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Postado em 27 de dezembro de 2007, quinta

:: O Ano Estevão


Para mim, este foi um ano Estevão. Ou o Estevão Ano Um.

Ele foi anunciado em dezembro de 2006, quando Doris, filha de Carlos Estevão, deixou um comentário aqui no Sempre Algo a Dizer. Planejei ir ao Rio em fevereiro para começar as pesquisas junto ao acervo de seu pai, mais isso só foi possível em abril. Voltei avisando a minha esposa: Você vai ter que ser forte: estou me casando com Carlos Estevão.

Casei. E estou numa lua-de-mel que, espero, dure para sempre, diferente das previsões do Casamento Antes e Depois que o próprio Estevão fazia (veja algumas mais abaixo). Como bem observou a própria Doris no mês passado, a essa altura eu já sei mais sobre ele do que qualquer outra pessoa.

Não há nada de glorioso ou romântico em escrever uma biografia. É um trabalho do cão. Duro. Pesado. De estivador mesmo. Após duas rodadas de entrevistas e pesquisas no Rio (a outra foi em novembro) e mais uma em Recife, já somam-se mais de 30 horas de gravação e cerca de 2.500 desenhos. Esse material está sendo organizado e catalogado, os áudios transcritos, dados cruzados... Como disse, um trabalho pesado. E cheio de detalhes. A cada dia surge uma novidade, uma coisinha que poderia passar despercebida mais vale uma investigação mais aprofundada. É como trabalhar num garimpo. Ao encontrar uma rocha muito dura, tem que ter paciência e cuidado na hora de quebrá-la para não perder um pedacinho de pedra ou metal precioso que esteja nela e, às vezes, podemos encontrar um lamaçal que é preciso também ser pacientemente peneirado para não deixar passar nada.

Hoje sei porque as pessoas que escrevem biografias por conta própria (sem um patrocínio) demoram tantos anos para terminá-la. E sei também que essas são as melhores. Reconstitui-se cada história, cada caso, passo a passo, com o único compromisso de mostrar o que realmente aconteceu.

Também sei que os dez anos de Memória Viva foram como uma graduação-mestrado-doutorado para chegar até esse trabalho. E ótimo que tenha sido com Carlão (olha a intimidade)! Uma década atrás, se eu listasse cem nomes interessantes para ganhar uma biografia, provavelmente eu nem lembraria dele. E hoje estou aqui: casado e apaixonado, deliciando-me com cada descoberta sobre a vida riquíssima (e louca) que mesmo o público que o acompanhou em tempos de fama nas páginas de O Cruzeiro desconhece.

Resolvi que Carlos Estevão seria o tema do último texto de 2007 no Sempre Algo a Dizer por vários motivos: passamos o ano quase todojuntos; porque este mês está completando 45 anos que a última edição de Dr. Macarra (revista totalmente desenhada por ele) chegava às bancas e também porque acabo de receber um livreto que comprei há mais ou menos um mês, pela Internet, de um sebo no Rio. Na descrição do produto estava escrito: O Casamento, Carlos Estevão, 1957. Algo totalmente desconhecido para mim. Julguei que fosse uma coleção de recortes. E era isso mesmo. Há 50 anos, alguém recortou e colecionou essas pérolas que ele publicava nos jornais e revistas dos Diários Associados e ainda teve o cuidado de mandar encadernar. São mais de 80 páginas (alguns reproduzidas logo abaixo) que me chegaram na véspera do Natal.

Os meus casamentos – o real e o imaginário – vão muito bem, obrigado. A sugestão, portanto, é que vocês se divirtam com os desenhos abaixo. A semelhança com fatos, pessoas ou situações na vida real terá sido mera coincidência e eu não tenho nada com isso.

Até 2008. No dia primeiro, estarei de volta e cheio de novidades aqui no Sempre Algo a Dizer. Que seja um ano com muito mais motivos para rirmos.

 
Postado em 20 de dezembro de 2007, quinta

:: Três receitas de Natal

Para fazer o Bem ao próximo

Nunca fui muito com a cara do Papai Noel. Gordo, com aquela roupa toda num calor medonho desses que é o verão brasileiro, meio vagabundo (só trabalha uma vez por ano) e com aquela mania pedófila de botar criancinha no colo. Fiquei mais cabreiro ainda quando, lá pelos 6 anos de idade, recebi uma carta do dito cujo dizendo que me comportasse melhor no próximo ano ou aquele seria meu último Natal com presentes. Que puto! Quantas crianças você conhece que recebeu uma carta ameaçadora daquele velho escroto?

Tudo bem. Sem revanchismos. Cresci, superei o trauma, contei aos meus três filhos que ele existe, que de uma maneira ou de outra deixa os presentes na noite de Natal e por aí vai.

E é por acreditar nele que ainda hoje um monte de crianças escreve ao Papai Noel. Crianças que nunca ganharam um presente de aniversário ou de Natal. Mas você pode ser o Papai Noel e, sem aparecer, levar um pouco de alegria e esperança a pelo menos uma delas.

Há 14 anos, existe o Projeto Papai Noel dos Correios. Você adota uma das cartinhas endereçadas ao bom velhinho, compra os presentes e deixa a entrega por conta dos Correios. Em 2006, foram mais de meio milhão de pedidos. Mais de 220 mil foram atendidos.

Você imagina o que uma bonequinha ou um carrinho que não custam dez reais pode fazer por uma criança que nunca teve nada? Ainda dá tempo: entre em contato com a Casa do Papai Noel do seu estado e faça uma criança feliz neste Natal.

* * *

Para fazer bem ao bucho

Poucos dias antes das festividades natalinas, Daliana, neta de Câmara Cascudo e conseqüentemente minha irmã, não obstante meus descarados roubos a cada visita que faço a sua sala no Memorial de vovô, em Natal, presenteou-me com aquilo que mais amo ganhar: livro (isso foi uma dica!).

Arte e rituais do fazer, do servir e do comer no Rio Grande do Norte é uma edição recente do Senac que traz receitas da culinária potiguar a partir das obras referenciais de Cascudo sobre o tema. Tirando aquela coisa horrorosa na capa (aquele pedaço de cadáver em primeiro plano), o livro é bem editado e de muito bom gosto. Segue uma das receitas mais simples (e sem carne, claro!):

Doce de jerimum com coco

2kg de jerimum
1 xícara (chá) de água
1 kg de açúcar
1 coco ralado
cravo e canela da índia a gosto
1 litro de água

Modo de preparo

Descasque a abóbora e corte em pedaços. Ponha numa panela grande e leve ao fogo baixo com a água até que esteja bem macia. Junte o açúcar, a canela em pau e os cravos e deixe cozinhar em fogo brando, mexendo sempre até desprender da panela. Acrescente o coco ralado e cozinhe por mais uns 30 minutos, mexendo de vez em quando. Deixe esfriar e sirva em compoteira.

* * *

Para fazer o Bem a você mesmo

O aniversário é de Jesus (como? Ele não nasceu na Primavera??!!) mas Buda certamente é um convidado muito bem-vindo.

Nem lembro exatamente quando (2002 ou 2003) esse livro chegou às minhas mãos. Já li umas quatro vezes e a cada vez me surpreendo mais. Ele pode não dizer absolutamente nada a você, mas caso aceite um conselho amigo, procure lê-lo. Ainda bem que Tenzin Gyatso está vivo (ou suas cinzas se revirariam) e não fala português, mas posso dizer que, no livro, o Dalai Lama ensina a ligar o botão espiritual do Foda-se, que funciona muito melhor e é bem diferente daquele Foda-se que a gente dá no dia-a-dia só para descarregar a ira.

O título original é Healing Anger: The Power of Patience from a Buddhist Perspective (Curando a raiva: O poder da paciência por uma perspectiva budista). Na edição brasileira ficou A arte de lidar com a raiva – O poder da paciência. Trata-se de um verdadeiro roteiro espiritual para a felicidade, principalmente para nós, ocidentais e latinos, tão acostumados a explodir por qualquer bobagem. O livro é um desdobramento dos ensinamentos de um capítulo do Guia para o modo de vida do Bodhisattva, de Shantideva, escrito no século VIII e um verdadeiro clássico do Budismo Mahayana.

Leitura indicada para qualquer cristão (no sentido mais abrangente do termo).

 
Postado em 17 de dezembro de 2007, segunda

:: As pelejas de Ordnas

Há dois meses e meio estou pelejando para ver O homem que desafiou o diabo. Durante esse tempo, passei por seis cidades onde estava sendo exibido. A última foi Natal, capital do Rio Grande do Norte, onde a história se passa e foi filmada. Lá, o filme resiste em única sessão diária dividindo sala com um blockbuster americano. É Tio Sam mandando bala em Ojuara.

Fui, resisti, não vi. Lá pelos idos de 1998 ou 1999, já se falava da adaptação de As pelejas de Ojuara, livro de Nei Leandro de Castro, para o cinema. Puta livro, diga-se de passagem. Esperei quase uma década e nada. Afrouxei. O filme me perseguindo por Rio, São Paulo, subindo para o Nordeste e eu nada. Fugindo da sala escura como o diabo foge da cruz.

