Postado em 25 de abril de 2006, terça

:: Jogue no lixo lá de casa

Em meados de 2004, uma catadora de papel encontrou, em São Paulo, documentos e fotos de Patricia Galvão, a Pagu, (1910-1962), musa do modernismo. O material havia sido jogado fora pela ex-esposa de um dos filhos de Pagu. O caso ganhou destaque nas primeiras páginas dos grandes jornais e mostrou algo que é a cara do Brasil: o total despreparo e falta de zelo para com a preservação de nossa memória.

Na semana passada, jogaram no lixo, bem em frente a minha casa, cerca de 140 revistas, a maioria Veja e Época, em perfeitas condições e embaladas em grandes sacos plásticos. Não pensei meia vez. Peguei tudo, separei e organizei. O que me pareceu interessante, passou a fazer parte do meu acervo particular. O que não me interessou, servirá para trabalhos escolares ou para atividades lúdicas e de aprendizagem em pré-escolas. Uma coisa é certa: nada daquilo é lixo.

Há pouco mais de 10 anos, deixei para trás a primeira parte de meu acervo de periódicos. Foi algo construído, principalmente, entre 1987 e 1994. Coleções de anos completos de revistas semanais como Veja e Istoé, jornais brasileiros e estrangeiros, etc. Daquela leva, foram perdidas revistas históricas como as de Veja anunciando a morte de Renato Russo e a polêmica capa em que Cazuza foi estampado com a chamada Uma vítima da AIDS agoniza em praça pública. História que, quando está acontecendo, não percebemos ser História. Daquele acervo, sobraram apenas os jornais cariocas da morte de Tancredo Neves, publicados em 22 de abril de 1985. Quando isso aconteceu, eu havia acabado de completar 13 anos e já sabia que História não se joga no lixo.

Nos últimos 12 anos, outros acervos foram formados. Outros, porque novas mídias foram acrescentadas. Na parteclássica, de papel, devo ter algo em torno de uma tonelada de jornais, revistas e recortes, divididos entre Natal e Brasília. Pelo menos mil livros, dezenas de VHS, centenas de fotos (em papel fotográfico) e cerca de 100 mil digitais, áudios de entrevistas em formatos diversos, vídeos digitais, reproduções de documentos... tudo isso vem sendo sistematicamente organizado e, tão breve quanto possível, poderá ser acessado através do Memória Viva.

No próximo final de semana, o acervo do Memória Viva ganhará uma contribuição inestimável: uma coleção completa de O Pasquim. Um colecionador, morador de Juiz de Fora (MG), está doando essa coleção e mais algumas dezenas de outros periódicos – incluindo Bundas e O Pasquim 21. O destino disso, depois de sua morte (que não aconteça tão cedo!), provavelmente seria o lixo ou alguma instituição que não cuidaria de forma correta ou não manteria o material à disposição do público.

Pois bem, aos poucos, tudo isso será digitalizado. Alguém dirá: Grande coisa! É praticamente inviável disponibilizar esse material na Internet por causa dos direitos autorais. É verdade. E isso eu ouvi da boca do próprio Ziraldo. Mas a preocupação inicial é PRESERVAR. No que depender de mim, daqui a 100 anos, esse material vai continuar existindo. Os direitos autorais não. E será possível pesquisar, divulgar, publicar outra vez e legar tudo isso às gerações futuras. Esse é o objetivo principal.

Além do meu vizinho, que sem querer doou uma pequena coleção de revistas, e do colecionador de Juiz de Fora (mais detalhes sobre isso no Blog do Memória Viva a partir de 5 de maio), você também pode contribuir. Se você tem livros, revistas e jornais e não sabe o que fazer com eles, fale comigo. Fotos, discos e congêneres também são bem-vindos. Uma coleção de O Cruzeiro ou de A Cigarra será recebida da mesma forma que dois meses de Veja do ano passado. Vale tudo. Só não vale jogar fora e desprezar nossa História.

Se você estiver no Distrito Federal, Goiás, Minas, Rio, São Paulo, Rio Grande Norte, Paraíba ou Paraná, junte seu material, envie-me uma listagem e eu mesmo irei buscar ou providenciarei que isso seja feito o mais breve possível. O que não entrar em processo de recuperação e digitalização, será doado para escolas e outras instituições sérias que aproveitarão o material da melhor maneira possível.

Lembre-se: se for jogar alguma coisa fora, jogue no lixo lá de casa.

 
Postado em 15 de abril de 2006, sábado

:: Judas em Sábado de Aleluia

Confesso que malhei Judas. O costume era ainda bem forte em minha infância. No Sábado de Aleluia, era comum encontrar, bem cedo, os bonecos pendurados nos postes em qualquer rua do Rio. À determinada hora, a criançada exercitava sua crueldade e baixava o cacete no indefeso enforcado.

Creio que só em abril de 2004, ao ver nas primeiras páginas de todos os jornais a foto de corpos carbonizados de civis americanos pendurados numa ponte em Fallujah, no Iraque, me dei conta do quão cruel é o tal costume de malhar o Judas.

Agora, pouco antes da Páscoa de 2006, surge o controverso Evangelho de Judas. Controverso para os fundamentalistas. Para os gnósticos, os documentos – falsos ou verdadeiros – não trouxeram qualquer novidade. Qualquer um que saiba que a Bíblia não caiu do céu e foi uma obra de editoria coletiva e apurada para manter os dogmas da Igreja Católica também não vê nada de fantástico na revelação de outras versões.

