser um sinal de confirmação de parte das histórias: pessoas com muito dinheiro pagavam para vê-lo.

No entanto, as histórias que mais me impressionavam eram as mais críveis, as que falavam de políticos famosos e, que, anos depois, trabalhando no Senado, eu acabaria conhecendo outras que não só corroboravam como deixavam as de Ivo parecendo histórias infantis. Se há uma classe que não tem limites nem pudores para se apegar ao poder, é a dos políticos. Consultar vidente é algo tão banal como tomar café pela manhã. Usar de magia negra é tão raro como... almoçar.

No livro, o bruxo conta histórias como a da filha de um político que, numa madrugada, resolveu subir e descer, nua, a rampa do Palácio do Planalto. Ou da esposa de outro, coprófila, que recolhia mendigos para que defecassem sobre seu corpo. Tudo sem citar nomes. Coisas que parecem estranhas a quem vive dentro de padrões socialmente aceitáveis, mas nada assombrosas para quem sabe que existe de tudo nesta vida e, muitas vezes, bem ao nosso lado.

Uma das histórias que ele gostava de contar – e eu considerava das mais fantasiosas – era sobre homens ligados a Saddam Hussein, que teriam feito contato com ele durante a Guerra do Golfo, no início de 1991. Os Estados Unidos massacravam o Iraque, que não tinha uma estratégia definitiva e que ia acabar cedendo. A história foi escrita em 1996 e sempre me pareceu muito louca. Mas depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, da segunda invasão ao Iraque em 2003 e tudo que foi dito sobre as relações da família Bush com Saddam, a história parece fazer muito sentido.

Reproduzo o trecho contado por Ivo.

“Não se comenta hoje em todo o mundo, a vitória de um pequeno país. O governante deste país ouviu uma idéia dada por este paranormal, como uma tática. Certo dia, tocou o telefone de minha casa e ao atender, do outro lado, alguém falava uma língua estrangeira. Não entendi nada e no meu mísero inglês disse not speak English, speak Português. Veio então, ao telefone, um homem falando um espanhol enrolado, dizendo falar em nome de um importante senhor, cujo país estava em guerra, encurralado e que, independente de toda a inteligência de seus generais, não tinha uma estratégia definitiva para vencer seus poderosos inimigos e que ia acabar cedendo (...) Perguntei a ele porque seu país não enchia de combustível quatro ou cinco aviões e sobrevoava as tropas inimigas a 200 ou 300 metros de altura, informando que os pilotos estavam em missão suicida, prontos a se sacrificarem por seu país, jogariam-se como kamikazes e assim explodiriam com todos e  com tudo.

“Parece que ele aceitou essa sugestão e ainda ameaçou jogar um avião, também cheio de combustível, sobre uma casa de grande respeito, do outro lado do oceano. Esse governante conseguiu seu intento. Além de ter exigido que sua vida fosse poupada, ganhou muitos dólares para dizer que perdeu a guerra”.

Ainda que o relato fosse pura fantasia e o telefonema nunca tenha existido, há de se admitir: Ivo tinha uma “parabólica desgovernada” e captava muitas coisas antes que elas acontecessem.

Para ler – ou reler – o post sobre Ivo, clique aqui.

 
 
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