Confesso meus pré-conceitos. Quando soube que Marcos Palmeira faria Ojuara e Flávia Alessandra , Mãe de Pantanha, fechei com o Capitão Nascimento:Isso vai dar merda!

Neste fim de semana, depois de mais de década, me peguei de novo com o livro de Nei. Puta livro, repita-se de passagem. Desses que você não larga até acabar, que as imagens passam todas direitinhas e bem vívidas na sua cabeça (e Marcos Palmeira e Flávia Alessandra não estavam lá).

Quanto mais se conheça a cultura nordestina, mais se aproveita a leitura. Eu, carioca por capricho do destino, nordestino de três costados e estados (mãe alagoana, mulher paraibana, filhas potiguares), lambo os beiços a cada linha das Pelejas de Nei.

Reavivada a memória, senti-me preparado para enfrentar o filme. Mas vou esperar o final de janeiro para vê-lo em disquinho, em casa mesmo. Vou desafiar o diabo na minha área, no solo sagrado de meu abençoado lar.

Por tudo que vi – no próprio site oficial – o filme merece vir acompanhado de um aviso bem grande: Às vezes LEVEMENTE inspirado no livro (puta livro, reforce-se de passagem) de Nei Leandro de Castro. Passado no liquidificador e entregue à (neste caso) competente direção de Moacyr Góes para ficar bem fácil de ser engolido pelo populacho global. Para não restar dúvidas sobre o emprego do termo competente: com um currículo de filmes de Xuxa, Angélica e Padre Marcelo, o diretor entende bem de fazer filmes para idiotas. E assim, idiotiza também o livro (puta livro, reafirme-se de passagem) de Nei.

Você viu e gostou? Leia o livro (puta... você já sabe!). Vai gostar muito mais. Não viu ainda? Leia o livro antes. Faça sua própria versão cinematográfica e só depois desafie a novelinha de Góes.

 
Postado em 10 de dezembro de 2007, segunda

:: O legado de Seu Ribamar

Quando, no final de 1992, entrei pela primeira vez na casa de Seu Ratto, em Natal, uma figura me chamou a atenção. Era um senhor muito pequeno, recurvado, com dificuldade para andar, barba por fazer, uma tosse horrorosa e uma risada de dar inveja a qualquer bruxo de filme terror.

José de Ribamar de Carvalho. Era esse o nome daquele homem que já havia passado por mais de trinta fraternidades e ordens ocultistas e há mais de quatro décadas se dedicava ao estudo de ciência ocultas e temas correlatos.

A tosse era conseqüência do maldito cigarro que ele não largava de jeito nenhum desde a adolescência. Rendeu-lhe enfisemas, derrames, amputações... O andar coxo, sempre apoiado por alguma muleta (outra além do cigarro), foi lembrança de um sério acidente de carro.

Em 1994, seu estado de saúde – que sempre inspirara muito cuidado – entrou em rápido processo de declínio. Passava muito tempo no hospital, sofria muitas dores, chegou a pesar cerca de trinta quilos. Um sofrimento que teve fim em outubro daquele ano.

Pobre, precocemente aposentado, cheio de filhos, Seu Ribamar juntou uma riqueza considerável na forma de uma biblioteca com aproximadamente cinco mil livros. Era essa a estimativa que fazia dos muitos volumes que se espalhavam por quase todos os cômodos de sua casa. Boa parte deles em espanhol, conseguida com dificuldade nas décadas de 50 e 60, quando quase nada do tipo era produzido ou editado no Brasil.

Seu Ribamar era zeloso e cuidava de seus livros de forma peculiar: encadernava-os com sacos plásticos de arroz, feijão, farinha... Também fazia anotações a lápis e em papéis de pão que eram como novas páginas. Deixava impresso neles sua energia, seus conhecimentos, esclarecimentos úteis: no papel e no astral.

Alguns de seus livros – quatro ou cinco – ficaram comigo. Nesses quase 15 anos, conservo-os do mesmo jeito: com as sobrecapas de arroz ou feijão e as páginas de papel de pão. Ficou também o exemplo vivo da máxima de Erasmo: Quando consigo dinheiro, compro livros. Se sobra algum, compro comida e roupas.

 
Postado em 7 de dezembro de 2007, sexta

:: O Martinelli é meu!

O poder da visualização. Imagine-se dirigindo uma Mercedez. Um dia você acaba tendo uma Brasília ou sendo motorista de ônibus. Tudo nasce na sua imaginação. Quanto mais força você coloca nesses pensamentos, maior é a probabilidade de realização.

Sempre disse que o Edifício Martinelli, o primeiro arranha-céu de São Paulo, seria meu.

Sou apaixonado pelo Martinelli. Sempre que vou a São Paulo, vou lá pedir sua benção. Subo, fotografo, subo no Banespão e o fotografo de cima pra baixo, desço, deito na rua, fotografo de baixo pra cima... Adoro aquele prédio. Sempre disse que ele seria meu. E esse sonho começou a se realizar.

Em novembro, estive lá mais uma vez. O prédio havia fechado para reformas uma semana antes e não pude subir. Tudo bem. O destino estava movendo suas catracas e o poder do pensamento se esforçava por realizar aquela sensação que eu tivera em junho do ano passado quando escrevi: Continuo com a impressão de que aquele prédio ainda será meu... Todo!.

Anahi, Wilson e eu descemos pela São João e, dobrando a esquina, demos de cara com um pedaço do Martinelli a nossa inteira disposição. O piso da mansão (que fica no alto do prédio) estava sendo retirado e jogado fora em caçambas de entulho. Perguntei logo a um dos homens que traziam o material: Isso vai pro lixo? Posso pegar? Antes de ele terminar o Pode, eu e Wilson já estávamos escolhendo as peças que estavam inteiras.

Loucos de catar pedra! Levamos algumas para a casa de Wilson. No dia seguinte, um domingo, voltamos e eu resolvi levar uma caixa inteira daquilo, lavar, tirar o excesso de cimento, cuidar bem direitinho. Como relíquia e não como lixo.

Estávamos em dúvida sobre a época do material. O Martinelli foi inaugurado no finalzinho da década de 1920 e teve uma reforma na segunda metade da década de 1970. Na pior das hipóteses, o piso já teria 30 anos. Ao que parece, é mesmo dessa época, mas igual ao original e, pelo apurado, isso acontecerá de novo (voltaremos lá para conferir).

Nem preciso dizer que em um país civilizado, aquele material não teria o mesmo fim. Fizemos nossa parte e salvamos um pedacinho da história do prédio. E eu, imensamente feliz, comecei a me tornar dono do Martinelli. Meio metro quadrado já é meu.

 
Postado em 6 de dezembro de 2007, quinta

:: Kino e Zé Pereira

Anote aí mais duas dicas de revistas mui legais e que você NÃO vai encontrar na banca da esquina: Kino e Pereira.

Kino você só encontra aqui. A revista é virtual e está em sua terceira edição. Mistura cinema, design e fotografia. Cada número apresenta um filme como tema: Clube da Luta (nº 1), Janela indiscreta (2) e Táxi Driver (3). A próxima virá com Corra, Lola, Corra!

Zé Pereira também está na terceira edição. É uma revista feita por cariocas, para cariocas, sobre cariocas. Eu, um Judas Ex-carioca, digo que isso não chega a ser um defeito, mas certamente é melhor digerida por quem é do Rio, entenda-se por isso, nascidos, criados, crescidos, adotados e por opção. Comprei os dois primeiros números na Baratos da Ribeiro, mas eles podem ser pedidos pelo site da editora. Muito da versão impressa também está on line no site da revista, que traz ainda material extra.

E para não dizer que não falei em Merda, baixe um pedacinho do ensaio com a modelo Anne Marie, com fotos de Max Moure, que está na segunda edição da revista. Anne é essa garota linda de morrer na foto ao lado e o ensaio mostra um badalado dia na vida de uma carioquinha.

 
Postado em 27 de novembro de 2007, terça

:: Amigos em close

A vida vai passando e a gente nunca tem tempo para nada. Como sempre gosto de lembrar, não ter tempo é não saber administrá-lo ou simplesmente dar uma desculpa para algo que não se está a fim de fazer ou que não é prioridade no momento.

De repente, nos damos conta de que um monte de coisas boas passou e não aproveitamos. As que priorizamos nem sempre se mostraram maravilhosas como pensávamos e o tempo de curtir isso ou aquilo já não existe mais. Nessas desandanças, elegemos ícones, ídolos, fontes de inspiração, modelos de como gostaríamos de ser. Quase sempre pessoas distantes, exemplos inatingíveis, puras ilusões que criamos, enquanto deixamos de olhar e conviver com pessoas maravilhosas que estão bem ao nosso lado.

Há vinte anos ouço as histórias de terceiros. Do cidadão que teve inundada a porta de sua casa porque uma tubulação, na rua, estourou; do artista que está lançando um novo CD; do guarda municipal que quer denunciar a tortura que sofre junto com seus colegas de corporação; do governador que está se candidatando ao Senado; do morador de rua que não lembra onde e quando morou numa casa; do empresário que lança um grande negócio...

