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As novas aventuras de Sandro e Wilson
na Terra de Mário

Sair
de Brasília. Já estava com idéia
fixa a respeito disso. De Brasília
para Rio ou São Paulo, como lembro
sempre, é rápido. O problema
maior é depois que se chega. A não
ser que você vá ficar ao lado
do aeroporto, a viagem até seu local
de hospedagem é longa. Nos últimos
tempos, há ainda o problema dos atrasos
dos vôos. Tive sorte. Foi tudo perfeito
nesse quesito. O vôo saiu no horário
e ainda chegou ao aeroporto de Congonhas cinco
minutos antes do previsto. Do céu azul
de Brasília ao céu cinzento
de São Paulo, apenas uma hora e meia.
De Congonhas à Mooca – ônibus,
metrô, outro ônibus –, outra
hora e meia. Saí de casa ao meio-dia,
cheguei ao Sobrado Natal
às 17h30.
A
temporada paulistana 2007
começou, na terça, em um dos
mais conhecidos pontos da cidade: a Avenida
Paulista. Eu e
Wilson
fotografamos meia Paulista. Suas peculiaridades,
suas estranhezas, seus monumentos, seu movimento.
Em seguida, fomos a um dos programas mais
esperados que planejei para essa estada: a
exposição de Goya no
Masp. O espanhol sempre foi meu pintor
preferido. Esta mostra é de gravuras.
Quatro séries de 80 gravuras. Saí
com o pescoço duro. Vi todas detalhadamente.
O nariz a meio palmo de cada gravura. Estica,
olha por cima dos óculos, percebe-se
os detalhes, baixa o pescoço, vê
outra, passo pro lado, tudo de novo mais de
cem vezes.
Depois
de uma exposição como a de Goya
– um dia aprenderei – é
necessário voltar para casa e só
sair no dia seguinte. Nada de tevê,
de leitura, filmes e nunca, NUNCA
uma outra exposição.
Mas como o tempo precisava ser aproveitado
– e eu ainda não aprendi a lição
– fui entrando em todas pelas quais
passava. Estética reflexiva,
de Olívio Mendes Júnior,
no Espaço Nossa Caixa foi a primeira.
Simples, bacana, mas nunca, eu disse NUNCA
para ser vista pós-Goya. Na Caixa Cultural,
Cenas Brasileiras,
de Juraci Dórea –
estandartes da vida sertaneja –, e a
pequena mas deliciosa Vedetes
em revista, com direito às
curvas de Virgínia Lane,
Berta Loran, Íris
Bruzzi, Renata Fronzi,
Luz del Fuego e Eros
Volúsia, dentre outras.
Esse
primeiro dia ainda renderia uma peregrinação
por pelo menos sete sebos que eu não
conhecia – no Centro e na Liberdade
– e duas surpresas que, junto a Goya,
já valeram a viagem: os livros A face
cruel, de David Nasser, não exatamente
uma raridade mais um dos poucos que me faltavam
para completar os títulos do jornalista,
além do prazer extra de comprá-lo
por módicos cinco reais; e Mezzamaro,
autobiografia de Cassandra Rios, lançado
há apenas sete anos mas que só
teve uma única e pequena edição.
Onze
horas de andanças nesse primeiro dia.
Quarta-feira
macabra
Quarta
de curiosidades e tour mórbidos.
Saímos por volta do meio-dia e fomos
direto ao Castelinho da Rua Apa,
onde aconteceu, em 1937, o famoso crime que
vitimou uma senhora e seus dois filhos. O
crime tem uma versão oficial e várias
paralelas. A oficial diz que um dos irmãos
matou o outro, a mãe e depois se suicidou
(com dois tiros!) . Outra versão diz
que o outro irmão fez isso. Há
ainda a possibilidade do envolvimento de uma
quarta pessoa, já que a mãe
teria sido morta com balas de duas armas,
uma das quais nunca foi encontrada. O crime
completará 70 anos no próximo
dia 12 de maio.
Há
dez anos, o local abriga o Clube de
mães que chegou a cuidar de
mais de cem crianças. Na verdade, isso
acontece em um anexo, já que o Castelo,
hoje, não oferece condição
alguma a qualquer atividade.
Wilson
e eu entramos lá. A construção
perdeu boa parte de seu espaço original.
O que sobrou, degradou-se intensamente nos
últimos sete anos. Fotos feitas em
2000 mostram que o que restou de sua estrutura
ainda estava em bom estado se comparado ao
que existe hoje.
Um
ferro-velho, moradores de rua, o Clube de
mães e um grupo de teatro já
passaram pelo local. Quase todo o teto já
se foi e o interior do Castelo é um
depósito de tranqueiras: caixas, pedaços
de móveis, caibros, fotos, sacolas...
Uma coleção de histórias
perdidas e esquecidas. Só a primeira
ninguém esquece.
De
lá, caminhamos pela São João,
rumo ao Andraus, conhecido
pelo incêndio ocorrido em fevereiro
de 1972, que deixou mais de trezentas pessoas
feridas e 16 mortas. Ainda hoje, o prédio
parece moderno ao lado de sua vizinhança.
