Postado em 30 de abril de 2007, segunda

:: Abril despedaçado

Este abril começou em São Paulo, em um domingo, numa viagem até a Barra Funda para ver a exposição de Botero no Memorial da América Latina. Na segunda, outra longa viagem, cheia de pontos finais ou quase, até o cemitério do Horto Florestal. Na terça à noite, mais uma viagem, dessa vez de ônibus, entre São Paulo e São Pedro da Aldeia (RJ). Viagem interrompida, por volta de uma da manhã, por policiais rodoviários que apreenderam produtos genéricos que haviam sido despachados junto com os passageiros. Uma hora e meia de atraso, bate-boca, de um senhor enfartando e de um Sandro, aos brados, convocando os outros passageiros a acionarem judicialmente a empresa.

Os três dias programados em São Pedro da Aldeia transformaram-se em seis, quase sete. Mergulhado nos mundos e nas histórias de Carlos Estevão e Appe, não fosse o seqüestro empreendido com sucesso por D. Neusa, Laura e Glória – que me arrastaram até Búzios no domingo –, eu teria ficado todo o tempo, feliz como um ácaro, entre toneladas de papel. Trabalho suspenso apenas pelas inúmeras tentativas de Doris em me restituir os quilos perdidos na semana anterior (e providenciando mais alguns). Passei por lá como memorialista e pesquisador, mas os que lembrarem de mim o farão de forma diferente. Acabei atuando como terapeuta familiar. Ouvi, ouvi, ouvi e – não intencionalmente, claro – acabei provocando momentos de catarse entre netos, avó, primos e quem mais estivesse por perto. Todos saíram vivos.

Na terça em que acordei na metade do caminho para meus 70 anos, peguei um ônibus, ainda de madrugada, para o Rio. De lá, só fiz pegar outro para São Paulo. Minha má vontade com minha terra natal não permitia sequer olhares mais longos pela janela. Em Sampa novamente, de mala e cuia, graças ao peso extra na mochila (que se arrebentou e foi devidamente aposentada), fui obrigado a comprar uma daquelas malas com rodinhas. Vivi então momentos de sacoleiro, arrastando aquilo pelas ruas do centro de São Paulo. Chopp no Bar Brahma para não perder o costume e, finalmente, voltar para a casa de Wilson e arrumar tudo.

Na quarta pela manhã, preparativos para o retorno à Brasília. O pessoal dos aeroportos tem sido bonzinho comigo. Sem grandes esperas, no início da tarde já estava de volta ao cerrado. As malas foram parcialmente desfeitas e ficaram na sala por uma semana. Roupas, livros, fotos e tudo mais me fazendo companhia e testemunhando minha tentativa de organizar todo o material trazido. De lá, saíram direto para o aeroporto. Destino: Recife.

Foi quase como no Rio. A diferença foi que do aeroporto peguei um táxi (sobrevivi ao carro e ao motorista) até o distante (de tudo) e infame terminal rodoviário da capital pernambucana. Debaixo de chuva, parti para Campina Grande, na Paraíba. E finalmente pude desabar e perceber o quanto estava esgotado.

Despedaçados, eu e abril. Este chegando ao fim; eu ensaiando outro recomeço. Que venha maio.

 
Postado em 3 de abril de 2007, terça

:: As novas aventuras de Sandro e Wilson na Terra de Mário

Sair de Brasília. Já estava com idéia fixa a respeito disso. De Brasília para Rio ou São Paulo, como lembro sempre, é rápido. O problema maior é depois que se chega. A não ser que você vá ficar ao lado do aeroporto, a viagem até seu local de hospedagem é longa. Nos últimos tempos, há ainda o problema dos atrasos dos vôos. Tive sorte. Foi tudo perfeito nesse quesito. O vôo saiu no horário e ainda chegou ao aeroporto de Congonhas cinco minutos antes do previsto. Do céu azul de Brasília ao céu cinzento de São Paulo, apenas uma hora e meia. De Congonhas à Mooca – ônibus, metrô, outro ônibus –, outra hora e meia. Saí de casa ao meio-dia, cheguei ao Sobrado Natal às 17h30.