Nos últimos dez anos, a busca por essas histórias se tornou mais profunda. Muitas vezes, casos e aventuras de pessoas que já morreram e, claro, já não podem mais contar como tudo aconteceu. E conheço vidas muito mais interessantes do que aquelas que passaram para a História. Ou que nem passaram. Foram esquecidas.

Quanto mais histórias descubro, mas percebo que todos têm histórias maravilhosas para contar. Vidas interessantíssimas que não estão sendo grafadas, nem filmadas ou, no mínimo, não da forma devida. Lá na frente, alguém vai ter o trabalho duro – que eu tenho! – de desencavar tramas e enredos, juntar fragmentos de memórias, separar fato de versão... Seria tão mais simples se alguém desse valor a essas pessoas enquanto estão vivas! Com a licença de Guilherme e Nelson, depois que se chamarem saudade, não precisarão de vaidade, irão querer preces e nada mais. Se alguém quiser fazer algo, que faça agora!

Pois deixa comigo! É aí que eu entro.

Há algum tempo, senti necessidade de organizar minhas fotos. Só as digitais. Fotografo com câmeras digitais desde 1996. Quando pensei nisso, há uns três anos, imaginei que tivesse umas cinco mil fotos para organizar. Desisti de contar quando me aproximei das cinqüenta mil. E percebi que, a cada dois anos, tenho feito outro tanto desses. Isso, fora o arquivo em filmes, slides e papel fotográfico desde meados dos anos 80.

Percebi também que, sem querer, estava registrando parte da história de meus amigos. E, há coisa de um mês, resolvi fazer isso devidamente. Daqui a 50 ou 100 anos, quando alguém resolver contar a história de qualquer um deles, poderá contar com um registro decente, confiável, tão fiel quanto meu coração, minha língua e meus dedos (que coisa erótica!) consigam se entender e descrever.

Comecei então a fotografar, oficialmente, essas figuras carimbadas, raras e cheias de histórias que merecem ser contadas. Já fiz tantas fotos de cada um deles durante tantos anos! Mas agora é diferente. É olhando na minha cara, bem de perto, mostrando que não é normal e deixando isso bem claro para qualquer um que bater os olhos nesses retratos.

Retratos. Sem máscaras, sem preocupações, cara limpa, do jeito que eu encontrar. Não é assim que você me recebe? Não é assim que se mostra para mim? Então é assim que eu quero que todos os conheçam. Com essa intimidade desconcertante.

Pretendo que essas fotos venham a ser publicadas, no mínimo, em tamanho natural, para que se possa fazer um cara a cara entre os que serão apresentados. Estão aí algumas das primeiras: Wilson Natal, respeitável e sério historiador, perito em São Paulo, tão sério e respeitável que já correu nu pelos jardins do Museu do Ipiranga; Paulo de Carvalho, cafajeste de plantão, último dos verdadeiros putos desse país (da mais fina estirpe putífera!) e que tem histórias suficiente para fazer as setecentas páginas da biografia de Chatô parecerem uma revistinha; e Woldney Ribeiro, um cabra safado que monta umas coisas de mentira que você jura que é de verdade e, por isso mesmo, anda fazendo cinema.

Tem um monte de gente na minha lista. Gente que já foi fotografada para ilustrar esse trabalho e nem sabe; gente com quem estive recentemente e ainda não fotografei; gente como Zé Luiz, que está lendo isso e já tremendo na cadeira porque sabe que não pode ficar de fora; gente que nem vou citar mas também sabe que está na lista.

A vida continua e eu continuo falando de vidas. A propósito, Tchelo (hoje mais conhecido como o pai da Zoé), vai botando a cerveja pra gelar que eu chego já para fotografá-lo.

 
Postado em 25 de novembro de 2007, domingo

:: O pequeno pássaro de Abaetetuba

Estava me preparando para escrever sobre La Môme, o filme sobre Piaf, após assisti-lo pela segunda vez (de muitas que virão) quando me deparo com a manchete da Folha de São Paulo de domingo: População via menina de 15 anos sofrer abuso sexual na cadeia.

A matéria fala sobre L., 15 anos, presa em Abaetetuba, Pará, e jogada numa cadeia, por cerca de três semanas, com mais de 30 homens. Nem precisaria ler todo o texto para saber dos desdobramentos.

Vida desgraçada a de L.. No sentido ativo e definitivo. A menina teve sua vida desgraçada. Passou mais de vinte dias servindo de pasto aos selvagens com quem dividia o cárcere.

E o que a menina paraense tem a ver com Piaf? Esta outra também levou uma vida desgraçada. Vivia nas ruas, foi abandonada pela mãe, entregue a uma avó alcoólatra e depois a outra dona de bordel, cresceu sendo jogada de um lado a outro e abusada... uma vida de descaminhos, excessos e profundas tristezas, tudo sublimado, ainda que momentaneamente, pelo canto.

Liberdade parcialmente restituída, L. está como um passarinho que fugiu da gaiola.

Terá algum momento de paz daqui por diante? O tempo de uma canção. Poucos minutos durante os quais espantará seus males; os males do mundo – os mais miseráveis! –, que foi forçada a conhecer. Será que a pequena L. sabe cantar?

Desejo que não lamente nada. Nada de nada. Nem a dor, as aflições. O que está acabado, fique esquecido. Comece do zero. Que sua vida, hoje, comece com você. Com uma força que só esses pequenos pássaros conhecem, buscando tal poder no fundo da alma e fazendo-o explodir pela garganta. Como choro, como canto, como denúncia.

Voe, L.. Voe para bem longe.

 
Postado em 22 de novembro de 2007, quinta

:: As sereias na casa de Deus

Uma coisa puxa outra. Desde que comecei as pesquisas para a biografia de Carlos Estevão, algumas de suas obsessões me chamaram atenção. Uma delas de forma mais contundente: as sereias.

Uma coisa puxa outra. Há mais ou menos um mês, digitalizando os desenhos de Carlão em minha coleção de revistas O Cruzeiro, encontrei, na edição de 5 de abril de 1952, quando o jovem desenhista já começava sua fama e estava nos Associados há cinco anos, um artigo de Câmara Cascudo (uma de minhas obsessões) intitulado As sereias na casa de Deus. Nele, Cascudo falava nas sereias entalhadas nos altares da Igreja de São Francisco, em João Pessoa, Paraíba. Dizia da facilidade em encontrar tais símbolos em igrejas portuguesas mas que não conheço exemplos brasileiros além dos paraibanos.

Uma coisa puxa outra. Imediatamente veio à lembrança a Igreja de São Pedro dos Clérigos, em Recife, Pernambuco (terra de Carlos Estevão). Estive inúmeras vezes no Recife. Algumas este ano. Mas só uma na Igreja de São Pedro, há uns quinze anos. E lembro bem das sereias ao lado das colunas de entrada. Elas nunca saíram de minha cabeça. Até porque eu havia sido levado até ali especialmente para vê-las.

Uma coisa puxa outra (é a última vez que escrevo isso, prometo!) e fiquei indócil para ir a Recife e João Pessoa fotografar devidamente as duas igrejas. Passei por Recife, voltando do Rio, cheio de bagagem, e só fiquei na cidade o tempo suficiente para pegar um táxi do aeroporto à rodoviária. Fui para Natal e, três dias depois, para João Pessoa. Saindo de lá, passei pela Igreja de São Francisco. As sereias ainda estão lá, mas não pude vê-las.

Diferente de suas irmãs recifenses, as sereias paraibanas ficam nas bases das colunas da capela do Santíssimo Sacramento e no altar-mor. E cheguei bem na hora da missa. Juro que se fosse branco e loiro, teria mandado um Beautiful! Beautiful! What?! ‘Nou pódi’ Oh! Ipod? Right! e, me fazendo de doido, fotografaria os espécimes em plena celebração eucarística. Mas Deus me fez moreno e respeitador, então deixei para uma próxima oportunidade.

No referido texto, Cascudo pergunta que estão fazendo essas Sereias, símbolo da sedução irresistível, sugestão carnal endoidecendo jangadeiros e pescadores, incluídas aos pés do altar católico, criadas, desde meados do século XVIII, para viver numa casa de Nosso Senhor?. E desvenda:A sabedoria da Igreja amansou essas feras e levou-as, como Noé, para a barca da piedade cristã. (...) Ninguém intimou a Sereia a desenroscar a cauda e remergulhar no Rio Paraíba, caminho de Cabedelo, ganhando o Atlântico. (...) As Sereias da Igreja de São Francisco na capital paraibana dizem, com sua amável presença, missão mais antiga e possivelmente a mais litúrgica entre as representações fúnebres dos gregos.

Estavam elas ligadas ao culto dos mortos e lembravam as falas silenciosas e ciciadas das sombras. Os túmulos gregos eram ornados com estelas de Sereias. A Sereia sepulcral era tão comum e típica como o cipreste votivo”.

De fato, atrás do cemitério da Igreja de São Pedro, em Recife, há um pequeno cemitério. E é muito provável que na de São Francisco também haja. Ambas são da mesma época (a paraibana é de 1779, a pernambucana começou a ser construída em 1728 mas só foi sagrada em 1782). Até meados da década de 30 do século seguinte não tínhamos cemitérios e as pessoas eram enterradas nas igrejas.

