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| Postado
em 27 de dezembro de 2007, quinta |
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O Ano Estevão

Para mim, este foi um ano Estevão.
Ou o Estevão Ano Um.
Ele
foi anunciado em dezembro de 2006, quando
Doris, filha de Carlos
Estevão, deixou
um comentário aqui no Sempre
Algo a Dizer. Planejei ir ao
Rio em fevereiro para começar as pesquisas
junto ao acervo de seu pai, mais isso só
foi possível em abril. Voltei avisando
a minha esposa: “Você
vai ter que ser forte: estou me casando com
Carlos Estevão”.
Casei.
E estou numa lua-de-mel que, espero, dure
para sempre, diferente das previsões
do Casamento Antes e Depois
que o próprio Estevão fazia
(veja algumas mais abaixo). Como bem observou
a própria Doris no mês passado,
a essa altura eu já sei mais sobre
ele do que qualquer outra pessoa.
Não
há nada de glorioso ou romântico
em escrever uma biografia. É um trabalho
do cão. Duro. Pesado. De estivador
mesmo. Após duas rodadas de entrevistas
e pesquisas no Rio (a outra foi em novembro)
e mais uma em Recife, já somam-se mais
de 30 horas de gravação e cerca
de 2.500 desenhos. Esse material está
sendo organizado e catalogado, os áudios
transcritos, dados cruzados... Como disse,
um trabalho pesado. E cheio de detalhes. A
cada dia surge uma novidade, uma coisinha
que poderia passar despercebida mais vale
uma investigação mais aprofundada.
É como trabalhar num garimpo. Ao encontrar
uma rocha muito dura, tem que ter paciência
e cuidado na hora de quebrá-la para
não perder um pedacinho de pedra ou
metal precioso que esteja nela e, às
vezes, podemos encontrar um lamaçal
que é preciso também ser pacientemente
peneirado para não deixar passar nada.
Hoje
sei porque as pessoas que escrevem biografias
por conta própria (sem um patrocínio)
demoram tantos anos para terminá-la.
E sei também que essas são as
melhores. Reconstitui-se cada história,
cada caso, passo a passo, com o único
compromisso de mostrar o que realmente aconteceu.
Também
sei que os dez anos de Memória
Viva foram como uma graduação-mestrado-doutorado
para chegar até esse trabalho. E ótimo
que tenha sido com Carlão (olha a intimidade)!
Uma década atrás, se eu listasse
cem nomes interessantes para ganhar uma biografia,
provavelmente eu nem lembraria dele. E hoje
estou aqui: casado e apaixonado, deliciando-me
com cada descoberta sobre a vida riquíssima
(e louca) que mesmo o público que o
acompanhou em tempos de fama nas páginas
de O
Cruzeiro desconhece.
Resolvi
que Carlos Estevão seria o tema do
último texto de 2007 no Sempre
Algo a Dizer por vários
motivos: passamos o ano quase todo
“juntos”;
porque este mês está completando
45 anos que a última edição
de Dr. Macarra (revista
totalmente desenhada por ele) chegava às
bancas e também porque acabo de receber
um livreto que comprei há mais ou menos
um mês, pela Internet, de um sebo no
Rio. Na descrição do produto
estava escrito: O Casamento, Carlos Estevão,
1957. Algo totalmente desconhecido para
mim. Julguei que fosse uma coleção
de recortes. E era isso mesmo. Há 50
anos, alguém recortou e colecionou
essas pérolas que ele publicava nos
jornais e revistas dos Diários Associados
e ainda teve o cuidado de mandar encadernar.
São mais de 80 páginas (alguns
reproduzidas logo abaixo) que me chegaram
na véspera do Natal.
Os
meus casamentos – o real e o imaginário
– vão muito bem, obrigado. A
sugestão, portanto, é que vocês
se divirtam com os desenhos abaixo. A semelhança
com fatos, pessoas ou situações
na vida real terá sido mera coincidência
e eu não tenho nada com isso.
Até
2008. No dia primeiro, estarei de volta e
cheio de novidades aqui no Sempre
Algo a Dizer. Que seja um ano
com muito mais motivos para rirmos.




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| Postado
em 20 de dezembro de 2007, quinta |
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Três receitas de Natal
Para
fazer o Bem ao próximo

Nunca
fui muito com a cara do Papai Noel.
Gordo, com aquela roupa toda num calor medonho
desses que é o verão brasileiro,
meio vagabundo (só trabalha uma vez
por ano) e com aquela mania pedófila
de botar criancinha no colo. Fiquei mais cabreiro
ainda quando, lá pelos 6 anos de idade,
recebi uma carta do dito cujo dizendo que
me comportasse melhor no próximo ano
ou aquele seria meu último Natal com
presentes. Que puto! Quantas crianças
você conhece que recebeu uma carta ameaçadora
daquele velho escroto?
