Página principal do blog
 
 
Postado em 27 de dezembro de 2007, quinta

:: O Ano Estevão


Para mim, este foi um ano Estevão. Ou o Estevão Ano Um.

Ele foi anunciado em dezembro de 2006, quando Doris, filha de Carlos Estevão, deixou um comentário aqui no Sempre Algo a Dizer. Planejei ir ao Rio em fevereiro para começar as pesquisas junto ao acervo de seu pai, mais isso só foi possível em abril. Voltei avisando a minha esposa: Você vai ter que ser forte: estou me casando com Carlos Estevão.

Casei. E estou numa lua-de-mel que, espero, dure para sempre, diferente das previsões do Casamento Antes e Depois que o próprio Estevão fazia (veja algumas mais abaixo). Como bem observou a própria Doris no mês passado, a essa altura eu já sei mais sobre ele do que qualquer outra pessoa.

Não há nada de glorioso ou romântico em escrever uma biografia. É um trabalho do cão. Duro. Pesado. De estivador mesmo. Após duas rodadas de entrevistas e pesquisas no Rio (a outra foi em novembro) e mais uma em Recife, já somam-se mais de 30 horas de gravação e cerca de 2.500 desenhos. Esse material está sendo organizado e catalogado, os áudios transcritos, dados cruzados... Como disse, um trabalho pesado. E cheio de detalhes. A cada dia surge uma novidade, uma coisinha que poderia passar despercebida mais vale uma investigação mais aprofundada. É como trabalhar num garimpo. Ao encontrar uma rocha muito dura, tem que ter paciência e cuidado na hora de quebrá-la para não perder um pedacinho de pedra ou metal precioso que esteja nela e, às vezes, podemos encontrar um lamaçal que é preciso também ser pacientemente peneirado para não deixar passar nada.

Hoje sei porque as pessoas que escrevem biografias por conta própria (sem um patrocínio) demoram tantos anos para terminá-la. E sei também que essas são as melhores. Reconstitui-se cada história, cada caso, passo a passo, com o único compromisso de mostrar o que realmente aconteceu.

Também sei que os dez anos de Memória Viva foram como uma graduação-mestrado-doutorado para chegar até esse trabalho. E ótimo que tenha sido com Carlão (olha a intimidade)! Uma década atrás, se eu listasse cem nomes interessantes para ganhar uma biografia, provavelmente eu nem lembraria dele. E hoje estou aqui: casado e apaixonado, deliciando-me com cada descoberta sobre a vida riquíssima (e louca) que mesmo o público que o acompanhou em tempos de fama nas páginas de O Cruzeiro desconhece.

Resolvi que Carlos Estevão seria o tema do último texto de 2007 no Sempre Algo a Dizer por vários motivos: passamos o ano quase todojuntos; porque este mês está completando 45 anos que a última edição de Dr. Macarra (revista totalmente desenhada por ele) chegava às bancas e também porque acabo de receber um livreto que comprei há mais ou menos um mês, pela Internet, de um sebo no Rio. Na descrição do produto estava escrito: O Casamento, Carlos Estevão, 1957. Algo totalmente desconhecido para mim. Julguei que fosse uma coleção de recortes. E era isso mesmo. Há 50 anos, alguém recortou e colecionou essas pérolas que ele publicava nos jornais e revistas dos Diários Associados e ainda teve o cuidado de mandar encadernar. São mais de 80 páginas (alguns reproduzidas logo abaixo) que me chegaram na véspera do Natal.

Os meus casamentos – o real e o imaginário – vão muito bem, obrigado. A sugestão, portanto, é que vocês se divirtam com os desenhos abaixo. A semelhança com fatos, pessoas ou situações na vida real terá sido mera coincidência e eu não tenho nada com isso.

Até 2008. No dia primeiro, estarei de volta e cheio de novidades aqui no Sempre Algo a Dizer. Que seja um ano com muito mais motivos para rirmos.

 
Postado em 20 de dezembro de 2007, quinta

:: Três receitas de Natal

Para fazer o Bem ao próximo

Nunca fui muito com a cara do Papai Noel. Gordo, com aquela roupa toda num calor medonho desses que é o verão brasileiro, meio vagabundo (só trabalha uma vez por ano) e com aquela mania pedófila de botar criancinha no colo. Fiquei mais cabreiro ainda quando, lá pelos 6 anos de idade, recebi uma carta do dito cujo dizendo que me comportasse melhor no próximo ano ou aquele seria meu último Natal com presentes. Que puto! Quantas crianças você conhece que recebeu uma carta ameaçadora daquele velho escroto?