As sereias, não vi dessa vez. Mas também estão lá, do lado de fora, outros seres fantásticos guardando o templo. Resquícios de costumes anteriores ao próprio Cristianismo ou à sua instalação em terras brasileiras. Criaturas misteriosas com as quais pretendo conversar mais demoradamente em minha próxima ida a João Pessoa.

 
Postado em 25 de outubro de 2007, quinta

:: Memória Viva de Appe

Quem acompanha o Sempre Algo a Dizer, já leu a respeito de Appe em algumas ocasiões. Quem não conhece seu trabalho, agora não tem mais desculpa. Acaba de ser disponibilizado o site Memória Viva de Appe.

Nessa primeira fase, podem ser vistas mais de 60 caricaturas e 40 telas do artista que ficou mais conhecido por seu trabalho como chargista político da revista O Cruzeiro.

Em dezembro, o site ganhará ainda outras áreas com mais desenhos, vídeos e materiais inéditos de sua biografia.

 
Postado em 22 de outubro de 2007, segunda

:: Regininha na Merda

Eu vou tirar você desse lugar, Regininha! Do local mais próximo onde encontrar um exemplar da segunda edição da revista M... que chega às bancas nesta terça (23) no Rio e (junto comigo) até sexta em Sampa (no site, a lista de onde encontrar).

Amém, Regininha, Amém! Confesso que este pai de família ainda (eu disse AINDA) não viu sua estréia como atriz do sexo, mas promessa é dívida e, se você está mesmo batendo esse bolão todo como parece na capa da M... mais uma vez: Amém, Regininha, Amém!

Segundo informações enviadas por Silvio Lach, um dos (ir)responsáveis pela M...,

... com o novo número, a revista pretende ter um dos maiores sucessos de vendas da história deste país, já que preparou uma “Edição Apelativa Sexo & Violência”, pois é disso que o povo e a mídia gostam. A maior parte dos textos, ensaio fotográficos e cartuns falam de um dos dois assuntos. Mas há ainda espaço para falar de outras merdas, como a política.
Seguindo a filosofia de não ter medo de se jogar no ventilador, a “M...” tem com um dos pontos altos do número 2 o ensaio fotográfico, protagonizado por uma jovem e sensual modelo, com um desfecho surpreendente. (...)
Na capa, aparece Regininha Poltergeist, a dançarina performática que virou atriz pornô. Além de posar para fotos “interagindo” com um vaso sanitário (uma marca da revista), ela dá uma entrevista divertida para a seção “Experiência Pós-M” (dedicada a quem foi à merda e voltou para contar), na qual diz como foi a decisão de aceitar fazer sexo diante das câmeras. Ela também comete indiscrições sobre pessoas que passaram por sua cama, falando com muito bom humor de suas aventuras com Fernando Vanucci (“Foi um acidente”), Eri Johnson (“Ele já foi mais humilde”) e Rubinho Barrichelo (“Quis me levar para São Paulo, mas eu só quis ter uma noite com ele”). Não deixa de comentar também o mercado de prostituição de atrizes conhecidas da televisão. A abertura da entrevista é feita por Tico Santa Cruz, do Detonautas, que se revelou um grande fã onanista de Regininha.
A terceira entrevista é com o dançarino de funk Lacraia, que posa para um ensaio vestido de homem. Irreconhecível, Lacraia também dá uma de macho ao criticar DJ Marlboro (“ele fica com os direitos autorais de jovens talentos”) e Rômulo Costa (“ele nunca nos repassou o lucro que teve com uma gravação do Serginho em um de seus discos”). Entre as declarações inusitadas, Lacraia diz que sonhava em posar nu, revela que tem planos de ser apresentador de programa infantil e pede um gay na presidência, sugerindo o nome de Fernando Gabeira (“Ele não é, mas é!”).

O novo número tem ainda Gabriel O Pensador falando do papa e outros nomes ligado à hipocrisia; Paulo Caruso desabafando sobre dura a tarefa de ter que desenhar Renan Calheiros; Léo Jaime discorrendo sobre o autofelattio; a deputada federal Manuela D’Ávila narrando como foi sua chegada ao Congresso; o ator André Ramiro e o ex-traficante João Guilherme Estrella falando de Tropa de Elite (Estrella diz que os consumidores de drogas evitam que os bandidos desçam para assaltar nas ruas) e mais um monte de gente boa.

E chega. Corra pro banheiro mais próximo, mas dê uma passadinha na banca antes.

 
Postado em 19 de outubro de 2007, sexta

:: Os dragões talibãs da Universal contra os santos guerreiros


Detalhe de São Jorge e o dragão, de Donatello

A história começa pelo fim: os dragões cuspiram fogo e os santos viraram cinzas. Doze anos após o infame episódio do chute na santa, um pastor da Universal realiza uma versão hardcore e põe fogo em duas imagens: uma do Senhor Morto, outra de São Pedro. Detalhe: peças no estilo barroco jesuítico, com quase quatro séculos de (ex-)existência, tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Resumindo: os talibãs da Universal cansaram da simples intolerância entre times religiosos e partiram para o massacre histórico-cultural. A briga não é mais com os católicos, mas com qualquer brasileiro. Logo vão querer brincar de Deus e tocar fogo em Outro Preto e Tiradentes em um remake de Sodoma e Gomorra.

Acredito piamente que as pessoas só erram por ignorância. Mas vá ser ignorante assim no inferno!

E o jeito como conseguiu esses tesouros foi algo do tipovender a alma ao diabo: exigiu-as em troca de orações para um doente. O coitado, assim como as imagens, não escapou.

Temos uma grande massa de gente simples, fácil de ser tangida por qualquer aboio ou por showzinhos de poltergeist de camelô, mas quem não faz parte do rebanho tem o dever de alertar a todos sobre esse circo de horrores promovido por débeis mentais travestidos de pastores em pulgueiros caiados e enfeitados de templo. Quem quiser acreditar em qualquer coisa, que o faça, mas ao menos procure uma religião. Quer ser protestante? Procure a Igreja Luterana, a Presbiteriana, a Anglicana... Mas se for pra ficar gritando (mania que esse povo tem de achar que Deus é surdo!), pulando, chutando e queimando coisas, vá pra um show de Heavy Metal.

Quando do episódio do chute na santa, entrevistei o então Arcebispo de Natal D. Heitor de Araújo Sales (irmão de D. Eugênio). Em determinado momento, ele exclamou: Até que ponto pode chegar o desatino humano!. Se for como a ignorância, certamente é um poço sem fundo.

 
Postado em 18 de outubro de 2007, quinta

:: Eu evacuo para o Rolex do Huck

Nos últimos cinco meses, forcei-me a viver uma saudável alienação. Nada de Pan, nada de Renan, de jornalista pelada... Deixei de assistir tevê, não acompanho nem me interessa muito seja lá o que for. Dou uma olhada nos sites de notícias e faço a triagem: quase tudo que leio está nos parcos cadernos de cultura. O resto do mundo e suas neuroses que se lixem.

Como uma coisa puxa outra, caí na armadilha de ler o artigo de Luciano Huck na Folha de SP, em 1º de outubro. Tendo seu Rolex roubado, ele bradouOnde está a polícia? Onde está a Elite da Tropa? Quem sabe até a Tropa de Elite! Chamem o comandante Nascimento! Bati o olho e vaticinei: Vai virar novela. Virou.

Perdi as contas dos artigos-respostas, artigos-sacanas, artigos-vamos-pensar-o-mundo e reportagens de acompanhamento da polícia à caça do bibelô. É mesmo uma indecência não termos segurança, mas é ainda mais indecente um cara ostentar um relógio de dez mil reais em um país onde milhares de pai de família, que têma sorte de ter um emprego, demoram mais de dois anos para ganhar esse dinheiro e, com ele, precisam fazer a mágica de dar casa, comida, saúde e escola aos seus.

Longe de mim fazer o discurso de rico não pode mostrar que é rico. Pode. Mas quem tem dinheiro para comprar um Rolex, tem dinheiro para comprar dois. Então vai lá e desembolsa outra merreca de dez contos e dê graças aos céus por estar vivo e inteiro. Ou então vá morar na Suíça, onde tem segurança e Rolex custa bem menos.

Ele utilizou o jornal de maior circulação do país para dizer que paga impostos e não tem segurança, mas sequer prestou queixa em uma delegacia. Ou seja: não acredita no sistema que ele mesmo alimenta. A polícia, por outro lado, sob holofotes, correu para mostrar serviço. E provou mais uma vez que, quando quer, funciona.

Nada contra o incrível Luciano. Mas espero que o capítulo final dessa novela tenha sido a genial tira de Caco Galhardo na Folha de SP de hoje. Duas amigas discutem sobre o caso até que Chico Bacon levanta da mesa e dispara: Bom, o papo está uma porcaria, mas eu realmente tenho que ir.

De volta à minha doce alienação.

 
Postado em 15 de outubro de 2007, segunda

:: Vidas e histórias

Quando liguei o gravador, Dona Mathilde disparou: Você não vai me fazer aquela pergunta idiota que todo jornalista faz, vai? Eu já sabia qual era e ri. Para não deixar dúvidas, ela encenou a pergunta e a resposta que costumava dar: “‘Como é ser filha de Cecília Meireles? É a mesma coisa que ser filho da sua mãe!”.