Tudo
bem. Sem revanchismos. Cresci, superei o trauma,
contei aos meus três filhos que ele
existe, que de uma maneira ou de outra deixa
os presentes na noite de Natal e por aí
vai.
E
é por acreditar nele que ainda
hoje um monte de crianças escreve ao
Papai Noel. Crianças que nunca
ganharam um presente de aniversário
ou de Natal. Mas você pode ser o Papai
Noel e, sem aparecer, levar um pouco de alegria
e esperança a pelo menos uma delas.
Há
14 anos, existe o Projeto
Papai Noel dos Correios. Você
adota uma das cartinhas endereçadas
ao bom velhinho, compra os presentes e deixa
a entrega por conta dos Correios. Em 2006,
foram mais de meio milhão de pedidos.
Mais de 220 mil foram atendidos.
Você
imagina o que uma bonequinha ou um carrinho
que não custam dez reais pode fazer
por uma criança que nunca teve nada?
Ainda dá tempo: entre em contato com
a Casa
do Papai Noel do seu estado e faça
uma criança feliz neste Natal.
*
* *
Para
fazer bem ao bucho

Poucos
dias antes das festividades natalinas, Daliana,
neta de Câmara
Cascudo e conseqüentemente
minha irmã, não obstante meus
descarados roubos a cada visita que faço
a sua sala no Memorial de vovô, em Natal,
presenteou-me com aquilo que mais amo ganhar:
livro (isso foi uma dica!).
Arte
e rituais do fazer, do servir e do comer no
Rio Grande do Norte é
uma edição recente do Senac
que traz receitas da culinária potiguar
a partir das obras referenciais de Cascudo
sobre o tema. Tirando aquela coisa horrorosa
na capa (aquele pedaço de cadáver
em primeiro plano), o livro é bem editado
e de muito bom gosto. Segue uma das receitas
mais simples (e sem carne, claro!):
Doce
de jerimum com coco
2kg
de jerimum
1 xícara (chá) de água
1 kg de açúcar
1 coco ralado
cravo e canela da índia a gosto
1 litro de água
Modo
de preparo
Descasque
a abóbora e corte em pedaços.
Ponha numa panela grande e leve ao fogo
baixo com a água até que esteja
bem macia. Junte o açúcar,
a canela em pau e os cravos e deixe cozinhar
em fogo brando, mexendo sempre até
desprender da panela. Acrescente o coco
ralado e cozinhe por mais uns 30 minutos,
mexendo de vez em quando. Deixe esfriar
e sirva em compoteira.
Para
fazer o Bem a você mesmo

O
aniversário é de Jesus
(como? Ele não nasceu na Primavera??!!)
mas Buda certamente é
um convidado muito bem-vindo.
Nem
lembro exatamente quando (2002 ou 2003) esse
livro chegou às minhas mãos.
Já li umas quatro vezes e a cada vez
me surpreendo mais. Ele pode não dizer
absolutamente nada a você, mas caso
aceite um conselho amigo, procure lê-lo.
Ainda bem que Tenzin Gyatso
está vivo (ou suas cinzas se revirariam)
e não fala português, mas posso
dizer que, no livro, o Dalai Lama
ensina a ligar o botão espiritual do
Foda-se, que funciona muito melhor
e é bem diferente daquele “Foda-se”
que a gente dá no dia-a-dia só
para descarregar a ira.
O
título original é Healing
Anger: The Power of Patience from a Buddhist
Perspective (Curando a raiva: O poder
da paciência por uma perspectiva budista).
Na edição brasileira ficou A
arte de lidar com a raiva – O poder
da paciência. Trata-se
de um verdadeiro roteiro espiritual para a
felicidade, principalmente para nós,
ocidentais e latinos, tão acostumados
a explodir por qualquer bobagem. O livro é
um desdobramento dos ensinamentos de um capítulo
do Guia para o modo de vida do
Bodhisattva, de Shantideva,
escrito no século VIII e um verdadeiro
clássico do Budismo Mahayana.
Leitura
indicada para qualquer cristão (no
sentido mais abrangente do termo).
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| Postado
em 17 de dezembro de 2007, segunda |
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As pelejas de Ordnas
Há
dois meses e meio estou pelejando para ver
O homem que desafiou o diabo.
Durante esse tempo, passei por seis cidades
onde estava sendo exibido. A última
foi Natal, capital do Rio Grande do Norte,
onde a história se passa e foi filmada.
Lá, o filme resiste em única
sessão diária dividindo sala
com um blockbuster americano. É
Tio Sam mandando bala em Ojuara.
Fui,
resisti, não vi. Lá pelos idos
de 1998 ou 1999, já se falava da adaptação
de As pelejas de Ojuara,
livro de Nei
Leandro de Castro, para
o cinema. Puta livro, diga-se de passagem.
Esperei quase uma década e nada. Afrouxei.
O filme me perseguindo por Rio, São
Paulo, subindo para o Nordeste e eu nada.
Fugindo da sala escura como o diabo foge da
cruz.