Tudo bem. Sem revanchismos. Cresci, superei o trauma, contei aos meus três filhos que ele existe, que de uma maneira ou de outra deixa os presentes na noite de Natal e por aí vai.

E é por acreditar nele que ainda hoje um monte de crianças escreve ao Papai Noel. Crianças que nunca ganharam um presente de aniversário ou de Natal. Mas você pode ser o Papai Noel e, sem aparecer, levar um pouco de alegria e esperança a pelo menos uma delas.

Há 14 anos, existe o Projeto Papai Noel dos Correios. Você adota uma das cartinhas endereçadas ao bom velhinho, compra os presentes e deixa a entrega por conta dos Correios. Em 2006, foram mais de meio milhão de pedidos. Mais de 220 mil foram atendidos.

Você imagina o que uma bonequinha ou um carrinho que não custam dez reais pode fazer por uma criança que nunca teve nada? Ainda dá tempo: entre em contato com a Casa do Papai Noel do seu estado e faça uma criança feliz neste Natal.

* * *

Para fazer bem ao bucho

Poucos dias antes das festividades natalinas, Daliana, neta de Câmara Cascudo e conseqüentemente minha irmã, não obstante meus descarados roubos a cada visita que faço a sua sala no Memorial de vovô, em Natal, presenteou-me com aquilo que mais amo ganhar: livro (isso foi uma dica!).

Arte e rituais do fazer, do servir e do comer no Rio Grande do Norte é uma edição recente do Senac que traz receitas da culinária potiguar a partir das obras referenciais de Cascudo sobre o tema. Tirando aquela coisa horrorosa na capa (aquele pedaço de cadáver em primeiro plano), o livro é bem editado e de muito bom gosto. Segue uma das receitas mais simples (e sem carne, claro!):

Doce de jerimum com coco

2kg de jerimum
1 xícara (chá) de água
1 kg de açúcar
1 coco ralado
cravo e canela da índia a gosto
1 litro de água

Modo de preparo

Descasque a abóbora e corte em pedaços. Ponha numa panela grande e leve ao fogo baixo com a água até que esteja bem macia. Junte o açúcar, a canela em pau e os cravos e deixe cozinhar em fogo brando, mexendo sempre até desprender da panela. Acrescente o coco ralado e cozinhe por mais uns 30 minutos, mexendo de vez em quando. Deixe esfriar e sirva em compoteira.

* * *

Para fazer o Bem a você mesmo

O aniversário é de Jesus (como? Ele não nasceu na Primavera??!!) mas Buda certamente é um convidado muito bem-vindo.

Nem lembro exatamente quando (2002 ou 2003) esse livro chegou às minhas mãos. Já li umas quatro vezes e a cada vez me surpreendo mais. Ele pode não dizer absolutamente nada a você, mas caso aceite um conselho amigo, procure lê-lo. Ainda bem que Tenzin Gyatso está vivo (ou suas cinzas se revirariam) e não fala português, mas posso dizer que, no livro, o Dalai Lama ensina a ligar o botão espiritual do Foda-se, que funciona muito melhor e é bem diferente daquele Foda-se que a gente dá no dia-a-dia só para descarregar a ira.

O título original é Healing Anger: The Power of Patience from a Buddhist Perspective (Curando a raiva: O poder da paciência por uma perspectiva budista). Na edição brasileira ficou A arte de lidar com a raiva – O poder da paciência. Trata-se de um verdadeiro roteiro espiritual para a felicidade, principalmente para nós, ocidentais e latinos, tão acostumados a explodir por qualquer bobagem. O livro é um desdobramento dos ensinamentos de um capítulo do Guia para o modo de vida do Bodhisattva, de Shantideva, escrito no século VIII e um verdadeiro clássico do Budismo Mahayana.

Leitura indicada para qualquer cristão (no sentido mais abrangente do termo).

 
Postado em 17 de dezembro de 2007, segunda

:: As pelejas de Ordnas

Há dois meses e meio estou pelejando para ver O homem que desafiou o diabo. Durante esse tempo, passei por seis cidades onde estava sendo exibido. A última foi Natal, capital do Rio Grande do Norte, onde a história se passa e foi filmada. Lá, o filme resiste em única sessão diária dividindo sala com um blockbuster americano. É Tio Sam mandando bala em Ojuara.

Fui, resisti, não vi. Lá pelos idos de 1998 ou 1999, já se falava da adaptação de As pelejas de Ojuara, livro de Nei Leandro de Castro, para o cinema. Puta livro, diga-se de passagem. Esperei quase uma década e nada. Afrouxei. O filme me perseguindo por Rio, São Paulo, subindo para o Nordeste e eu nada. Fugindo da sala escura como o diabo foge da cruz.