Passados 35 anos, parece não haver
mais lembranças ao seu redor. As pessoas
acompanham o olhar do fotógrafo procurando
algo que esteja acontecendo no momento, mas
o foco está no passado. Wilson, que
à época trabalhava como contínuo,
viu o incêndio e ainda guarda más
lembranças. Sempre se refere ao cheiro
que sentiu naquela tarde de verão.
A
quarta macabra se encerraria no Joelma,
mas como chegávamos ao final da tarde,
ficamos por ali mesmo. Entrei em alguns sebos
- para não perder o costume, passamos
pelo Largo do Arouche (Brecheret
está presente lá), pela nova
e inacabada Praça da República,
Edifício Copan e vimos o anoitecer
no Vale do Anhangabaú,
com direito a belas fotos do Martinelli
e do antigo prédio dos Correios.
Coincidência
ou não, apesar de todo cansaço,
rolei na cama a noite inteira. Só depois
das quatro da manhã consegui dormir
um pouco. Às seis, já estava
de pé.
Quinta:
tradição e surpresas
A
experiência do dia anterior, quando
resolvi andar com o notebook e fotografar
“sem
miséria”,
mostrou-se perfeita. No Centro, fotografei
o Edifício Rolim,
o prédio da Secretaria de Segurança
e o Páteo do Colégio
apenas por estarem no caminho até o
Banespão.
Também
não estavam em minha pré-programação
de exposições as que veríamos
nesse dia. A primeira foi Goeldi na
BM&F: Arte em preto e branco.
A obra de Oswaldo Goeldi
merece ser vista (aliás, se estiver
em São Paulo, corra, pois a exposição
termina nessa quinta, 5 de abril), porém
o que mais me chamou a atenção
foi a capacidade de fazer uma exposição
agradável de ser vista, informativa,
em um espaço relativamente pequeno
e sem um material que impressione pela quantidade.
Tudo bem que a Bolsa de Mercadorias e Futuros
não precisa se preocupar com economia,
mas parece-me que bom gosto e respeito ao
artista deram o tom do sucesso dessa mostra.
Subimos
para as já tradicionais fotos no alto
do Banespão. A diferença
é que nos outros anos elas foram feitas
em época de bastante frio. Este
março foi o mais quente dos últimos
64 anos em São Paulo. Um início
de outono com céu aberto e tão
azul quanto a poluição permitiu.
Se olhando do chão para o alto estava
bonito, do alto para o chão nem tanto.
Uma neblina não deixava ver muito como
imaginávamos antes de chegar à
torre. E agora só se pode ficar apenas
dez minutos lá em cima. A segurança
ainda está se acostumando com o vai-e-vem
dos elevadores e grupos com um número
máximo de pessoas, mas parece melhor
assim. No térreo, vimos a exposição
de Adélio Sarro. Sem
folders ou prospectos, mas três catálogos
à venda pelo módico preço
de cem reais cada. Ao menos se podia fotografar.
Também
fora da programação e igualmente
admirável a exposição
Flávio de Carvalho - Retratos e Memórias,
na Faap. De lá, passamos pela Galeria
Prestes Maia. Interessante como as
pessoas que passam por ali há anos
não prestam atenção aos
detalhes da galeria. As Graças
de Brecheret ou mesmo a pequena placa
informando que ali estão as primeiras
escadas rolantes públicas do país.
Basta alguém puxar uma máquina
fotográfica para o rebanho diminuir
o passo e olhar também como se ali
houvesse algo novo.
Seguimos
para o edifício Joelma. Há alguns
meses eu havia prometido que em minha próxima
vinda à cidade daria mais atenção
a certos lugares. Um deles era o Joelma. Passados
33 anos do incêndio e muitas tentativas
de fazer do prédio um lugar normal
– até Serra, quando prefeito,
despachou lá -, ainda há muitas
salas vazias. E completamente vazio está
o Hotel Cambridge. A bela porta giratória,
de madeira e vidro, foi sepultada por uma
parede e uma porta de metal. Mais um marco
que morre.
Ali
perto, na São Luiz, outra vítima
dos tempos modernos: o Cine Metrópole.
Pé
no freio
Diminuímos
o ritmo. Um pouco. Na setxa, saímos
somente à tarde e sem grandes pretensões.
Rolim, Páteo e Mosteiro de
São Bento de outros ângulos,
com outras luzes. Descemos a Rua Florêncio
de Abreu fotografando as dezenas
de prédios antigos; alguns em processo
de recuperação, outros completamente
abandonados.
Na
Estação Pinacoteca,
três exposições: Caminhos
de Santiago (dessas que dá
medo ver algo depois), Luise Weiss
e Feres Khury (xilogravuras
de alto nível, catálogo a R$
15) e Coleção Nemirovsky
- O olhar do colecionador (catálogo
a R$ 120).
No
fim de tarde, fotos na Ipiranga com São
João, e Andraus ao longe. Ficamos ainda
pelo centro para algumas noturnas da Prefeitura,
do Teatro e da Catedral da Sé.