Confesso
meus pré-conceitos. Quando soube que
Marcos Palmeira faria Ojuara e Flávia
Alessandra , Mãe de Pantanha, fechei
com o Capitão Nascimento:
“Isso vai dar merda!”
Neste
fim de semana, depois de mais de década,
me peguei de novo com o livro de Nei. Puta
livro, repita-se de passagem. Desses que você
não larga até acabar, que as
imagens passam todas direitinhas e bem vívidas
na sua cabeça (e Marcos Palmeira e
Flávia Alessandra não estavam
lá).
Quanto
mais se conheça a cultura nordestina,
mais se aproveita a leitura. Eu, carioca por
capricho do destino, nordestino de três
costados e estados (mãe alagoana, mulher
paraibana, filhas potiguares), lambo os beiços
a cada linha das Pelejas de Nei.
Reavivada
a memória, senti-me preparado para
enfrentar o filme. Mas vou esperar o final
de janeiro para vê-lo em disquinho,
em casa mesmo. Vou desafiar o diabo na minha
área, no solo sagrado de meu abençoado
lar.
Por
tudo que vi – no próprio site
oficial – o filme merece
vir acompanhado de um aviso bem grande: “Às
vezes LEVEMENTE inspirado no livro (puta livro,
reforce-se de passagem) de Nei Leandro de
Castro”.
Passado no liquidificador e entregue à
(neste caso) competente direção
de Moacyr Góes para ficar bem fácil
de ser engolido pelo populacho global. Para
não restar dúvidas sobre o emprego
do termo “competente”:
com um currículo de filmes de Xuxa,
Angélica e Padre Marcelo, o diretor
entende bem de fazer filmes para idiotas.
E assim, idiotiza também o livro (puta
livro, reafirme-se de passagem) de Nei.
Você
viu e gostou? Leia o livro (puta... você
já sabe!). Vai gostar muito mais. Não
viu ainda? Leia o livro antes. Faça
sua própria versão cinematográfica
e só depois desafie a novelinha de
Góes.
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| Postado
em 10 de dezembro de 2007, segunda |
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O legado de Seu Ribamar
Quando,
no final de 1992, entrei pela primeira vez
na casa de Seu Ratto, em
Natal, uma figura me chamou a atenção.
Era um senhor muito pequeno, recurvado, com
dificuldade para andar, barba por fazer, uma
tosse horrorosa e uma risada de dar inveja
a qualquer bruxo de filme terror.
José
de Ribamar de Carvalho. Era esse
o nome daquele homem que já havia passado
por mais de trinta fraternidades e ordens
ocultistas e há mais de quatro décadas
se dedicava ao estudo de ciência ocultas
e temas correlatos.
A
tosse era conseqüência do maldito
cigarro que ele não largava de jeito
nenhum desde a adolescência. Rendeu-lhe
enfisemas, derrames, amputações...
O andar coxo, sempre apoiado por alguma muleta
(outra além do cigarro), foi lembrança
de um sério acidente de carro.
Em
1994, seu estado de saúde – que
sempre inspirara muito cuidado – entrou
em rápido processo de declínio.
Passava muito tempo no hospital, sofria muitas
dores, chegou a pesar cerca de trinta quilos.
Um sofrimento que teve fim em outubro daquele
ano.
Pobre,
precocemente aposentado, cheio de filhos,
Seu Ribamar juntou uma riqueza considerável
na forma de uma biblioteca com aproximadamente
cinco mil livros. Era essa
a estimativa que fazia dos muitos volumes
que se espalhavam por quase todos os cômodos
de sua casa. Boa parte deles em espanhol,
conseguida com dificuldade nas décadas
de 50 e 60, quando quase nada do tipo era
produzido ou editado no Brasil.
Seu
Ribamar era zeloso e cuidava de seus livros
de forma peculiar: encadernava-os com sacos
plásticos de arroz, feijão,
farinha... Também fazia anotações
a lápis e em papéis de pão
que eram como novas páginas. Deixava
impresso neles sua energia, seus conhecimentos,
esclarecimentos úteis: no papel e no
astral.
Alguns
de seus livros – quatro ou cinco –
ficaram comigo. Nesses quase 15 anos, conservo-os
do mesmo jeito: com as sobrecapas de arroz
ou feijão e as páginas de papel
de pão. Ficou também o exemplo
vivo da máxima de Erasmo:
“Quando
consigo dinheiro, compro livros. Se sobra
algum, compro comida e roupas”.
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| Postado
em 7 de dezembro de 2007, sexta |
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O Martinelli é meu!

O
poder da visualização. Imagine-se
dirigindo uma Mercedez. Um dia você
acaba tendo uma Brasília ou sendo motorista
de ônibus. Tudo nasce na sua imaginação.
Quanto mais força você coloca
nesses pensamentos, maior é a probabilidade
de realização.
Sempre
disse que o Edifício Martinelli,
o primeiro arranha-céu de São
Paulo, seria meu.