Confesso meus pré-conceitos. Quando soube que Marcos Palmeira faria Ojuara e Flávia Alessandra , Mãe de Pantanha, fechei com o Capitão Nascimento:Isso vai dar merda!

Neste fim de semana, depois de mais de década, me peguei de novo com o livro de Nei. Puta livro, repita-se de passagem. Desses que você não larga até acabar, que as imagens passam todas direitinhas e bem vívidas na sua cabeça (e Marcos Palmeira e Flávia Alessandra não estavam lá).

Quanto mais se conheça a cultura nordestina, mais se aproveita a leitura. Eu, carioca por capricho do destino, nordestino de três costados e estados (mãe alagoana, mulher paraibana, filhas potiguares), lambo os beiços a cada linha das Pelejas de Nei.

Reavivada a memória, senti-me preparado para enfrentar o filme. Mas vou esperar o final de janeiro para vê-lo em disquinho, em casa mesmo. Vou desafiar o diabo na minha área, no solo sagrado de meu abençoado lar.

Por tudo que vi – no próprio site oficial – o filme merece vir acompanhado de um aviso bem grande: Às vezes LEVEMENTE inspirado no livro (puta livro, reforce-se de passagem) de Nei Leandro de Castro. Passado no liquidificador e entregue à (neste caso) competente direção de Moacyr Góes para ficar bem fácil de ser engolido pelo populacho global. Para não restar dúvidas sobre o emprego do termo competente: com um currículo de filmes de Xuxa, Angélica e Padre Marcelo, o diretor entende bem de fazer filmes para idiotas. E assim, idiotiza também o livro (puta livro, reafirme-se de passagem) de Nei.

Você viu e gostou? Leia o livro (puta... você já sabe!). Vai gostar muito mais. Não viu ainda? Leia o livro antes. Faça sua própria versão cinematográfica e só depois desafie a novelinha de Góes.

 
Postado em 10 de dezembro de 2007, segunda

:: O legado de Seu Ribamar

Quando, no final de 1992, entrei pela primeira vez na casa de Seu Ratto, em Natal, uma figura me chamou a atenção. Era um senhor muito pequeno, recurvado, com dificuldade para andar, barba por fazer, uma tosse horrorosa e uma risada de dar inveja a qualquer bruxo de filme terror.

José de Ribamar de Carvalho. Era esse o nome daquele homem que já havia passado por mais de trinta fraternidades e ordens ocultistas e há mais de quatro décadas se dedicava ao estudo de ciência ocultas e temas correlatos.

A tosse era conseqüência do maldito cigarro que ele não largava de jeito nenhum desde a adolescência. Rendeu-lhe enfisemas, derrames, amputações... O andar coxo, sempre apoiado por alguma muleta (outra além do cigarro), foi lembrança de um sério acidente de carro.

Em 1994, seu estado de saúde – que sempre inspirara muito cuidado – entrou em rápido processo de declínio. Passava muito tempo no hospital, sofria muitas dores, chegou a pesar cerca de trinta quilos. Um sofrimento que teve fim em outubro daquele ano.

Pobre, precocemente aposentado, cheio de filhos, Seu Ribamar juntou uma riqueza considerável na forma de uma biblioteca com aproximadamente cinco mil livros. Era essa a estimativa que fazia dos muitos volumes que se espalhavam por quase todos os cômodos de sua casa. Boa parte deles em espanhol, conseguida com dificuldade nas décadas de 50 e 60, quando quase nada do tipo era produzido ou editado no Brasil.

Seu Ribamar era zeloso e cuidava de seus livros de forma peculiar: encadernava-os com sacos plásticos de arroz, feijão, farinha... Também fazia anotações a lápis e em papéis de pão que eram como novas páginas. Deixava impresso neles sua energia, seus conhecimentos, esclarecimentos úteis: no papel e no astral.

Alguns de seus livros – quatro ou cinco – ficaram comigo. Nesses quase 15 anos, conservo-os do mesmo jeito: com as sobrecapas de arroz ou feijão e as páginas de papel de pão. Ficou também o exemplo vivo da máxima de Erasmo: Quando consigo dinheiro, compro livros. Se sobra algum, compro comida e roupas.

 
Postado em 7 de dezembro de 2007, sexta

:: O Martinelli é meu!

O poder da visualização. Imagine-se dirigindo uma Mercedez. Um dia você acaba tendo uma Brasília ou sendo motorista de ônibus. Tudo nasce na sua imaginação. Quanto mais força você coloca nesses pensamentos, maior é a probabilidade de realização.

