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| Postado
em 27 de dezembro de 2007, quinta |
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O Ano Estevão

Para mim, este foi um ano Estevão.
Ou o Estevão Ano Um.
Ele
foi anunciado em dezembro de 2006, quando
Doris, filha de Carlos
Estevão, deixou
um comentário aqui no Sempre
Algo a Dizer. Planejei ir ao
Rio em fevereiro para começar as pesquisas
junto ao acervo de seu pai, mais isso só
foi possível em abril. Voltei avisando
a minha esposa: “Você
vai ter que ser forte: estou me casando com
Carlos Estevão”.
Casei.
E estou numa lua-de-mel que, espero, dure
para sempre, diferente das previsões
do Casamento Antes e Depois
que o próprio Estevão fazia
(veja algumas mais abaixo). Como bem observou
a própria Doris no mês passado,
a essa altura eu já sei mais sobre
ele do que qualquer outra pessoa.
Não
há nada de glorioso ou romântico
em escrever uma biografia. É um trabalho
do cão. Duro. Pesado. De estivador
mesmo. Após duas rodadas de entrevistas
e pesquisas no Rio (a outra foi em novembro)
e mais uma em Recife, já somam-se mais
de 30 horas de gravação e cerca
de 2.500 desenhos. Esse material está
sendo organizado e catalogado, os áudios
transcritos, dados cruzados... Como disse,
um trabalho pesado. E cheio de detalhes. A
cada dia surge uma novidade, uma coisinha
que poderia passar despercebida mais vale
uma investigação mais aprofundada.
É como trabalhar num garimpo. Ao encontrar
uma rocha muito dura, tem que ter paciência
e cuidado na hora de quebrá-la para
não perder um pedacinho de pedra ou
metal precioso que esteja nela e, às
vezes, podemos encontrar um lamaçal
que é preciso também ser pacientemente
peneirado para não deixar passar nada.
Hoje
sei porque as pessoas que escrevem biografias
por conta própria (sem um patrocínio)
demoram tantos anos para terminá-la.
E sei também que essas são as
melhores. Reconstitui-se cada história,
cada caso, passo a passo, com o único
compromisso de mostrar o que realmente aconteceu.
Também
sei que os dez anos de Memória
Viva foram como uma graduação-mestrado-doutorado
para chegar até esse trabalho. E ótimo
que tenha sido com Carlão (olha a intimidade)!
Uma década atrás, se eu listasse
cem nomes interessantes para ganhar uma biografia,
provavelmente eu nem lembraria dele. E hoje
estou aqui: casado e apaixonado, deliciando-me
com cada descoberta sobre a vida riquíssima
(e louca) que mesmo o público que o
acompanhou em tempos de fama nas páginas
de O
Cruzeiro desconhece.
Resolvi
que Carlos Estevão seria o tema do
último texto de 2007 no Sempre
Algo a Dizer por vários
motivos: passamos o ano quase todo
“juntos”;
porque este mês está completando
45 anos que a última edição
de Dr. Macarra (revista
totalmente desenhada por ele) chegava às
bancas e também porque acabo de receber
um livreto que comprei há mais ou menos
um mês, pela Internet, de um sebo no
Rio. Na descrição do produto
estava escrito: O Casamento, Carlos Estevão,
1957. Algo totalmente desconhecido para
mim. Julguei que fosse uma coleção
de recortes. E era isso mesmo. Há 50
anos, alguém recortou e colecionou
essas pérolas que ele publicava nos
jornais e revistas dos Diários Associados
e ainda teve o cuidado de mandar encadernar.
São mais de 80 páginas (alguns
reproduzidas logo abaixo) que me chegaram
na véspera do Natal.
Os
meus casamentos – o real e o imaginário
– vão muito bem, obrigado. A
sugestão, portanto, é que vocês
se divirtam com os desenhos abaixo. A semelhança
com fatos, pessoas ou situações
na vida real terá sido mera coincidência
e eu não tenho nada com isso.
Até
2008. No dia primeiro, estarei de volta e
cheio de novidades aqui no Sempre
Algo a Dizer. Que seja um ano
com muito mais motivos para rirmos.




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| Postado
em 20 de dezembro de 2007, quinta |
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Três receitas de Natal
Para
fazer o Bem ao próximo

Nunca
fui muito com a cara do Papai Noel.
Gordo, com aquela roupa toda num calor medonho
desses que é o verão brasileiro,
meio vagabundo (só trabalha uma vez
por ano) e com aquela mania pedófila
de botar criancinha no colo. Fiquei mais cabreiro
ainda quando, lá pelos 6 anos de idade,
recebi uma carta do dito cujo dizendo que
me comportasse melhor no próximo ano
ou aquele seria meu último Natal com
presentes. Que puto! Quantas crianças
você conhece que recebeu uma carta ameaçadora
daquele velho escroto?
Tudo
bem. Sem revanchismos. Cresci, superei o trauma,
contei aos meus três filhos que ele
existe, que de uma maneira ou de outra deixa
os presentes na noite de Natal e por aí
vai.
E
é por acreditar nele que ainda
hoje um monte de crianças escreve ao
Papai Noel. Crianças que nunca
ganharam um presente de aniversário
ou de Natal. Mas você pode ser o Papai
Noel e, sem aparecer, levar um pouco de alegria
e esperança a pelo menos uma delas.
Há
14 anos, existe o Projeto
Papai Noel dos Correios. Você
adota uma das cartinhas endereçadas
ao bom velhinho, compra os presentes e deixa
a entrega por conta dos Correios. Em 2006,
foram mais de meio milhão de pedidos.
Mais de 220 mil foram atendidos.
Você
imagina o que uma bonequinha ou um carrinho
que não custam dez reais pode fazer
por uma criança que nunca teve nada?
Ainda dá tempo: entre em contato com
a Casa
do Papai Noel do seu estado e faça
uma criança feliz neste Natal.
*
* *
Para
fazer bem ao bucho

Poucos
dias antes das festividades natalinas, Daliana,
neta de Câmara
Cascudo e conseqüentemente
minha irmã, não obstante meus
descarados roubos a cada visita que faço
a sua sala no Memorial de vovô, em Natal,
presenteou-me com aquilo que mais amo ganhar:
livro (isso foi uma dica!).
Arte
e rituais do fazer, do servir e do comer no
Rio Grande do Norte é
uma edição recente do Senac
que traz receitas da culinária potiguar
a partir das obras referenciais de Cascudo
sobre o tema. Tirando aquela coisa horrorosa
na capa (aquele pedaço de cadáver
em primeiro plano), o livro é bem editado
e de muito bom gosto. Segue uma das receitas
mais simples (e sem carne, claro!):
Doce
de jerimum com coco
2kg
de jerimum
1 xícara (chá) de água
1 kg de açúcar
1 coco ralado
cravo e canela da índia a gosto
1 litro de água
Modo
de preparo
Descasque
a abóbora e corte em pedaços.
Ponha numa panela grande e leve ao fogo
baixo com a água até que esteja
bem macia. Junte o açúcar,
a canela em pau e os cravos e deixe cozinhar
em fogo brando, mexendo sempre até
desprender da panela. Acrescente o coco
ralado e cozinhe por mais uns 30 minutos,
mexendo de vez em quando. Deixe esfriar
e sirva em compoteira.
Para
fazer o Bem a você mesmo