Sou
apaixonado pelo Martinelli. Sempre que vou
a São Paulo, vou lá pedir sua
benção. Subo, fotografo, subo
no Banespão e o fotografo de cima pra
baixo, desço, deito na rua, fotografo
de baixo pra cima... Adoro aquele prédio.
Sempre disse que ele seria meu. E esse sonho
começou a se realizar.
Em
novembro, estive lá mais uma vez. O
prédio havia fechado para reformas
uma semana antes e não pude subir.
Tudo bem. O destino estava movendo suas catracas
e o poder do pensamento se esforçava
por realizar aquela sensação
que eu tivera em junho do ano passado quando
escrevi: “Continuo
com a impressão de que aquele prédio
ainda será meu... Todo!”.
Anahi,
Wilson e eu descemos pela
São João e, dobrando a esquina,
demos de cara com um pedaço do Martinelli
a nossa inteira disposição.
O piso da mansão (que fica no alto
do prédio) estava sendo retirado e
jogado fora em caçambas de entulho.
Perguntei logo a um dos homens que traziam
o material: “Isso
vai pro lixo? Posso pegar?”
Antes de ele terminar o “Pode”,
eu e Wilson já estávamos escolhendo
as peças que estavam inteiras.
Loucos
de catar pedra! Levamos algumas para a casa
de Wilson. No dia seguinte, um domingo, voltamos
e eu resolvi levar uma caixa inteira daquilo,
lavar, tirar o excesso de cimento, cuidar
bem direitinho. Como relíquia e não
como lixo.
Estávamos
em dúvida sobre a época do material.
O Martinelli foi inaugurado no finalzinho
da década de 1920 e teve uma reforma
na segunda metade da década de 1970.
Na pior das hipóteses, o piso já
teria 30 anos. Ao que parece, é mesmo
dessa época, mas igual ao original
e, pelo apurado, isso acontecerá de
novo (voltaremos lá para conferir).
Nem
preciso dizer que em um país civilizado,
aquele material não teria o mesmo fim.
Fizemos nossa parte e salvamos um pedacinho
da história do prédio. E eu,
imensamente feliz, comecei a me tornar
dono do Martinelli. Meio metro quadrado
já é meu.
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| Postado
em 6 de dezembro de 2007, quinta |
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Kino e Zé Pereira

Anote
aí mais duas dicas de revistas “mui
legais”
e que você NÃO vai encontrar
na banca da esquina: Kino
e Zé Pereira.
Kino
você só encontra
aqui. A revista é virtual
e está em sua terceira edição.
Mistura cinema, design e fotografia. Cada
número apresenta um filme como tema:
Clube da Luta (nº 1), Janela
indiscreta (2) e Táxi Driver
(3). A próxima virá com Corra,
Lola, Corra!
Zé
Pereira também está na
terceira edição. É uma
“revista
feita por cariocas, para cariocas, sobre cariocas”.
Eu, um Judas Ex-carioca, digo que isso não
chega a ser um defeito, mas certamente é
melhor digerida por quem é do Rio,
entenda-se por isso, nascidos, criados, crescidos,
adotados e por opção. Comprei
os dois primeiros números na Baratos
da Ribeiro, mas eles podem ser pedidos
pelo
site da editora. Muito da versão
impressa também está on
line no site
da revista, que traz ainda material
extra.
E
para não dizer que não falei
em Merda,
baixe um
pedacinho do ensaio com a modelo
Anne Marie, com fotos de Max Moure, que está
na segunda edição da revista.
Anne é essa garota linda de morrer
na foto ao lado e o ensaio mostra um badalado
dia na vida de uma carioquinha.
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| Postado
em 27 de novembro de 2007, terça |
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Amigos em close

A
vida vai passando e a gente nunca
tem tempo para nada. Como sempre gosto de
lembrar, “não
ter tempo”
é não saber administrá-lo
ou simplesmente dar uma desculpa para algo
que não se está a fim de fazer
ou que não é prioridade no momento.
De
repente, nos damos conta de que um monte de
coisas boas passou e não aproveitamos.
As que priorizamos nem sempre se mostraram
maravilhosas como pensávamos e o tempo
de curtir isso ou aquilo já não
existe mais. Nessas desandanças, elegemos
ícones, ídolos, fontes de inspiração,
modelos de como gostaríamos de ser.
Quase sempre pessoas distantes, exemplos inatingíveis,
puras ilusões que criamos, enquanto
deixamos de olhar e conviver com pessoas
maravilhosas que estão bem ao nosso
lado.
Há
vinte anos ouço as histórias
de terceiros. Do cidadão que teve inundada
a porta de sua casa porque uma tubulação,
na rua, estourou; do artista que está
lançando um novo CD; do guarda municipal
que quer denunciar a tortura que sofre junto
com seus colegas de corporação;
do governador que está se candidatando
ao Senado; do morador de rua que não
lembra onde e quando morou numa casa; do empresário
que lança um grande negócio...