Sempre disse que o Edifício Martinelli, o primeiro arranha-céu de São Paulo, seria meu.

Sou apaixonado pelo Martinelli. Sempre que vou a São Paulo, vou lá pedir sua benção. Subo, fotografo, subo no Banespão e o fotografo de cima pra baixo, desço, deito na rua, fotografo de baixo pra cima... Adoro aquele prédio. Sempre disse que ele seria meu. E esse sonho começou a se realizar.

Em novembro, estive lá mais uma vez. O prédio havia fechado para reformas uma semana antes e não pude subir. Tudo bem. O destino estava movendo suas catracas e o poder do pensamento se esforçava por realizar aquela sensação que eu tivera em junho do ano passado quando escrevi: Continuo com a impressão de que aquele prédio ainda será meu... Todo!.

Anahi, Wilson e eu descemos pela São João e, dobrando a esquina, demos de cara com um pedaço do Martinelli a nossa inteira disposição. O piso da mansão (que fica no alto do prédio) estava sendo retirado e jogado fora em caçambas de entulho. Perguntei logo a um dos homens que traziam o material: Isso vai pro lixo? Posso pegar? Antes de ele terminar o Pode, eu e Wilson já estávamos escolhendo as peças que estavam inteiras.

Loucos de catar pedra! Levamos algumas para a casa de Wilson. No dia seguinte, um domingo, voltamos e eu resolvi levar uma caixa inteira daquilo, lavar, tirar o excesso de cimento, cuidar bem direitinho. Como relíquia e não como lixo.

Estávamos em dúvida sobre a época do material. O Martinelli foi inaugurado no finalzinho da década de 1920 e teve uma reforma na segunda metade da década de 1970. Na pior das hipóteses, o piso já teria 30 anos. Ao que parece, é mesmo dessa época, mas igual ao original e, pelo apurado, isso acontecerá de novo (voltaremos lá para conferir).

Nem preciso dizer que em um país civilizado, aquele material não teria o mesmo fim. Fizemos nossa parte e salvamos um pedacinho da história do prédio. E eu, imensamente feliz, comecei a me tornar dono do Martinelli. Meio metro quadrado já é meu.

 
Postado em 6 de dezembro de 2007, quinta

:: Kino e Zé Pereira

Anote aí mais duas dicas de revistas mui legais e que você NÃO vai encontrar na banca da esquina: Kino e Pereira.

Kino você só encontra aqui. A revista é virtual e está em sua terceira edição. Mistura cinema, design e fotografia. Cada número apresenta um filme como tema: Clube da Luta (nº 1), Janela indiscreta (2) e Táxi Driver (3). A próxima virá com Corra, Lola, Corra!

Zé Pereira também está na terceira edição. É uma revista feita por cariocas, para cariocas, sobre cariocas. Eu, um Judas Ex-carioca, digo que isso não chega a ser um defeito, mas certamente é melhor digerida por quem é do Rio, entenda-se por isso, nascidos, criados, crescidos, adotados e por opção. Comprei os dois primeiros números na Baratos da Ribeiro, mas eles podem ser pedidos pelo site da editora. Muito da versão impressa também está on line no site da revista, que traz ainda material extra.

E para não dizer que não falei em Merda, baixe um pedacinho do ensaio com a modelo Anne Marie, com fotos de Max Moure, que está na segunda edição da revista. Anne é essa garota linda de morrer na foto ao lado e o ensaio mostra um badalado dia na vida de uma carioquinha.

 
Postado em 27 de novembro de 2007, terça

:: Amigos em close

A vida vai passando e a gente nunca tem tempo para nada. Como sempre gosto de lembrar, não ter tempo é não saber administrá-lo ou simplesmente dar uma desculpa para algo que não se está a fim de fazer ou que não é prioridade no momento.

De repente, nos damos conta de que um monte de coisas boas passou e não aproveitamos. As que priorizamos nem sempre se mostraram maravilhosas como pensávamos e o tempo de curtir isso ou aquilo já não existe mais. Nessas desandanças, elegemos ícones, ídolos, fontes de inspiração, modelos de como gostaríamos de ser. Quase sempre pessoas distantes, exemplos inatingíveis, puras ilusões que criamos, enquanto deixamos de olhar e conviver com pessoas maravilhosas que estão bem ao nosso lado.

Há vinte anos ouço as histórias de terceiros. Do cidadão que teve inundada a porta de sua casa porque uma tubulação, na rua, estourou; do artista que está lançando um novo CD; do guarda municipal que quer denunciar a tortura que sofre junto com seus colegas de corporação; do governador que está se candidatando ao Senado; do morador de rua que não lembra onde e quando morou numa casa; do empresário que lança um grande negócio...