O
aniversário é de Jesus
(como? Ele não nasceu na Primavera??!!)
mas Buda certamente é
um convidado muito bem-vindo.
Nem
lembro exatamente quando (2002 ou 2003) esse
livro chegou às minhas mãos.
Já li umas quatro vezes e a cada vez
me surpreendo mais. Ele pode não dizer
absolutamente nada a você, mas caso
aceite um conselho amigo, procure lê-lo.
Ainda bem que Tenzin Gyatso
está vivo (ou suas cinzas se revirariam)
e não fala português, mas posso
dizer que, no livro, o Dalai Lama
ensina a ligar o botão espiritual do
Foda-se, que funciona muito melhor
e é bem diferente daquele “Foda-se”
que a gente dá no dia-a-dia só
para descarregar a ira.
O
título original é Healing
Anger: The Power of Patience from a Buddhist
Perspective (Curando a raiva: O poder
da paciência por uma perspectiva budista).
Na edição brasileira ficou A
arte de lidar com a raiva – O poder
da paciência. Trata-se
de um verdadeiro roteiro espiritual para a
felicidade, principalmente para nós,
ocidentais e latinos, tão acostumados
a explodir por qualquer bobagem. O livro é
um desdobramento dos ensinamentos de um capítulo
do Guia para o modo de vida do
Bodhisattva, de Shantideva,
escrito no século VIII e um verdadeiro
clássico do Budismo Mahayana.
Leitura
indicada para qualquer cristão (no
sentido mais abrangente do termo).
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| Postado
em 17 de dezembro de 2007, segunda |
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As pelejas de Ordnas
Há
dois meses e meio estou pelejando para ver
O homem que desafiou o diabo.
Durante esse tempo, passei por seis cidades
onde estava sendo exibido. A última
foi Natal, capital do Rio Grande do Norte,
onde a história se passa e foi filmada.
Lá, o filme resiste em única
sessão diária dividindo sala
com um blockbuster americano. É
Tio Sam mandando bala em Ojuara.
Fui,
resisti, não vi. Lá pelos idos
de 1998 ou 1999, já se falava da adaptação
de As pelejas de Ojuara,
livro de Nei
Leandro de Castro, para
o cinema. Puta livro, diga-se de passagem.
Esperei quase uma década e nada. Afrouxei.
O filme me perseguindo por Rio, São
Paulo, subindo para o Nordeste e eu nada.
Fugindo da sala escura como o diabo foge da
cruz.
Confesso
meus pré-conceitos. Quando soube que
Marcos Palmeira faria Ojuara e Flávia
Alessandra , Mãe de Pantanha, fechei
com o Capitão Nascimento:
“Isso vai dar merda!”
Neste
fim de semana, depois de mais de década,
me peguei de novo com o livro de Nei. Puta
livro, repita-se de passagem. Desses que você
não larga até acabar, que as
imagens passam todas direitinhas e bem vívidas
na sua cabeça (e Marcos Palmeira e
Flávia Alessandra não estavam
lá).
Quanto
mais se conheça a cultura nordestina,
mais se aproveita a leitura. Eu, carioca por
capricho do destino, nordestino de três
costados e estados (mãe alagoana, mulher
paraibana, filhas potiguares), lambo os beiços
a cada linha das Pelejas de Nei.
Reavivada
a memória, senti-me preparado para
enfrentar o filme. Mas vou esperar o final
de janeiro para vê-lo em disquinho,
em casa mesmo. Vou desafiar o diabo na minha
área, no solo sagrado de meu abençoado
lar.
Por
tudo que vi – no próprio site
oficial – o filme merece
vir acompanhado de um aviso bem grande: “Às
vezes LEVEMENTE inspirado no livro (puta livro,
reforce-se de passagem) de Nei Leandro de
Castro”.
Passado no liquidificador e entregue à
(neste caso) competente direção
de Moacyr Góes para ficar bem fácil
de ser engolido pelo populacho global. Para
não restar dúvidas sobre o emprego
do termo “competente”:
com um currículo de filmes de Xuxa,
Angélica e Padre Marcelo, o diretor
entende bem de fazer filmes para idiotas.
E assim, idiotiza também o livro (puta
livro, reafirme-se de passagem) de Nei.
Você
viu e gostou? Leia o livro (puta... você
já sabe!). Vai gostar muito mais. Não
viu ainda? Leia o livro antes. Faça
sua própria versão cinematográfica
e só depois desafie a novelinha de
Góes.
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| Postado
em 10 de dezembro de 2007, segunda |
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O legado de Seu Ribamar
Quando,
no final de 1992, entrei pela primeira vez
na casa de Seu Ratto, em
Natal, uma figura me chamou a atenção.
Era um senhor muito pequeno, recurvado, com
dificuldade para andar, barba por fazer, uma
tosse horrorosa e uma risada de dar inveja
a qualquer bruxo de filme terror.
José
de Ribamar de Carvalho. Era esse
o nome daquele homem que já havia passado
por mais de trinta fraternidades e ordens
ocultistas e há mais de quatro décadas
se dedicava ao estudo de ciência ocultas
e temas correlatos.
A
tosse era conseqüência do maldito
cigarro que ele não largava de jeito
nenhum desde a adolescência. Rendeu-lhe
enfisemas, derrames, amputações...
O andar coxo, sempre apoiado por alguma muleta
(outra além do cigarro), foi lembrança
de um sério acidente de carro.
Em
1994, seu estado de saúde – que
sempre inspirara muito cuidado – entrou
em rápido processo de declínio.
Passava muito tempo no hospital, sofria muitas
dores, chegou a pesar cerca de trinta quilos.
Um sofrimento que teve fim em outubro daquele
ano.
Pobre,
precocemente aposentado, cheio de filhos,
Seu Ribamar juntou uma riqueza considerável
na forma de uma biblioteca com aproximadamente
cinco mil livros. Era essa
a estimativa que fazia dos muitos volumes
que se espalhavam por quase todos os cômodos
de sua casa. Boa parte deles em espanhol,
conseguida com dificuldade nas décadas
de 50 e 60, quando quase nada do tipo era
produzido ou editado no Brasil.
Seu
Ribamar era zeloso e cuidava de seus livros
de forma peculiar: encadernava-os com sacos
plásticos de arroz, feijão,
farinha... Também fazia anotações
a lápis e em papéis de pão
que eram como novas páginas. Deixava
impresso neles sua energia, seus conhecimentos,
esclarecimentos úteis: no papel e no
astral.
Alguns
de seus livros – quatro ou cinco –
ficaram comigo. Nesses quase 15 anos, conservo-os
do mesmo jeito: com as sobrecapas de arroz
ou feijão e as páginas de papel
de pão. Ficou também o exemplo
vivo da máxima de Erasmo:
“Quando
consigo dinheiro, compro livros. Se sobra
algum, compro comida e roupas”.
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| Postado
em 7 de dezembro de 2007, sexta |
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O Martinelli é meu!

O
poder da visualização. Imagine-se
dirigindo uma Mercedez. Um dia você
acaba tendo uma Brasília ou sendo motorista
de ônibus. Tudo nasce na sua imaginação.
Quanto mais força você coloca
nesses pensamentos, maior é a probabilidade
de realização.
Sempre
disse que o Edifício Martinelli,
o primeiro arranha-céu de São
Paulo, seria meu.
Sou
apaixonado pelo Martinelli. Sempre que vou
a São Paulo, vou lá pedir sua
benção. Subo, fotografo, subo
no Banespão e o fotografo de cima pra
baixo, desço, deito na rua, fotografo
de baixo pra cima... Adoro aquele prédio.
Sempre disse que ele seria meu. E esse sonho
começou a se realizar.
Em
novembro, estive lá mais uma vez. O
prédio havia fechado para reformas
uma semana antes e não pude subir.
Tudo bem. O destino estava movendo suas catracas
e o poder do pensamento se esforçava
por realizar aquela sensação
que eu tivera em junho do ano passado quando
escrevi: “Continuo
com a impressão de que aquele prédio
ainda será meu... Todo!”.
Anahi,
Wilson e eu descemos pela
São João e, dobrando a esquina,
demos de cara com um pedaço do Martinelli
a nossa inteira disposição.
O piso da mansão (que fica no alto
do prédio) estava sendo retirado e
jogado fora em caçambas de entulho.
Perguntei logo a um dos homens que traziam
o material: “Isso
vai pro lixo? Posso pegar?”
Antes de ele terminar o “Pode”,
eu e Wilson já estávamos escolhendo
as peças que estavam inteiras.
Loucos
de catar pedra! Levamos algumas para a casa
de Wilson. No dia seguinte, um domingo, voltamos
e eu resolvi levar uma caixa inteira daquilo,
lavar, tirar o excesso de cimento, cuidar
bem direitinho. Como relíquia e não
como lixo.
Estávamos
em dúvida sobre a época do material.
O Martinelli foi inaugurado no finalzinho
da década de 1920 e teve uma reforma
na segunda metade da década de 1970.
Na pior das hipóteses, o piso já
teria 30 anos. Ao que parece, é mesmo
dessa época, mas igual ao original
e, pelo apurado, isso acontecerá de
novo (voltaremos lá para conferir).
Nem
preciso dizer que em um país civilizado,
aquele material não teria o mesmo fim.
Fizemos nossa parte e salvamos um pedacinho
da história do prédio. E eu,
imensamente feliz, comecei a me tornar
dono do Martinelli. Meio metro quadrado
já é meu.
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| Postado
em 6 de dezembro de 2007, quinta |
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Kino e Zé Pereira

Anote
aí mais duas dicas de revistas “mui
legais”
e que você NÃO vai encontrar
na banca da esquina: Kino
e Zé Pereira.
Kino
você só encontra
aqui. A revista é virtual
e está em sua terceira edição.
Mistura cinema, design e fotografia. Cada
número apresenta um filme como tema:
Clube da Luta (nº 1), Janela
indiscreta (2) e Táxi Driver
(3). A próxima virá com Corra,
Lola, Corra!
Zé
Pereira também está na
terceira edição. É uma
“revista
feita por cariocas, para cariocas, sobre cariocas”.
Eu, um Judas Ex-carioca, digo que isso não
chega a ser um defeito, mas certamente é
melhor digerida por quem é do Rio,
entenda-se por isso, nascidos, criados, crescidos,
adotados e por opção. Comprei
os dois primeiros números na Baratos
da Ribeiro, mas eles podem ser pedidos
pelo
site da editora. Muito da versão
impressa também está on
line no site
da revista, que traz ainda material
extra.
E
para não dizer que não falei
em Merda,
baixe um
pedacinho do ensaio com a modelo
Anne Marie, com fotos de Max Moure, que está
na segunda edição da revista.
Anne é essa garota linda de morrer
na foto ao lado e o ensaio mostra um badalado
dia na vida de uma carioquinha.
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| Postado
em 27 de novembro de 2007, terça |
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Amigos em close