Nos
últimos dez anos, a busca por essas
histórias se tornou mais profunda.
Muitas vezes, casos e aventuras de pessoas
que já morreram e, claro, já
não podem mais contar como tudo aconteceu.
E conheço vidas muito mais interessantes
do que aquelas que passaram para a História.
Ou que nem passaram. Foram esquecidas.
Quanto
mais histórias descubro, mas percebo
que todos têm histórias maravilhosas
para contar. Vidas interessantíssimas
que não estão sendo grafadas,
nem filmadas ou, no mínimo, não
da forma devida. Lá na frente, alguém
vai ter o trabalho duro – que eu tenho!
– de desencavar tramas e enredos, juntar
fragmentos de memórias, separar fato
de versão... Seria tão mais
simples se alguém desse valor a essas
pessoas enquanto estão vivas! Com a
licença de Guilherme e Nelson, depois
que se chamarem saudade, não precisarão
de vaidade, irão querer preces e nada
mais. Se alguém quiser fazer algo,
que faça agora!
Pois
deixa comigo! É aí que eu entro.
Há
algum tempo, senti necessidade de organizar
minhas fotos. Só as digitais. Fotografo
com câmeras digitais desde 1996. Quando
pensei nisso, há uns três anos,
imaginei que tivesse “umas
cinco mil fotos”
para organizar. Desisti de contar quando me
aproximei das cinqüenta mil.
E percebi que, a cada dois anos, tenho feito
outro tanto desses. Isso, fora o arquivo em
filmes, slides e papel fotográfico
desde meados dos anos 80.
Percebi
também que, sem querer, estava registrando
parte da história de meus amigos. E,
há coisa de um mês, resolvi fazer
isso devidamente. Daqui a 50 ou 100 anos,
quando alguém resolver contar a história
de qualquer um deles, poderá contar
com um registro decente, confiável,
tão fiel quanto meu coração,
minha língua e meus dedos (que coisa
erótica!) consigam se entender e descrever.

Comecei
então a fotografar, oficialmente,
essas figuras carimbadas, raras e
cheias de histórias que merecem ser
contadas. Já fiz tantas fotos de cada
um deles durante tantos anos! Mas agora é
diferente. É olhando na minha cara,
bem de perto, mostrando que não é
normal e deixando isso bem claro para qualquer
um que bater os olhos nesses retratos.
Retratos.
Sem máscaras, sem preocupações,
cara limpa, do jeito que eu encontrar. Não
é assim que você me recebe? Não
é assim que se mostra para mim? Então
é assim que eu quero que todos os conheçam.
Com essa intimidade desconcertante.
Pretendo
que essas fotos venham a ser publicadas, no
mínimo, em tamanho natural, para que
se possa fazer um cara a cara entre os que
serão apresentados. Estão aí
algumas das primeiras: Wilson Natal,
respeitável e sério historiador,
perito em São Paulo, tão sério
e respeitável que já correu
nu pelos jardins do Museu do Ipiranga; Paulo
de Carvalho, cafajeste de plantão,
último dos verdadeiros putos desse
país (da mais fina estirpe putífera!)
e que tem histórias suficiente para
fazer as setecentas páginas da biografia
de Chatô parecerem uma revistinha; e
Woldney Ribeiro, um cabra
safado que monta umas coisas de mentira que
você jura que é de verdade e,
por isso mesmo, anda fazendo cinema.
Tem
um monte de gente na minha lista.
Gente que já foi fotografada para ilustrar
esse trabalho e nem sabe; gente com quem estive
recentemente e ainda não fotografei;
gente como Zé Luiz,
que está lendo isso e já tremendo
na cadeira porque sabe que não pode
ficar de fora; gente que nem vou citar mas
também sabe que está na lista.
A
vida continua e eu continuo falando de vidas.
A propósito, Tchelo
(hoje mais conhecido como “o
pai da Zoé”),
vai botando a cerveja pra gelar que eu chego
já para fotografá-lo.
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| Postado
em 25 de novembro de 2007, domingo |
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O pequeno pássaro de Abaetetuba

Estava
me preparando para escrever sobre
La Môme, o filme sobre
Piaf, após assisti-lo
pela segunda vez (de muitas que virão)
quando me deparo com a manchete da Folha
de São Paulo de domingo: População
via menina de 15 anos sofrer abuso sexual
na cadeia.
A
matéria fala sobre L., 15
anos, presa em Abaetetuba, Pará, e
jogada numa cadeia, por cerca de três
semanas, com mais de 30 homens. Nem precisaria
ler todo o texto para saber dos desdobramentos.
Vida
desgraçada a de L.. No sentido ativo
e definitivo. A menina teve sua vida desgraçada.
Passou mais de vinte dias servindo de pasto
aos selvagens com quem dividia o cárcere.
E
o que a menina paraense tem a ver com Piaf?