Nos últimos dez anos, a busca por essas histórias se tornou mais profunda. Muitas vezes, casos e aventuras de pessoas que já morreram e, claro, já não podem mais contar como tudo aconteceu. E conheço vidas muito mais interessantes do que aquelas que passaram para a História. Ou que nem passaram. Foram esquecidas.

Quanto mais histórias descubro, mas percebo que todos têm histórias maravilhosas para contar. Vidas interessantíssimas que não estão sendo grafadas, nem filmadas ou, no mínimo, não da forma devida. Lá na frente, alguém vai ter o trabalho duro – que eu tenho! – de desencavar tramas e enredos, juntar fragmentos de memórias, separar fato de versão... Seria tão mais simples se alguém desse valor a essas pessoas enquanto estão vivas! Com a licença de Guilherme e Nelson, depois que se chamarem saudade, não precisarão de vaidade, irão querer preces e nada mais. Se alguém quiser fazer algo, que faça agora!

Pois deixa comigo! É aí que eu entro.

Há algum tempo, senti necessidade de organizar minhas fotos. Só as digitais. Fotografo com câmeras digitais desde 1996. Quando pensei nisso, há uns três anos, imaginei que tivesse umas cinco mil fotos para organizar. Desisti de contar quando me aproximei das cinqüenta mil. E percebi que, a cada dois anos, tenho feito outro tanto desses. Isso, fora o arquivo em filmes, slides e papel fotográfico desde meados dos anos 80.

Percebi também que, sem querer, estava registrando parte da história de meus amigos. E, há coisa de um mês, resolvi fazer isso devidamente. Daqui a 50 ou 100 anos, quando alguém resolver contar a história de qualquer um deles, poderá contar com um registro decente, confiável, tão fiel quanto meu coração, minha língua e meus dedos (que coisa erótica!) consigam se entender e descrever.

Comecei então a fotografar, oficialmente, essas figuras carimbadas, raras e cheias de histórias que merecem ser contadas. Já fiz tantas fotos de cada um deles durante tantos anos! Mas agora é diferente. É olhando na minha cara, bem de perto, mostrando que não é normal e deixando isso bem claro para qualquer um que bater os olhos nesses retratos.

Retratos. Sem máscaras, sem preocupações, cara limpa, do jeito que eu encontrar. Não é assim que você me recebe? Não é assim que se mostra para mim? Então é assim que eu quero que todos os conheçam. Com essa intimidade desconcertante.

Pretendo que essas fotos venham a ser publicadas, no mínimo, em tamanho natural, para que se possa fazer um cara a cara entre os que serão apresentados. Estão aí algumas das primeiras: Wilson Natal, respeitável e sério historiador, perito em São Paulo, tão sério e respeitável que já correu nu pelos jardins do Museu do Ipiranga; Paulo de Carvalho, cafajeste de plantão, último dos verdadeiros putos desse país (da mais fina estirpe putífera!) e que tem histórias suficiente para fazer as setecentas páginas da biografia de Chatô parecerem uma revistinha; e Woldney Ribeiro, um cabra safado que monta umas coisas de mentira que você jura que é de verdade e, por isso mesmo, anda fazendo cinema.

Tem um monte de gente na minha lista. Gente que já foi fotografada para ilustrar esse trabalho e nem sabe; gente com quem estive recentemente e ainda não fotografei; gente como Zé Luiz, que está lendo isso e já tremendo na cadeira porque sabe que não pode ficar de fora; gente que nem vou citar mas também sabe que está na lista.

A vida continua e eu continuo falando de vidas. A propósito, Tchelo (hoje mais conhecido como o pai da Zoé), vai botando a cerveja pra gelar que eu chego já para fotografá-lo.

 
Postado em 25 de novembro de 2007, domingo

:: O pequeno pássaro de Abaetetuba

Estava me preparando para escrever sobre La Môme, o filme sobre Piaf, após assisti-lo pela segunda vez (de muitas que virão) quando me deparo com a manchete da Folha de São Paulo de domingo: População via menina de 15 anos sofrer abuso sexual na cadeia.

A matéria fala sobre L., 15 anos, presa em Abaetetuba, Pará, e jogada numa cadeia, por cerca de três semanas, com mais de 30 homens. Nem precisaria ler todo o texto para saber dos desdobramentos.

Vida desgraçada a de L.. No sentido ativo e definitivo. A menina teve sua vida desgraçada. Passou mais de vinte dias servindo de pasto aos selvagens com quem dividia o cárcere.