A
vida vai passando e a gente nunca
tem tempo para nada. Como sempre gosto de
lembrar, “não
ter tempo”
é não saber administrá-lo
ou simplesmente dar uma desculpa para algo
que não se está a fim de fazer
ou que não é prioridade no momento.
De
repente, nos damos conta de que um monte de
coisas boas passou e não aproveitamos.
As que priorizamos nem sempre se mostraram
maravilhosas como pensávamos e o tempo
de curtir isso ou aquilo já não
existe mais. Nessas desandanças, elegemos
ícones, ídolos, fontes de inspiração,
modelos de como gostaríamos de ser.
Quase sempre pessoas distantes, exemplos inatingíveis,
puras ilusões que criamos, enquanto
deixamos de olhar e conviver com pessoas
maravilhosas que estão bem ao nosso
lado.
Há
vinte anos ouço as histórias
de terceiros. Do cidadão que teve inundada
a porta de sua casa porque uma tubulação,
na rua, estourou; do artista que está
lançando um novo CD; do guarda municipal
que quer denunciar a tortura que sofre junto
com seus colegas de corporação;
do governador que está se candidatando
ao Senado; do morador de rua que não
lembra onde e quando morou numa casa; do empresário
que lança um grande negócio...
Nos
últimos dez anos, a busca por essas
histórias se tornou mais profunda.
Muitas vezes, casos e aventuras de pessoas
que já morreram e, claro, já
não podem mais contar como tudo aconteceu.
E conheço vidas muito mais interessantes
do que aquelas que passaram para a História.
Ou que nem passaram. Foram esquecidas.
Quanto
mais histórias descubro, mas percebo
que todos têm histórias maravilhosas
para contar. Vidas interessantíssimas
que não estão sendo grafadas,
nem filmadas ou, no mínimo, não
da forma devida. Lá na frente, alguém
vai ter o trabalho duro – que eu tenho!
– de desencavar tramas e enredos, juntar
fragmentos de memórias, separar fato
de versão... Seria tão mais
simples se alguém desse valor a essas
pessoas enquanto estão vivas! Com a
licença de Guilherme e Nelson, depois
que se chamarem saudade, não precisarão
de vaidade, irão querer preces e nada
mais. Se alguém quiser fazer algo,
que faça agora!
Pois
deixa comigo! É aí que eu entro.
Há
algum tempo, senti necessidade de organizar
minhas fotos. Só as digitais. Fotografo
com câmeras digitais desde 1996. Quando
pensei nisso, há uns três anos,
imaginei que tivesse “umas
cinco mil fotos”
para organizar. Desisti de contar quando me
aproximei das cinqüenta mil.
E percebi que, a cada dois anos, tenho feito
outro tanto desses. Isso, fora o arquivo em
filmes, slides e papel fotográfico
desde meados dos anos 80.
Percebi
também que, sem querer, estava registrando
parte da história de meus amigos. E,
há coisa de um mês, resolvi fazer
isso devidamente. Daqui a 50 ou 100 anos,
quando alguém resolver contar a história
de qualquer um deles, poderá contar
com um registro decente, confiável,
tão fiel quanto meu coração,
minha língua e meus dedos (que coisa
erótica!) consigam se entender e descrever.

Comecei
então a fotografar, oficialmente,
essas figuras carimbadas, raras e
cheias de histórias que merecem ser
contadas. Já fiz tantas fotos de cada
um deles durante tantos anos! Mas agora é
diferente. É olhando na minha cara,
bem de perto, mostrando que não é
normal e deixando isso bem claro para qualquer
um que bater os olhos nesses retratos.
Retratos.
Sem máscaras, sem preocupações,
cara limpa, do jeito que eu encontrar. Não
é assim que você me recebe? Não
é assim que se mostra para mim? Então
é assim que eu quero que todos os conheçam.
Com essa intimidade desconcertante.
Pretendo
que essas fotos venham a ser publicadas, no
mínimo, em tamanho natural, para que
se possa fazer um cara a cara entre os que
serão apresentados. Estão aí
algumas das primeiras: Wilson Natal,
respeitável e sério historiador,
perito em São Paulo, tão sério
e respeitável que já correu
nu pelos jardins do Museu do Ipiranga; Paulo
de Carvalho, cafajeste de plantão,
último dos verdadeiros putos desse
país (da mais fina estirpe putífera!)
e que tem histórias suficiente para
fazer as setecentas páginas da biografia
de Chatô parecerem uma revistinha; e
Woldney Ribeiro, um cabra
safado que monta umas coisas de mentira que
você jura que é de verdade e,
por isso mesmo, anda fazendo cinema.
Tem
um monte de gente na minha lista.
Gente que já foi fotografada para ilustrar
esse trabalho e nem sabe; gente com quem estive
recentemente e ainda não fotografei;
gente como Zé Luiz,
que está lendo isso e já tremendo
na cadeira porque sabe que não pode
ficar de fora; gente que nem vou citar mas
também sabe que está na lista.
A
vida continua e eu continuo falando de vidas.
A propósito, Tchelo
(hoje mais conhecido como “o
pai da Zoé”),
vai botando a cerveja pra gelar que eu chego
já para fotografá-lo.
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| Postado
em 25 de novembro de 2007, domingo |
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O pequeno pássaro de Abaetetuba

Estava
me preparando para escrever sobre
La Môme, o filme sobre
Piaf, após assisti-lo
pela segunda vez (de muitas que virão)
quando me deparo com a manchete da Folha
de São Paulo de domingo: População
via menina de 15 anos sofrer abuso sexual
na cadeia.
A
matéria fala sobre L., 15
anos, presa em Abaetetuba, Pará, e
jogada numa cadeia, por cerca de três
semanas, com mais de 30 homens. Nem precisaria
ler todo o texto para saber dos desdobramentos.
Vida
desgraçada a de L.. No sentido ativo
e definitivo. A menina teve sua vida desgraçada.
Passou mais de vinte dias servindo de pasto
aos selvagens com quem dividia o cárcere.
E
o que a menina paraense tem a ver com Piaf?
Esta outra também levou uma vida desgraçada.
Vivia nas ruas, foi abandonada pela mãe,
entregue a uma avó alcoólatra
e depois a outra dona de bordel, cresceu sendo
jogada de um lado a outro e abusada... uma
vida de descaminhos, excessos e profundas
tristezas, tudo sublimado, ainda que momentaneamente,
pelo canto.
Liberdade
parcialmente restituída, L. está
“como
um passarinho que fugiu da gaiola”.
Terá
algum momento de paz daqui por diante? O tempo
de uma canção. Poucos minutos
durante os quais espantará seus males;
os males do mundo – os mais miseráveis!
–, que foi forçada a conhecer.
Será que a pequena L. sabe cantar?
Desejo
que não lamente nada. Nada de nada.
Nem a dor, as aflições. O que
está acabado, fique esquecido. Comece
do zero. Que sua vida, hoje, comece com você.
Com uma força que só
esses pequenos pássaros conhecem,
buscando tal poder no fundo da alma e fazendo-o
explodir pela garganta. Como choro, como canto,
como denúncia.
Voe,
L.. Voe para bem longe.
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| Postado
em 22 de novembro de 2007, quinta |
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As sereias na casa de Deus
Uma
coisa puxa outra. Desde que comecei as pesquisas
para a biografia de Carlos
Estevão, algumas
de suas obsessões me chamaram atenção.
Uma delas de forma mais contundente: as
sereias.
Uma coisa puxa outra. Há
mais ou menos um mês, digitalizando
os desenhos de Carlão em minha coleção
de revistas O
Cruzeiro, encontrei,
na edição de 5 de abril de 1952,
quando o jovem desenhista já começava
sua fama e estava nos Associados há
cinco anos, um artigo de Câmara
Cascudo (uma de minhas
obsessões) intitulado As
sereias na casa de Deus. Nele,
Cascudo falava nas sereias entalhadas nos
altares da Igreja de São Francisco,
em João Pessoa, Paraíba.
Dizia da facilidade em encontrar tais símbolos
em igrejas portuguesas mas que “não
conheço exemplos brasileiros além
dos paraibanos”.
Uma coisa puxa outra. Imediatamente
veio à lembrança a Igreja
de São Pedro dos Clérigos, em
Recife, Pernambuco (terra de Carlos
Estevão). Estive inúmeras vezes
no Recife. Algumas este ano. Mas só
uma na Igreja de São Pedro, há
uns quinze anos. E lembro bem das sereias
ao lado das colunas de entrada. Elas nunca
saíram de minha cabeça. Até
porque eu havia sido levado até ali
especialmente para vê-las.
Uma coisa puxa outra (é
a última vez que escrevo isso, prometo!)
e fiquei indócil para ir a Recife e
João Pessoa fotografar devidamente
as duas igrejas. Passei por Recife, voltando
do Rio, cheio de bagagem, e só fiquei
na cidade o tempo suficiente para pegar um
táxi do aeroporto à rodoviária.
Fui para Natal e, três dias depois,
para João Pessoa. Saindo de lá,
passei pela Igreja de São Francisco.
As sereias ainda estão lá, mas
não pude vê-las.
Diferente de suas irmãs
recifenses, as sereias paraibanas ficam nas
bases das colunas da capela do Santíssimo
Sacramento e no altar-mor. E cheguei bem na
hora da missa. Juro que se fosse branco e
loiro, teria mandado um “Beautiful!
Beautiful! What?! ‘Nou pódi’
Oh! Ipod? Right!”
e, me fazendo de doido, fotografaria os espécimes
em plena celebração eucarística.
Mas Deus me fez moreno e respeitador, então
deixei para uma próxima oportunidade.
No referido texto, Cascudo
pergunta “que
estão fazendo essas Sereias, símbolo
da sedução irresistível,
sugestão carnal endoidecendo jangadeiros
e pescadores, incluídas aos pés
do altar católico, criadas, desde meados
do século XVIII, para viver numa casa
de Nosso Senhor?”.
E desvenda:
“A sabedoria da Igreja amansou
essas feras e levou-as, como Noé, para
a barca da piedade cristã. (...) Ninguém
intimou a Sereia a desenroscar a cauda e remergulhar
no Rio Paraíba, caminho de Cabedelo,
ganhando o Atlântico. (...) As Sereias
da Igreja de São Francisco na capital
paraibana dizem, com sua amável presença,
missão mais antiga e possivelmente
a mais litúrgica entre as representações
fúnebres dos gregos.
“Estavam
elas ligadas ao culto dos mortos e lembravam
as falas silenciosas e ciciadas das sombras.
Os túmulos gregos eram ornados com
estelas de Sereias. A Sereia sepulcral era
tão comum e típica como o cipreste
votivo”.
De fato, atrás do cemitério
da Igreja de São Pedro, em Recife,
há um pequeno cemitério. E é
muito provável que na de São
Francisco também haja. Ambas são
da mesma época (a paraibana é
de 1779, a pernambucana começou a ser
construída em 1728 mas só foi
sagrada em 1782). Até meados da década
de 30 do século seguinte não
tínhamos cemitérios e as pessoas
eram enterradas nas igrejas.