Esta outra também levou uma vida desgraçada.
Vivia nas ruas, foi abandonada pela mãe,
entregue a uma avó alcoólatra
e depois a outra dona de bordel, cresceu sendo
jogada de um lado a outro e abusada... uma
vida de descaminhos, excessos e profundas
tristezas, tudo sublimado, ainda que momentaneamente,
pelo canto.
Liberdade
parcialmente restituída, L. está
“como
um passarinho que fugiu da gaiola”.
Terá
algum momento de paz daqui por diante? O tempo
de uma canção. Poucos minutos
durante os quais espantará seus males;
os males do mundo – os mais miseráveis!
–, que foi forçada a conhecer.
Será que a pequena L. sabe cantar?
Desejo
que não lamente nada. Nada de nada.
Nem a dor, as aflições. O que
está acabado, fique esquecido. Comece
do zero. Que sua vida, hoje, comece com você.
Com uma força que só
esses pequenos pássaros conhecem,
buscando tal poder no fundo da alma e fazendo-o
explodir pela garganta. Como choro, como canto,
como denúncia.
Voe,
L.. Voe para bem longe.
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| Postado
em 22 de novembro de 2007, quinta |
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As sereias na casa de Deus
Uma
coisa puxa outra. Desde que comecei as pesquisas
para a biografia de Carlos
Estevão, algumas
de suas obsessões me chamaram atenção.
Uma delas de forma mais contundente: as
sereias.
Uma coisa puxa outra. Há
mais ou menos um mês, digitalizando
os desenhos de Carlão em minha coleção
de revistas O
Cruzeiro, encontrei,
na edição de 5 de abril de 1952,
quando o jovem desenhista já começava
sua fama e estava nos Associados há
cinco anos, um artigo de Câmara
Cascudo (uma de minhas
obsessões) intitulado As
sereias na casa de Deus. Nele,
Cascudo falava nas sereias entalhadas nos
altares da Igreja de São Francisco,
em João Pessoa, Paraíba.
Dizia da facilidade em encontrar tais símbolos
em igrejas portuguesas mas que “não
conheço exemplos brasileiros além
dos paraibanos”.
Uma coisa puxa outra. Imediatamente
veio à lembrança a Igreja
de São Pedro dos Clérigos, em
Recife, Pernambuco (terra de Carlos
Estevão). Estive inúmeras vezes
no Recife. Algumas este ano. Mas só
uma na Igreja de São Pedro, há
uns quinze anos. E lembro bem das sereias
ao lado das colunas de entrada. Elas nunca
saíram de minha cabeça. Até
porque eu havia sido levado até ali
especialmente para vê-las.
Uma coisa puxa outra (é
a última vez que escrevo isso, prometo!)
e fiquei indócil para ir a Recife e
João Pessoa fotografar devidamente
as duas igrejas. Passei por Recife, voltando
do Rio, cheio de bagagem, e só fiquei
na cidade o tempo suficiente para pegar um
táxi do aeroporto à rodoviária.
Fui para Natal e, três dias depois,
para João Pessoa. Saindo de lá,
passei pela Igreja de São Francisco.
As sereias ainda estão lá, mas
não pude vê-las.
Diferente de suas irmãs
recifenses, as sereias paraibanas ficam nas
bases das colunas da capela do Santíssimo
Sacramento e no altar-mor. E cheguei bem na
hora da missa. Juro que se fosse branco e
loiro, teria mandado um “Beautiful!
Beautiful! What?! ‘Nou pódi’
Oh! Ipod? Right!”
e, me fazendo de doido, fotografaria os espécimes
em plena celebração eucarística.
Mas Deus me fez moreno e respeitador, então
deixei para uma próxima oportunidade.
No referido texto, Cascudo
pergunta “que
estão fazendo essas Sereias, símbolo
da sedução irresistível,
sugestão carnal endoidecendo jangadeiros
e pescadores, incluídas aos pés
do altar católico, criadas, desde meados
do século XVIII, para viver numa casa
de Nosso Senhor?”.
E desvenda:
“A sabedoria da Igreja amansou
essas feras e levou-as, como Noé, para
a barca da piedade cristã. (...) Ninguém
intimou a Sereia a desenroscar a cauda e remergulhar
no Rio Paraíba, caminho de Cabedelo,
ganhando o Atlântico. (...) As Sereias
da Igreja de São Francisco na capital
paraibana dizem, com sua amável presença,
missão mais antiga e possivelmente
a mais litúrgica entre as representações
fúnebres dos gregos.
“Estavam
elas ligadas ao culto dos mortos e lembravam
as falas silenciosas e ciciadas das sombras.
Os túmulos gregos eram ornados com
estelas de Sereias. A Sereia sepulcral era
tão comum e típica como o cipreste
votivo”.