A sábia Mathilde – que na mesma ocasião disse que eu valeria uns 100 camelos por conta dos meus dentes separados – foi encontrar sua mãe na semana passada. Em nossa única conversa gravada, contou histórias jamais publicadas. Algumas, como a do suicídio do pai, foram desabafos. Outras, qualquer jornalista daria tudo para ouvir. Como a de que Carlos Lacerda, horas antes de ser internado para tratamento de desidratação (morreria 24 horas depois), estava saudável e brigando com ela para deixar para o dia seguinte a assinatura de um contrato de publicação da obra de Cecília.

Histórias contadas por seus protagonistas ou testemunhas e que estão guardadas, preservadas.

Também há poucos dias, outra história nos chegou em formato de livro: Clara Nunes – Guerreira da Utopia, de Vagner Fernandes. Clara também teve uma morte que nunca foi bem explicada e esse episódio tem certo destaque no livro. O autor parece pressentir que contestações virão por aí. Não se trata de uma “biografia oficial” o que significa dizer que muita coisa pode desagradar os parentes da biografada.

Histórias podem desagradar alguém ao serem lembradas. E histórias mal contadas podem desagradar mais ainda. Mas onde está a verdade?

Nesta segunda, outra biografia (que, confesso, estou louco para devorar) está sendo lançada: O Bispo – A história revelada de Edir Macedo. O Zé Ninguém que, quando eu era criança, pregava em um coreto numa praça do bairro carioca do Méier é hoje milionário, espalhou seu negócio não só por todo o Brasil mas também Estados Unidos, Europa e Japão. Tem um canal de televisão que está disputando a segunda posição em audiência e tem pretensões de chegar à primeira. Abriu outro só de notícias. Teve a desfaçatez de colocar na capa de sua biografia – oficialíssima – a foto de um episódio que poderia ser a maior vergonha de sua vida e ele soube transformar em uma de suas maiores glórias, quase se passando por mártir. E ainda crava um título que, em português, o coloca em destaque – O Bispo – e já serve, no mínimo, para a edição que deverá chegar aos outros países da América Latina (Bispo, em espanhol, é Obispo). Digam o que disserem, de bobo, Edir não tem nada. Se ele se esforçar mais um pouco, vai acabar me convertendo!

Não há dúvidas, O Bispo não mostra A história. Mostra a versão de Edir Macedo.

Como os (três) leitores assíduos deste blog sabem, estou em pesquisas para duas biografias: a de Carlos Estevão e de Appe, ambos desenhistas da revista O Cruzeiro. Como os que me conhecem há mais tempo também sabem, sou extremamente criterioso – para não dizer chato mesmo – no tocante à apuração dos fatos. E se há algo em que não se pode confiar é na memória, Por isso escrevemos. Mas então chegamos a outra coisa na qual não se pode confiar: na escrita sem cuidado. Se algo foi publicado em um jornal, revista ou livro isso não quer dizer que seja verdade.

E há, ainda, pelo menos dois tipos de pessoas que, sem querer, normalmente distorcem os fatos: os fãs e os familiares. Não fazem isso deliberadamente, mas sim porque trabalham, principalmente, com suas memórias afetivas. Nem um, nem outro quer ouvir falar mal de seu objeto de culto. Só que estamos lidando com vidas humanas. Errar faz parte da natureza humana. E daí se fulano foi alcoólatra, teve amantes, foi homossexual, brigou com alguém? Nada disso é errado ou vergonhoso. Quem não pode errar é aquele que se propõe a escrever sobre a vida alheia.

Uma vida não pode ser reinventada. Isso é ficção, romance. Creio que nunca teremos a resposta para a seguinte pergunta: A quem pertence uma história? Quem resolve contar uma se coloca em posição delicada, precária e na qual erros não podem ser admitidos. O resultado deve ser algo que o próprio biografado pudesse dizer ao terminar de ler: Eu preferiria que você não tivesse dito isso ou aquilo, mas tudo que está aqui é verdade.

 
Postado em 12 de outubro de 2007, sexta

:: Paulo Autran

Impressão minha ou quando o negócio aperta aqui por baixo o povo lá de cima pede ajuda?

Paulo Autran, trabalhava, trabalhava, trabalhava, sem parar. Para nascer e morrer, escolheu feriados. Nasceu independente, morreu como criança.

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Paulo Autran (1922 - 2007) por Appe, 1973.

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Postado em 29 de setembro de 2007, sábado

:: Tropa de elite e a incomodada moral vigente

Quando li a primeira notícia de que Tropa de Elite estava na Internet e nos camelôs, eu já havia garantido uma cópia. Deixei para assistir depois e acabei entrando em um período de imersão, durante algumas semanas, nos (des)prazeres e afazeres da vida cotidiana. Então fiquei de fora dos primeiros três milhões de espectadores que assistiram ao filme de José Padilha antes mesmo da estréia.

Esta semana, resolvi deixar de lado os sábios conselhos budistas e acrescentar um pouco de violência a minha pacata vida, depositando alguns gramas de influência negativa em qualquer recôndito de minha primitiva mente.

A motivação veio, sobretudo, de toda a discussão em torno do filme nos últimos dias. Um filme que nem estreou e já é o mais visto desde a retomada do cinema brasileiro na década passada mostrando-se como preferido do público para ser indicado a representar o Brasil no Oscar. A mais que óbvia não-indicação. O Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar – BOPE tentando convidar-se, por força da Justiça, para a pré-estréia. A consagração popular e a desconstrução da obra pelos donos da moral. Opa! É esse o ponto que quero abordar.

Tropa de Elite é violento. Nele, você vai assistir muita brutalidade, torturas, mortes... do jeitinho que a vida é. Não a minha, que é vivida em casa, lendo e escrevendo. Não a sua, que está aí sentado na frente de um computador, navegando pela Internet, enquanto pensa se vai almoçar no shopping ou aproveitar a hora do almoço para levar seu carro ao mecânico. Mostra a vida que nos cerca e fingimos não ver. Mostra a guerra na qual vivemos e insistimos em ignorar. Mostra o que está acontecendo no quintal de nossa casa. A casa que tem na sua frente uma placa dizendo ao mundo inteiro que aqui mora um povo pacífico e hospitaleiro.

Tropa de Elite não é mais violento que qualquer filme americano de pancadaria. E por que incomoda tanto? Porque fala de nossa realidade. Ninguém está nem aí e até se diverte em falar que a filha do vizinho é uma puta ou que o filho é um viciado. Mas quando você é o pai (ou a mãe) da puta ou do viciado, a história é diferente. Você finge que não percebe, você não quer que ninguém saiba disso, você tenta trancá-lo dentro de casa. Tropa de Elite faz o contrário: escancara o podre que tentamos e nos acostumamos a esconder.

E começam os discursos para desmoralizar o filme: banaliza e glamouriza a tortura, é um filme desumano e autoritário, atiram primeiro, perguntam depois. E dá-lhe lição de moral para preservar nossos valores.

Pergunto: Quais valores? Qual moral?

O que o filme faz, todo o tempo, é inverter os valores tradicionais e os hábitos atualmente apreciados. A não ser os mais ingênuos, que nunca tenham se deparado com atos violentos, ou os mais burros, que não querem acreditar que isto acontece o tempo todo ao nosso redor, conseguem se chocar. O restante começa a desconfiar da moral vigente. Começa a sentir um desejo de defender as piores coisas. Começa a concordar que bandido bom é bandido morto e que se os caras não pensam duas vezes em sair por aí tirando vidas por que deveríamos dar um tratamento diferente a eles? Se ele vai continuar matando, por que não oferecemos logo aquela que parece a única solução para interromper sua carreira? E se existe um grupo que faz isso – que faz o que a gente gostaria de fazer mas tem vergonha e pudores de explicitar –, que nome se dá a esse grupo?

Heróis com perfeição moral é coisa de ficção. Como todos sabem (e o filme lembra), policial também tem família e tem medo de morrer. Vai dar mole para malandro? Vai aliviar? Policial não tem superpoderes. Não vai colocar as mãos na cintura e estufar o peito para as balas ricochetearem. Ou mata ou morre. No lugar deles, o que você iria preferir?

Inventamos princípios morais, queremos ilusão, vivemos disso. Até o dia em que alguém aponta uma arma para sua cabeça ou invade sua casa, estupra, violenta, mata seus familiares. Então aparece um grupo imoral, amoral, acima do bem e do mal e acaba com os vagabundos. Você pode até ir a público e fazer um discurso de que violência gera violência, que não deveria ser assim, que acharia melhor se eles tivessem sido presos e ficassem na cadeia para sempre, etc. Mas no seu íntimo, você vai agradecer a quem fez isso.

É vital tornar-se senhor de suas próprias virtudes. Tornar-se escravos delas é o problema. É preciso dominar sua própria moral, o que houver de bom e de ruim nela, aprender a mostrar isso e também guardar à medida que se necessita dela e de acordo com seus fins. Isso é ser humano. No BOPE, só existem seres humanos. E eles adaptam-se às condições pra sobreviver e para garantir que outros sobrevivam.