As sereias, não vi
dessa vez. Mas também estão
lá, do lado de fora, outros seres fantásticos
guardando o templo. Resquícios de costumes
anteriores ao próprio Cristianismo
ou à sua instalação em
terras brasileiras. Criaturas misteriosas
com as quais pretendo conversar mais demoradamente
em minha próxima ida a João
Pessoa.
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| Postado
em 25 de outubro de 2007, quinta |
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Memória Viva de Appe
Quem
acompanha o Sempre Algo a Dizer,
já leu a respeito de Appe
em algumas ocasiões. Quem não
conhece seu trabalho, agora não tem
mais desculpa. Acaba de ser disponibilizado
o site Memória
Viva de Appe.
Nessa
primeira fase, podem ser vistas mais de 60
caricaturas e 40 telas do artista que ficou
mais conhecido por seu trabalho como chargista
político da revista O Cruzeiro.
Em
dezembro, o site ganhará ainda outras
áreas com mais desenhos, vídeos
e materiais inéditos de sua biografia.
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| Postado
em 22 de outubro de 2007, segunda |
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Regininha na Merda
Eu
vou tirar você desse lugar, Regininha!
Do local mais próximo onde encontrar
um exemplar da segunda edição
da revista M...
que chega às bancas nesta terça
(23) no Rio e (“junto
comigo”)
até sexta em Sampa (no
site, a lista de onde encontrar).
Amém,
Regininha, Amém! Confesso
que este pai de família ainda (eu disse
AINDA) não viu sua estréia como
atriz do sexo, mas promessa é dívida
e, se você está mesmo batendo
esse bolão todo como parece na capa
da M... mais uma vez: Amém,
Regininha, Amém!
Segundo
informações enviadas por Silvio
Lach, um dos (ir)responsáveis
pela M...,
...
com o novo número, a revista pretende
ter um dos maiores sucessos de vendas da história
deste país, já que preparou
uma “Edição Apelativa
Sexo & Violência”, pois é
disso que o povo e a mídia gostam.
A maior parte dos textos, ensaio fotográficos
e cartuns falam de um dos dois assuntos. Mas
há ainda espaço para falar de
outras merdas, como a política.
Seguindo
a filosofia de não ter medo de se jogar
no ventilador, a “M...” tem com
um dos pontos altos do número 2 o ensaio
fotográfico, protagonizado por uma
jovem e sensual modelo, com um desfecho surpreendente.
(...)
Na
capa, aparece Regininha Poltergeist, a dançarina
performática que virou atriz pornô.
Além de posar para fotos “interagindo”
com um vaso sanitário (uma marca da
revista), ela dá uma entrevista divertida
para a seção “Experiência
Pós-M” (dedicada a quem foi à
merda e voltou para contar), na qual diz como
foi a decisão de aceitar fazer sexo
diante das câmeras. Ela também
comete indiscrições sobre pessoas
que passaram por sua cama, falando com muito
bom humor de suas aventuras com Fernando Vanucci
(“Foi um acidente”), Eri Johnson
(“Ele já foi mais humilde”)
e Rubinho Barrichelo (“Quis me levar
para São Paulo, mas eu só quis
ter uma noite com ele”). Não
deixa de comentar também o mercado
de prostituição de atrizes conhecidas
da televisão. A abertura da entrevista
é feita por Tico Santa Cruz, do Detonautas,
que se revelou um grande fã onanista
de Regininha.
A
terceira entrevista é com o dançarino
de funk Lacraia, que posa para um ensaio vestido
de homem. Irreconhecível, Lacraia também
dá uma de macho ao criticar DJ Marlboro
(“ele fica com os direitos autorais
de jovens talentos”) e Rômulo
Costa (“ele nunca nos repassou o lucro
que teve com uma gravação do
Serginho em um de seus discos”). Entre
as declarações inusitadas, Lacraia
diz que sonhava em posar nu, revela que tem
planos de ser apresentador de programa infantil
e pede um gay na presidência, sugerindo
o nome de Fernando Gabeira (“Ele não
é, mas é!”).
O
novo número tem ainda Gabriel
O Pensador falando do papa e outros
nomes ligado à hipocrisia; Paulo
Caruso desabafando sobre dura a tarefa
de ter que desenhar Renan Calheiros; Léo
Jaime discorrendo sobre o autofelattio;
a deputada federal Manuela D’Ávila
narrando como foi sua chegada ao Congresso;
o ator André Ramiro
e o ex-traficante João Guilherme
Estrella falando de Tropa
de Elite (Estrella diz que os
consumidores de drogas evitam que os bandidos
desçam para assaltar nas ruas) e mais
um monte de gente boa.
E
chega. Corra pro banheiro mais próximo,
mas dê uma passadinha na banca antes.
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| Postado
em 19 de outubro de 2007, sexta |
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Os dragões talibãs da Universal
contra
os santos guerreiros

Detalhe
de São Jorge e o dragão, de
Donatello
A
história começa pelo fim: os
dragões cuspiram fogo e os santos viraram
cinzas. Doze anos após o infame episódio
do chute na santa, um “pastor”
da Universal realiza uma versão hardcore
e põe
fogo em duas imagens: uma do Senhor
Morto, outra de São Pedro. Detalhe:
peças no estilo barroco jesuítico,
com quase quatro séculos
de (ex-)existência, tombadas
pelo Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional (Iphan).
Resumindo:
os talibãs da Universal cansaram da
simples intolerância entre times religiosos
e partiram para o massacre histórico-cultural.
A briga não é mais com os católicos,
mas com qualquer brasileiro. Logo vão
querer brincar de Deus e tocar fogo em Outro
Preto e Tiradentes em um remake de
Sodoma e Gomorra.
Acredito
piamente que as pessoas só erram por
ignorância. Mas vá ser
ignorante assim no inferno!
E
o jeito como conseguiu esses tesouros foi
algo do tipo
“vender a alma ao diabo”:
exigiu-as em troca de orações
para um doente. O coitado, assim como as imagens,
não escapou.
Temos
uma grande massa de gente simples, fácil
de ser tangida por qualquer aboio ou por showzinhos
de poltergeist de camelô, mas
quem não faz parte do rebanho tem o
dever de alertar a todos sobre esse circo
de horrores promovido por débeis
mentais travestidos de pastores em
pulgueiros caiados e enfeitados de templo.
Quem quiser acreditar em qualquer coisa, que
o faça, mas ao menos procure uma religião.
Quer ser protestante? Procure a Igreja Luterana,
a Presbiteriana, a Anglicana... Mas se for
pra ficar gritando (mania que esse povo tem
de achar que Deus é surdo!), pulando,
chutando e queimando coisas, vá pra
um show de Heavy Metal.
Quando
do episódio do chute na santa, entrevistei
o então Arcebispo de Natal
D. Heitor de Araújo Sales
(irmão de D. Eugênio).
Em determinado momento, ele exclamou: “Até
que ponto pode chegar o desatino humano!”.
Se for como a ignorância, certamente
é um poço sem fundo.
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| Postado
em 18 de outubro de 2007, quinta |
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Eu evacuo para o Rolex do Huck