E o que a menina paraense tem a ver com Piaf? Esta outra também levou uma vida desgraçada. Vivia nas ruas, foi abandonada pela mãe, entregue a uma avó alcoólatra e depois a outra dona de bordel, cresceu sendo jogada de um lado a outro e abusada... uma vida de descaminhos, excessos e profundas tristezas, tudo sublimado, ainda que momentaneamente, pelo canto.

Liberdade parcialmente restituída, L. está como um passarinho que fugiu da gaiola.

Terá algum momento de paz daqui por diante? O tempo de uma canção. Poucos minutos durante os quais espantará seus males; os males do mundo – os mais miseráveis! –, que foi forçada a conhecer. Será que a pequena L. sabe cantar?

Desejo que não lamente nada. Nada de nada. Nem a dor, as aflições. O que está acabado, fique esquecido. Comece do zero. Que sua vida, hoje, comece com você. Com uma força que só esses pequenos pássaros conhecem, buscando tal poder no fundo da alma e fazendo-o explodir pela garganta. Como choro, como canto, como denúncia.

Voe, L.. Voe para bem longe.

 
Postado em 22 de novembro de 2007, quinta

:: As sereias na casa de Deus

Uma coisa puxa outra. Desde que comecei as pesquisas para a biografia de Carlos Estevão, algumas de suas obsessões me chamaram atenção. Uma delas de forma mais contundente: as sereias.

Uma coisa puxa outra. Há mais ou menos um mês, digitalizando os desenhos de Carlão em minha coleção de revistas O Cruzeiro, encontrei, na edição de 5 de abril de 1952, quando o jovem desenhista já começava sua fama e estava nos Associados há cinco anos, um artigo de Câmara Cascudo (uma de minhas obsessões) intitulado As sereias na casa de Deus. Nele, Cascudo falava nas sereias entalhadas nos altares da Igreja de São Francisco, em João Pessoa, Paraíba. Dizia da facilidade em encontrar tais símbolos em igrejas portuguesas mas que não conheço exemplos brasileiros além dos paraibanos.

Uma coisa puxa outra. Imediatamente veio à lembrança a Igreja de São Pedro dos Clérigos, em Recife, Pernambuco (terra de Carlos Estevão). Estive inúmeras vezes no Recife. Algumas este ano. Mas só uma na Igreja de São Pedro, há uns quinze anos. E lembro bem das sereias ao lado das colunas de entrada. Elas nunca saíram de minha cabeça. Até porque eu havia sido levado até ali especialmente para vê-las.

Uma coisa puxa outra (é a última vez que escrevo isso, prometo!) e fiquei indócil para ir a Recife e João Pessoa fotografar devidamente as duas igrejas. Passei por Recife, voltando do Rio, cheio de bagagem, e só fiquei na cidade o tempo suficiente para pegar um táxi do aeroporto à rodoviária. Fui para Natal e, três dias depois, para João Pessoa. Saindo de lá, passei pela Igreja de São Francisco. As sereias ainda estão lá, mas não pude vê-las.

Diferente de suas irmãs recifenses, as sereias paraibanas ficam nas bases das colunas da capela do Santíssimo Sacramento e no altar-mor. E cheguei bem na hora da missa. Juro que se fosse branco e loiro, teria mandado um Beautiful! Beautiful! What?! ‘Nou pódi’ Oh! Ipod? Right! e, me fazendo de doido, fotografaria os espécimes em plena celebração eucarística. Mas Deus me fez moreno e respeitador, então deixei para uma próxima oportunidade.

No referido texto, Cascudo pergunta que estão fazendo essas Sereias, símbolo da sedução irresistível, sugestão carnal endoidecendo jangadeiros e pescadores, incluídas aos pés do altar católico, criadas, desde meados do século XVIII, para viver numa casa de Nosso Senhor?. E desvenda:A sabedoria da Igreja amansou essas feras e levou-as, como Noé, para a barca da piedade cristã. (...) Ninguém intimou a Sereia a desenroscar a cauda e remergulhar no Rio Paraíba, caminho de Cabedelo, ganhando o Atlântico. (...) As Sereias da Igreja de São Francisco na capital paraibana dizem, com sua amável presença, missão mais antiga e possivelmente a mais litúrgica entre as representações fúnebres dos gregos.

Estavam elas ligadas ao culto dos mortos e lembravam as falas silenciosas e ciciadas das sombras. Os túmulos gregos eram ornados com estelas de Sereias. A Sereia sepulcral era tão comum e típica como o cipreste votivo”.