Sábado
foi dia de descanso. Ainda ensaiei
um encontro com Jal,
mas tive que voltar. E Wilson estava, digamos,
“indisposto”
(comeu algo que não fez bem) e, como
um rei, passou o dia no trono.
No
domingo, fomos à exposição
A dor da Colômbia,
de Botero, no Memorial
da América Latina. Sorte de
Botero em ser Botero. Dez para qualquer pincelada
displicente que ele dê; quatro para
a curadoria. Média 7.
Então vá. E rápido, pois
ficará apenas um mês aqui (termina
no dia 26 de abril). Na abertura da exposição,
uma semana antes, se podia fotografar. De
qualquer jeito, inclusive com flashes, o que
é um absurdo! Dois dias depois, não
se podia fotografar de jeito nenhum. O catálogo
da mesma exposição na Colômbia
estava a um bom preço: R$ 50. Só
que já havia acabado. Diante das telas
maiores, inventaram de colocar um tablado
azul , destoando completamente do ambiente
e dos quadros, com rampas laterais. Para que
serve? Para subir, claro, aproximar-se da
tela. Não. De forma tosca, escrito
à mão e com caneta vermelha,
espalhados nos tablados, os avisos diziam
que não subisse ali. Botero merece
mais cuidado e respeito.
Confesso
que isso tirou bastante do meu bom humor.
Fomos até a Luz e
sequer tive coragem de visitar as exposições
na Pinacoteca do Estado.
Vagamos pelo Jardim da Luz entre putas acabadas,
vagabundos profissionais, fanáticos
religiosos e toda fauna comum ao local. O
mais interessante foi ver um grupo formado
por nove crianças judias (oito meninas
“em
escadinha”
e um menino) com uma jovem tutora que também
parecia uma criança. Sete das meninas
usavam vestidos iguais. O grupo chamava mais
atenção do que qualquer coisa.
Vez ou outra alguma falava algo em português,
mas entre eles era só iídiche.
Mais
algumas fotografias errantes pelo centro para
aproveitar o único dia em que as ruas
ficam vazias. Quando resolvemos voltar para
casa, uma ocorrência policial bem a
nossa frente. Um homem, que provavelmente
bateu uma carteira, dando trabalho a seis
policiais militares. O velho instinto jornalístico
me fez sacar a máquina. Um sargento,
demonstrando toda sua falta de educação
e treinamento para lidar com cidadãos,
olha para mim e pergunta com grossa ironia:
“Não
quer chegar mais perto para fotografar?”
E eu, já chegando, com a cara mais
cínica do mundo, olhos de criança
a quem se ofereceu um lindo balão de
gás: “Pode?!!”
E ainda falei:
“Apesar de não estar ‘fantasiado’,
sou jornalista. E mesmo que não fosse,
você sabe que eu poderia fotografar”.
O cara teve que engolir seco e, parecendo
desconcertado, soltou um “é
que agora é moda filmar pra vender
pra Globo”.
Polícia para quem precisa...
Segunda
- Quadra 51, jazigo 25
No
sétimo dia, encaramos uma viagem ao
Cemitério do Horto Florestal.
Nunca fui tão longe em São Paulo.
Metrô até quase uma estação
terminal, ônibus do ponto inicial até
o ponto final e mais uma caminhada, subindo
uma ladeira, para chegar ao cemitério.
Só a vista - bem diferente - da cidade,
do alto da Cantareira, já valeu a pena.
Mas estávamos ali para visitar o túmulo
de Adelaide Carraro, “a
escritora dos milhões de leitores”.
O
local estava cheio de flores, mas não
eram para ela. Haviam sido colocadas lá
um ou dois dias antes, pelo terceiro aniversário
de morte de outra pessoa. E nem existe uma
placa com o nome de Adelaide. Só não
mandei fazer uma porque achei melhor avisar
antes à família.
No
cemitério do Horto há outras
pessoas conhecidas não exatamente por
suas obras mas pelas condições
em que morreram ou por fatos polêmicos
de suas vidas. É lá que está
a jornalista Sandra Gomide,
assassinada em 2000 por seu namorado, então
diretor do jornal O Estado de
São Paulo. Também
foi sepultado no Horto, o coronel
Ubiratan, que comandou o massacre
do Carandiru em 1992. Condenado a
632 anos de prisão, foi eleito deputado
estadual e encontrou a morte em casa, em setembro
do ano passado, em um assassinato provavelmente
motivado por ciúmes. É do tipo
que não deve descansar nem depois de
morto. Por motivos óbvios, não
há placa identificando o túmulo.
Fizemos
a longa viagem de volta ao centro, fizemos
mais fotos (somente minhas, foram mais de
mil nesses sete dias - veja algumas clicando
aqui) e terminamos o dia no Bar
Brahma. Um choppinho merecido para
encerrar mais de 12 horas de caminhadas, sobe
e desce de ônibus, entre e sai de metrô.
Quem se aventura a nos acompanhar
em uma próxima semana cultural
na Terra de Mário de Andrade? Pernas,
disposição, muita curiosidade
e o dinheiro das passagens (à exceção
de uma, que custou quatro reais, todas as
exposições tinham entrada franca).
Quem vai?