Nos
últimos cinco meses, forcei-me a viver
uma saudável alienação.
Nada de Pan, nada de Renan, de jornalista
pelada... Deixei de assistir tevê, não
acompanho nem me interessa muito seja lá
o que for. Dou uma olhada nos sites de notícias
e faço a triagem: quase tudo que leio
está nos parcos cadernos de cultura.
O resto do mundo e suas neuroses que
se lixem.
Como
uma coisa puxa outra, caí na armadilha
de ler o
artigo de Luciano Huck
na Folha de SP,
em 1º de outubro. Tendo seu Rolex roubado,
ele bradou
“Onde está a polícia?
Onde está a ‘Elite
da Tropa’?
Quem sabe até a ‘Tropa
de Elite’!
Chamem o comandante Nascimento!”
Bati o olho e vaticinei: “Vai
virar novela”.
Virou.
Perdi
as contas dos artigos-respostas, artigos-sacanas,
artigos-vamos-pensar-o-mundo e reportagens
de acompanhamento da polícia à
caça do bibelô. É mesmo
uma indecência não termos segurança,
mas é ainda mais indecente um cara
ostentar um relógio de dez mil reais
em um país onde milhares de pai de
família, que têm
“a sorte”
de ter um emprego, demoram mais de dois anos
para ganhar esse dinheiro e, com ele, precisam
fazer a mágica de dar casa, comida,
saúde e escola aos seus.
Longe
de mim fazer o discurso de “rico
não pode mostrar que é rico”.
Pode. Mas quem tem dinheiro para comprar
um Rolex, tem dinheiro para comprar
dois. Então vai lá e desembolsa
outra merreca de dez contos e dê graças
aos céus por estar vivo e inteiro.
Ou então vá morar na Suíça,
onde tem segurança e Rolex custa bem
menos.
Ele
utilizou o jornal de maior circulação
do país para dizer que paga impostos
e não tem segurança, mas sequer
prestou queixa em uma delegacia. Ou seja:
não acredita no sistema que ele mesmo
alimenta. A polícia, por outro lado,
sob holofotes, correu para mostrar serviço.
E provou mais uma vez que, quando quer, funciona.
Nada
contra o incrível Luciano. Mas espero
que o capítulo final dessa novela tenha
sido a genial tira de Caco Galhardo
na Folha de SP de hoje. Duas amigas
discutem sobre o caso até que Chico
Bacon levanta da mesa e dispara: “Bom,
o papo está uma porcaria, mas eu realmente
tenho que ir”.
De
volta à minha doce alienação.
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| Postado
em 15 de outubro de 2007, segunda |
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Vidas e histórias
Quando
liguei o gravador, Dona Mathilde
disparou: “Você
não vai me fazer aquela pergunta idiota
que todo jornalista faz, vai?”
Eu já sabia qual era e ri. Para não
deixar dúvidas, ela encenou a pergunta
e a resposta que costumava dar: “‘Como
é ser filha de Cecília Meireles?’
É a mesma coisa que ser filho da sua
mãe!”.
A
sábia Mathilde – que na mesma
ocasião disse que eu valeria uns 100
camelos por conta dos meus dentes separados
– foi encontrar sua mãe na semana
passada. Em nossa única conversa gravada,
contou histórias jamais publicadas.
Algumas, como a do suicídio do pai,
foram desabafos. Outras, qualquer jornalista
daria tudo para ouvir. Como a de que Carlos
Lacerda, horas antes de ser internado
para “tratamento
de desidratação”
(morreria 24 horas depois), estava saudável
e brigando com ela para deixar para o dia
seguinte a assinatura de um contrato de publicação
da obra de Cecília.
Histórias
contadas por seus protagonistas ou testemunhas
e que estão guardadas, preservadas.
Também
há poucos dias, outra história
nos chegou em formato de livro: Clara
Nunes – Guerreira da Utopia,
de Vagner Fernandes. Clara
também teve uma morte que nunca foi
bem explicada e esse episódio tem certo
destaque no livro. O autor parece pressentir
que contestações virão
por aí. Não se trata de uma
“biografia oficial” o que significa
dizer que muita coisa pode desagradar os parentes
da biografada.
Histórias
podem desagradar alguém ao serem lembradas.
E histórias mal contadas podem desagradar
mais ainda. Mas onde está a
verdade?
Nesta
segunda, outra biografia (que, confesso, estou
louco para devorar) está sendo lançada:
O Bispo – A história
revelada de Edir Macedo. O Zé
Ninguém que, quando eu era criança,
pregava em um coreto numa praça do
bairro carioca do Méier é hoje
milionário, espalhou seu negócio
não só por todo o Brasil mas
também Estados Unidos, Europa e Japão.
Tem um canal de televisão que está
disputando a segunda posição
em audiência e tem pretensões
de chegar à primeira. Abriu outro só
de notícias. Teve a desfaçatez
de colocar na capa de sua biografia –
oficialíssima – a foto de um
episódio que poderia ser a maior vergonha
de sua vida e ele soube transformar em uma
de suas maiores glórias, quase se passando
por mártir. E ainda crava um título
que, em português, o coloca em destaque
– O Bispo – e
já serve, no mínimo, para a
edição que deverá chegar
aos outros países da América
Latina (Bispo, em espanhol, é Obispo).
Digam o que disserem, de bobo, Edir não
tem nada. Se ele se esforçar mais um
pouco, vai acabar me convertendo!
Não
há dúvidas, O Bispo
não mostra A história. Mostra
a versão de Edir Macedo.
Como
os (três) leitores assíduos deste
blog sabem, estou em pesquisas para
duas biografias: a de Carlos
Estevão e de Appe,
ambos desenhistas da revista O
Cruzeiro. Como os
que me conhecem há mais tempo também
sabem, sou extremamente criterioso
– para não dizer chato
mesmo – no tocante à
apuração dos fatos. E se há
algo em que não se pode confiar é
na memória, Por isso escrevemos. Mas
então chegamos a outra coisa na qual
não se pode confiar: na escrita sem
cuidado. Se algo foi publicado em um jornal,
revista ou livro isso não quer dizer
que seja verdade.
E
há, ainda, pelo menos dois tipos de
pessoas que, sem querer, normalmente distorcem
os fatos: os fãs e os familiares.
Não fazem isso deliberadamente, mas
sim porque trabalham, principalmente, com
suas memórias afetivas.
Nem um, nem outro quer ouvir “falar
mal”
de seu “objeto
de culto”.
Só que estamos lidando com vidas humanas.
Errar faz parte da natureza humana. E daí
se fulano foi alcoólatra, teve amantes,
foi homossexual, brigou com alguém?
Nada disso é errado ou vergonhoso.
Quem não pode errar é
aquele que se propõe a escrever sobre
a vida alheia.
Uma
vida não pode ser reinventada. Isso
é ficção, romance. Creio
que nunca teremos a resposta para a seguinte
pergunta: A
quem pertence uma
história?
Quem resolve contar uma se coloca em posição
delicada, precária e na qual erros
não podem ser admitidos. O resultado
deve ser algo que o próprio biografado
pudesse dizer ao terminar de ler: “Eu
preferiria que você não tivesse
dito isso ou aquilo, mas tudo que está
aqui é verdade”.
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| Postado
em 12 de outubro de 2007, sexta |
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Paulo Autran
Impressão
minha ou quando o negócio aperta aqui
por baixo o povo lá de cima pede ajuda?
Paulo
Autran, trabalhava, trabalhava, trabalhava,
sem parar. Para nascer e morrer, escolheu
feriados. Nasceu independente, morreu como
criança.
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Paulo
Autran (1922 - 2007) por Appe,
1973.
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| Postado
em 29 de setembro de 2007, sábado |
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Tropa de elite e a incomodada moral vigente