Então você está defendendo que a polícia mate os bandidos? Antes eles do que eu! Se alguém tiver que morrer, que sejam eles. E se alguém puder fazer o favor de matá-los, muito obrigado!

Isso é o ideal? Não. Eu gosto do mundo assim? Não. Eu preferiria que todos vivessem como monges, falassem baixo, não discutissem por nada, não importunassem ninguém. Mas a imagem que fazemos do mundo ideal é completamente diferente do mundo real. E é neste último que nós vivemos. A moral não toca a essência do mundo como ele é.

Para mim, o que legitima a moralidade de um ato é a confirmação de seu êxito. Imoral é deixar vagabundo por aí tirando a vida de quem quer viver em paz. Se há quem os mate, não vejo nisso nada além de legítima defesa, de autopreservação.

A besta que existe em nós quer ser enganada; a moral é mentira necessária para não sermos por ela dilacerados, já dizia o velho Nietzsche. E mais: (...) quando alguém prefere a vingança à justiça, ele é moral segundo a medida de uma cultura passada, imoral segundo a atual. Imoral’ designa, portanto, que um indivíduo ainda não sente, ou não sente ainda com força bastante, os motivos mais elevados, mais espirituais trazidos pela nova cultura.

Se há bestas soltas, tirando vidas inocentes, como devemos tratá-las? Com rosas? Com orações? Talvez uma parte de nós deva fazer isso. Mas outra parte precisa ser ativa e tomar uma atitude para que o mal cesse logo. Se um leão rondar sua casa, o que você vai fazer: colocar um prato de leite na porta ou dar um tiro nele?

Há uma diferença enorme entre moral pessoal e moral coletiva. A minha diz que eu devo ser gentil, não aceitar provocações, não entrar em qualquer tipo de discussão, que devo amar a todos. Belo e ingênuo até o ponto em que alguém tentar ferir a mim ou aos que eu amo. E se amo a todos, se pretendo que não só minha casa, mas também minha rua, meu bairro, minha cidade, meu estado, meu país, o mundo todo viva em paz, não posso acreditar que meu ideal romântico seja capaz de estabelecer o equilíbrio e a paz que almejo. Nietzsche de novo:Talvez uma futura visão geral das necessidades da humanidade mostre que não é absolutamente desejável que todos os homens ajam do mesmo modo, mas sim que, no interesse de objetivos ecumênicos, deveriam ser propostas, para segmentos inteiros da humanidade, tarefas especiais e talvez más, ocasionalmente. É o que se propôs ao criar o BOPE. Isso não é legal, mas alguém tem que fazer. Façam!

E se essas ações violentas acontecessem sem que jamais soubéssemos? O resultado seria o mesmo e tão (ou mais!) eficaz e agradável quanto. E nossos valores morais – e as mentiras nas quais nos obrigamos a acreditar – estariam preservados. Nossos preconceitos morais estariam resguardados, protegidos.

Tropa de Elite, o filme, põe nossos ideais à prova. Traz para dentro de casa (literalmente, em cópias piratas... piratas? Você assistiu? Que moral você tem para falar sobre respeitar direitos?) um pequeno pedaço da realidade que pode nos causar nojo por sermos ainda tão brutos, mas talvez o que mais incomode é o sentimento que escondemos de que os ideais do BOPE não se estendam a todo o restante da tropa.

 
Postado em 26 de setembro de 2007, quarta

:: Come ti amo, maledetta vita moderna!

Há alguns dias, revi, depois de anos, o filme Dio, come ti amo, estrelado por Gigliola Cinquetti. Na mesma semana, vazavam na Internet as fotos de Vanessa Anne Hudgens, a atual queridinha dos aborrecentes americanos e seus colonizados.

E o que uma coisa tem a ver com a outra?

Pra começar, vamos às semelhanças entre as meninas em questão. Em 1964, aos 16 anos, Gigliola Cinquetti ganha o Festival de Sanremo com a música Non ho l’età (Não tenho a idade). Em 1966, ganha de novo com Dio, come ti amo. No mesmo ano, para aproveitar o sucesso das duas músicas e impulsionar a carreira de Gigliola, é feito o filme homônimo que rendeu grandes filas nos cinemas brasileiros.

É bom explicar que o Festival de Sanremo – ou Festival da Canção Italiana –, que existe até hoje, era, nos anos 50 e 60, algo como o Grammy ou o Oscar é hoje. Quem ganhava, ficava conhecido no mundo inteiro e tinha trabalho garantido por algum tempo. Quando Domenico Modugno, autor de Dio, come ti amo e co-autor daquela que provavelmente é a mais famosa canção italiana, Nel blu dipinto di blu, ganhou San Remo em 1958, nem a televisão conseguia mostrar isso ao mundo. E mesmo assim, até hoje, pense em Itália e o que vem a sua cabeça? Volaaaaaaaaare, ôôôôô... É a força de Sanremo.

Corte para 2006. Aos 17 anos, Vanessa Hudgens invade o mundo (para usar uma expressão idiota do jornalismo de fofoca) como a protagonista de High School Musical.

Duas jovens cantoras usando a força do cinema para fazer fama internacional.

No filme italiano, Gigliola é uma tímida garota que descobre amar o noivo de uma amiga. Depois de idas e vindas entre Espanha e Itália, poucos instantes antes de terminar a história, a personagem dá um rápido e singelo beijo no amado. Digo a personagem porque até hoje duvido que tenha sido realmente Gigiola a dar o beijo que aparece em super close up e mostra quase que somente as bocas. Ela não tinha idade para amar, para sair sozinha com o namorado, para protagonizar um beijo no cinema. Era italiana, de família e era 1966!

No filme americano de 2006, o recato quase se repete. Se existe um povo que merece o prêmio máximo de falso moralismo, esse povo é o americano. Uma personagem pode se vestir e agir com uma puta, mas se a história diz que ela é uma virgem imaculada sem pecados, então todos têm que acreditar que é isso. Mas não é. Por isso mesmo, Vanessa pegou uma câmera digital, tirou umas fotos nuas com as amigas e mostrou (sem querer) para o planeta inteiro que, pelo menos no mundo real, sexualidade, desejo e uma pitada de sacanagem são coisas bem naturais. Até mesmo para a queridinha da hora.

Bonitinha, como toda jovem mediana de 18 anos, mas certamente já não inspira tanto desejo como quando estava com roupa. E agora que todo mundo já viu, nem deverá rolar uma Playboy, daqui a algum tempo, para mostrar que a menina virou mulher.

O romantismo se foi, o sonho acabou. A cuecada teen agradece o vacilo de Vanessa e os sessentões lembram como era doce sonhar com os dentinhos separados e os joelhos (sempre juntinhos) de Gigliola.

 
Postado em 16 de setembro de 2007, domingo

:: Carlos Estevão - O mais brasileiro dos desenhistas

Único, sem influências estrangeiras. É assim que muita gente se refere ao traço de Carlos Estevão.

Debochado, escrachado, politicamente incorreto (em um tempo que este termo castrador nem era usado), Carlos Estevão nunca fez o tipo intelectual posudo, moralista – falso ou não – que quisesse dar aulas ou fazer crítica de costumes com seus desenhos. Era machista, mulherengo, beberrão, de maus modos, mas também capaz de demonstrar, como poucos, amor e carinho aos filhos e amigos. O que ia para o papel, longe de ser crítica, quase sempre era o registro da própria realidade – ou fantasia – que vivia.

O casamento antes e depois, Ser mulher, Perguntas inocentes, As aparências enganam, As duas faces do homem, Acredite querendo e Palavras que consolam eram algumas das séries nas quais destilava sua descrença para com o ser humano. Se havia um tema preferencial e no qual se tornava ainda mais ferino, certamente era a vaidade. Principalmente a feminina. Os tipos grotescos, homens presunçosos sempre cheios de histórias mirabolantes para contar, mulheres horrorosas que se achavam lindas e ouviam as maiores grosserias dos homens. Esse era o mundo de Carlos Estevão.

Tipo inesquecível criado por ele foi o Dr. Macarra, que chegou a ter revista própria (nove edições) em 1962. As aventuras do personagem eram contadas a uma ouvinte, em um quadro, numa versão soberba e orgulhosa para ser mostrada, no quadro seguinte, da forma que realmente havia acontecido. Na história em que conta sua passagem por Cuba, sua interlocutora pergunta a Macarra se apreciaram devidamente sua cultura. Ele responde: Professores de renome ficaram abismados com minha cultura. No quadro seguinte, um cientista diz a outro: A cultura de micróbios que consegui do organismo desse miserável é assombrosa!.

Seu humor era o mais popular e mais ácido dentre os desenhistas que fizeram fama nas páginas de O Cruzeiro. Com a morte do também pernambucano Péricles Maranhão, na virada de 1961 para 1962, Estevão recebeu um convite-imposição da revista e acabou herdando o Amigo da Onça, que desenhou até sua morte em 1972.