A temporada paulistana 2007 começou, na terça, em um dos mais conhecidos pontos da cidade: a Avenida Paulista. Eu e Wilson fotografamos meia Paulista. Suas peculiaridades, suas estranhezas, seus monumentos, seu movimento. Em seguida, fomos a um dos programas mais esperados que planejei para essa estada: a exposição de Goya no Masp. O espanhol sempre foi meu pintor preferido. Esta mostra é de gravuras. Quatro séries de 80 gravuras. Saí com o pescoço duro. Vi todas detalhadamente. O nariz a meio palmo de cada gravura. Estica, olha por cima dos óculos, percebe-se os detalhes, baixa o pescoço, vê outra, passo pro lado, tudo de novo mais de cem vezes.

Depois de uma exposição como a de Goya – um dia aprenderei – é necessário voltar para casa e só sair no dia seguinte. Nada de tevê, de leitura, filmes e nunca, NUNCA uma outra exposição. Mas como o tempo precisava ser aproveitado – e eu ainda não aprendi a lição – fui entrando em todas pelas quais passava. Estética reflexiva, de Olívio Mendes Júnior, no Espaço Nossa Caixa foi a primeira. Simples, bacana, mas nunca, eu disse NUNCA para ser vista pós-Goya. Na Caixa Cultural, Cenas Brasileiras, de Juraci Dórea – estandartes da vida sertaneja –, e a pequena mas deliciosa Vedetes em revista, com direito às curvas de Virgínia Lane, Berta Loran, Íris Bruzzi, Renata Fronzi, Luz del Fuego e Eros Volúsia, dentre outras.

Esse primeiro dia ainda renderia uma peregrinação por pelo menos sete sebos que eu não conhecia – no Centro e na Liberdade – e duas surpresas que, junto a Goya, já valeram a viagem: os livros A face cruel, de David Nasser, não exatamente uma raridade mais um dos poucos que me faltavam para completar os títulos do jornalista, além do prazer extra de comprá-lo por módicos cinco reais; e Mezzamaro, autobiografia de Cassandra Rios, lançado há apenas sete anos mas que só teve uma única e pequena edição.

Onze horas de andanças nesse primeiro dia.

Quarta-feira macabra

Quarta de curiosidades e tour mórbidos. Saímos por volta do meio-dia e fomos direto ao Castelinho da Rua Apa, onde aconteceu, em 1937, o famoso crime que vitimou uma senhora e seus dois filhos. O crime tem uma versão oficial e várias paralelas. A oficial diz que um dos irmãos matou o outro, a mãe e depois se suicidou (com dois tiros!) . Outra versão diz que o outro irmão fez isso. Há ainda a possibilidade do envolvimento de uma quarta pessoa, já que a mãe teria sido morta com balas de duas armas, uma das quais nunca foi encontrada. O crime completará 70 anos no próximo dia 12 de maio.

Há dez anos, o local abriga o Clube de mães que chegou a cuidar de mais de cem crianças. Na verdade, isso acontece em um anexo, já que o Castelo, hoje, não oferece condição alguma a qualquer atividade.

Wilson e eu entramos lá. A construção perdeu boa parte de seu espaço original. O que sobrou, degradou-se intensamente nos últimos sete anos. Fotos feitas em 2000 mostram que o que restou de sua estrutura ainda estava em bom estado se comparado ao que existe hoje.

Um ferro-velho, moradores de rua, o Clube de mães e um grupo de teatro já passaram pelo local. Quase todo o teto já se foi e o interior do Castelo é um depósito de tranqueiras: caixas, pedaços de móveis, caibros, fotos, sacolas... Uma coleção de histórias perdidas e esquecidas. Só a primeira ninguém esquece.

De lá, caminhamos pela São João, rumo ao Andraus, conhecido pelo incêndio ocorrido em fevereiro de 1972, que deixou mais de trezentas pessoas feridas e 16 mortas. Ainda hoje, o prédio parece moderno ao lado de sua vizinhança. Passados 35 anos, parece não haver mais lembranças ao seu redor. As pessoas acompanham o olhar do fotógrafo procurando algo que esteja acontecendo no momento, mas o foco está no passado. Wilson, que à época trabalhava como contínuo, viu o incêndio e ainda guarda más lembranças. Sempre se refere ao cheiro que sentiu naquela tarde de verão.

A quarta macabra se encerraria no Joelma, mas como chegávamos ao final da tarde, ficamos por ali mesmo. Entrei em alguns sebos - para não perder o costume, passamos pelo Largo do Arouche (Brecheret está presente lá), pela nova e inacabada Praça da República, Edifício Copan e vimos o anoitecer no Vale do Anhangabaú, com direito a belas fotos do Martinelli e do antigo prédio dos Correios.