Quando
li a primeira notícia de que Tropa
de Elite estava na Internet
e nos camelôs, eu já havia “garantido
uma cópia”.
Deixei para assistir depois e acabei entrando
em um período de imersão, durante
algumas semanas, nos (des)prazeres e afazeres
da vida cotidiana. Então fiquei de
fora dos primeiros três milhões
de espectadores que assistiram ao
filme de José Padilha
antes mesmo da estréia.
Esta
semana, resolvi deixar de lado os sábios
conselhos budistas e acrescentar um pouco
de violência a minha pacata vida, depositando
alguns gramas de influência negativa
em qualquer recôndito de minha primitiva
mente.
A
motivação veio, sobretudo, de
toda a discussão em torno do filme
nos últimos dias. Um filme que nem
estreou e já é o mais visto
desde a retomada do cinema brasileiro na década
passada mostrando-se como preferido do público
para ser indicado a representar o Brasil no
Oscar. A mais que óbvia não-indicação.
O Batalhão de Operações
Especiais da Polícia Militar –
BOPE tentando convidar-se, “por
força da Justiça”,
para a pré-estréia. A consagração
popular e a desconstrução da
obra pelos donos da moral. Opa! É esse
o ponto que quero abordar.
Tropa
de Elite é violento.
Nele, você vai assistir muita brutalidade,
torturas, mortes... do jeitinho que
a vida é. Não a minha,
que é vivida em casa, lendo e escrevendo.
Não a sua, que está aí
sentado na frente de um computador, navegando
pela Internet, enquanto pensa se vai almoçar
no shopping ou aproveitar a hora do almoço
para levar seu carro ao mecânico. Mostra
a vida que nos cerca e fingimos não
ver. Mostra a guerra na qual vivemos
e insistimos em ignorar. Mostra o que está
acontecendo no quintal de nossa casa. A casa
que tem na sua frente uma placa dizendo ao
mundo inteiro que aqui mora um povo pacífico
e hospitaleiro.
Tropa
de Elite não é mais violento
que qualquer filme americano de pancadaria.
E por que incomoda tanto? Porque fala de nossa
realidade. Ninguém está nem
aí e até se diverte em falar
que a filha do vizinho é uma puta ou
que o filho é um viciado. Mas quando
você é o pai (ou a mãe)
da puta ou do viciado, a história é
diferente. Você finge que não
percebe, você não quer que ninguém
saiba disso, você tenta trancá-lo
dentro de casa. Tropa de Elite faz
o contrário: escancara o podre que
tentamos e nos acostumamos a esconder.
E
começam os discursos para desmoralizar
o filme: “banaliza
e glamouriza a tortura”,
“é
um filme desumano e autoritário”,
“atiram
primeiro, perguntam depois”.
E dá-lhe lição
de moral para preservar nossos valores.
Pergunto:
Quais valores? Qual moral?
O
que o filme faz, todo o tempo, é inverter
os valores tradicionais e os hábitos
atualmente apreciados. A não ser os
mais ingênuos, que nunca tenham
se deparado com atos violentos, ou os
mais burros, que não querem
acreditar que isto acontece o tempo todo ao
nosso redor, conseguem se chocar. O
restante começa a desconfiar
da moral vigente. Começa a sentir um
desejo de defender as piores coisas. Começa
a concordar que bandido bom é bandido
morto e que se os caras não pensam
duas vezes em sair por aí tirando vidas
por que deveríamos dar um tratamento
diferente a eles? Se ele vai continuar matando,
por que não oferecemos logo aquela
que parece a única solução
para interromper sua carreira? E se existe
um grupo que faz isso – que faz o que
a gente gostaria de fazer mas tem vergonha
e pudores de explicitar –, que nome
se dá a esse grupo?
Heróis
com perfeição moral é
coisa de ficção. Como
todos sabem (e o filme lembra), policial também
tem família e tem medo de morrer. Vai
dar mole para malandro? Vai aliviar? Policial
não tem superpoderes. Não vai
colocar as mãos na cintura e estufar
o peito para as balas ricochetearem. Ou mata
ou morre. No lugar deles, o que você
iria preferir?
Inventamos
princípios morais, queremos
ilusão, vivemos disso. Até
o dia em que alguém aponta uma arma
para sua cabeça ou invade sua casa,
estupra, violenta, mata seus familiares. Então
aparece um grupo imoral, amoral, acima
do bem e do mal e acaba com os vagabundos.
Você pode até ir a público
e fazer um discurso de que violência
gera violência, que não deveria
ser assim, que acharia melhor se eles tivessem
sido presos e ficassem na cadeia para sempre,
etc. Mas no seu íntimo, você
vai agradecer a quem fez isso.
É
vital tornar-se senhor de suas próprias
virtudes. Tornar-se escravos delas é
o problema. É preciso dominar sua própria
moral, o que houver de bom e de ruim nela,
aprender a mostrar isso e também guardar
à medida que se necessita dela e de
acordo com seus fins. Isso é ser humano.
No BOPE, só existem seres humanos.
E eles adaptam-se às condições
pra sobreviver e para garantir que outros
sobrevivam.
“Então
você está defendendo que a polícia
mate os bandidos?”
Antes eles do que eu! Se
alguém tiver que morrer, que sejam
eles. E se alguém puder fazer o favor
de matá-los, muito obrigado!
Isso
é o ideal? Não. Eu gosto do
mundo assim? Não. Eu preferiria que
todos vivessem como monges, falassem baixo,
não discutissem por nada, não
importunassem ninguém. Mas a imagem
que fazemos do mundo ideal é
completamente diferente do mundo real.
E é neste último que nós
vivemos. A moral não toca a essência
do mundo como ele é.
Para
mim, o que legitima a moralidade de
um ato é a confirmação
de seu êxito. Imoral é
deixar vagabundo por aí tirando a vida
de quem quer viver em paz. Se há quem
os mate, não vejo nisso nada além
de legítima defesa, de autopreservação.
“A
besta que existe em nós quer ser enganada;
a moral é mentira necessária
para não sermos por ela dilacerados”,
já dizia o velho Nietzsche. E mais:
“(...)
quando alguém prefere a vingança
à justiça, ele é moral
segundo a medida de uma cultura passada,
imoral segundo a atual. ‘Imoral’
designa, portanto, que um indivíduo
ainda não sente, ou não sente
ainda com força bastante, os motivos
mais elevados, mais espirituais trazidos pela
nova cultura”.
Se
há bestas soltas, tirando vidas inocentes,
como devemos tratá-las? Com rosas?
Com orações? Talvez uma parte
de nós deva fazer isso. Mas outra parte
precisa ser ativa e tomar uma atitude para
que o mal cesse logo. Se um leão rondar
sua casa, o que você vai fazer: colocar
um prato de leite na porta ou dar um tiro
nele?
Há
uma diferença enorme entre moral
pessoal e moral coletiva. A minha
diz que eu devo ser gentil, não aceitar
provocações, não entrar
em qualquer tipo de discussão, que
devo amar a todos. Belo e ingênuo até
o ponto em que alguém tentar ferir
a mim ou aos que eu amo. E se amo a todos,
se pretendo que não só minha
casa, mas também minha rua, meu bairro,
minha cidade, meu estado, meu país,
o mundo todo viva em paz, não posso
acreditar que meu ideal romântico seja
capaz de estabelecer o equilíbrio e
a paz que almejo. Nietzsche de novo:
“Talvez uma futura visão
geral das necessidades da humanidade mostre
que não é absolutamente desejável
que todos os homens ajam do mesmo modo, mas
sim que, no interesse de objetivos ecumênicos,
deveriam ser propostas, para segmentos inteiros
da humanidade, tarefas especiais e talvez
más, ocasionalmente”.
É o que se propôs ao criar o
BOPE. “Isso
não é legal, mas alguém
tem que fazer. Façam!”
E
se essas ações violentas acontecessem
sem que jamais soubéssemos? O resultado
seria o mesmo e tão (ou mais!) eficaz
e agradável quanto. E nossos valores
morais – e as mentiras nas quais nos
obrigamos a acreditar – estariam preservados.
Nossos preconceitos morais estariam resguardados,
protegidos.
Tropa
de Elite, o filme, põe nossos
ideais à prova. Traz para dentro de
casa (literalmente, em cópias piratas...
piratas? Você assistiu? Que moral você
tem para falar sobre respeitar direitos?)
um pequeno pedaço da realidade que
pode nos causar nojo por sermos ainda tão
brutos, mas talvez o que mais incomode é
o sentimento que escondemos de que os ideais
do BOPE não se estendam a todo o restante
da tropa.
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| Postado
em 26 de setembro de 2007, quarta |
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Come ti amo, maledetta vita moderna!
Há
alguns dias, revi, depois de anos, o filme
Dio, come ti amo,
estrelado por Gigliola Cinquetti.
Na mesma semana, vazavam
na Internet as fotos de Vanessa
Anne Hudgens, a atual queridinha
dos aborrecentes americanos e seus colonizados.
E
o que uma coisa tem a ver com a outra?
Pra
começar, vamos às semelhanças
entre as meninas em questão. Em 1964,
aos 16 anos, Gigliola Cinquetti ganha o Festival
de Sanremo com a música Non
ho l’età
(Não tenho a idade). Em 1966,
ganha de novo com Dio, come ti amo.
No mesmo ano, para aproveitar o sucesso das
duas músicas e impulsionar a carreira
de Gigliola, é feito o filme homônimo
que rendeu grandes filas nos cinemas brasileiros.
É
bom explicar que o Festival de Sanremo –
ou Festival da Canção Italiana
–, que existe até hoje, era,
nos anos 50 e 60, algo como o Grammy ou o
Oscar é hoje. Quem ganhava, ficava
conhecido no mundo inteiro e tinha trabalho
garantido por algum tempo. Quando Domenico
Modugno, autor de Dio, come ti
amo e co-autor daquela que provavelmente
é a mais famosa canção
italiana, Nel
blu dipinto di blu,
ganhou San Remo em 1958, nem a televisão
conseguia mostrar isso ao mundo. E mesmo assim,
até hoje, pense em Itália e
o que vem a sua cabeça? Volaaaaaaaaare,
ôôôôô...
É a força de Sanremo.
Corte
para 2006. Aos 17 anos, Vanessa Hudgens “invade
o mundo”
(para usar uma expressão idiota do
“jornalismo
de fofoca”)
como a protagonista de High School Musical.
Duas
jovens cantoras usando a força do cinema
para fazer fama internacional.
No
filme italiano, Gigliola é uma tímida
garota que descobre amar o noivo de uma amiga.
Depois de idas e vindas entre Espanha e Itália,
poucos instantes antes de terminar a história,
a personagem dá um rápido
e singelo beijo no amado. Digo a
personagem porque até hoje duvido que
tenha sido realmente Gigiola a dar o
beijo que aparece em super
close up e mostra quase que somente as
bocas. Ela não tinha idade para amar,
para sair sozinha com o namorado, para protagonizar
um beijo no cinema. Era italiana, de família
e era 1966!
No
filme americano de 2006, o recato quase se
repete. Se existe um povo que merece o prêmio
máximo de falso moralismo, esse povo
é o americano. Uma personagem pode
se vestir e agir com uma puta, mas se a história
diz que ela é uma virgem imaculada
sem pecados, então todos têm
que acreditar que é isso. Mas não
é. Por isso mesmo, Vanessa pegou uma
câmera digital, tirou umas
fotos nuas com as amigas e mostrou
(sem querer) para o planeta inteiro que, pelo
menos no mundo real, sexualidade, desejo e
uma pitada de sacanagem são coisas
bem naturais. Até mesmo para a queridinha
da hora.
Bonitinha,
como toda jovem mediana de 18 anos, mas certamente
já não inspira tanto desejo
como quando estava com roupa. E agora que
todo mundo já viu, nem deverá
rolar uma Playboy, daqui a algum
tempo, para mostrar que “a
menina virou mulher”.
O
romantismo se foi, o sonho acabou. A cuecada
teen agradece o vacilo de Vanessa e os
sessentões lembram como era doce sonhar
com os dentinhos separados e os joelhos (sempre
juntinhos) de Gigliola.
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| Postado
em 16 de setembro de 2007, domingo |
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Carlos Estevão - O mais brasileiro
dos desenhistas

Único,
sem influências estrangeiras. É
assim que muita gente se refere ao traço
de Carlos Estevão.
Debochado,
escrachado, politicamente incorreto (em um
tempo que este termo castrador nem era usado),
Carlos Estevão nunca fez o tipo intelectual
posudo, moralista – falso ou não
– que quisesse dar aulas ou fazer crítica
de costumes com seus desenhos. Era machista,
mulherengo, beberrão, de maus modos,
mas também capaz de demonstrar, como
poucos, amor e carinho aos filhos e amigos.
O que ia para o papel, longe de ser crítica,
quase sempre era o registro da própria
realidade – ou fantasia – que
vivia.
O
casamento antes e depois, Ser
mulher, Perguntas
inocentes, As aparências
enganam, As duas
faces do homem, Acredite
querendo e Palavras
que consolam eram algumas das
séries nas quais destilava sua descrença
para com o ser humano. Se havia um tema preferencial
e no qual se tornava ainda mais ferino, certamente
era a vaidade. Principalmente a feminina.
Os tipos grotescos, homens presunçosos
sempre cheios de histórias mirabolantes
para contar, mulheres horrorosas que se achavam
lindas e ouviam as maiores grosserias dos
homens. Esse era o mundo de Carlos Estevão.
Tipo
inesquecível criado por ele foi o Dr.
Macarra, que chegou a ter revista
própria (nove edições)
em 1962. As aventuras do personagem eram contadas
a uma ouvinte, em um quadro, numa versão
soberba e orgulhosa para ser mostrada, no
quadro seguinte, da forma que realmente havia
acontecido. Na história em que conta
sua passagem por Cuba, sua interlocutora pergunta
a Macarra se apreciaram devidamente sua cultura.
Ele responde: “Professores
de renome ficaram abismados com minha cultura”.
No quadro seguinte, um cientista diz a outro:
“A
cultura de micróbios que consegui do
organismo desse miserável é
assombrosa!”.
Seu
humor era o mais popular e mais ácido
dentre os desenhistas que fizeram fama nas
páginas de O
Cruzeiro. Com a morte
do também pernambucano Péricles
Maranhão, na virada de 1961
para 1962, Estevão recebeu um “convite-imposição”
da revista e acabou herdando o Amigo
da Onça, que desenhou até
sua morte em 1972.
Uma
merecida e justa biografia de Carlos Estevão
não pode fazer dele um Dr. Macarra.
Deve desnudá-lo de qualquer mitificação
e mostrar sua história de forma realista,
desde os primeiros traços em Recife
aos últimos em Belo Horizonte, onde
morreu vitimado por seus excessos. Devem ser
mostrados defeitos, virtudes, erros, contradições
e demais qualidades, boas ou más, que
fizeram dele um dos nossos mais populares
e queridos desenhistas.
Carlos
Estevão não merece o endeusamento
muitas vezes criado em torno de seu nome.
Não que lhe faltasse talento. Muito
pelo contrário. Não merece tal
endeusamento por respeito a ele mesmo.
Não só foi – e continua
sendo – o mais brasileiro dos desenhistas,
mas também o mais humano deles.
No
dia de hoje, ele completaria 86 anos. Para
marcar a data, Memória Viva
lança um site em sua homenagem.
Clique
aqui e divirta-se com
o aniversariante.
(O
blog também está aniversariando.
São dois anos de Sempre algo a Dizer
e
três desde o lançamento de seu
antecessor, o Leseira Geral)
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| Postado
em 8 de setembro de 2007, sábado |
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A cura das platéias