Uma merecida e justa biografia de Carlos Estevão não pode fazer dele um Dr. Macarra. Deve desnudá-lo de qualquer mitificação e mostrar sua história de forma realista, desde os primeiros traços em Recife aos últimos em Belo Horizonte, onde morreu vitimado por seus excessos. Devem ser mostrados defeitos, virtudes, erros, contradições e demais qualidades, boas ou más, que fizeram dele um dos nossos mais populares e queridos desenhistas.

Carlos Estevão não merece o endeusamento muitas vezes criado em torno de seu nome. Não que lhe faltasse talento. Muito pelo contrário. Não merece tal endeusamento por respeito a ele mesmo. Não só foi – e continua sendo – o mais brasileiro dos desenhistas, mas também o mais humano deles.

No dia de hoje, ele completaria 86 anos. Para marcar a data, Memória Viva lança um site em sua homenagem. Clique aqui e divirta-se com o aniversariante.

(O blog também está aniversariando. São dois anos de Sempre algo a Dizer e
três desde o lançamento de seu antecessor, o Leseira Geral)
 
Postado em 8 de setembro de 2007, sábado

:: A cura das platéias

Permitam-me avalizar minha antiguidade... Sou de um tempo em que as pessoas enchiam uma sala de cinema com 300 ou 500 lugares e vibravam com o filme. Riam juntas, choravam juntas, aplaudiam ao final. Era uma época em que eu freqüentava o Art Méier, o Paratodos e o Imperator. Em que assisti filmes como Fúria de Titãs, Num lago dourado (com Henry Fonda e Katherine Hepburn) e E.T. – O Extraterrestre, este talvez o último dos filmes com uma platéia decente.

Os cinemões foram fechando, virando cinemas pornôs, igrejas neo-evangélicas ou alguma outra sacanagem. As crianças não brincavam mais nas ruas e as pessoas passaram a morar em casas cheias de grades. O shopping era a nova onda. Bob’s, Mc Donald’s, Salas Multiplex... Os ianques nos colonizavam apressadamente. A pipoca e as balinhas foram substituídas por caixas monstruosas com hambúrgueres, batatas fritas, milk shakes, refrigerantes e toda a má educação que acompanha o comer desses lixos: boca aberta, barulho de mastigação, arrotos, sujeira espalhada por toda parte.

Até aí ainda estava bom.

Triste foi testemunhar o acelerado processo de imbecilização da platéia. A destituição dos valores, a falta de qualquer maturidade emocional e base cultural para entender o que se passa na tela.

A primeira vez em que percebi isso foi em um cinema no bairro de Boa Viagem, em Recife, em 1991. Como fazia costumeiramente naqueles idos, eu havia saído de Natal e ido à capital pernambucana para dois ou três dias dentro dos cinemas. A grande estréia daquele final de semana era Exterminador do Futuro 2 e seus esperados efeitos especiais. Última sessão de sexta, cinema lotado. Nas cenas de morte, tiros e destruição, a turba gritava e aplaudia. Nas demonstrações dos poderes dos andróides, risadas e gritos de que mentira!. Valores trocados, má educação, incapacidade de imaginar. Já não distinguiam entre fantasia e mentira.

Pior estava por vir. Naquele tempo ainda não havia os malditos celulares.

Vieram os DVDs, as telas planas e cada vez maiores. O cinema foi para dentro de casa e ninguém precisa mais aturar esses selvagens.

E o teatro? Ainda não dá para levar para fazer o mesmo com ele. Na maioria das vezes, mesmo em uma produção pequena, com um ou dois atores, é difícil levar uma peça a outras cidades. Vai ser ótimo quando pudermos alugar a peça e levá-la para casa. Os atores representando em nossa sala. Sem imbecis rindo fora de hora, sem celulares tocando, sem descerebrados conversando durante a apresentação.

A atual massa idiotizada que constitui parte majoritária e esmagadora das platéias é filha da tevê, não uma fábrica de fazer loucos, como dizia Stanislaw Ponte Preta, mas de criar e multiplicar gente estúpida com mais velocidade e eficácia que uma comunidade de coelhos alimentada com viagra consegue se reproduzir.

De idas relativamente recentes ao teatro, cito dois tristes exemplos desse tipo de trupe beócia. O primeiro na apresentação de Quando Nietzsche chorou (Teatro Imprensa, São Paulo, com Cássio Scapin e Nelson Baskerville, 2006). Os risos histéricos fora de hora, do tipo ei, você aí no palco, eu tô achando graça, faria algum desavisado acreditar que havia errado de endereço e, sem querer, acabado em algum show de piadas. Nas poucas vezes em que se apresenta, o humor grave, sarcástico, niilista, desacreditado do ser humano de Nietzsche não é para gargalhadas. É para risos de canto de boca, de cumplicidade íntima, de inteligência e entendimento raros. O tolo ri do que não entende. A hiena gargalha sem saber porquê o faz.

Outro exemplo, mais recente, foi com Pobres de Marré (Casa da Ribeira, Natal, com Titina Medeiros e Quitéria Kelly, 2007). As atrizes vivem duas moradoras de rua. Só quem nunca andou nas ruas, seja de onde for, não reconhece Maria e Dasdô, as personagens. Aquelas criaturas que vivem como vermes – sempre na sujeira, alimentando-se de sobras –, expondo toda decadência e crueldade da sociedade em que vivemos, mostrando os estados psicóticos que alguém pode chegar vivendo em tais condições, buscando algum resquício de humanidade, que dificilmente será encontrada em uma platéia que ri da desgraça mostrada. Um quadro gravíssimo – com interpretações maravilhosas (de Titina sou suspeito para falar, mas rasgos todas as sedas para Quitéria, irrepreensível em interpretação digna de todos os prêmios) – tratado como comédia. Só posso crer que o ar condicionado e os vidros escuros nas janelas dos carros impedem sobremaneira o contato com o mundo real. Aquilo não é para rir. É para chorar o tempo todo.

Sendo assim, acredito que uma solução para a idiotização das platéias seja algo como aquela imaginada por Anthony Burgess – e muito bem mostrada por Stanley Kubrick – para o personagem Alex em Laranja Mecânica. Ainda assim, sou pouco otimista quanto à eficácia do resultado. As câmaras de gás talvez fossem mais apropriadas.

 
Postado em 3 de setembro de 2007, segunda

:: Cópias e segredos

Há poucos dias, passando rapidamente os canais da TV, peguei um pequeno trecho de uma entrevista com um diretor mexicano (do qual me foge o nome no momento) em que ele respondia a pergunta (idiota, por sinal) sobre o que havia acontecido com o cinema no México. De forma óbvia e brilhante, ele disse que foi o mesmo que aconteceu com o cinema de todos os países: Hollywood fez uma guerra e venceu.

Quem me conhece, sabe o que penso sobre esse espírito belicista e exterminador dos americanos, principalmente no aspecto cultural. E também sabe o que penso do cinema americano. O óbvio: é uma indústria de entretenimento. O filme é um produto, não uma manifestação artística. A indústria cinematográfica americana está para a história do cinema como a Nestlé para a dos chocolates, que faz vários que o mundo inteiro come, mas não faz um que lembre o mais miserável dos chocolates feitos na Suíça.

Assim como me empanturro e gosto de chocolates da Nestlé, também vejo muitos filmes americanos. Eles trabalham com efeitos especiais como ninguém e são únicos em um gênero que me agrada particularmente: o das versões para personagens de quadrinhos (algo totalmente relacionado à cultura deles). Saindo disso, admito, tenho visto filmes bem interessantes nos últimos anos. Brilho eterno de uma mente sem lembranças, A dama na água, Pequena Miss Sunshine e Os Infiltrados (se bem que esse é Scorsese... não vale!) são alguns deles.

Mas se há um gênero em que eles conseguem exibir, ao mesmo tempo, sua capacidade em fazer bons filmes e sua impressionante ignorância sobre qualquer outra cultura é o de filmes biográficos (chamemos assim para facilitar, ainda que a expressão não seja precisa). Mais ainda quando se trata da vida de um compositor de música erudita. Eles reinventam tudo e são totalmente incapazes de tratar com esse tema com a devida delicadeza.

Há de se desconfiar de um povo que chama Giuseppe Verdi de Joe Green.

Neste fim de semana, finalmente resolvi assistir a O segredo de Beethoven. Antes de malhar, irei aos prós. É um filme dirigido por uma mulher nascida na Polônia, o que pode sugerir leveza, sensibilidade e até uma proximidade genética com a música erudita. O papel principal é vivido por Ed Harris, que gosta de fazer o público acreditar que aquele que está aparecendo na tela é mesmo o tal que viveu (vide Pollock). E temos ainda a bela Diane Kruger (a apagada Helena do péssimo Tróia) no papel de Anna Holtz. E aí começam os problemas. Quem diabos é Anna Holtz? Trata-se de uma personagem inventada, inserida como alguém importante na vida de Beethoven em seus últimos anos, diga-se, dos quais pouco ou quase nada se sabe.

