Postado em 29 de dezembro de 2006, sexta

:: Fausto fim de ano

Um vento danado nessas flores de várias cores no jardim em Campina. Cervejinha, tulipa, fim de tarde. O lap nas coxas. Fora da rede. Das duas. O calor sendo diminuído nesse último dia fútil do ano. No tocador, o Rap d’Anne Stark. Fausto no ouvido e nos olhos com Santa Clara Poltergeist, padroeira dos coitos curativos e dos universos paralelos.

Na calmaria da Borborema, o espírito voando pelo Beco das Garrafas. No meio do asilo Copa. Da Copa decadente que não me engana. Bacarat, Xavier, Santa Clara, Atlântica, Baratos da Ribeira, as tias velhas gordas, as tevês vomitando jogos do Maraca enquanto lustramos os balcões dos bares com nossos cotovelos.

Cinco horas. Paro de pensar nos planos para o próximo ano. Cinco e cinco começo a beber a cerveja. Pensando nos seis ou oito contos que virão no embalo lisérgico do Mestre de Copa, cinquentão nesse próximo. Chegando como uma longínqua disco music sussurada e aumentando até um cyber punk gritando no pé da orelha.

Do Babilônia ao Bruni. Do São José ao Art Palácio. Do Capitólio ao Roxy. Contos cinematográficos.

Cinco e vinte e cinco, a segunda lata saindo gelada. Tulipa gostosinha tipo Continental. Na ponta da estrada para Ponta. Negra. Loira desce rasgando. Lembranças dos últimos dias. Risistórias de Tereza, Lítio do Neguin, olhos de Kayô guiando rápidas viagens buquianas e suas taras personianas, seus orkuticídios em série, fim de Visconti, línguas ferinas que já não machucam, Pitts se rendendo às três matando o reduto dos amantes das loiras à luz da manhã, ruas de Natal, avenidas de Natal, luzes de Natal... A Bem-aventurada acalmando meu coração.

Corte rápido. Suor, estrada, Campina. O irmão virtuoso a caminho. Vou bebendo por ele. Fechando o ano, afogando a gastrite. Imagem de Suzuka antes de ser gueixa. Os rígidos princípios de Nobu-San. Os motivos do ser ou não ser de cada um. There is no sex live in the grave. Tudo se encaixando, se misturando em bocas loiras liquificadoras.

E eu querendo saber quem matou James Brown.

 
Postado em 17 de dezembro de 2006, domingo

:: Tim Maia Racional

No final de setembro, andando com Wilson pela Mooca, fomos a um sebo – se é que se pode chamar assim aquele grande depósito de tranqueiras – que possui aproximadamente 2 milhões de discos de vinil. Dois milhões. Um milhão e duzentos mil LPs e 800 mil compactos, segundo o rapaz que nos atendeu. Tem de tudo.

Como bom rato de sebo, me fiz de doido na primeira visita. Fiquei olhando os discos como se não procurasse nada especial. O rapaz se aproximou e perguntou o que eu buscava. MPB... Tim Maia... tem? Pediu que o seguisse. Levou-nos a um andar inferior onde tudo estava mais organizado. De cara deu para perceber que a nata estava ali. Engano meu. Ali estava o leite.

Aqui, apontou. Comecei a passar os discos com a displicência do ignorante. O cara não esperou dez segundos. Se estiver procurando Tim Maia Racional, não está aí não. Pronto. Eu havia sido desmascarado. E onde estão? Estavam juntos a outras dessas raridades. Todas sendo preparadas para uma loja só com a nata. E quanto custam?, perguntei. O primeiro, 150; o segundo, 250. Quatrocentos reais os dois. E eles tinham mais de um de cada. Como eu sou pobre...

Tim Maia Racional (1975) é do tempo em que o síndico era seguidor do Universo em Desencanto. As músicas são puramente panfletárias (Leia o livro... leia e vai saber o que é encanto...) mas não dá para negar: Tim estava inspiradíssimo. Cantando uma barbaridade. Funk e soul de primeira para viajar à vontade. A piração durou pouco. Tim se desencantou com o Universo e saiu disparando contra o movimento com a mesma inspiração que gravou os discos. Nunca permitiu que os LPs fossem relançados. Surgiram os CDs, estão quase sumindo, Tim morreu, lá se foram mais de 30 anos e nada de Racional em disquinho.

Ainda bem. Afinal esse era o desejo de seu criador. Agora a Trama está lançando Racional remixado. Pode ser legal lembrar o músico e esse momento de sua obra, pode ser legal homenageá-lo, pode ser que muita gente goste... Eu não gostei do pouco que ouvi. Está bem produzido, mas, para mim, soa como um canto gregoriano em versão feita pelo Latino. Algo herético. Escute qualquer uma das faixas de Tim Maia Racional e compare. E boa viagem.

 
Postado em 15 de dezembro de 2006, sexta

:: Eu sou uma vagabunda mais barata!

Então está combinado: vocês me pagam míseros 10 mil mensais (sem 14º, sem 15º, sem auxílio moradia, sem verbas de gabinete e outras mordomias) e eu NÃO me candidato ao Senado em 2008. Estou fazendo por muito menos da metade do preço! É pegar ou pegar!

Vamos lá! Preciso de apenas 27 amigos (vem mais que isso, diariamente, neste blog) que se cotizem e contribuam com um mínimo de R$ 367 por mês. Uma merreca! Menos que a prestação do seu carro novo que o faz pensar que é gente, um cidadão respeitado, que venceu na vida.