Permitam-me
avalizar minha antiguidade... Sou
de um tempo em que as pessoas enchiam
uma sala de cinema com 300 ou 500 lugares
e vibravam com o filme. Riam juntas, choravam
juntas, aplaudiam ao final. Era uma época
em que eu freqüentava o Art Méier,
o Paratodos e o Imperator.
Em que assisti filmes como Fúria
de Titãs, Num
lago dourado (com Henry Fonda
e Katherine Hepburn) e E.T. –
O Extraterrestre, este talvez
o último dos filmes com uma platéia
decente.
Os
cinemões foram fechando, virando cinemas
pornôs, igrejas neo-evangélicas
ou alguma outra sacanagem. As crianças
não brincavam mais nas ruas e as pessoas
passaram a morar em casas cheias de grades.
O shopping era a nova onda. Bob’s,
Mc Donald’s, Salas Multiplex...
Os ianques nos colonizavam apressadamente.
A pipoca e as balinhas foram substituídas
por caixas monstruosas com hambúrgueres,
batatas fritas, milk shakes, refrigerantes
e toda a má educação
que acompanha o comer desses lixos: boca aberta,
barulho de mastigação, arrotos,
sujeira espalhada por toda parte.
Até
aí ainda estava bom.
Triste
foi testemunhar o acelerado processo
de imbecilização da platéia.
A destituição dos valores, a
falta de qualquer maturidade emocional e base
cultural para entender o que se passa na tela.
A
primeira vez em que percebi isso foi em um
cinema no bairro de Boa Viagem, em Recife,
em 1991. Como fazia costumeiramente naqueles
idos, eu havia saído de Natal
e ido à capital pernambucana para dois
ou três dias dentro dos cinemas. A grande
estréia daquele final de semana era
Exterminador do Futuro 2
e seus esperados efeitos especiais. Última
sessão de sexta, cinema lotado. Nas
cenas de morte, tiros e destruição,
a turba gritava e aplaudia. Nas demonstrações
dos poderes dos andróides, risadas
e gritos de “que
mentira!”.
Valores trocados, má educação,
incapacidade de imaginar. Já
não distinguiam entre fantasia e mentira.
Pior
estava por vir. Naquele tempo ainda não
havia os malditos celulares.
Vieram
os DVDs, as telas planas e cada vez maiores.
O cinema foi para dentro de casa e
ninguém precisa mais aturar esses selvagens.
E
o teatro? Ainda não dá
para levar para fazer o mesmo com ele. Na
maioria das vezes, mesmo em uma produção
pequena, com um ou dois atores, é difícil
levar uma peça a outras cidades. Vai
ser ótimo quando pudermos alugar a
peça e levá-la para casa. Os
atores representando em nossa sala. Sem imbecis
rindo fora de hora, sem celulares tocando,
sem descerebrados conversando durante a apresentação.
A
atual massa idiotizada que constitui
parte majoritária e esmagadora das
platéias é filha da tevê,
não uma fábrica de fazer loucos,
como dizia Stanislaw Ponte Preta,
mas de criar e multiplicar gente estúpida
com mais velocidade e eficácia que
uma comunidade de coelhos alimentada com viagra
consegue se reproduzir.
De
idas relativamente recentes ao teatro, cito
dois tristes exemplos desse tipo de trupe
beócia. O primeiro na apresentação
de Quando Nietzsche chorou
(Teatro Imprensa, São Paulo, com Cássio
Scapin e Nelson Baskerville, 2006). Os risos
histéricos fora de hora, do tipo “ei,
você aí no palco, eu tô
achando graça”,
faria algum desavisado acreditar que havia
errado de endereço e, sem querer, acabado
em algum show de piadas. Nas poucas vezes
em que se apresenta, o humor grave, sarcástico,
niilista, desacreditado do ser humano de Nietzsche
não é para gargalhadas.
É para risos de canto de boca, de cumplicidade
íntima, de inteligência e entendimento
raros. O tolo ri do que não entende.
A hiena gargalha sem saber porquê o
faz.
Outro
exemplo, mais recente, foi com Pobres
de Marré (Casa da Ribeira,
Natal, com Titina Medeiros e Quitéria
Kelly, 2007). As atrizes vivem duas moradoras
de rua. Só quem nunca andou nas ruas,
seja de onde for, não reconhece Maria
e Dasdô, as personagens. Aquelas criaturas
que vivem como vermes –
sempre na sujeira, alimentando-se de sobras
–, expondo toda decadência e crueldade
da sociedade em que vivemos, mostrando os
estados psicóticos que alguém
pode chegar vivendo em tais condições,
buscando algum resquício de
humanidade, que dificilmente será
encontrada em uma platéia que ri da
desgraça mostrada. Um quadro gravíssimo
– com interpretações maravilhosas
(de Titina sou suspeito para
falar, mas rasgos todas as sedas para Quitéria,
irrepreensível em interpretação
digna de todos os prêmios) – tratado
como comédia. Só posso crer
que o ar condicionado e os vidros escuros
nas janelas dos carros impedem sobremaneira
o contato com o mundo real. Aquilo não
é para rir. É para chorar o
tempo todo.
Sendo
assim, acredito que uma solução
para a idiotização das platéias
seja algo como aquela imaginada por Anthony
Burgess – e muito bem mostrada
por Stanley Kubrick –
para o personagem Alex em Laranja
Mecânica. Ainda assim,
sou pouco otimista quanto à eficácia
do resultado. As câmaras de gás
talvez fossem mais apropriadas.
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| Postado
em 3 de setembro de 2007, segunda |
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Cópias e segredos