De fato, atrás do cemitério
da Igreja de São Pedro, em Recife,
há um pequeno cemitério. E é
muito provável que na de São
Francisco também haja. Ambas são
da mesma época (a paraibana é
de 1779, a pernambucana começou a ser
construída em 1728 mas só foi
sagrada em 1782). Até meados da década
de 30 do século seguinte não
tínhamos cemitérios e as pessoas
eram enterradas nas igrejas.

As sereias, não vi
dessa vez. Mas também estão
lá, do lado de fora, outros seres fantásticos
guardando o templo. Resquícios de costumes
anteriores ao próprio Cristianismo
ou à sua instalação em
terras brasileiras. Criaturas misteriosas
com as quais pretendo conversar mais demoradamente
em minha próxima ida a João
Pessoa.
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| Postado
em 25 de outubro de 2007, quinta |
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Memória Viva de Appe
Quem
acompanha o Sempre Algo a Dizer,
já leu a respeito de Appe
em algumas ocasiões. Quem não
conhece seu trabalho, agora não tem
mais desculpa. Acaba de ser disponibilizado
o site Memória
Viva de Appe.
Nessa
primeira fase, podem ser vistas mais de 60
caricaturas e 40 telas do artista que ficou
mais conhecido por seu trabalho como chargista
político da revista O Cruzeiro.
Em
dezembro, o site ganhará ainda outras
áreas com mais desenhos, vídeos
e materiais inéditos de sua biografia.
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| Postado
em 22 de outubro de 2007, segunda |
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Regininha na Merda
Eu
vou tirar você desse lugar, Regininha!
Do local mais próximo onde encontrar
um exemplar da segunda edição
da revista M...
que chega às bancas nesta terça
(23) no Rio e (“junto
comigo”)
até sexta em Sampa (no
site, a lista de onde encontrar).
Amém,
Regininha, Amém! Confesso
que este pai de família ainda (eu disse
AINDA) não viu sua estréia como
atriz do sexo, mas promessa é dívida
e, se você está mesmo batendo
esse bolão todo como parece na capa
da M... mais uma vez: Amém,
Regininha, Amém!
Segundo
informações enviadas por Silvio
Lach, um dos (ir)responsáveis
pela M...,
...
com o novo número, a revista pretende
ter um dos maiores sucessos de vendas da história
deste país, já que preparou
uma “Edição Apelativa
Sexo & Violência”, pois é
disso que o povo e a mídia gostam.
A maior parte dos textos, ensaio fotográficos
e cartuns falam de um dos dois assuntos. Mas
há ainda espaço para falar de
outras merdas, como a política.
Seguindo
a filosofia de não ter medo de se jogar
no ventilador, a “M...” tem com
um dos pontos altos do número 2 o ensaio
fotográfico, protagonizado por uma
jovem e sensual modelo, com um desfecho surpreendente.
(...)
Na
capa, aparece Regininha Poltergeist, a dançarina
performática que virou atriz pornô.
Além de posar para fotos “interagindo”
com um vaso sanitário (uma marca da
revista), ela dá uma entrevista divertida
para a seção “Experiência
Pós-M” (dedicada a quem foi à
merda e voltou para contar), na qual diz como
foi a decisão de aceitar fazer sexo
diante das câmeras. Ela também
comete indiscrições sobre pessoas
que passaram por sua cama, falando com muito
bom humor de suas aventuras com Fernando Vanucci
(“Foi um acidente”), Eri Johnson
(“Ele já foi mais humilde”)
e Rubinho Barrichelo (“Quis me levar
para São Paulo, mas eu só quis
ter uma noite com ele”). Não
deixa de comentar também o mercado
de prostituição de atrizes conhecidas
da televisão. A abertura da entrevista
é feita por Tico Santa Cruz, do Detonautas,
que se revelou um grande fã onanista
de Regininha.
A
terceira entrevista é com o dançarino
de funk Lacraia, que posa para um ensaio vestido
de homem. Irreconhecível, Lacraia também
dá uma de macho ao criticar DJ Marlboro
(“ele fica com os direitos autorais
de jovens talentos”) e Rômulo
Costa (“ele nunca nos repassou o lucro
que teve com uma gravação do
Serginho em um de seus discos”). Entre
as declarações inusitadas, Lacraia
diz que sonhava em posar nu, revela que tem
planos de ser apresentador de programa infantil
e pede um gay na presidência, sugerindo
o nome de Fernando Gabeira (“Ele não
é, mas é!”).
O
novo número tem ainda Gabriel
O Pensador falando do papa e outros
nomes ligado à hipocrisia; Paulo
Caruso desabafando sobre dura a tarefa
de ter que desenhar Renan Calheiros; Léo
Jaime discorrendo sobre o autofelattio;
a deputada federal Manuela D’Ávila
narrando como foi sua chegada ao Congresso;
o ator André Ramiro
e o ex-traficante João Guilherme
Estrella falando de Tropa
de Elite (Estrella diz que os
consumidores de drogas evitam que os bandidos
desçam para assaltar nas ruas) e mais
um monte de gente boa.