Coincidência ou não, apesar de todo cansaço, rolei na cama a noite inteira. Só depois das quatro da manhã consegui dormir um pouco. Às seis, já estava de pé.

Quinta: tradição e surpresas

A experiência do dia anterior, quando resolvi andar com o notebook e fotografar sem miséria, mostrou-se perfeita. No Centro, fotografei o Edifício Rolim, o prédio da Secretaria de Segurança e o Páteo do Colégio apenas por estarem no caminho até o Banespão.

Também não estavam em minha pré-programação de exposições as que veríamos nesse dia. A primeira foi Goeldi na BM&F: Arte em preto e branco. A obra de Oswaldo Goeldi merece ser vista (aliás, se estiver em São Paulo, corra, pois a exposição termina nessa quinta, 5 de abril), porém o que mais me chamou a atenção foi a capacidade de fazer uma exposição agradável de ser vista, informativa, em um espaço relativamente pequeno e sem um material que impressione pela quantidade. Tudo bem que a Bolsa de Mercadorias e Futuros não precisa se preocupar com economia, mas parece-me que bom gosto e respeito ao artista deram o tom do sucesso dessa mostra.

Subimos para as já tradicionais fotos no alto do Banespão. A diferença é que nos outros anos elas foram feitas em época de bastante frio. Este março foi o mais quente dos últimos 64 anos em São Paulo. Um início de outono com céu aberto e tão azul quanto a poluição permitiu. Se olhando do chão para o alto estava bonito, do alto para o chão nem tanto. Uma neblina não deixava ver muito como imaginávamos antes de chegar à torre. E agora só se pode ficar apenas dez minutos lá em cima. A segurança ainda está se acostumando com o vai-e-vem dos elevadores e grupos com um número máximo de pessoas, mas parece melhor assim. No térreo, vimos a exposição de Adélio Sarro. Sem folders ou prospectos, mas três catálogos à venda pelo módico preço de cem reais cada. Ao menos se podia fotografar.

Também fora da programação e igualmente admirável a exposição Flávio de Carvalho - Retratos e Memórias, na Faap. De lá, passamos pela Galeria Prestes Maia. Interessante como as pessoas que passam por ali há anos não prestam atenção aos detalhes da galeria. As Graças de Brecheret ou mesmo a pequena placa informando que ali estão as primeiras escadas rolantes públicas do país. Basta alguém puxar uma máquina fotográfica para o rebanho diminuir o passo e olhar também como se ali houvesse algo novo.

Seguimos para o edifício Joelma. Há alguns meses eu havia prometido que em minha próxima vinda à cidade daria mais atenção a certos lugares. Um deles era o Joelma. Passados 33 anos do incêndio e muitas tentativas de fazer do prédio um lugar normal – até Serra, quando prefeito, despachou lá -, ainda há muitas salas vazias. E completamente vazio está o Hotel Cambridge. A bela porta giratória, de madeira e vidro, foi sepultada por uma parede e uma porta de metal. Mais um marco que morre.

Ali perto, na São Luiz, outra vítima dos tempos modernos: o Cine Metrópole.

Pé no freio

Diminuímos o ritmo. Um pouco. Na setxa, saímos somente à tarde e sem grandes pretensões. Rolim, Páteo e Mosteiro de São Bento de outros ângulos, com outras luzes. Descemos a Rua Florêncio de Abreu fotografando as dezenas de prédios antigos; alguns em processo de recuperação, outros completamente abandonados.

Na Estação Pinacoteca, três exposições: Caminhos de Santiago (dessas que dá medo ver algo depois), Luise Weiss e Feres Khury (xilogravuras de alto nível, catálogo a R$ 15) e Coleção Nemirovsky - O olhar do colecionador (catálogo a R$ 120).

No fim de tarde, fotos na Ipiranga com São João, e Andraus ao longe. Ficamos ainda pelo centro para algumas noturnas da Prefeitura, do Teatro e da Catedral da Sé.

Sábado foi dia de descanso. Ainda ensaiei um encontro com Jal, mas tive que voltar. E Wilson estava, digamos, indisposto (comeu algo que não fez bem) e, como um rei, passou o dia no trono.