A seqüência inicial, que mostra Anna sentindo/vivendo/experimentando a música, ouvindo-a sem que ela esteja sendo executada, é a melhor de todas e dá a falsa impressão de que o filme será tão bom ou superior a sua introdução. A seqüência da dupla regência também é aproveitável. Não fosse o fato de que sendo cinema o mais importante é a imagem e, naquele momento, o que há de melhor é a música. Feche os olhos, perca a cena. Depois volte a ela. Aposto que, de olhos fechados, terá visto uma cena bem melhor.

A diretora tenta recriar as diferenças entre os momentos suaves e os arroubos de uma sinfonia de Beethoven com movimentos de câmera que, às vezes, chegam a incomodar ou até fazem parecer que se pulou, sem aviso, de um filme romântico para um comercial de aparelho de som no qual a imagem procura demonstrar a potência do produto. Existe tentativa semelhante em relação ao roteiro do filme, que pretende não ter início ou fim, não seguir convenções de narrativa. Aí entra o elemento Hommer dos filmes americanos. Um personagem, no caso o próprio Beethoven, explica o que deveria ser captado e não ensinado ou racionalizado: tem de parar de pensar em termos de início e fim (...) você é obcecada pela forma, pela estrutura e descamba para a filosofia barata ao dizer que você tem que escutar a voz que fala dentro de você.

A própria Anna Holtz e sua função na trama trazem todas as características da vulgarização e da imbecilização de uma história que deve ser entendida por um espectador que não pensa: a paixão de um velho genioso por uma jovem delicada e que o admira; o querer impossível; a diferença entre os amores; a vitalidade e a energia que ela representa e ele já não possui... todos os elementos comuns e bem mastigados de uma novela para um público que não se deu conta da serventia do cérebro.

Além de tudo isso, ainda temos uma cópia mal feita de Amadeus (um filme infinitamente superior mas que também cria ou reforça situações que não passam de hipóteses) quando o mestre, na cama, morrendo, dita trechos de uma sinfonia a seu seguidor.

Na próxima vez em que você resolver fazer uma maratona de filmes em casa, esqueça as seqüências e veja O segredo de Beethoven, Amadeus e Ensaio de orquestra. Este último, de Fellini.

Assim como nas grandes religiões existe um único Deus e várias divindades menores, no cinema existe Fellini e os outros. Se você não entende italiano, ótimo! Veja Ensaio de orquestra sem legendas. Para essa maratona comparativa, em um primeiro momento, não interessa o que os personagens estão falando. Ouça apenas a música das palavras. Não procure entendê-las, decodificá-las. Sinta a sonoridade. Deixe-a juntar-se à sonoridade dos instrumentos. Perceba a sinfonia criada por Fellini, o casamento perfeito entre imagem e som. Não é um clip. É cinema. É arte. Não foi feito para distraí-lo por uma hora e meia. Foi feito para fascinar. Não é um hambúrguer que vai encher seu estômago por um tempo. É alimento para a alma. Sem procurar pensar e somar seus conhecimentos para fazer a leitura do filme, você irá entendê-lo. Arte é assim: sem barreiras, sem linguagem, sem tentativas frustradas. Ela simplesmente existe e irá tocá-lo de alguma forma.

Anna Holtz não conseguiu copiar, corrigir ou descobrir o segredo de Beethoven. Agnieszka Holland não conseguiu copiar, corrigir ou descobrir o segredo de Milos Forman. E ninguém conseguiu copiar, corrigir ou descobrir o segredo de Fellini. Così è la vita!

 
Postado em 26 de agosto de 2007, domingo

:: Pecados de Cassandra

Identificação. Essa é a palavra-chave para o sucesso de um livro ou, pelo menos, para uma leitura agradável. O tema, a história, o personagem... o leitor precisa se identificar com algo para que sua atenção fique presa ali. Não consigo essa mágica quando leio Cassandra Rios.

Ela foi um sucesso como escritora. Já havia vendido mais de um milhão de exemplares quando estava na casa dos 30 títulos lançados. Chegou a lançar 52 títulos, alguns com dezenas de edições. Foi a escritora mais censurada, mais perseguida, mais proibida (36 livros) na História literária brasileira.

Desde A volúpia do pecado, seu primeiro livro, lançado em 1948, quando tinha apenas 16 anos, Cassandra causou polêmica. Sua páginas contam o amor entre duas jovens mulheres (Lyeth e Irez). A maioria de suas histórias tem homossexualismo ou algum tipo de amor menos ortodoxo. São inúmeros os depoimentos, de homens e mulheres, que descobriram-se (entenda-se perceberam-se homossexuais) lendo Cassandra Rios. A papisa do homossexualismo – um de seus muitos títulos – também me fez descobrir algo. Eu, que sempre assumi ser um homem com uma alma feminina lésbica, ao ler Cassandra percebi que sou lésbico, sim, mas com alma masculina!

Em seus poucos livros que li até o momento, fiquei surpreso com o amor meloso, pueril, princesinha de algumas personagens lésbicas. Absolutamente nada contra. Até acho mais interessante assim. Mas é justamente aí que reside minha não-identificação. Definitivamente, apesar de lésbico, eu amo como homem.

É claro que o público de Cassandra nunca foi exclusivamente de homossexuais. E creio que suas histórias causassem curiosidade e furor numa época em que abordar tais temas soasse como algo realmente proibido. Talvez por isso não se mais fale a seu respeito nos dias de hoje e ela tenha se transformado em ícone cultuado somente pela tribo que cantou.

Comecei a ler Cassandra de forma errada. O primeiro livro que li foi o último que ela escreveu (apesar de planos, não tenho informações de que tenha publicado outros depois dele), a autobiografia Mezzamaro, Flores e Cassis. Ali está uma Cassandra em seus últimos anos, já com câncer, mais desabafando que contando histórias sobre sua vida. Não meio amarga. Muito amarga. Como em todas as suas entrevistas.

Toda essa mágoa parece ter nascido da perseguição que ela sofreu durante toda a vida e nunca digeriu plenamente. Indo um pouco mais fundo, parece-me que essa perseguição, essa censura, não foi em relação aos seus livros, mas sim à sua própria sexualidade. A escritora que ajudou milhares de pessoas a se aceitarem, parece nunca ter vivido em paz com seus próprios desejos. Tinha grande admiração pela mãe, seus admitidos relacionamentos com homens nunca foram ostensivos (o que lhe daria certa tranqüilidade para sustentar que ela era uma coisa e sua obra outra), não teve filhos, sempre se esquivou de falar sobre sua questionada homossexualidade e, nos últimos anos de vida, fez um voto de castidade.

Quais eram os pecados que Cassandra carregava? Por que, tão revolucionária no papel, não conseguiu revolucionar sua própria vida? Por que tanta amargura? Pelo amor de Deus, gente! Eu não tenho nada a ver com as estórias dos meus livros, eu só os escrevo! Invento!, gritaria ela agora. E eu a respeito. Não discuto a sexualidade de quem quer que seja, só exponho aqui este tema por dois motivos: primeiro porque Cassandra merecia ter sido (muito mais) feliz; e segundo porque me compadeço por seu sofrimento e pelo de vários amigos – homens e mulheres – que nos dias de hoje ainda sofrem, como os personagens de Cassandra, pela hipocrisia, pela intolerância, pelo preconceito de pessoas que se preocupam com a vida dos outros em vez de tomar conta das suas.

Talvez minha não-identificação seja não somente pela sexualidade mas também pelo fato de que não consigo ver nada anormal nas histórias daqueles personagens. São apenas pessoas que querem ser felizes, buscando aceitação. Quem não faz isso?

Essa minha alma bruta que Cassandra revelou está em dívida com a escritora. Eudemônia, Georgette, A breve história de Fábia, A serpente e a flor, As mulheres dos cabelos de metal, Minha metempsicose e tantos outros não vão ficar ali na estante como meros troféus de colecionador tarado. Gostando ou não, darei a eles a merecida atenção solicitada por quem os escreveu.

Fique em paz, Cassandra. Sua obra a absolveu de qualquer pecado.

 
Postado em 24 de agosto de 2007, sexta

:: Maldição no Marabá

Morreu Marabá. E foi épico. Fechou as portas o último cinema de rua da capital paulistana. O único que ainda não havia virado um antro de sacanagem como cinema pornô ou igreja evangélica.

A maldição do Multiplex atingiu o Marabá. Suas cerca de oitocentas poltronas desaparecerão para dar lugar a cinco salinhas. Não veremos mais os grandes painéis pintados anunciando o filme. Não teremos mais aquela tela enorme.

A primeira vez que entrei no Marabá foi no final dos anos 90. Assisti Arquivo X numa sessão que terminou depois da meia-noite. Menos de seis expectadores. Um lanterninha jogando a luz em cada um para ver se alguém estava se masturbando para algum extraterrestre ou para a Dana Scully. A última vez foi em outubro do ano passado, numa tarde, para assistir Maldição. Fotografei o amplo salão térreo pois sabia que poderia ser minha última oportunidade de fazer isso. E foi. Morreu Marabá.

Agora o último bastião das grandes salas do país, o último cinema de verdade, é o Cine Brasília. Quando ele não mais acender a luz mágica de seu projetor, será o sinal de que devo abrir meu próprio cinema. Apontar o projetor para a igreja, para os prédios da praça e lembrar a todos que a magia está dentro de nós. E nunca morrerá.

 
 
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