De fato, atrás do cemitério da Igreja de São Pedro, em Recife, há um pequeno cemitério. E é muito provável que na de São Francisco também haja. Ambas são da mesma época (a paraibana é de 1779, a pernambucana começou a ser construída em 1728 mas só foi sagrada em 1782). Até meados da década de 30 do século seguinte não tínhamos cemitérios e as pessoas eram enterradas nas igrejas.

As sereias, não vi dessa vez. Mas também estão lá, do lado de fora, outros seres fantásticos guardando o templo. Resquícios de costumes anteriores ao próprio Cristianismo ou à sua instalação em terras brasileiras. Criaturas misteriosas com as quais pretendo conversar mais demoradamente em minha próxima ida a João Pessoa.

 
Postado em 25 de outubro de 2007, quinta

:: Memória Viva de Appe

Quem acompanha o Sempre Algo a Dizer, já leu a respeito de Appe em algumas ocasiões. Quem não conhece seu trabalho, agora não tem mais desculpa. Acaba de ser disponibilizado o site Memória Viva de Appe.

Nessa primeira fase, podem ser vistas mais de 60 caricaturas e 40 telas do artista que ficou mais conhecido por seu trabalho como chargista político da revista O Cruzeiro.

Em dezembro, o site ganhará ainda outras áreas com mais desenhos, vídeos e materiais inéditos de sua biografia.

 
Postado em 22 de outubro de 2007, segunda

:: Regininha na Merda

Eu vou tirar você desse lugar, Regininha! Do local mais próximo onde encontrar um exemplar da segunda edição da revista M... que chega às bancas nesta terça (23) no Rio e (junto comigo) até sexta em Sampa (no site, a lista de onde encontrar).

Amém, Regininha, Amém! Confesso que este pai de família ainda (eu disse AINDA) não viu sua estréia como atriz do sexo, mas promessa é dívida e, se você está mesmo batendo esse bolão todo como parece na capa da M... mais uma vez: Amém, Regininha, Amém!

Segundo informações enviadas por Silvio Lach, um dos (ir)responsáveis pela M...,

... com o novo número, a revista pretende ter um dos maiores sucessos de vendas da história deste país, já que preparou uma “Edição Apelativa Sexo & Violência”, pois é disso que o povo e a mídia gostam. A maior parte dos textos, ensaio fotográficos e cartuns falam de um dos dois assuntos. Mas há ainda espaço para falar de outras merdas, como a política.
Seguindo a filosofia de não ter medo de se jogar no ventilador, a “M...” tem com um dos pontos altos do número 2 o ensaio fotográfico, protagonizado por uma jovem e sensual modelo, com um desfecho surpreendente. (...)
Na capa, aparece Regininha Poltergeist, a dançarina performática que virou atriz pornô. Além de posar para fotos “interagindo” com um vaso sanitário (uma marca da revista), ela dá uma entrevista divertida para a seção “Experiência Pós-M” (dedicada a quem foi à merda e voltou para contar), na qual diz como foi a decisão de aceitar fazer sexo diante das câmeras. Ela também comete indiscrições sobre pessoas que passaram por sua cama, falando com muito bom humor de suas aventuras com Fernando Vanucci (“Foi um acidente”), Eri Johnson (“Ele já foi mais humilde”) e Rubinho Barrichelo (“Quis me levar para São Paulo, mas eu só quis ter uma noite com ele”). Não deixa de comentar também o mercado de prostituição de atrizes conhecidas da televisão. A abertura da entrevista é feita por Tico Santa Cruz, do Detonautas, que se revelou um grande fã onanista de Regininha.
A terceira entrevista é com o dançarino de funk Lacraia, que posa para um ensaio vestido de homem. Irreconhecível, Lacraia também dá uma de macho ao criticar DJ Marlboro (“ele fica com os direitos autorais de jovens talentos”) e Rômulo Costa (“ele nunca nos repassou o lucro que teve com uma gravação do Serginho em um de seus discos”). Entre as declarações inusitadas, Lacraia diz que sonhava em posar nu, revela que tem planos de ser apresentador de programa infantil e pede um gay na presidência, sugerindo o nome de Fernando Gabeira (“Ele não é, mas é!”).

O novo número tem ainda Gabriel O Pensador falando do papa e outros nomes ligado à hipocrisia; Paulo Caruso desabafando sobre dura a tarefa de ter que desenhar Renan Calheiros; Léo Jaime discorrendo sobre o autofelattio; a deputada federal Manuela D’Ávila narrando como foi sua chegada ao Congresso; o ator André Ramiro e o ex-traficante João Guilherme Estrella falando de Tropa de Elite (Estrella diz que os consumidores de drogas evitam que os bandidos desçam para assaltar nas ruas) e mais um monte de gente boa.