No domingo, fomos à exposição A dor da Colômbia, de Botero, no Memorial da América Latina. Sorte de Botero em ser Botero. Dez para qualquer pincelada displicente que ele dê; quatro para a curadoria. Média 7. Então vá. E rápido, pois ficará apenas um mês aqui (termina no dia 26 de abril). Na abertura da exposição, uma semana antes, se podia fotografar. De qualquer jeito, inclusive com flashes, o que é um absurdo! Dois dias depois, não se podia fotografar de jeito nenhum. O catálogo da mesma exposição na Colômbia estava a um bom preço: R$ 50. Só que já havia acabado. Diante das telas maiores, inventaram de colocar um tablado azul , destoando completamente do ambiente e dos quadros, com rampas laterais. Para que serve? Para subir, claro, aproximar-se da tela. Não. De forma tosca, escrito à mão e com caneta vermelha, espalhados nos tablados, os avisos diziam que não subisse ali. Botero merece mais cuidado e respeito.

Confesso que isso tirou bastante do meu bom humor. Fomos até a Luz e sequer tive coragem de visitar as exposições na Pinacoteca do Estado. Vagamos pelo Jardim da Luz entre putas acabadas, vagabundos profissionais, fanáticos religiosos e toda fauna comum ao local. O mais interessante foi ver um grupo formado por nove crianças judias (oito meninas em escadinha e um menino) com uma jovem tutora que também parecia uma criança. Sete das meninas usavam vestidos iguais. O grupo chamava mais atenção do que qualquer coisa. Vez ou outra alguma falava algo em português, mas entre eles era só iídiche.

Mais algumas fotografias errantes pelo centro para aproveitar o único dia em que as ruas ficam vazias. Quando resolvemos voltar para casa, uma ocorrência policial bem a nossa frente. Um homem, que provavelmente bateu uma carteira, dando trabalho a seis policiais militares. O velho instinto jornalístico me fez sacar a máquina. Um sargento, demonstrando toda sua falta de educação e treinamento para lidar com cidadãos, olha para mim e pergunta com grossa ironia: Não quer chegar mais perto para fotografar? E eu, já chegando, com a cara mais cínica do mundo, olhos de criança a quem se ofereceu um lindo balão de gás: Pode?!! E ainda falei:Apesar de não estar fantasiado, sou jornalista. E mesmo que não fosse, você sabe que eu poderia fotografar. O cara teve que engolir seco e, parecendo desconcertado, soltou um é que agora é moda filmar pra vender pra Globo. Polícia para quem precisa...

Segunda - Quadra 51, jazigo 25

No sétimo dia, encaramos uma viagem ao Cemitério do Horto Florestal. Nunca fui tão longe em São Paulo. Metrô até quase uma estação terminal, ônibus do ponto inicial até o ponto final e mais uma caminhada, subindo uma ladeira, para chegar ao cemitério. Só a vista - bem diferente - da cidade, do alto da Cantareira, já valeu a pena. Mas estávamos ali para visitar o túmulo de Adelaide Carraro, a escritora dos milhões de leitores.

O local estava cheio de flores, mas não eram para ela. Haviam sido colocadas lá um ou dois dias antes, pelo terceiro aniversário de morte de outra pessoa. E nem existe uma placa com o nome de Adelaide. Só não mandei fazer uma porque achei melhor avisar antes à família.

No cemitério do Horto há outras pessoas conhecidas não exatamente por suas obras mas pelas condições em que morreram ou por fatos polêmicos de suas vidas. É lá que está a jornalista Sandra Gomide, assassinada em 2000 por seu namorado, então diretor do jornal O Estado de São Paulo. Também foi sepultado no Horto, o coronel Ubiratan, que comandou o massacre do Carandiru em 1992. Condenado a 632 anos de prisão, foi eleito deputado estadual e encontrou a morte em casa, em setembro do ano passado, em um assassinato provavelmente motivado por ciúmes. É do tipo que não deve descansar nem depois de morto. Por motivos óbvios, não há placa identificando o túmulo.

Fizemos a longa viagem de volta ao centro, fizemos mais fotos (somente minhas, foram mais de mil nesses sete dias - veja algumas clicando aqui) e terminamos o dia no Bar Brahma. Um choppinho merecido para encerrar mais de 12 horas de caminhadas, sobe e desce de ônibus, entre e sai de metrô. Quem se aventura a nos acompanhar em uma próxima semana cultural na Terra de Mário de Andrade? Pernas, disposição, muita curiosidade e o dinheiro das passagens (à exceção de uma, que custou quatro reais, todas as exposições tinham entrada franca). Quem vai?

 
 
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