E Heloísa Helena chorou ao se despedir do Senado. Eu também choraria se fosse deixar de ganhar R$ 3.136.000 só de salário nos próximos oito anos.

E Lula chorou ao ser diplomado. Eu também choraria. Com tanta imaginação, não consegui pensar em nada mais vergonhoso que estar à frente de um descaramento desses.

E meu sangue mezzo italiano, mezzo cangaceiro me faz perguntar: Vai ficar por isso mesmo, porra?

Exercitemos nosso espírito nacionalista – Você não torceu pela seleção? Não se meteu em debates para dizer se queria esse ou aquele candidato? –, baixe nosso Novo Hino Nacional, levante-se, coloque o mais alto que puder e faça os putos ouvirem sua voz aqui em Brasília. Ou daqui a pouco não vou mais poder sair na rua porque eles vão querer me enrabar!

 
Postado em 5 de dezembro de 2006, terça

:: A moda ossuário

O homem é um ser carnívoro. Nunca pensei que um vegetariano convicto pudesse abrir a boca ou usar os dedos para dizer isso. Pior: parecerei preconceituoso (só para me fazer entender). Mas essa quebra de convicções tem um bom motivo: dar fim à mania de magreza da mulherada.

É um tema recorrente em meus textos. Falei sobre isso em Não se fazem mais deusas (12.set.2005) e em A mulher que serei (26.jul.2006). Agora, instigado pela seqüência de mortes por anorexia e pelo texto Queremos mulher carnuda, do velho Ricardo Kelmer, vou direto ao assunto: Quem gosta de mulher-cabide é gay. Homem gosta de carne.

Há gostos para todos os tipos, mas tem que ter carne. Achar bonito essas vítimas da fome que desfilam seus ossos nas passarelas é coisa de gay ou de colecionador de ossos. Qual é a da viadagem? Querem acabar com as mulheres? Você tá liiiiiiiiiiiiiinda. Esses anos em Auschwitz lhe fizeram um bem enooooooorme, querida.

E qual é a da mulherada? Ganhar muito dinheiro, viajar o mundo inteiro e morrer sozinha e bem levinha paras as bichas amigas não terem que fazer muita força ao levar o caixão? Porque homem nenhum há de querer um feixe de ossos ao seu lado, muito menos embaixo deles já que o risco de quebrar a criatura toda é enorme! Muito grosso? Muito machista? Não. Muito direto. Magras desse jeito, só mesmo a terra haverá de comer. Se é que haverá algo a ser comido.

Essas meninas nem chegam a ser mulheres. Transformam-se em caveiras cobertas por pele e morrem logo. Mulher é outra coisa. Taí, talvez seja isso! Trata-se de um novo tipo de criatura. A garota-graveto ou garota-cabide é algo feito para viver pouco e desfilar uns trapos. Não foi feita para se tornar mulher, ter consciência de seu corpo, gostar de si mesma, fazer amor, trepar loucamente, ter filhos... Nada disso. A garota-graveto é como certas raças de cachorro em que, através do cruzamento entre várias outras, chega-se a um cão mais feroz ou mais dócil ou mais propício a cuidar do rebanho. Uma coisa para ser usada. Não é um ser humano.

Não sendo humanas, não se reproduzem como nós. A reprodução se dá quase como em uma epidemia. Quando menos se espera, alguém em casa pode estar doente. A filha, que você pensava ser humana, pode querer ser modelo da moda ossuário.

Dia desses – e ainda hoje há muitos espécimes – as garotas queriam ser transformar em mulheres-bundas, botar as mãos nos joelhos, dar uma abaixadinha, mexer gostoso... Decerto, uma má utilização de tão valoroso material, mas não lembro de nenhuma que tenha morrido porque a bunda explodiu ou algo assim. Quando e por que o padrão-vareta começou a ganhar força? Onde foi parar nossa tradição latina de peitos, bundas, curvas e muita sensualidade?

Creio que, tudo pesado (todos os 30 e poucos quilos de cada uma dessas garotas-gravetos), chegaremos à conclusão óbvia: faltou quem as ensinasse a malhar o cérebro.

 
Postado em 2 de dezembro de 2006, sábado

:: Desejo um prefácio sincero

Que não fale da genialidade que não possuo nem do talento do qual desconfio. Sem loas, a não ser no sentido informal e com intenção de apontar minhas parlapatices.

Que mostre um eu desconstruído, não-mitificado ou idealizado como nos mais singelos sonhos de mamãe.

Que diga que adoro cerveja, que ataco a geladeira à noite, que tenho uma gastrite terrível, que sou perdulário, que sou intolerante com gente barulhenta, gente pessimista, gente coitadinha, gente de raciocínio lento... gente em geral. Que meu ídolo é o Urtigão.

Que fui educado em pequenos colégios nos subúrbios cariocas, que não experimentei grandes coisas, não li grandes coisas, não vi grandes coisas, não acredito em grandes coisas. Que fiz mais coisas idiotas do que aproveitáveis.

Que fomente a desconfiança sobre cada palavra que será lida. Que ressalte meu autodidatismo como uma total incapacidade de aprender algo ensinado por alguém.

Que seja aberto com a tirada de um desconhecido ou de alguém que reforce minha inaptidão à perfeição. Algo do tipoFoi publicado por pura generosidade dos editores ou ainda sem qualquer relação comoEi, volte aqui com meu barril! (Pica Pau).

E seja encerrado de forma que não deixe dúvidas: Escreveu porque nunca aprendeu a fazer outra coisa.

 
 
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