O que realmente me deixou surpreso nessa história toda foram as declarações do Sumo Pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana. Bento VXI malhou Judas sem dó nem piedade. Dentre poucas e boas, disse que Judas Iscariotes personifica o homem imundo. Claro, Ratzinger estava defendendo a versão da história contada pela Igreja há mais de dois mil anos. Errada ou não, verdadeira ou não, politicamente correta ou não, é a história oficial e ponto final.

A minha surpresa se deve ao fato de que esta mesma Igreja tem como base, supostamente, os ensinamentos de Jesus. O mesmo Jesus que, segundo os Evangelhos do livro sagrado dessa mesmíssima Igreja, disse coisas como:

“E, quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas. Mas, se vós não perdoardes, também vosso Pai, que está nos céus, vos não perdoará as vossas ofensas.” Marcos 11:25-26

“Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus”. Mateus 5:44

Talvez Ratzinger prefira passagens como:

“Portanto diz o Senhor, o Senhor dos Exércitos, o Forte de Israel: Ah! tomarei satisfações dos meus adversários, e vingar-me-ei dos meus inimigos”. Isaías 1:24

Compaixão, Perdão, Amor aos inimigos e outros ensinamentos de Jesus parecem nada valer quando se trata de manter a história oficial e seus dogmas.

Se eu ainda fosse dado ao cruel costume de malhar o Judas, não escreveria nele o nome do vizinho rabugento que fura a bola da garotada quando esta cai no seu quintal, nem do vendeiro que rouba no preço das mercadorias, nem muito menos lhe daria o nome de um político porque estes são quase todos uns traidores mesmo. Na malhação de Judas deste ano, daria ao boneco o nome de quem não sabe sequer os mais básicos ensinamentos de seu próprio Mestre. Daria umas boas bordoadas no novo Papa. Que saudades do João Paulo!

 
Postado em 10 de abril de 2006, segunda

:: Quando eu nasci, o mundo era assim...

Antes de qualquer outra coisa, é necessário dizer que já nasci em cores. A primeira transmissão em cores da TV brasileira aconteceu 10 dias antes da minha estréia. Êle já era ele, êsse já era esse e eu nasci um bebezinho e já não um bebêzinho. Mas o meu registro civil – sou natural do Estado da Guanabara – dizia que eu era de côr branca! Está lá, na fôlha 42v, e dizia ainda que naquele dia era lavrado o meu assentamento. Nasci sem-terra, sem saber que o era e já sem acentos.

Era o ano do Sesquicentenário da dita Independência do Brasil e estavam entrando em operação os bondinhos panorâmicos do Pão de Açúcar. Tereza Batista já estava cansada de guerra e uma Emenda Constitucional tornava indiretas as eleições para governadores a partir de 1974. Que mérdici! O presidente de má rima inauguraria, em setembro, a Transamazônica, mais uma das grandes obras da ditadura. Quando assumiu, prometeu a volta ao regime democrático, mas continuou botando no Garrastazu do povo.

Enquanto Dom Vito Corleone dava o Oscar a Marlon Brando e Cabaret a Liza Minelli, aqui no Brasil o poderoso chefão tentava impedir que Nelson Pereira dos Santos mostrasse como era gostoso o seu francês. E sobrou para os vermelhos. Cópia de O Encouraçado Potemkin foi apreendida durante uma mostra de filmes soviéticos. E Fellini... Fellini mostrava Roma.

Steven Tallarico já era Tyler mas estava a alguns anos de fazer sua melhor obra. Já o Aerosmith apareceria no ano seguinte, assim como o Kiss. Alguns dos meus heróis começavam a juntar seus poderes.

A sonda espacial Pioneer era lançada com a missão de chegar a Júpiter e um húngaro louco entrava na Basílica de São Pedro, no Vaticano, para dar dez marteladas na Pietá, de Michelangelo. Enquanto crianças eram atingidas por bombas de Napalm durante bombardeio no Vietnã, membros do Partido Republicano dos Estados Unidos eram surpreendidos tentando instalar escutas na sede do Partido Democrata, no Edifício Watergate. Forrest Gump viu tudo!

Nos Andes, um avião uruguaio caía com 40 membros de uma equipe de rugbi. Mais de dois meses depois, 16 sobreviventes, que se alimentaram da carne dos passageiros mortos, foram resgatados. Nixon era reeleito presidente dos Estados Unidos e Perón retornava a Argentina após 17 anos de exílio.

Nas pistas, Fittipaldi era o primeiro brasileiro a conquistar o título de campeão mundial de Fórmula I. Nos tabuleiros, Mequinho era o primeiro brasileiro a se sagrar Grande Mestre de Xadrez. Nos Jogos Olímpicos de Monique, um setembro que é melhor esquecer. Ou não.

Sílvio Santos tinha uma vasta cabeleira e Flávio Cavalcanti se desentendia com David Nasser. Na semana em que nasci, Maria da Glória estampava sua beleza morena na capa de O Cruzeiro e, naquele mês de abril, a Playboy americana, bem comportada, ainda não tinha mania de grandeza. Pelo menos não no quesito peitos.

No Hospital Italiano, na cidade do Rio de janeiro, a 300 quilômetros por hora como Roberto Carlos, nascia no dia 10 de abril um ariano, desses responsáveis por fazer o mundo girar. Nascia Guanabarino, que era para não ser chamado de Fluminense e não ter qualquer ligação com futebol. Mas como hoje é meu aniversário e estou de muito bom humor, lá vai mais uma informação: naquele ano, o vice-campeão brasileiro foi o mesmo que conquistou o Campeonato Carioca no último domingo. Só falei isso porque de botar fogo, eu entendo. A propósito, naquele ano, o grande Garrincha jogava pelo Olaria, time do bairro aonde eu ia, quando criança, para ter o cabelo cortado.

E lá se vão 34 anos em que essa estrela solitária segue brilhando...

 
 
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