Postado
em 27 de dezembro de 2005,
terça |
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Samsara

E
agora, Mané? O Natal passou. A luz
apagou. O peru virou bosta. E agora, Mané?
Passado
o Natal, podemos voltar às intrigas,
às discussões, aos desentendimentos,
às brigas, ao foda-se generalizado.
Podemos outra vez aterrorizar as crianças,
nos desentender com os familiares, chantagear
emocionalmente os amigos, xingar o vizinho.
Fiquemos à vontade para ignorar os
meninos pedindo dinheiro nos sinais, para
virar o rosto à mão estendida
que vem da calçada, para dizer “tem
não”
à voz no interfone.
Façamos
todas aquelas promessas de fim de ano. Todas
irrealizáveis por mais banais que sejam.
Ou tomemos decisões pragmáticas
como continuar fazendo o inferno na terra,
continuar adiando tudo, continuar engordando,
continuar esperando o próximo Natal
e o próximo Ano Novo, continuar acreditando
que nos trarão algo de bom, novo e
imerecido, continuar esperando, continuar
continuando, continuar, continuar…
Vamos
culpar a empregada, brigar no trânsito,
discutir com o caixa do supermercado, despejar
nossas frustrações no frentista,
tratar mal o garçom, não cumprimentar
o porteiro. Vamos reclamar da demora de tudo,
menos do tempo, que passa rápido, reclamar
porque faltou, porque veio além da
conta, porque faz frio, porque faz calor,
da chuva que não pára, do sol
que queima e parece trazer felicidade a todos
menos a nós mesmos. Vamos reclamar,
reclamar e nada fazer para mudar, apesar de
ser o que mais desejamos.
Vamos
deixar tudo para resolver amanhã, um
amanhã que nunca chega, que já
é hoje e sempre.
No
próximo final de semana, nos redimiremos
com votos de um Feliz Ano Novo. E no dia seguinte,
começaremos tudo de velho. Novamente.
Outra vez. Eternamente.
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Postado
em 22 de dezembro de 2005,
quinta |
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Confabulações campinenses

Foram-se
três das nove semanas de férias
que me dei. Espero que as próximas
se arrastem. Desde o primeiro dia, esqueci
onde moro e minha rotina. Por vontade própria,
teria passado mais tempo na rede e só
entraria em um carro como passageiro, já
que dirigir não me agrada. Aliás,
este é um ponto interessante para
se abordar. O trânsito em Campina
Grande é uma loucura. Será
preciso um cara muito macho para alargar
essas ruas, buscar alternativas e disciplinar
de forma minimamente civilizada o trânsito
desta cidade. Um cara não. Um cabra.
As
pessoas atravessam as ruas do centro da
cidade como se estivem lidando com carros
de bois e charretes. Parecem ainda não
haver entendido a lógica do trânsito
dos automóveis, se é que existe
uma. Faixa de pedestre é mera alegoria.
Como motorista, você pára e
as pessoas que querem atravessar param também.
Ficam olhando como se você fosse um
extraterrestre. Atrás, as buzinas
comem soltas. E como se buzina nessa cidade!
Para tudo. O sinal abriu, buzina-se. Vê-se
um carro a frente, buzina-se. Ao lado, buzina-se.
No retrovisor, buzina-se. Sem motivo algum,
buzina-se. Sem a buzina, o campinense não
dirige.
Em
uma rua com quatro faixas, só uma
serve para o trânsito. As outras são
estacionamento. E só neste caso dirige-se
na faixa. Nos outros, dirige-se sempre entre
uma e outra. É como se aquela listra
branca no asfalto devesse ficar no meio
do carro e não o carro entre duas
delas.
E
o flagelo das igrejas neo-evangélicas
que tomam os antigos cinemas não
poupou Campina Grande. Vou dar uma olhada
na Bíblia para ter certeza de que
estas igrejas não são uma
das sete pragas do Egito. O Babilônia
virou Universal. O Capitólio está
fechado e o São José está
em pedaços.
Campina
ainda não aprendeu a cuidar de sua
História. O pouco que se guarda está
em mãos de particulares. As memórias
sobre o “Açude
novo”
que “nunca”
teve (teve sim!) água ou da época
áurea do algodão são
guardadas pelos mais velhos. Pesquisar,
aqui, é trabalho para profissionais.
Não queira que um aluno aprenda algo
pesquisando nas poucas bibliotecas ou museus.
Em minhas poucas andanças, já
guardo no notebook mais material
do que qualquer museu sozinho da cidade.
É
uma cidade agradabilíssima. O clima
nem se fala. Bom para estudar, dormir e
“brincar
de fazer menino”.
Não necessariamente nesta ordem.
Ainda nova, espero que saiba crescer sem
perder o que há de bom em uma província
e sem deixar que os males das cidades grandes
a contagiem.
Da
rede na varanda, não vejo a cidade.
Os muros me impedem. Vou andar por aí
e volto para contar.
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Postado
em 5 de dezembro de 2005,
terça |
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O abscesso, a rede e os Vagabundos iluminados

Cheguei
à Campina
Grande com a determinação
de esclarecer, de uma vez por todas, o que
é melhor: cama
ou rede? A única obrigação
desta primeira de nove semanas de férias
seria descansar. Dormir tudo que não
dormi durante o resto do ano. No primeiro
dia, cumpri fielmente tal compromisso. No
segundo, a dor de dente que planejava tratar
em Natal, na próxima semana, apertou
e melou meu encontro com Morpheu. Corri
para a dentista, certo de perder um molar.
Ela disse que ainda havia salvação,
mas o abscesso
estava lá. O pus fazendo o trigêmeo
se contorcer! Acho que nunca tive um abscesso
antes. Creio que lembraria de tamanha dor.
Principalmente da hora em que a agulha atinge
a polpa! Vai doer assim… Isso
sim é ser punk: fazer tratamento
de canal durante as férias. Diversão
pra macho! Vá lá que eu costume
relaxar pegando onda em tsunami, mas isso
já é demais!
Nervo extraído, dor extinta, voltei
à dura tarefa de piloto de provas
de rede. Nada como relaxar e deixar
que o mundo se vire sem você.
Se quiser continuar girando que gire; se
não quiser, que aguarde meu retorno.
Rede é uma maravilha em qualquer
lugar, mas no Nordeste é melhor.
Mais ainda se estiver na sombra, com um
ventinho soprando e a possibilidade de alguém
lhe trazer um coco gelado. Ô, vida
difícil!
E diante de tanto esforço, não
poderia escolher outra leitura: Os
vagabundos iluminados, de Keroauc.
Estou lendo com a urgência de uma
velha tartaruga emaconhada. Os outros livros
que esperem. Prometo passar um bom tempo
com todos.
Um registro: laptop
e rede ficam bonitos de ser ver em foto,
mas é preciso intenso treinamento
para conciliá-los.
Um pouco mais animado, termino hoje a matéria
sobre o Festival
de Brasília para a SET
de janeiro. No final de semana, sigo para
Natal
onde exercitarei outros vícios: cheirar
e morder minhas
filhas e, já livre dos antiinflamatórios,
retomar meu plano de acabar com toda cerveja
do mundo. Povo de Christmas City, bote as
brejas para gelar!
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