E chega. Corra pro banheiro mais próximo, mas dê uma passadinha na banca antes.

 
Postado em 19 de outubro de 2007, sexta

:: Os dragões talibãs da Universal contra os santos guerreiros


Detalhe de São Jorge e o dragão, de Donatello

A história começa pelo fim: os dragões cuspiram fogo e os santos viraram cinzas. Doze anos após o infame episódio do chute na santa, um pastor da Universal realiza uma versão hardcore e põe fogo em duas imagens: uma do Senhor Morto, outra de São Pedro. Detalhe: peças no estilo barroco jesuítico, com quase quatro séculos de (ex-)existência, tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Resumindo: os talibãs da Universal cansaram da simples intolerância entre times religiosos e partiram para o massacre histórico-cultural. A briga não é mais com os católicos, mas com qualquer brasileiro. Logo vão querer brincar de Deus e tocar fogo em Outro Preto e Tiradentes em um remake de Sodoma e Gomorra.

Acredito piamente que as pessoas só erram por ignorância. Mas vá ser ignorante assim no inferno!

E o jeito como conseguiu esses tesouros foi algo do tipovender a alma ao diabo: exigiu-as em troca de orações para um doente. O coitado, assim como as imagens, não escapou.

Temos uma grande massa de gente simples, fácil de ser tangida por qualquer aboio ou por showzinhos de poltergeist de camelô, mas quem não faz parte do rebanho tem o dever de alertar a todos sobre esse circo de horrores promovido por débeis mentais travestidos de pastores em pulgueiros caiados e enfeitados de templo. Quem quiser acreditar em qualquer coisa, que o faça, mas ao menos procure uma religião. Quer ser protestante? Procure a Igreja Luterana, a Presbiteriana, a Anglicana... Mas se for pra ficar gritando (mania que esse povo tem de achar que Deus é surdo!), pulando, chutando e queimando coisas, vá pra um show de Heavy Metal.

Quando do episódio do chute na santa, entrevistei o então Arcebispo de Natal D. Heitor de Araújo Sales (irmão de D. Eugênio). Em determinado momento, ele exclamou: Até que ponto pode chegar o desatino humano!. Se for como a ignorância, certamente é um poço sem fundo.

 
Postado em 18 de outubro de 2007, quinta

:: Eu evacuo para o Rolex do Huck

Nos últimos cinco meses, forcei-me a viver uma saudável alienação. Nada de Pan, nada de Renan, de jornalista pelada... Deixei de assistir tevê, não acompanho nem me interessa muito seja lá o que for. Dou uma olhada nos sites de notícias e faço a triagem: quase tudo que leio está nos parcos cadernos de cultura. O resto do mundo e suas neuroses que se lixem.

Como uma coisa puxa outra, caí na armadilha de ler o artigo de Luciano Huck na Folha de SP, em 1º de outubro. Tendo seu Rolex roubado, ele bradouOnde está a polícia? Onde está a Elite da Tropa? Quem sabe até a Tropa de Elite! Chamem o comandante Nascimento! Bati o olho e vaticinei: Vai virar novela. Virou.

Perdi as contas dos artigos-respostas, artigos-sacanas, artigos-vamos-pensar-o-mundo e reportagens de acompanhamento da polícia à caça do bibelô. É mesmo uma indecência não termos segurança, mas é ainda mais indecente um cara ostentar um relógio de dez mil reais em um país onde milhares de pai de família, que têma sorte de ter um emprego, demoram mais de dois anos para ganhar esse dinheiro e, com ele, precisam fazer a mágica de dar casa, comida, saúde e escola aos seus.

Longe de mim fazer o discurso de rico não pode mostrar que é rico. Pode. Mas quem tem dinheiro para comprar um Rolex, tem dinheiro para comprar dois. Então vai lá e desembolsa outra merreca de dez contos e dê graças aos céus por estar vivo e inteiro. Ou então vá morar na Suíça, onde tem segurança e Rolex custa bem menos.

Ele utilizou o jornal de maior circulação do país para dizer que paga impostos e não tem segurança, mas sequer prestou queixa em uma delegacia. Ou seja: não acredita no sistema que ele mesmo alimenta. A polícia, por outro lado, sob holofotes, correu para mostrar serviço. E provou mais uma vez que, quando quer, funciona.

Nada contra o incrível Luciano. Mas espero que o capítulo final dessa novela tenha sido a genial tira de Caco Galhardo na Folha de SP de hoje. Duas amigas discutem sobre o caso até que Chico Bacon l