Há
poucos dias, passando rapidamente os canais
da TV, peguei um pequeno trecho de uma entrevista
com um diretor mexicano (do qual me foge o
nome no momento) em que ele respondia a pergunta
(idiota, por sinal) sobre o que havia acontecido
com o cinema no México. De forma óbvia
e brilhante, ele disse que foi o mesmo que
aconteceu com o cinema de todos os países:
“Hollywood
fez uma guerra e venceu”.
Quem
me conhece, sabe o que penso sobre esse espírito
belicista e exterminador dos americanos, principalmente
no aspecto cultural. E também sabe
o que penso do cinema americano.
O óbvio: é uma indústria
de entretenimento. O filme é
um produto, não uma manifestação
artística. A indústria
cinematográfica americana está
para a história do cinema como a Nestlé
para a dos chocolates, que faz vários
que o mundo inteiro come, mas não faz
um que lembre o mais miserável dos
chocolates feitos na Suíça.
Assim
como me empanturro e gosto de chocolates da
Nestlé, também vejo muitos filmes
americanos. Eles trabalham com efeitos especiais
como ninguém e são únicos
em um gênero que me agrada particularmente:
o das versões para personagens de quadrinhos
(algo totalmente relacionado à cultura
deles). Saindo disso, admito, tenho visto
filmes bem interessantes nos últimos
anos. Brilho eterno de uma mente
sem lembranças, A
dama na água, Pequena
Miss Sunshine e Os
Infiltrados (se bem que esse
é Scorsese... não
vale!) são alguns deles.
Mas
se há um gênero em que eles conseguem
exibir, ao mesmo tempo, sua capacidade em
fazer bons filmes e sua impressionante
ignorância sobre qualquer outra cultura
é o de “filmes
biográficos”
(chamemos assim para facilitar, ainda que
a expressão não seja precisa).
Mais ainda quando se trata da vida de um compositor
de música erudita. Eles reinventam
tudo e são totalmente incapazes de
tratar com esse tema com a devida delicadeza.
Há
de se desconfiar de um povo que chama Giuseppe
Verdi de Joe Green.
Neste
fim de semana, finalmente resolvi assistir
a O segredo de Beethoven.
Antes de malhar, irei aos prós. É
um filme dirigido por uma mulher nascida na
Polônia, o que pode sugerir leveza,
sensibilidade e até uma “proximidade
genética”
com a música erudita. O papel principal
é vivido por Ed Harris,
que gosta de fazer o público acreditar
que aquele que está aparecendo na tela
é mesmo o tal que viveu (vide Pollock).
E temos ainda a bela Diane Kruger
(a apagada Helena do péssimo Tróia)
no papel de Anna Holtz. E aí começam
os problemas. Quem diabos é Anna Holtz?
Trata-se de uma personagem inventada, inserida
como alguém importante na vida de Beethoven
em seus últimos anos, diga-se, dos
quais pouco ou quase nada se sabe.
A
seqüência inicial, que mostra Anna
sentindo/vivendo/experimentando a música,
ouvindo-a sem que ela esteja sendo
executada, é a melhor de todas
e dá a falsa impressão de que
o filme será tão bom ou superior
a sua introdução. A seqüência
da dupla regência também é
aproveitável. Não fosse o fato
de que sendo cinema o mais importante é
a imagem e, naquele momento, o que há
de melhor é a música. Feche
os olhos, “perca”
a cena. Depois volte a ela. Aposto que, de
olhos fechados, terá visto uma cena
bem melhor.
A
diretora tenta recriar as diferenças
entre os momentos suaves e os arroubos de
uma sinfonia de Beethoven com movimentos de
câmera que, às vezes, chegam
a incomodar ou até fazem parecer que
se pulou, sem aviso, de um filme romântico
para um comercial de aparelho de som no qual
a imagem procura demonstrar a potência
do produto. Existe tentativa semelhante em
relação ao roteiro do filme,
que pretende não ter início
ou fim, não seguir convenções
de narrativa. Aí entra o “elemento
Hommer”
dos filmes americanos. Um personagem, no caso
o próprio Beethoven, explica o que
deveria ser captado e não ensinado
ou racionalizado: “tem
de parar de pensar em termos de início
e fim (...) você é obcecada pela
forma, pela estrutura”
e descamba para a filosofia barata ao dizer
que “você
tem que escutar a voz que fala dentro de você”.
A
própria Anna Holtz e sua função
na trama trazem todas as características
da vulgarização e da imbecilização
de uma história que deve ser entendida
por um espectador que não pensa:
a paixão de um velho genioso por uma
jovem delicada e que o admira; o querer impossível;
a diferença entre os amores; a vitalidade
e a energia que ela representa e ele já
não possui... todos os elementos
comuns e bem mastigados de uma novela para
um público que não se deu conta
da serventia do cérebro.
Além
de tudo isso, ainda temos uma cópia
mal feita de Amadeus
(um filme infinitamente superior mas que também
cria ou reforça situações
que não passam de hipóteses)
quando o mestre, na cama, morrendo, dita trechos
de uma sinfonia a seu seguidor.
Na
próxima vez em que você resolver
fazer uma maratona de filmes em casa, esqueça
as seqüências e veja O
segredo de Beethoven, Amadeus
e Ensaio de orquestra.
Este último, de Fellini.
Assim
como nas grandes religiões existe um
único Deus e várias divindades
menores, no cinema existe Fellini
e os outros. Se você não
entende italiano, ótimo! Veja Ensaio
de orquestra sem legendas.
Para essa maratona comparativa, em um primeiro
momento, não interessa o que os personagens
estão falando. Ouça apenas a
música das palavras. Não procure
entendê-las, decodificá-las.
Sinta a sonoridade. Deixe-a juntar-se à
sonoridade dos instrumentos. Perceba a sinfonia
criada por Fellini, o casamento perfeito entre
imagem e som. Não é um clip.
É cinema. É arte.
Não foi feito para distraí-lo
por uma hora e meia. Foi feito para
fascinar. Não é um
hambúrguer que vai encher seu estômago
por um tempo. É alimento para a alma.
Sem procurar pensar e somar seus conhecimentos
para fazer a leitura do filme, você
irá entendê-lo. Arte é
assim: sem barreiras, sem linguagem, sem tentativas
frustradas. Ela simplesmente existe e irá
tocá-lo de alguma forma.
Anna
Holtz não conseguiu copiar, corrigir
ou descobrir o segredo de Beethoven. Agnieszka
Holland não conseguiu copiar,
corrigir ou descobrir o segredo de Milos
Forman. E ninguém conseguiu
copiar, corrigir ou descobrir o segredo de
Fellini. Così è la vita!
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| Postado
em 26 de agosto de 2007, domingo |
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Pecados de Cassandra

Identificação.
Essa é a palavra-chave para o sucesso
de um livro ou, pelo menos, para uma leitura
agradável. O tema, a história,
o personagem... o leitor precisa se identificar
com algo para que sua atenção
fique presa ali. Não consigo essa mágica
quando leio Cassandra Rios.
Ela
foi um sucesso como escritora. Já havia
vendido mais de um milhão de
exemplares quando estava na casa
dos 30 títulos lançados. Chegou
a lançar 52 títulos,
alguns com dezenas de edições.
Foi a escritora mais censurada, mais
perseguida, mais proibida (36 livros)
na História literária brasileira.
Desde
A volúpia do pecado,
seu primeiro livro, lançado em 1948,
quando tinha apenas 16 anos, Cassandra causou
polêmica. Sua páginas contam
o amor entre duas jovens mulheres (Lyeth e
Irez). A maioria de suas histórias
tem homossexualismo ou algum tipo de “amor
menos ortodoxo”.
São inúmeros os depoimentos,
de homens e mulheres, que “descobriram-se”
(entenda-se “perceberam-se
homossexuais”)
lendo Cassandra Rios. A papisa do
homossexualismo – um de seus
muitos títulos – também
me fez descobrir algo. Eu, que sempre assumi
ser um homem com uma alma feminina
lésbica, ao ler Cassandra
percebi que sou lésbico, sim, mas com
alma masculina!
Em
seus poucos livros que li até o momento,
fiquei surpreso com o amor meloso, pueril,
“princesinha”
de algumas personagens lésbicas. Absolutamente
nada contra. Até acho mais interessante
assim. Mas é justamente aí que
reside minha não-identificação.
Definitivamente, apesar de lésbico,
eu amo como homem.
É
claro que o público de Cassandra nunca
foi exclusivamente de homossexuais. E creio
que suas histórias causassem curiosidade
e furor numa época em que abordar tais
temas soasse como algo realmente proibido.
Talvez por isso não se mais fale a
seu respeito nos dias de hoje e ela tenha
se transformado em ícone cultuado somente
pela tribo que cantou.
Comecei
a ler Cassandra de forma errada. O primeiro
livro que li foi o último que ela escreveu
(apesar de planos, não tenho informações
de que tenha publicado outros depois dele),
a autobiografia Mezzamaro, Flores
e Cassis. Ali está uma
Cassandra em seus últimos anos, já
com câncer, mais desabafando que contando
histórias sobre sua vida. Não
meio amarga. Muito amarga. Como em todas as
suas entrevistas.
Toda
essa mágoa parece ter nascido da perseguição
que ela sofreu durante toda a vida e nunca
digeriu plenamente. Indo um pouco mais fundo,
parece-me que essa perseguição,
essa censura, não
foi em relação aos seus livros,
mas sim à sua própria
sexualidade. A escritora que ajudou
milhares de pessoas a se aceitarem, parece
nunca ter vivido em paz com seus próprios
desejos. Tinha grande admiração
pela mãe, seus admitidos relacionamentos
com homens nunca foram ostensivos (o que lhe
daria certa tranqüilidade para sustentar
que “ela
era uma coisa e sua obra outra”),
não teve filhos, sempre se esquivou
de falar sobre sua questionada homossexualidade
e, nos últimos anos de vida, fez um
voto de castidade.
Quais
eram os “pecados”
que Cassandra carregava? Por que,
tão revolucionária no papel,
não conseguiu revolucionar sua própria
vida? Por que tanta amargura? “Pelo
amor de Deus, gente! Eu não tenho nada
a ver com as estórias dos meus livros,
eu só os escrevo! Invento!”,
gritaria ela agora. E eu a respeito. Não
discuto a sexualidade de quem quer que seja,
só exponho aqui este tema por
dois motivos: primeiro porque Cassandra
merecia ter sido (muito mais) feliz; e segundo
porque me compadeço por seu sofrimento
e pelo de vários amigos – homens
e mulheres – que nos dias de hoje ainda
sofrem, como os personagens de Cassandra,
pela hipocrisia, pela intolerância,
pelo preconceito de pessoas que se preocupam
com a vida dos outros em vez de tomar conta
das suas.
Talvez
minha não-identificação
seja não somente pela sexualidade mas
também pelo fato de que não
consigo ver nada anormal nas histórias
daqueles personagens. São apenas pessoas
que querem ser felizes, buscando aceitação.
Quem não faz isso?
Essa
minha alma bruta que Cassandra revelou
está em dívida com a escritora.
Eudemônia,
Georgette, A
breve história de Fábia,
A serpente e a flor,
As mulheres dos cabelos de metal,
Minha metempsicose
e tantos outros não vão ficar
ali na estante como meros troféus de
colecionador tarado. Gostando ou não,
darei a eles a merecida atenção
solicitada por quem os escreveu.
Fique
em paz, Cassandra. Sua obra a absolveu de
qualquer pecado.
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| Postado
em 24 de agosto de 2007, sexta |
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Maldição no Marabá

Morreu
Marabá. E foi épico.
Fechou as portas o último cinema de
rua da capital paulistana. O único
que ainda não havia virado um antro
de sacanagem como cinema pornô ou igreja
evangélica.
A
maldição do Multiplex atingiu
o Marabá. Suas cerca de oitocentas
poltronas desaparecerão para dar lugar
a cinco salinhas. Não veremos mais
os grandes painéis pintados anunciando
o filme. Não teremos mais aquela tela
enorme.
A
primeira vez que entrei no Marabá foi
no final dos anos 90. Assisti Arquivo
X numa sessão que terminou
depois da meia-noite. Menos de seis expectadores.
Um lanterninha jogando a luz em cada um para
ver se alguém estava se masturbando
para algum extraterrestre ou para a Dana Scully.
A última vez foi em outubro do ano
passado, numa tarde, para assistir Maldição.
Fotografei o amplo salão térreo
pois sabia que poderia ser minha última
oportunidade de fazer isso. E foi. Morreu
Marabá.
Agora
o último bastião das grandes
salas do país, o último cinema
de verdade, é o Cine Brasília.
Quando ele não mais acender a luz mágica
de seu projetor, será o sinal de que
devo abrir meu próprio cinema. Apontar
o projetor para a igreja, para os prédios
da praça e lembrar a todos que a
magia está dentro de nós.
E nunca morrerá.
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