E
chega. Corra pro banheiro mais próximo,
mas dê uma passadinha na banca antes.
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| Postado
em 19 de outubro de 2007, sexta |
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Os dragões talibãs da Universal
contra
os santos guerreiros

Detalhe
de São Jorge e o dragão, de
Donatello
A
história começa pelo fim: os
dragões cuspiram fogo e os santos viraram
cinzas. Doze anos após o infame episódio
do chute na santa, um “pastor”
da Universal realiza uma versão hardcore
e põe
fogo em duas imagens: uma do Senhor
Morto, outra de São Pedro. Detalhe:
peças no estilo barroco jesuítico,
com quase quatro séculos
de (ex-)existência, tombadas
pelo Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional (Iphan).
Resumindo:
os talibãs da Universal cansaram da
simples intolerância entre times religiosos
e partiram para o massacre histórico-cultural.
A briga não é mais com os católicos,
mas com qualquer brasileiro. Logo vão
querer brincar de Deus e tocar fogo em Outro
Preto e Tiradentes em um remake de
Sodoma e Gomorra.
Acredito
piamente que as pessoas só erram por
ignorância. Mas vá ser
ignorante assim no inferno!
E
o jeito como conseguiu esses tesouros foi
algo do tipo
“vender a alma ao diabo”:
exigiu-as em troca de orações
para um doente. O coitado, assim como as imagens,
não escapou.
Temos
uma grande massa de gente simples, fácil
de ser tangida por qualquer aboio ou por showzinhos
de poltergeist de camelô, mas
quem não faz parte do rebanho tem o
dever de alertar a todos sobre esse circo
de horrores promovido por débeis
mentais travestidos de pastores em
pulgueiros caiados e enfeitados de templo.
Quem quiser acreditar em qualquer coisa, que
o faça, mas ao menos procure uma religião.
Quer ser protestante? Procure a Igreja Luterana,
a Presbiteriana, a Anglicana... Mas se for
pra ficar gritando (mania que esse povo tem
de achar que Deus é surdo!), pulando,
chutando e queimando coisas, vá pra
um show de Heavy Metal.
Quando
do episódio do chute na santa, entrevistei
o então Arcebispo de Natal
D. Heitor de Araújo Sales
(irmão de D. Eugênio).
Em determinado momento, ele exclamou: “Até
que ponto pode chegar o desatino humano!”.
Se for como a ignorância, certamente
é um poço sem fundo.
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| Postado
em 18 de outubro de 2007, quinta |
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Eu evacuo para o Rolex do Huck

Nos
últimos cinco meses, forcei-me a viver
uma saudável alienação.
Nada de Pan, nada de Renan, de jornalista
pelada... Deixei de assistir tevê, não
acompanho nem me interessa muito seja lá
o que for. Dou uma olhada nos sites de notícias
e faço a triagem: quase tudo que leio
está nos parcos cadernos de cultura.
O resto do mundo e suas neuroses que
se lixem.
Como
uma coisa puxa outra, caí na armadilha
de ler o
artigo de Luciano Huck
na Folha de SP,
em 1º de outubro. Tendo seu Rolex roubado,
ele bradou
“Onde está a polícia?
Onde está a ‘Elite
da Tropa’?
Quem sabe até a ‘Tropa
de Elite’!
Chamem o comandante Nascimento!”
Bati o olho e vaticinei: “Vai
virar novela”.
Virou.
Perdi
as contas dos artigos-respostas, artigos-sacanas,
artigos-vamos-pensar-o-mundo e reportagens
de acompanhamento da polícia à
caça do bibelô. É mesmo
uma indecência não termos segurança,
mas é ainda mais indecente um cara
ostentar um relógio de dez mil reais
em um país onde milhares de pai de
família, que têm
“a sorte”
de ter um emprego, demoram mais de dois anos
para ganhar esse dinheiro e, com ele, precisam
fazer a mágica de dar casa, comida,
saúde e escola aos seus.
Longe
de mim fazer o discurso de “rico
não pode mostrar que é rico”.
Pode. Mas quem tem dinheiro para comprar
um Rolex, tem dinheiro para comprar
dois. Então vai lá e desembolsa
outra merreca de dez contos e dê graças
aos céus por estar vivo e inteiro.
Ou então vá morar na Suíça,
onde tem segurança e Rolex custa bem
menos.
Ele
utilizou o jornal de maior circulação
do país para dizer que paga impostos
e não tem segurança, mas sequer
prestou queixa em uma delegacia. Ou seja:
não acredita no sistema que ele mesmo
alimenta. A polícia, por outro lado,
sob holofotes, correu para mostrar serviço.
E provou mais uma vez que, quando quer, funciona.
Nada
contra o incrível Luciano. Mas espero
que o capítulo final dessa novela tenha
sido a genial tira de Caco Galhardo
na Folha de SP de hoje. Duas amigas
discutem sobre o caso até que Chico
Bacon l | | | | |